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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

IDENTIFICAÇÃO DAS CONDIÇÕES PEDOLÓGICAS E GEOMORFOLÓGICAS DAS TRILHAS DA APA DO GERICINÓ-MENDANHA (RJ)

 

 

Cynthia M. C. Vallim.  Bolsista PIBIC/UERJ – cynthiavallim@terra.com.br

Sonia Vidal Gomes da Gama. Profª do Depto de Geografia/UERJ – svggama@ig.com.br

 

 

GEA – Grupo de Estudos Ambientais do Depto de Geografia.

UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

 

Palavras-chave: Unidades de Conservação, Trilhas e Gestão Ambiental.

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.




 

INTRODUÇÃO

Este estudo faz parte do projeto “Vulnerabilidade ambiental e o processo de gestão integrada na APA do Gericinó-Mendanha – Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RJ)” em desenvolvimento no GEA, Departamento de Geografia da UERJ. A APA compreende uma área aproximada de 10.500 hectares no Maciço Gericinó-Mendanha, divisor de águas das bacias da Baía de Guanabara (nascentes contribuintes dos rios Sarapui e Iguaçu) e de Sepetiba (nascentes contribuintes dos rios da Prata do Mendanha e Guandu) e de municípios da RMRJ (Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Mesquita e Nilópolis).

O maciço possui uma importante cobertura vegetal remanescente de floresta tropical (tipo mata atlântica) e, apesar de estar sofrendo processos exploratórios de recursos naturais (extração mineral, caça e plantas ornamentais) e uso inadequado de seus solos (conflitos de usos urbano/industrial/rural/turismo/preservação), ainda corresponde a uma importante área para preservação considerada “Reserva de Biosfera” pela Unesco em 1996.

Essa pesquisa pretende contribuir na caracterização sócio-ambiental do Maciço, detalhando os aspectos do meio físico das trilhas (com destaque para os geomorfológicos e os pedológicos) frente à utilização das mesmas no interior da floresta que dão acesso aos principais pontos de visitação da APA, integrando metodologia para calcular a capacidade de carga turística de trilhas em UCs.

 

JUSTIFICATIVA

Em todo o maciço há sinais da presença de caçadores e coletores, haja vista as marcas presentes nas trilhas, acampamentos e armadilhas. As florestas e as cachoeiras do Mendanha representam os maiores atrativos de um possível parque – é o que ocorre com a chamada “Cachoeira do Escorrega”, localizada no rio Guandu do Sapê, a mais utilizada “por ser a de mais fácil acesso e de menor risco (caçadores, manobras militares e falta de sinalização)” (Gama, 2002; p. 150). No verão, as cachoeiras e trilhas são procuradas por visitantes de outras localidades, que “... não só destroem como também sujam a floresta e a água dos córregos, além de produzirem uma situação crítica que tem levado a falta de segurança nos banhos e na própria circulação livre pela floresta. A cada temporada são registrados inúmeros casos de mortes por afogamentos, pequenos furtos e assaltos” (Ramalho, 2000; p.74-75). O estudo sobre o potencial turístico do Maciço aponta que cerca de 81% do público entrevistado são favoráveis à implantação de um parque com infraestrutura adequada (áreas de lazer, guardas e guias) (Ramalho, Op. Cit.).

Existem, portanto, problemas físicos que ocorrem ao longo dos acessos e trilhas e que estão sendo pesquisados. Dentre os problemas decorrentes do uso de acessos e das trilhas sem prévio planejamento podemos ressaltar a deflagração de processos erosivos (Seabra, 1999; Cifuentes, 1992).; Costa, 2002;  Costa, 2003), o aumento do efeito de borda na floresta e aqueles decorrentes dos usos incompatíveis com o de preservação.

 

OBJETIVOS

Numa escala local, os objetivos desse estudo são destacar os impactos causados pela utilização indiscriminada das trilhas em ambientes protegidos (vertente sul do Maciço, Zona Oeste do Município do Rio de Janeiro). Neste caso, a trilha e o solo são as unidades onde se dá a conexão direta do homem com a natureza e, o desencadeamento de processos erosivos e o uso inadequado dos solos, concorrem para a degradação dessa Unidade de Conservação (Costa, Op. Cit.).

Para tal são necessários os seguintes objetivos específicos: verificar a extensão e a largura das trilhas; identificar e mapear a ocorrência de processos erosivos e de impactos ambientais; identificar as alterações impostas pelas trilhas à estrutura da vegetação; coletar amostras de solos nos pontos pré-estabelecidos; identificar como o solo responde ao intenso pisoteio ao longo das trilhas, comparando-o com sua situação natural, sem perturbações, mostrando o aumento do potencial erosivo de um determinado solo frente à compactação; analisar as amostras e integrar os dados.

                                                                                 

METODOLOGIA

As trilhas estão sendo adotadas como uma unidade funcional de análise e planejamento de Unidade de Conservação pois, refletem, física e biologicamente os diferentes usos que lhe são impostos. As principais etapas da pesquisa são as seguintes:

1ª) mapeamento da Trilha que leva às cachoeiras do Rio Guandu do Sapê, incluindo o seu trecho menos visitado, chamado Trilha dos Caçadores (Costa, 2002). Tal mapeamento estará baseado no uso de base cartográfica na escala de 1:10.000 (FUNDREN), altímetro e trena, tendo em vista a dificuldade de recepção dos sinais de GPS (Global Position System) através da copa das árvores e da barreira orográfica constituída pela serra;

2ª) estudo do grau de erodibilidade dos solos através das variáveis granulometria, densidade aparente e teor de matéria orgânica, associando-os aos diferentes níveis de declividade ao longo da trilha. As amostras serão divididas entre as deformadas (para a caracterização granulométrica e teor de matéria orgânica), e as indeformadas (coletadas com o uso do anel de Koppecky[1] para a determinação da densidade aparente, ou seja, do grau de compactação do solo correspondente);

3ª) comparação entre duas realidades;

4ª) integração dos dados;

5ª) caracterização das condições pedológicas e geomorfológicas das trilhas.

 

RESULTADOS PRELIMINARES: AS TRILHAS DA CACHOEIRA E DOS CAÇADORES

Essa pesquisa iniciou-se pelo reconhecimento e mapeamento das trilhas que levam às cachoeiras do Rio Guandu do Sapê – o critério de escolha foi a freqüência de usuários e a ocorrência de processos erosivos, que se apresentam em suas diversas formas, desde os canalizados até os movimentos gravitacionais de massa. A primeira, denominada “Trilha das Cachoeiras”, apresenta o maior número de visitantes e a segunda, denominada pelo Grupo de Caminhadas Ecológicas da Zona Oeste de “Trilha dos Caçadores” por ser utilizada pelos caçadores e catadores de bromélias, apresenta menor intensidade de uso. Foram encontradas situações diferenciadas no mesmo ambiente (o de floresta), com isso, busca-se traçar um quadro de “quanto” e “como” a freqüência de usuários interfere no ambiente natural.

Ao longo das trilhas foi observada a ocorrência em alguns trechos de processos erosivos e de compactação de solos, estabelecendo-se pontos de controle em função da extensão de cada trilha, que são os pontos de amostragem dos solos. As coletas estão sendo realizadas alternadamente em épocas mais secas e mais úmidas e nos meses de maior ou menor visitação. A diferença da cobertura de serrapilheira[2] entre os dois trechos mostrando o estabelecimento de folhagens na trilha dos caçadores (com menor freqüência de visitação) e o solo nu na trilha das cachoeiras (com maior freqüência de visitação) também foi registrada.

Identificação e Caracterização da Trilha das Cachoeiras:

Acesso: Estrada acima do cruzamento da Estrada Abílio Bastos com o rio Guandu do Sapê.

Extensão: 1642 m (até as cachoeiras) e 2950 m até o fim da trilha.

Largura Média: 2,20 m (trilha do escorrega) e 1,10 m (trilha dos caçadores).

Tempo médio de duração do Percurso: 45 min (trilha do escorrega) e 1h 30 min (trilha dos caçadores).

Altitude inicial: 122 m.

Altitude máxima alcançada: 425 m.

Condições do Terreno: os primeiros 150 metros apresentam-se em relevo suave e de blocos rochosos, com presença de lixo em suas margens; os ravinamentos são constantes e próximo da cota de 600 metros foi mapeado uma cicatriz de movimento de massa que mostra como ponto de ruptura o plano da trilha (influência da presença da trilha no desencadeamento do escorregamento); ultrapassando a cota dos 1100 metros, a trilha diminui sua declividade mais intercepta encostas íngremes (a trilha representa uma ruptura no plano da encosta); o encontro da trilha do escorrega e da trilha dos caçadores percebe-se a mudança de ambiente, os processos erosivos ao longo da trilha desaparecem, torna-se mais estreita e a serrapilheira passa a se tornar uma constante no caminho.

Através dos resultados obtidos nesta etapa de estudo, visa-se comparar as realidades encontradas em cada trilha, obtendo, assim, uma melhor visualização dos efeitos da ação antrópica nos solos de cada unidade analisada.

 

 

NOTAS

 

[1] Como especificado no Manual de Métodos de Análise de Solo da EMBRAPA (1997).

[2] Castro Jr. (Op Cit.) discute a importância da serrapilheira na proteção dos solos e da atividade biogênica.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

Castro Júnior, E. O Papel da Fauna Endopedônica na Estruturação Física do Solo e o seu Significado para a Hidrologia de Superfície em Região Montanhosa Florestada, PNT/RJ. Dissertação de Mestrado, PPGG/UFRJ, Rio de Janeiro, 1991.

 

Cifuentes, M. Determinación da Capacidad de Carga Turística en Áreas Protegidas. Publicação patrocinada pelo Fundo Mundial para a Natureza – WWF, Turrialba, Costa Rica, 1992.

 

Costa, S. M. Avaliação Geoambiental das Trilhas do Maciço Gericinó-Mendanha: Uma Proposta de Manejo / Cidade do Rio de Janeiro. Monografia em Geografia – UFRJ. Depto. de Geografia/IGEO. 2002.

 

Gama, S. V. G. Contribuição Metodológica à Gestão Ambiental Integrada de Unidades de Conservação – O caso do Maciço Gericinó-Mendanha – Zona Oeste do Município do Rio de Janeiro. Tese de Doutorado. PPGG/UFRJ. Rio de Janeiro, 2002.

 

Guerra, A. J. T. Processos Erosivos nas Encostas. In: Geomorfologia: Uma Atualização de Bases e Conceitos. Org.: Guerra, A. J. T. e Cunha, S. B. Ed. Bertrand Brasil, 1994.

 

Guillaunon, J. R. Análise das Trilhas de Interpretação. In: Instituto Florestal (SP). Boletim Técnico, n. 25. São Paulo, 1977.

 

Horowitz, C. Trilha da Capivara: Parque Nacional de Brasília. Ed. IBAMA. Brasília, 2001

 

IBAMA, Roteiro metodológico para a gestão de áreas de proteção ambiental – APA/Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Diretoria de Unidades de Conservação e Vida Silvestre – Brasília, Ed. IBAMA, 2001.

 

Mafra, N. M. C. Análise das Limitações do Uso do Solo por Suscetibilidade a Erosão no Município Engenheiro Paulo de Frontin (R.J.): Uma Abordagem Sob o Ponto de Vista Pedológico. Dissertação de Mestrado. PPGG/UFRJ, Rio de Janeiro, 1985.

 

Seabra, L. S. Determinação da Capacidade de Carga Turística para a Trilha Principal de Acesso à Cachoeira de Deus - Parque Municipal Turístico-Ecológico de Penedo, RJ. Curso de Pós-Graduação em Ciência Ambiental. Tese de Mestrado, Niterói: UFF, 1999.