Voltar à Página da AGB-Nacional


                                                                                            

   

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

Caracterização das paisagens como subsídio às ações de planejamento do Parque Estadual do Rio Preto – Município de são gonçalo do rio preto - Minas Gerais.

 

 

Fabiano Reis Silva

Valéria Amorim do Carmo

 

Universidade Federal de Minas Gerais - Instituto de Geociências

 

 

 

Palavras-chave: Paisagem, Unidade de Conservação, Plano de Manejo

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.


 

 


 

INTRODUÇÃO

 

Este artigo constitui uma síntese da monografia de conclusão do curso de Geografia realizada durante o ano de 2002. O objetivo principal do trabalho é o estudo integrado da paisagem no Parque Estadual do Rio Preto. Os objetivos específicos são:

-         identificar os diferentes conjuntos e subconjuntos paisagísticos;

-         caracterizá-los, a partir da inter-relação entre os componentes Geoambientais, relacionados a geologia, topografia e a vegetação;

O trabalho justifica-se, na medida em que ele pode vir a contribuir para o plano de manejo do Parque que está em andamento, através da visualização sistêmica e integrada da organização espacial das diferentes faces da paisagem. E esta caracterização poderá subsidiar a definição da versão final do zoneamento da Unidade, um dos principais produtos de um Plano de Manejo. O Parque em questão ainda não possui o seu Plano de Manejo. Entretanto, em função de um trabalho que está sendo realizado pelo Projeto Doces Matas[1], mais especificamente pelo Grupo Temático de Ecoturismo, foi elaborado o “Pré-Zoneamento” da Unidade. Este zoneamento foi realizado com base no conhecimento do gerente da unidade, acompanhado de sua equipe técnica e apoiado em dados e informações já existentes na Unidade de Conservação. Isto permitiria, de forma emergencial, suprir uma lacuna do  planejamento da Unidade até que o Plano de Manejo viesse a ser elaborado.

 

 

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

 

A pesquisa foi iniciada pelo levantamento de material de referência junto a mapas (topográficos, geológicos e vegetacionais), imagens de satélite, dentre outros. Este material levantado foi analisado e interpretado, inclusive com a montagem de perfis topográficos e geológicos da área. A partir da análise destes dados complementares foram identificados de maneira preliminar, os domínios fisionômicos da paisagem e seus prováveis limites.

A Segunda etapa foi a pesquisa de campo na Unidade onde foram realizadas observações, descrições, coleta de dados complementares junto aos funcionários do Parque, análise integrada das informações dos mapas (topográfico e geológico) e da imagem de satélite, e obtenção de fotografias diversas da paisagem do Parque e adjacências. O campo foi muito importante para o trabalho, pois possibilitou a observação e a interpretação dos componentes (antrópicos e naturais) que compõem a paisagem, além de poder constatar os estágios de preservação e/ou degradação da área.

A terceira etapa, iniciou-se pela sistematização e a análise integrada dos dados coletados em campo. A partir daí, foi possível traçar, identificar e completar os limites entre os conjuntos ou Unidades de Paisagem estabelecidos a prioi. Em seguida, foram elaborados os mapas e os perfis finais, acompanhados das referidas análises.

 

 

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DAS UNIDADES DE PAISAGEM do Parque Estadual do Rio Preto

 

O Parque Estadual do Rio Preto, está localizado no município de São Gonçalo do Rio Preto – MG, a 355 quilômetros  a nordeste de Belo Horizonte e a 57 quilômetros de Diamantina, na região do Alto Jequitinhonha. Possui uma área aproximada de 11.000 ha, sendo que parte desta área encontra-se em processo de desapropriação.

A região do Parque está inserida no conjunto geográfico conhecido como Serra do Espinhaço que se estende das proximidades de Belo Horizonte até o limite norte do Estado da Bahia com o Estado do Piauí. Geologicamente, a região se insere no conjunto denominado Supergrupo Espinhaço composto predominantemente, por rochas quartzíticas, que conferem à paisagem formas de relevo bastante característico.

Na área do Parque, as altitudes variam entre 750 e 1825m sendo que as maiores altitudes se encontram nas serras da Mata dos Crioulos e do Gavião. Em todo o Parque, a vegetação predominante é o cerrado em suas formações florestais, savânicas e campestre.

A caraterística topográfica realçada pelas altitudes elevadas exerce forte influência no clima que é marcado por temperaturas cujas médias anuais giram em torno dos 18ºC. A média das máximas é de aproximadamente 23,8ºC enquanto que a média das mínimas encontra-se próximo dos 14ºC. Os meses mais frios são junho, julho e agosto tendo sido registrada a menor temperatura, para o período, em julho (11ºC). No verão, o mês de janeiro destacou-se com a máxima de 27,8ºC.

Conforme a análise feita a partir das normais climatológicas[2] de Diamantina para o período 1969-2000, o mês que concentra maior quantidade de chuvas no período analisado é janeiro com um montante de 307mm. O inverno é seco tendo sido julho o mês de menor índice registrado. A umidade relativa varia ao longo do ano em torno de 70%, sendo agosto o mês que apresenta o valor mais baixo. Em dezembro, quando a disponibilidade hídrica é maior o valor de umidade relativa do ar chega a quase 82%.

É importante destacar que não existem estudos climáticos específicos para o Parque Estadual do Rio Preto, por isso estas informações são de caráter mais abrangente.

A rede de drenagem ao longo do Parque, é do tipo paralela derivada basicamente do rio Preto. Tendo como principais tributários que nascem na área do Parque Estadual do Rio Preto: Na margem esquerda – os córregos Taioba, Lapa do Tropeiro, da Lapa e da Embirra. Na margem direita – os córregos da Corredeiras, Vau das Éguas, das Éguas, Fundo, Serraria e das Boleiras. O Córrego das Éguas é o tributário de maior representatividade para o Rio Preto. O Rio Preto,  se constitui no nível local para onde drenam todos os cursos d’água; este por sua vez é afluente de margem direita do Rio Araçuaí que pertence a grande bacia do Rio Jequitinhonha.

A seguir, apresenta-se a caracterização mais detalhada do Parque Estadual do Rio Preto através da identificação das Unidades e Subunidades que compõem sua paisagem. A identificação de cada Unidade de Paisagem – UP, se baseou na análise integrada dos componentes geológicos, geomorfológicos e vegetais[3]. Para um melhor acompanhamento da compartimentação proposta, apresenta-se o mapa representando as Unidades e subunidades identificadas. (mapa em anexo)

 

1 –PLANÍCIE ALUVIAL DO BAIXO RIO PRETO

Esta Unidade tem início no encontro do Rio Preto com córrego das Éguas, no local conhecido como “Furquilha” e se estende até a extremidade norte do Parque entre altitudes que variam de 800 a 750 metros.

A planície apresenta aspecto encaixado e é relativamente estreita. Tais características estão relacionadas principalmente, à geologia. A largura máxima da planície, em torno de 200 metros, encontra-se sobre a formação Alternâncias rítmicas de quartzitos micáceos, onde as rochas menos resistentes possibilitaram o alargamento da planície. Próximo à foz do córrego Boleiras, a sua largura diminui para próximo dos 50 metros. Neste trecho, a planície do rio Preto se desenvolveu sobre a falha de empurrão que marca o contato entre as formações Alternâncias rítmicas de quartzitos micáceos e Sopa-Brumadinho.

O solo possui textura arenosa sendo constituído, basicamente, por sedimentos aluviais formados a partir do intemperismo de rochas quartzíticas. No interior da mata ciliar, o solo é escuro em função do acúmulo superficial de matéria orgânica.

A cobertura vegetal encontra-se bem preservada. Contudo, são verificados sinais de alteração antrópica relacionados à extração de madeira que ocorria no passado. A Unidade possui elevado potencial ecoturístico, devido ao aspecto cristalino da água, a presença de algumas praias e piscinas naturais e o estado relativamente preservado da vegetação. Entretanto, para a utilização deste espaço, necessita-se da adoção formas sustentáveis de manejo.

Segundo o “Pré-Zoneamento” realizado, este compartimento se insere parte na zona de Uso Intensivo e, parte na de Uso Extensivo. Estas zonas têm como características comuns constituírem-se em ambiente com alterações antrópicas e têm como objetivos, respectivamente, a manutenção da natureza com o mínimo impacto humano e a harmonia com meio, através de atividades recreativas e de educação ambiental.

 

2 - FORMAÇÃO ALTERNÂNCIAS RÍTMICAS DE QUARTZITOS MICÁCEOS

Pertence ao Supergrupo Espinhaço com origem estimada no Proterozóico médio. Predomina no centro e nos extremos Norte e Leste do Parque. A litologia é composta por quartzitos micáceos, os quais possuem pouca resistência aos processos de dissecação se comparados com o quartzito Sopa-brumadinho. Predominam colinas de formas suaves exceto a leste, onde a morfologia é irregular e mais dissecada.

A topografia é caracterizada por altitudes que variam entre 800 metros nas proximidades da Planície Aluvial do Baixo Rio Preto e, em torno de 1150 metros sobre as vertentes dissecadas a leste. A altitude média varia em torno de 900 metros.

O solo é composto por depósitos aluvionares próximo a planície do baixo Rio Preto, cambissolo nas colinas suavemente onduladas e Litossolo sobre os topos das vertentes dissecadas e próximo aos afloramentos rochosos residuais.

A vegetação é composta por mata de galeria, pelo cerrado típico, que recobre a parte baixa das encostas e pelo cerrado ralo, que é encontrado na maior parte da área ocupando as porções médias e superiores das encostas.

Sobre esta formação concentra-se a maior parte da infra-estrutura de apoio ao visitante, como acessos, alojamentos, área de camping, restaurante e Centro de Visitantes.

Esta Unidade de paisagem foi subdividida tomando como referência diferenciações morfológicas, topográficas e vegetacionais internas. Assim, identificou-se as seguintes Subunidades.

 

2.1 - VERTENTES DISSECADAS DE LESTE

Formam uma “cadeia” ou aglomerado de vertentes no sentido Sudeste – Noroeste, ao longo da porção extremo-leste do Parque. Esta Subunidade tem como limites, a Sudeste, as Cristas e Escarpas Quartzíticas da formação Sopa-brumadinho e, a Noroeste e a Oeste, a Planície Aluvial do Baixo Rio Preto. A altitude média encontra-se em torno de 1000 metros.

A morfologia é irregular e intensamente dissecada pela rede de drenagem. As colinas são marcadas por topos arredondados e encostas íngremes cujas declividades são mais acentuadas próximo ao contato com a Unidade de Cristas e Escarpas Quartzíticas.

A cobertura vegetal predominante é o cerrado ralo nos patamares médios e mais elevados das encostas; matas de galeria acompanhando a rede de drenagem; cerrado Parque ocupando manchas nos interflúvios, e o cerrado típico em pequenas áreas nas bases das encostas próximo ao contato com a planície do Rio Preto. A vegetação apresenta-se bem preservada provavelmente, graças a dificuldade de acesso e ao tipo de solo cascalhento que podem ter inviabilizado a prática de atividades ligadas a agropecuária no passado. Apesar de bem preservada, deve-se ter cautela quanto ao seu uso, pois é uma área, que pelas suas caraterísticas, apresenta-se potencialmente instável aos processos de degradação. Em alguns pontos, é possível observar ravinamentos ao longo de trilhas e cercas. Neste sentido, a degradação da cobertura vegetal e a construção de novas trilhas poderiam potencializar os processos de intemperismo e, em conseqüência, gerar a desestabilização do solo.

No “Pré-Zoneamento”, esta Subunidade pertence a Zona Primitiva cujo o objetivo é a preservação do ambiente natural e também facilitar a pesquisa, a educação ambiental, além de permitir formas primitivas de recreação.

 

2.2 – COLINAS SUAVEMENTE ONDULADAS

Esta Subunidade localiza-se no extremo norte e no centro do Parque se estendendo no sentido Sudoeste–Nordeste. Seus limites compreendem a leste, a Planície Aluvial do Baixo Rio Preto, a oeste, a Serra Mata dos Crioulos e a sul, as Cristas e Escarpas Quartzíticas da formação Sopa-brumadinho. A altitude média situa-se em torno de 850 metros, estando o ponto mais alto a 971 metros, localizado a sul da Subunidade.

A morfologia predominante é caracterizada por colinas suavemente onduladas. Entretanto, esta se modifica à medida que se aproxima do contato com o quartzito da formação Sopa-brumadinho. Neste ponto, são visualizados pontos de irregularidade onde estão localizados topos residuais formados pelos afloramentos rochosos e o “paredão” rochoso, a sul, próximo ao córrego das Éguas.

Os solos predominantes apresentam-se fisionomicamente semelhante ao Cambissolo, por apresentar cobertura de cascalho, estar relacionado a relevo movimentado (ondulado) e  por possuir a coloração clara. Além desse, encontra-se o Litossolo nos pontos de afloramentos rochoso.

A cobertura vegetal é composta por matas, pelo cerrado rupestre nos patamares mais elevados, e pelo campo rupestre sobre os afloramentos rochosos. O cerrado típico, apresentando o aspecto bastante preservado, ocupa o restante da área.

Nesta Subunidade encontra-se a maior parte da infra-estrutura de apoio do Parque como alojamentos, camping, sanitários, administração, estradas. De acordo com o “Pré-Zoneamento” do Parque, esta área encontra-se na Zona de Uso Intensivo.

 

3 – FORMAÇÃO SOPA-BRUMADINHO

Pertence ao Supergrupo Espinhaço com origem estimada no Proterozóico Médio. Ocupa a maior parte da área da Unidade de Conservação, estando relacionada aos patamares mais elevados. A litologia é composta pelos quartzitos expressos na paisagem através dos vários afloramentos. A morfologia apresenta-se acidentada ou irregular nas áreas onde predominam cristas e escarpas intercaladas por superfícies suavizadas em alguns pontos da “chapada”. Os solos quando presentes, possuem o aspecto raso e arenoso. Suas características fisionômicas e estruturais estão, aparentemente, ligadas a predominância do Litossolo. A cobertura vegetal é caracterizada, principalmente, pelo domínio de espécies herbáceo-arbustivas e algumas manchas com estrato arbóreo relacionados a pontos com melhore eficiência hídricas e de solo. É composta fisionomicamente por campo rupestre, campo sujo, mata de galeria, mata ciliar e cerrado rupestre.

A rede de drenagem é marcada pela presença de várias nascentes e de cursos d’água de aspecto cristalino em decorrência da interação com rochas quartzíticas. Sobre as áreas de “chapada”, os vales possuem o aspecto encaixado e concentram sedimentos arenosos em sua margens.

A Unidade possui elevado potencial ecoturístico em decorrência da sua beleza cênica. Sendo marcantes na paisagem: os inúmeros afloramentos rochosos, a cobertura vegetal variada inclusive, com a presença de algumas espécies endêmicas, a morfologia montanhosa e os cursos d’água encachoeirados. Contudo, a utilização destes importantes recursos naturais deve ser precedida de estudos que visem a preservação e o manejo sustentável da área. Segundo informações dos funcionários do Parque, a área não é aberta para visitação pública, sendo somente utilizada para projetos de pesquisa científica.

Como forma de melhor visualização e identificação das Unidades presentes na paisagem, esta Unidade foi dividida em duas Subunidades: Serra Mata dos Crioulos e “Chapada”, sendo a “chapada” subdividida em outros dois subconjuntos. As bases para as divisões foram as diferenciações morfológicas e vegetais, pois a geologia é mesma.

 

3.1 – SERRA MATA DOS CRIOULOS

Localiza-se no extremo Oeste do Parque e constitui um dos limites do Parque. Caracteriza-se por um maciço rochoso que se estende no sentido Sudoeste – Nordeste, cujas altitudes diminuem gradualmente no mesmo sentido, exceto onde existem topos residuais, variando entre 1250 metros a Sudoeste, e 850 metros a Nordeste.

A morfologia possui o aspecto irregular, caracterizada pela presença de escarpas e cristas com declividades acentuadas. A estrutura rochosa que sustenta as vertentes possui o aspecto bastante fraturado ou cisalhado. Esta estrutura freqüentemente, exerce controle sobre a rede drenagem que, na maioria das vezes, apresenta-se encaixada.

O solo é pouco desenvolvido (raso e arenoso) a inexistente. Onde está presente, a sua coloração depende da presença ou não de cobertura de matéria orgânica. As características são semelhantes ao Litossolo.

A cobertura vegetal é composta por matas de galerias, cerrado rupestre ocupando os afloramentos rochosos nos patamares menos elevados e com maior disponibilidade de solo, campo rupestre nos patamares mais elevados. Á sudeste da serra, onde existe maior disponibilidade de solo e a água, a mata densa e de porte elevado aparece.

O “Pré-Zoneamento” do Parque inclui esta área na Zona Primitiva, onde o manejo visa a preservar o ambiente natural com acompanhamento de atividades de pesquisa científica, admitindo formas primitivas de recreação.

 

3.2 – “CHAPADA”[4]

Em campo e pela análise de mapas topográficos, foi constatado que as superfícies do conjunto caracterizam-se ora por uma morfologia suavemente ondulada, ora por morfologia irregular representada por escarpamentos e cristas. A cobertura superficial é composta pela predominância de cascalho e areia. Sua espessura é aparentemente rasa e a coloração será mais clara ou não, dependendo do acúmulo de matéria orgânica. A vegetação possui a fisionomia predominantemente, herbáceo-arbustiva.

A “chapada” está totalmente estruturada sobre os quartzitos da Formação Sopa-brumadinho. São visíveis na paisagem cristas e escarpas sustentadas pelo maciço quartzítico intercalados por rampas e superfícies suavemente onduladas nas áreas mais rebaixadas.

Este conjunto foi subdividido em duas Unidades menores a saber: Escarpas e Cristas, e  Superfícies Suavemente Onduladas.

 

3.2.1 – ESCARPAS E CRISTAS

Estão localizadas nos extremos ou bordas e na área central da “Chapada”. A litologia é composta pelos quartzitos Sopa-brumadinho cuja resistência aliada aos fenômenos tectônicos favoreceu a localização, sobre o conjunto, dos pontos de maior elevação do Parque, principalmente, nos extremos Sul e Sudeste onde está localizado o Pico Dois Irmãos a 1825 metros de altitude.

A morfologia é marcada pela presença maciça de vertentes bastante inclinadas, com topos suavemente arredondados, paredões e escarpamentos rochosos. Sobre esta morfologia se instalou uma rede de drenagem constituída por várias nascentes sobre as encostas e por canais que correm superficialmente sobre as rochas, o que possibilita o surgimento de trechos encachoeirados. Os depósitos aluviais são poucos desenvolvidos ao longo da drenagem.

O solo é praticamente inexistente em virtude dos intensos afloramentos rochosos e pela inclinação acentuada das encostas. Quando este ocorre, é um litossolo com desenvolvimento relacionado às áreas de fraqueza do quartzito.

A cobertura vegetal está intimamente relacionada as características do solo. Sobre os afloramentos rochosos aparecem os campos rupestres e também o cerrado rupestre, este principalmente, a norte sobre a escarpa que acompanha o contato com a formação Alternâncias rítmicas de quartzitos micáceos. A nordeste, onde a altitude é menos elevada e o solo possui textura arenosa e coloração clara, encontra-se o campo sujo, A sudeste, desenvolve-se, entre afloramentos rochosos, exuberante e densa formação florestal que pode estar relacionada à proximidade de recursos hídricos e ao melhor desenvolvimento do solo, o qual apresenta textura arenosa e coloração amarronzada. As matas de galeria acompanham os curso d’água.

De acordo com o “Pré-Zoneamento” do Parque, esta Subunidade está inserida na Zona de Recuperação e na Zona Primitiva. Na primeira, devido ao grau de interferência antrópica relacionadas ao extrativismo vegetal nas extremidades sul e Leste. E na Zona Primitiva por constituir-se em área de pesquisa científica e de educação ambiental.

 

3.2.2 – SUPERFÍCIES SUAVEMENTE ONDULADAS

Assim como na Subunidade anterior, a litologia é composta pelos quartzitos Sopa-brumadinho. Resulta desta litologia, uma morfologia marcada por colinas suavemente inclinadas intercaladas por afloramentos rochosos. A altitude média situa-se em torno de 1100 metros.

O solo possui, nas proximidades dos afloramentos rochosos e encostas, a coloração clara (branca), textura arenosa possuindo características semelhantes às do Litossolo. Nos interflúvios, a coloração também é clara (amarelada), a textura é arenosa, cobertura por cascalho possuindo características semelhantes às do Cambissolo. São visíveis afloramentos rochosos ao longo dos leitos.

O “Morro Redondo”, está localizado no extremo sul e possui características diferentes do restante da Subunidade. Sob uma topografia que se destaca do entorno próximo pela sua altitude (1685m), desenvolveu-se um solo de coloração amarronzada. Neste ponto, Os afloramentos rochosos não são visíveis sendo a superfície coberta por vegetação rasteira, de campo.

Nestas superfícies, a cobertura vegetal é representada pelas matas ciliares acompanhando a rede de drenagem, pelos campos rupestres entre os afloramentos rochosos e pelos campo sujo recobrindo as encostas.

Os processos de alteração humana podem ser facilmente observáveis na paisagem e em sua maioria são infelizmente, predatórios. São observadas atividades relacionadas a pecuária extensiva acarretando o comprometimento da cobertura vegetal devido ao pisoteio e a prática de queimadas nos períodos de seca. Além disso, observam-se indícios de extrativismo vegetal (coleta de sempre-vivas), resquícios de atividades de mineração (extração de diamantes), pequenas edificações e trilhas.

De acordo com “Pré-Zoneamento”, a área está inserida na zona de recuperação tendo como objetivo o controle dos processos de degradação e a sua restauração. É importante destacar, que segundo informações dos funcionários do Parque, a área encontra-se em processo de desapropriação.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A crescente corrente ecológica mundial exige da sociedade maneiras sustentáveis para a utilização dos recursos naturais. Isto será possível pela compreensão da organização e da dinâmica ambiental, ou seja, extrapolando a visão da natureza apenas como uma fonte de recursos a ser dominada.

Os estudos integrados da paisagem podem servir de orientação para o planejamento do manejo racional dos recursos naturais, pois englobam a cumplicidade de cada componente na formação de um todo que é o espaço geográfico. Inclusive, facilitam a visualização das conseqüências da ação antrópica sobre o meio ambiente. Foi, a partir, desta visão integrada que foi concebido o trabalho, ou seja, tentando demonstrar as inter-relações que formam a paisagem do Parque Estadual do Rio Preto, e através disto propor sugestões que possam ser úteis ao plano de manejo da unidade de conservação.

Como o Parque é composto pôr áreas que integram conjuntos paisagísticos distintos e de rara beleza natural, conforme foi destacado ao longo do trabalho, torna-se necessário a adoção de formas de manejo que permitam a utilização racional destes recursos e a recuperação das áreas degradadas. Algumas sugestões podem ser feitas:

-         diminuir gradativa do uso da “chapada” pela pecuária extensiva, e assim permitindo a recuperação e preservação da flora endêmica do local (apesar da área estar em processo de desapropriação);

-         construir roteiros alternativos ou intermediários para a visitação pública, buscando proteger os recursos naturais nos períodos em que estejam mais fragilizados (Ex.: vegetação rasteira e cursos d’água na época da seca);

-         incrementar atividades que permitam aproveitar a beleza cênica do lugar;

-         evitar a construção de trilhas e cercas sobre as encostas, pois o solo é, em sua maior parte , pouco resistente aos processos de erosão;

-         intensificar o trabalho de educação ambiental junto à comunidade, com o objetivo principal de mostrar a importância do Parque para a preservação da biodiversidade local;

Contudo, é importante destacar que estas sugestões deverão levar em consideração aquele que é o principal instrumento de manejo de uma Unidade de Conservação, ou seja, o seu Plano de Manejo.

 

 

ANEXO

 

 

 

NOTAS

 

[1] O Projeto Doces Matas é um projeto de cooperação técnica Brasil - Alemanha, desenvolvido em parceria pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA - MG), a Fundação Biodiversitas e a Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ). O objetivo do Projeto é dar apoio técnico à conservação e ao manejo de Unidades de Conservação da Mata Atlântica em Minas Gerais. O Projeto enfoca as parcerias entre os setores público e privado, e as comunidades vizinhas às áreas protegidas dando ênfase à cooperação interinstitucional e aos processos de gestão ambiental participativos em Unidades de Conservação selecionadas (Parque Nacional do Caparaó, Parque Estadual do Rio Doce e Reserva Particular do Patrimônio Natural Mata do Sossego). Sendo que a atividade de alguns Grupos Temáticos, estendeu sua ação a outras Unidades além das acima citadas.

[2] Como não existem dados climáticos específicos para o Parque Estadual do Rio Preto, as informações utilizadas referem-se a Normais climatológicas do INEMET para o período 1961 - 2000 da estação de Diamantina

[3] Os dados de geologia e topografia foram colhidos das cartas geológica e topográfica Rio Vermelho, escala 1:100000, respectivamente de 1996 e 1977. É importante destacar, que a caracterização dos elementos solo e vegetação baseou-se em seus aspectos fisionômicos e nas referências bibliográficas.  

[4] A definição do termo “Chapada”, foi baseada nos dizeres e conceitos da população nativa.  

 

 

Referências bibliográficas

 

IBGE / IGA. MAPA TOPOGRÁFICO RIO VERMELHO, SE-23-Z-B-I. 1977.

 

INSTITUTO ESTADUAL DE FLORESTAS. “Pré-Zoneamento” do Parque Estadual do Rio Preto. 2001.

 

LIMA, S. do Carmo & QUEIROZ NETO, J. P. de. Estudos ambientais integrados – Uma discussão metodológica. In: Simpósio de Geografia Física Aplicada, 7., Curitiba, Outubro, 1997.

 

REATTO, A.; CORREIA, J.R. & SPERA, S. T. Solos do Bioma do Cerrado: Aspectos Pedológicos. In: SANO, S. M.; ALMEIDA, S. P.  Cerrado Ambiente e Flora. Planaltina: Embrapa – CPAC, 1998. Xii – +556p.

 

RIBEIRO, J. F. & WALTER, B. M. T. Fitofisionomias do Bioma do Cerrado. In: SANO, S. M.; ALMEIDA, S. P.Cerrado Ambiente e Flora. Planaltina: Embrapa – CPAC, 1998. Xii – +556p.

 

SAADI, A. A Geomorfologia da Serra do Espinhaço em Minas Gerais e suas margens. In: GEONOMOS, Belo Horizonte, Vol.3 (1): p.41 – 63, Julho, 1995.

 

SOUZA, M.A.T.A. & GROSSI-SAD, J.H.1997. Geologia da Folha Rio Vermelho. In: GROSSI-SAD, J.H.; Lobato, L.M.; PEDROSA-SOARES, A.C & SOARES-FILHO, B.S. Projeto Espinhaço. Belo Horizonte, COMIG. Escala 1:100.000.