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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

EXPANSÃO DO SÍTIO URBANO DE TUCURUÍ E SEUS PROBLEMAS GEOMORFOLÓGICOS

 

 

*Msc. Ana Mª Medeiros Furtado

Universidade Federal do Pará - Profª Adjunta de Geografia

Amedfurt@ufpa.gov.br  fone: (91)222-0168

 

*Andréa dos Santos Coelho

Universidade Federal do Pará – Graduanda em Geografia

Junqueiraandrea@hotmail.com.br       fone: (91)243-3079

 

*Cláudia Ribeiro da Silva

Prefeitura Municipal de Belém/SEMAD – Geógrafa

Claudiaribeiro5@bol.com.br   fone (91)96054402

 

*Mª de Fátima Francisca da Silva

Universidade Federal do Pará – Profª Substituta de Geografia

mafatfransil@bol.com.br

 

 

Palavras Chave: sítio urbano e declividades de vertente.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.




 

1- INTRODUCÃO

 

A região do médio-baixo vale do Tocantins que entre as décadas de 20 e 70 do século passado constituía-se na mais importante área de escoamento da castanha-do-pará e outros produtos extrativos sobretudo de Marabá e Itacaiúnas, viu-se nos últimos trinta anos transformada sócio e espacialmente, pelo acelerado processo de ocupação decorrente da construção das rodovias, da hidrelétrica de Tucuruí e do Projeto Grande Carajás

Tal região anteriormente atrelada à influência de Belém, tinha o curso do rio Tocantins como rota fluvial natural, complementada pela antiga estrada de ferro do Tocantins que contornava os obstáculos da cachoeira de Itaboca. Nesta queda d’água à montante de Tucuruí, com a implantação da represa, houve assim uma desestruturação quase total das atividades econômicas do médio Tocantins, a qual se refletiu grandemente no baixo vale. Dessas atividades: a pesca, a agricultura de subsistência e o extrativismo foram amplamente afetados sobretudo após a construção do grande lago da barragem de Tucuruí.

Antes da represa, as construções da Belém-Brasília e Transamazônica, ensejaram a mudança do velho sítio de Marabá, na junção dos rios Tocantins-Itacaiúnas, em direção às rodovias transformando a cidade em três complexos setores urbanos: a velha Marabá, a nova Marabá e a Cidade nova, além da ocupação mais recente dos alagadiços, pela população mais carente.

Com a implantação do pólo industrial e minerário do PGC. Marabá representa hoje um dos sítios mais caóticos do médio Tocantins (Ab’Saber, 1996). Por outro lado, os dois municípios Itupiranga e Jacundá, na rota Marabá-Tucuruí, tiveram parte de suas áreas inundadas pela represa, incluindo seus núcleos urbanos, reconstruídos em outras áreas. Por seu turno, Tucuruí cujo município abrigou e consolidou a interferência e ocupação institucional da região através da Eletronorte passou a deter uma condição estratégica por conter o grande potencial hidrelétrico do médio Tocantins, passando a servir não só a região amazônica (estado do Pará e Tocantins) como também as limítrofes: NE e Centro-oeste.

Com a inundação de quase toda a área rural, o município de Tucuruí ficou limitado à seu sítio urbano, e a sua área de expansão teve, ainda grande parte de seu território repassada para a União, além de ficar pressionada pelo grande contingente demográfico que passou a fluir para o local, desde o início da construção da barragem, bem como das populações locais do meio rural, que tiveram suas propriedades inundadas.

Assim, detendo uma população de pouco mais de 5.000 habitantes no final dos anos 60, atingiu no ano 2000 cerca de mais de 70.000 habitantes que passaram a disputar os espaços das áreas isentas das inundações ocupando os tipos de formas de relevos diferenciados do sítio urbano, bem como as inúmeras ilhas que se formaram com a inundação: as áreas de colinas, cujos topos na pós-represa foram submersas.

 

 

2- ASPECTOS GEOLÓGICOS-GEOMORFOLÓGICOS

 

A área em estudo está distribuída em ambientes geológicos distintos onde se inserem dois grandes domínios: embasamento cristalino, constituído por rochas ígneas e metas sedimentares e a cobertura sedimentar, cujos sedimentos são do Mesozóico e Cenozóico.

O sítio está situado na zona de contato entre as rochas cristalinas do complexo Xingu e rochas metamórficas do grupo Tocantins, cuja unidade de relevo é representada pela Depressão Periférica do Sul do Pará incluindo uma litologia variada: basaltos, grauvacas, xistos e filtitos. Esta esteve relacionada à atuação de processos erosivos que incidiram no final do Terciário, evoluídas por processos de dissecação fluvial incluindo vários tipos de formas como vertentes côncavas e convexas, ravinas, superfícies pediplanadas, áreas dissecadas em colinas de topo aplainado, planícies fluviais, etc.

Ressalta-se essa condição do sítio urbano em área da depressão periférica, que embora apresente áreas de ocupação  sem problemas, há unidades que necessitariam de análises para sua posterior ocupação.

O sítio antigo desenvolveu-se à margem esquerda do rio Tocantins, em dois níveis topográficos, o primeiro às margens do rio Tocantins em estreita faixa de terraços fluviais e o segundo em topos tabulares acima do primeiro nível, com depósitos inconsolidados. O núcleo inicial interpunha-se entre os baixos cursos dos igarapés Santana e Santos, afluentes do rio Tocantins, onde se instalou o bairro da Matinha que se expandiu em direção da margem direita do igarapé Santana, enquanto na margem esquerda do igarapé Santos dispunha-se o bairro do Mangal. Nestes dois bairros, na década de 60, desenvolviam-se as atividades urbanas do pequeno núcleo ocupando as primeiras quatro ruas paralelas ao rio Tocantins, sendo as primeiras sujeitas as antigas enchentes beira-rio.

O limite do antigo sítio urbano ficava no entorno do colégio N. Sra. Da Conceição.

No final da década de 70 foi instalada a Vila Pioneira à leste do bairro da Matinha, próximo ao rio, enquanto para o interior surgiram os bairros da Jaqueira ao lado do igarapé Santos e o do Pantanal à margem do igarapé Santana. Hoje as funções urbanas de maior vulto sobretudo a comercial se desenvolvem nos bairros centrais.

Os entornos dos igarapés Santana e Santos, foi amplamente ocupado em seus médios cursos encaixados nas rochas cristalinas, encontrando-se em fase de expansão a urbanização em seus altos cursos. Ambos revelam uma ocupação bastante desordenada, onde proliferam problemas de saneamento básico, e populações de baixa renda.

Além dos problemas decorrentes da ocupação desenfreada do sítio urbano, que galgou novos níveis topográficos, muitos outros se somam ao já existentes. É o caso das invasões que proliferam em várias direções e as quais tiveram início às margens da rodovia BR-422 em direção ao sudoeste da cidade, enquanto para noroeste, em direção à Transcametá (PA-156), outros problemas avultam com novos loteamentos.

Na direção da primeira rodovia se encontra a Vila Residencial, construída pela Eletronorte, a qual se constitui uma área de boa infraestrutura para toda comunidade local, o que não sucede em direção à Transcametá, onde ocorre justamente o oposto.

No entorno do igarapé Santana estão os loteamentos Belém, Esperança, Jardim das Flores, Bela Vista e Paravoá (margem direita), além dos loteamentos Francês, Mineiro e Nova Tucuruí (margem esquerda). Outros loteamentos como Santa Isabel, Jardim Alvorada, estão margeantes à avenida Lauro Sodré, e o Colorado, em direção à Transcametá. Neste último estão as cotas mais elevadas em torno de 120 à 150m. Próximo ao igarapé Santos estão os loteamentos Terra Prometida e Aeroporto.

Além das invasões o sítio está ocupado por áreas do GETAT na sua porção norte (antigo loteamento Caripé), além de áreas destinadas a outros fins, incluindo o setor industrial, além da formação de pequenas lagoas para abastecimento d’água, estando a de maior expressão no igarapé Santos. Existem algumas áreas de particulares, isentas de invasões.

Nos níveis mais elevados a constituição geológica é formada por rochas do complexo cristalino, formada por granitos, granodioritos, migmatitos, xistos e gnaisses. No que diz respeito aos solos, prtedomina o podzólico vermelho com textura argilosa associado a podzóloico vermelho amarelo, textura argilosa, relevo semi-ondulado a ondulado, além do podzólico vermelho amarelo equivalente eutrófico.

Na margem do rio, ao sul da cidade há afloramentos de solos aluviais eutróficos e distróficos, textura indiscriminada, à sudoeste da cidade há presença também de latossolos vermelho distrófico textura argilosa e de textura média, e solos litólicos distróficos textura indiscriminada, relevo ondulado com escarpa. Com exceção do primeiro nível, o mais baixo da cidade, os demais inserem extensa superfície aplainadas com aplainamentos em rochas cristalinas pré-cambrianas em retomada de era recente, com áreas bem conservadas recobertas por depósitos superficiais inconsolidados.

Em Tucuruí a dinâmica populacional complexa, redundou entre os anos 70 e 80 um excessivo aumento da população de 8.489 para 61.140 habitantes, na década de 90, 81.623 habitantes e no ano de 2000 foi reduzida para aproximadamente 70.000 habitantes. Tal diminuição se deve à redivisão territorial do núcleo urbano, como o caso do Novo Breu Branco em 1993. Este encontra-se a 11Km de Tucuruí, na rodovia PA-263, o que justifica a redução da população de Tucuruí entre os anos 90 e 2000. Os municípios de Goianésia e Novo Repartimento, também recém criados, inseriram em seus territórios partes do município de Tucuruí. Esses novos municípios tiveram como finalidade asilar as populações que sofreram relocações de seus locais de origem. A ocupação das ilhas formadas após a represa representa um processo de ocupação realizado em geral por pescadores que buscam reverter a atividade pesqueira, anteriormente desenvolvida no baixo curso, sobretudo os ocupantes das várzeas e níveis mais baixos da terra firme, e que em virtude dos problemas hidrológicos à montante do rio, foi grandemente prejudicada.

 

 

3- RESULTADOS

 

No sentido de detectar a possibilidade de problemas decorrentes da ocupação das áreas mais íngremes elaborou-se o mapa de declividade com base na carta topográfica, onde foram identificadas declividades entre os vários percentuais de 2% a 5%, 5% a 10%, 10% a 20%, 20% a 40% e a mais de 45%, identificando o maior percentual de 20% a 40% já antevendo nos níveis mais altos,  a inviabilidade de novas ocupações, pelos incipientes, mas já existentes desmoronamentos advindos de processos erosivos e desmatamentos.

 

 

4- MATERIAIS E MÉTODOS

 

O trabalho respaldou-se nos já existentes Medeiros (1974), UFPA/IDESP (1979), Censo Demográfico do IBGE, Relatório de Excursão (UFPA, 2001) sobre o sítio urbano, na observação das antigas fotografias aéreas (1:45.000)e das plantas topográficas (1:25.000), além das observações recentes de campo (2003).

A planta topográfica permitiu a confecção do perfil topográfico no sentido leste-oeste do sítio urbano que revela a ascenção do sítio para níveis mais elevados. Dentre os procedimentos para a confecção do mapa de declividade obtiveram-se seus percentuais definidos.    

 

 

5- CONCLUSÕES

 

O uso das cartas planialtimétricas e imagens permitiu a avaliação e a comparação  com material mais antigo (fotos aéreas de 1965) bem como a definição de resultados parciais.

As áreas já em incipiente processo de desmoronamentos se encontram em trechos de loteamentos inadequados, mais íngremes e de maior declividade.

A omissão do poder público com a expansão desordenada e caótica das áreas menos favorecidas e com limitações físicas à novas ocupações torna-se um dos grandes agravantes para o aceleramento dos impactos ambientais, nas áreas de relevo mais expressivo, aliada à não preservação da vegetação.

Para que se possa amenizar os impactos decorrentes, deverá haver maior fiscalização dessas ocupações, pois à este problema vêm somar-se os inúmeros já existentes, como o da alteração  dos ecossistemas aquáticos nos locais afetados pós-represa.

O sítio urbano de Tucuruí, denota assim, de forma evidente, o desrespeito aos fatores relacionados ao meio físico, que não vem respeitando as imposições da natureza, refletindo desse modo, a grande degradação ambiental, ocorrida nas três últimas décadas, através dos impactos ora detectados.

 

 

6- BIBLIOGRAFIA

 

AB’SABER, Aziz Nacib. Impactos ambientais na faixa Carajás-S. Luís in Amazônia do Discurso à Práxis. EDUSP. São Paulo:1996.

 

IBGE. Censo demográfico de 2000. Rio de Janeiro: 2001.

 

MEDEIROS, Ana M. S. Observações morfológicas e expansão do sítio de Tucuruí in Anais do 3 Congresso Brasileiro de Geógrafos. Belém-Pará. UFPA: 1974.

 

FURTADO, Ana M.M. O sítio de Tucuruí in A Importância da Geomorfologia no Planejamento Urbano. IDESP-UFPA. Belém: 1980.

 

__________ Relatório de excursão ao sítio urbano de Tucuruí. UFPA. Campus de Tucuruí: 2001.

 

Secretaria da Comissão Mundial de Barragens. Relatório técnico. África do Sul: dezembro de 2002.

 

Prefeitura Municipal de Tucuruí. Planta do núcleo urbano da cidade de Tucuruí. 1:5.000. Julho 1997.

 

PROSPEC. Fotografias aéreas em escala 1.SA, 1965.