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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

ESTUDO E AVALIAÇÃO DA PAISAGEM NA APA MUNICIPAL DO PICO DO CALEDÔNIA, NOVA FRIBURGO, RJ

 

 

Claudio B.A. Bohrer, Hugo Fioravante, Ari M. Neto, Clarisse P. Faria,

Cristiane F. Barcellos, Janaina A.C. Silva, João Henrique F. Brito, Marcos W.D. Freitas

 

 

 

Palavras Chave: mata atlântica, conservação da biodiversidade, unidade de paisagem

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.




 

Introdução

A Área de Proteção Ambiental Municipal do Pico do Caledônia está localizada nas cabeceiras do Rio Grande, afluente do Rio Paraíba do Sul, ao longo da Serra dos Órgãos, a sudoeste da cidade de Nova Friburgo, RJ (22°20' S, 42°35' W). A APA foi criada através do Dec. Mun. No 497, de12/05/1992, e abrange aproximadamente 3.400 ha. A área está incluída na Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e é considerada um hot spot, área da alta prioridade para a conservação, pois abriga remanescentes de floresta pluvial montana e campos rupestres, com uma alta diversidade biológica, habitat de diversas espécies vegetais e animais ameaçadas de extinção. O presente estudo tem por objetivo realizar um diagnóstico da paisagem, com ênfase no uso do solo e vegetação natural, para subsidiar a elaboração e implementação de um Plano de Manejo para a APA.

 

Ambiente Físico, Vegetação e Uso da Terra

A APA situa-se em região montanhosa, com altitudes variando entre 900-2200m. O clima da região pode ser classificado como tropical de altitude ou subtropical, conforme o sistema adotado (T = 17.8° C, P = 1400mm, Cf/Cw). Dados de estações próximas sugerem uma maior pluviosidade e temperaturas mais baixas em boa parte de APA, devido ao relevo, podendo atingir valores negativos nas maiores altitudes. Ocorre uma estação seca curta no inverno, amenizada pela altitude e frentes frias ocasionais., com déficit hídrico nulo.

A Serra dos Órgãos é formada basicamente por rochas intrusivas e metamórficas Paleozóicas (gnaisses e granitos), do Complexo Paraíba do Sul expostas em diversos pontos, sendo composta de três unidades estratificadas: um corpo intrusivo sirogenético, rochas intensamente migmatizadas e corpos graníticos pós-orogênese (Granito Nova Friburgo). Ocorrem também depósitos aluviais holocênicos nas partes mais baixas, ao longo dos tributários do Rio Grande.

A Serra forma a borda SE do Escudo Brasileiro, com forte influência de eventos tectônicos. A área se caracteriza por um relevo bastante movimentado, oriundo dos falhamentos e dobramentos da morfoestrutura geológica, que resultaram num embasamento complexo, dotado de diversidade estrutural, tectônica e litológica. Ocorreram dois grupos alternados de processos erosivos, por influência climática no Terciário: erosão extensiva de encostas acompanhada por terraceamento lateral pela dissecamento vertical, e formação extensiva de solos, acompanhada por relativa estabilidade da paisagem. Flutuações climáticas no Quaternário (frio/seco para quente/úmido) também influenciaram a paisagem atual (expansão/retração de florestas úmidas/frias, intemperismo, pedogênese/remoção do regolito, dissecação/pedimentação e aplainamento lateral).

A maior parte dos afloramentos rochosos são compostos de granitos, formando os pães de açúcar ou monadknocks, que em alguns casos já foram inselbergs no passado, acompanhados nas áreas de baixada de áreas sedimentares, oriundas do intemperismo químico. Conforme o Projeto Radambrasil, a APA se localiza na unidade D1/D2 (Faixa de Dobramento Remobilizados, Escarpa e Reverso da Serra do Mar/Serra dos Órgãos). O relevo local é caracterizado por dissecação diferencial, assinalada por controle estrutural (tectônico e litológico), definido por aprofundamento/abaixamento da drenagem.

O solos da região são resultantes de uma combinação da litologia (gnaisse/granito), do relevo altamento dissecado, do clima no Holoceno, e da cobertura florestal densa, que exerce forte influência através de processos físicos e hidrológicos (fixação mecânica, interceptação, infiltração, evapotranspiração), e ecológicos (produção de matéria orgânica e ciclagem de nutrientes). Geralmente apresentam baixos pH e teores de nutrientes. Os principais tipos de solos são: Latossolo Vermelho-Amarelo (LVA,) e húmico (LH), Podzólico Vermelho-Amarelo álico ou distrófico (PVA), Cambissolo álico ou distrófico (CA) ou húmico (CH), solo Aluvial (A), Litossolos (RE) e Afloramento Rochoso (AR).

A cobertura vegetal reflete a influência integrada dos diversos fatores do ambiente físico e da ação antrópica.. A vegetação original é constituída pela Floresta Ombrófila Densa Montana (Dm, até 1500-1600m) e Alto-Montana (Dl, mata nebular ou ¨cloud forest¨, acima de 1500m), com uma alta biomassa e diversidade, com ocorrências de espécies relativamente raras e endêmicas e abundância de epífitas (Orchidaceae, Bromeliaceae). Os afloramentos rochosos são cobertos por bromélias esparsas, com a presença de campos rupestres (Refúgio Ecológico Alto-Montano, rl), com espécies endêmicas, sobre solos litólicos acima de 1800m. A cobertura atual na APA é constituída por florestas secundárias e remanescentes, plantios florestais pastagens e olericultura intensiva. O desmatamento extensivo, provocado pela ocupação da área, inicialmente com plantios de café, seguidos pela pecuária, vem fomentando desde então a formação de processos erosivos acelerados e agressivos (ravinamentos, voçorocas, etc.).

 

Metodologia

A metodologia utilizada iniciou-se pela revisão bibliográfica sobre os diferentes aspectos do ambiente físico, vegetação e fauna local, e da evolução do uso da terra. Foi levantada a documentação cartográfica temática existente, composta por cartas topográficas nas escalas 1:50.000 e 1:25.000 (IBGE); cartas geológicas 1:50.000 (DRM-CPRM); interpretações temáticas do P. Radambrasil (vegetação, solos e geomorfologia), escala 1:250.000; diversas cartas temáticas do estado em meio digital, na escala 1:500.000 (CPRM); mapa bioclimático do estado, escala 1:400.000; cartas de uso e cobertura do solo, escala 1:450.000 (IQM-Verde I e II, Fundação CIDE); e cartas digitais na escala 1:50.000 (PDBG). Foram utilizadas também composições coloridas (bandas 3,4,5) de imagens Landsat TM georreferenciadas (cena 216/76, 1996 e 2000), cobrindo parte da área de estudo.

As informações provenientes das cartas foram selecionadas e transferidas para meio digital através de mesa digitalizadora, utilizando-se o programa ArcInfo 7.1. Os diversos arquivos forma armazenados e processados através do SIG ArcView 3.2. A análise espacial foi complementada por trabalhos de campo, com apoio de GPS, para verificação dos padrões de uso e cobertura vegetal, controle e atualização da interpretação das cartas e imagens.

A análise integrada consistiu na sobreposição em ambiente digital, através do módulo Geoprocessing, das cartas temáticas, utilizando-se uma base cartográfica digital comum na escala 1:50.000. Os principais temas (atributos ambientais físicos) utilizados na primeira etapa da análise foram a geologia, solos e relevo, com base nas cartas temáticas e apoio de um Modelo Digital de Terreno (MDT), elaborado através do módulo 3-D Analyst (TIN). O mapa de unidades físicas da paisagem resultante foi então sobreposto às cartas de vegetação, bioclimática e de uso e cobertura do solo, procedimento que possibilitou a delimitação das diferentes unidades de paisagem, definidas pela relação entre os diferentes atributos ambientais, incluindo os padrões de uso do solo. Foram delimitadas ainda as áreas de preservação permanente (APP), conforme o Código Florestal em vigor, com base na carta de declividade, elaborada através do MDT, e da aplicação do comando Buffer, ao longo dos canais de drenagem. Foi elaborada ainda uma matriz, contendo os diferentes atributos ambientais de cada unidade de paisagem.

 

Unidades de Paisagem

As unidades de paisagem foram dividas em dois tipos principais: Altas Encostas da Serra dos Órgãos (Unidade I) e Baixadas e Várzeas (Unidade II). Esta unidades foram subdivididas, conforme os padrões de uso e cobertura vegetal.

Unidade de Paisagem I - Altas Encostas da Serra dos Órgãos - Áreas montanhosas com relevo íngreme e acidentado, atingindo grandes altitudes (Picos da Caledônia e dos Três Picos, acima de 2000m) e com alta declividade. O relevo foi classificado pelo Radambrasil de Da (relevo denudacional com topos com formas aguçadas). Os solos variam de AR (granito), RE, LH, CA e CH, geralmente apresentando baixa fertilidade. A cobertura vegetal e o uso do solo refletem a influência do meio (altitude, umidade, ocorrência constante de nuvens). A vegetação original, é constituída por florestas secundárias e remanescentes (Dm e Ds), pastagens e plantios florestais (Araucaria, Pinus e Eucaliptus), Bromeliaceae (afloramentos rochosos) e campos rupestres (rl). O uso do solo inclui a criação de gado em pastagens de encosta, pequenas áreas de reflorestamento e áreas urbanas periféricas (casas, sítios, hotéis e pousadas). A área possui ainda diversas torres de transmissão (TV, rádio, telefonia).

Unidade de Paisagem II - Baixadas e Várzeas - Inclui as regiões de várzea ou de baixada, onde predomina a produção de hortifrutigranjeiros, em especial a couve-flor, além de pastagens em várzeas e encostas baixas. Apresenta um relevo mais baixo (900-1100m) e topografia mais suave (morros arredondados, testemunhos de superfícies de aplainamento em torno 100-200m e de 200-300m), com menor declividade, sendo classificado pelo Radambrasil como Afl (relevo de agradação fluvial). Os principais solos são o LVA, LH e Aluvial, com sedimentos quaternários. Ocorre floresta secundária em estado variável de regeneração, com espécies nativas pioneiras e secundárias e abundância de palmito (Euterpe edulis) nas áreas de maior porte (Dm), bambus e lianas nas áreas de borda. Presença de Araucaria e Eucaliptus plantados em pequenos talhões, formando cercas vivas ou isoladamente, e campos de várzea. O principal tipo de uso é a olericultura em propriedades familiares, com uso intensivo de fertilizantes e defensivos químicos, além da criação de gado leiteiro e de cavalos (haras).

 

 

Zoneamento e Plano de Manejo da APA Caledonia

               Conforme o novo SNUC, uma APA é uma unidade de conservação de uso direto, ou seja, é permitido o uso dos recursos naturais de modo compatível com a sua conservação. A principal ferramenta para a gestão dessas unidades é a elaboração de um Plano de Manejo com base em informações científicas sobre a área. O zoneamento ambiental é parte importante deste plano. Deste modo, os mapas de unidades de paisagem e das APPs deverão servir de base para uma proposta de zoneamento da APA, incluindo uma possível redefinição de seus limites e integração com as UCs limítrofes (APA Municipal e P.E. dos Três Picos), visando a sua implantação efetiva. Deve-se ressaltar que o zoneamento é apenas uma das etapas para a efetivação do Plano de Manejo, que deve incorporar também informações sobre a realidade sócio-econômica e cultural da área, incluindo a estrutura fundiária, organização comunitária, infra-estrutura administrativa, etc. O Plano é um instrumento dinâmico, sujeito a modificações e incorporando inovações, conforme a evolução da realidade sócio-econômica e institucional, bem como os avanços do conhecimento científico.

Para que a APA do Pico do Caledônia possa cumprir com os objetivos de integrar o uso sustentável dos recursos naturais com a preservação da biodiversidade e a manutenção da capacidade dos ecossistemas naturais de prestarem serviços ambientais relevantes para a sociedade, é fundamental também o envolvimento da sociedade local, representada através de suas entidades e associações. Ou seja, o componente científico deve estar plenamente integrado aos componentes institucionais e culturais, numa troca constante de informações, evitando-se assim o surgimento de possíveis tensões e conflitos quanto às diferentes abordagens e visões sobre como a área deve ser utilizada e conservada.