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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

 

ZONEAMENTO AMBIENTAL INTEGRADO DOS FATORES DO MEIO NATURAL E DA OCUPAÇÃO HUMANA  NO LITORAL DE ESTÂNCIA, EM SERGIPE, PARA  AVALIAÇÃO DO IMPACTO AMBIENTAL DE UMA   CENTRAL ENERGÉTICA EÓLEA

 

 

 

LÍLIAN DE LINS WANDERLEY

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

lilianwanderley@uol.com.br

 

 

 

  Palavras-chave:  impacto ambiental – zoneamento – energia eólea

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

 

 

1. Introdução

 

Visando ao licenciamento ambiental de uma central eólea energética a ser instalada pela empresa ELETROWIND nas proximidades da  Praia de Abaís, no Município de Estância, Litoral Sul de Sergipe, foi elaborado pela empresa Ambientec Consultoria Ltda., do Estado de Sergipe, o RAS-Relatório Ambiental de Simplificado (AMBIENTEC Consultoria Ltda, 2002) , aprovado  em 2002  pela ADEMA- Administração Estadual do Meio Ambiente de Sergipe. Este empreendimento encontrou em um certo trecho do litoral de Estância, localizado em frente ao mar, um potencial eóleo adequado à demanda da central energética e condições  compatíveis  em termos de clima, solos, geologia e geotecnia, cobertura vegetal e uso do solo,  e baixo grau de ocupação humana no entorno e na  área do empreendimento.

O zoneamento  e os estudos que o respaldaram  basearam-se  nos  princípios de integração dos meios físico, biológico e sócio-econômico que  fundamentam a  Resolução CONAMA 01/86 (VENTURA, 1992),  condicionadora   do licenciamento de empreendimentos e atividades com poder de provocar alterações no meio ambiente, que foi alvo de análise e considerações de   Wanderley, L.L.  e Wanderley, M.L.(2002).

Cartograficamente representado em escala 1:2000, este  zoneamento procura refletir as fragilidades naturais e os eventuais conflitos de usos decorrentes da instalação de uma central geradora eólea em uma área litorânea vocacionada para o turismo  e para a  ocupação de segunda-residência, achando-se representado nas figuras 1,  2 e 3.

A área está inserida na APA- Área de Proteção Ambiental do Litoral Sul de Sergipe, criada pelo Decreto Nº 13.468/93, e se espacializa com largura de 12 quilômetros contados da preamar para o interior e  extensão de cerca de 55 quilômetros desde a  margem do rio Vaza Barris, até  a divisa de Sergipe com a Bahia, abrangendo todo o litoral dos municípios de Itaporanga D’ Ajuda e  Estância e as áreas estuarinas dos municípios de Santa Luzia do Itanhy e Indiaroba.

 

2. Procedimentos Metodológicos

 

Zoneamentos anteriores, mesmo em escala municipal ou regional,  foram consultados e relacionados na definição das unidades espaciais homogêneas, dentre eles o Zoneamento Ecológico - Econômico do Litoral Sul de Sergipe ( SEPLANTEC, 2001), a cartografia ambiental das potencialidades e restrições à ocupação turística e de veraneio na APA Litoral Sul ( WANDERLEY, 2001), o zoneamento urbano-ambiental da zona de expansão urbana da cidade de Aracaju (WANDERLEY L. e WANDERLEY, M.,  2003 ) e outros estudos orientados para o gerenciamento ambiental da  área, incluindo-se a tese de doutorado de Wanderley   ( 1998), que faz a diagnose ambiental do litoral sul de Sergipe e formula uma proposta de proteção ambiental apoiada em princípios do desenvolvimento sustentável.

 À postura conceitual estruturada a partir desses trabalhos somou-se o diagnóstico ambiental da área, constituído pelo levantamento planialtimétrico que definiu com curvas de nível as formações dunares e o desenvolvimento do relevo, pelo mapeamento geomorfológico  e da  cobertura vegetal e de uso do solo, e pela  caracterização geológica, geotécnica e pedológica que utilizou fontes documentais como  e trabalho de campo.

 A fusão dos arquivos digitais dos levantamentos cartográficos temáticos, retrabalhados em AUTOCAD, obedecendo a parâmetros definidos pela integração dos elementos físicos, biológicos e da ocupação da área,  resultou na   definição do zoneamento ambiental em escala de 1:2 000 que identificou cinco  unidades espaciais.

A representação cartográfica final utilizou como base a carta planialtimétrica, fazendo uso de manchas em cores, símbolos indicativos de fenômenos locais  e informações literais complementares.

Os   condicionantes ambientais que orientaram a definição das cinco zonas , base para aplicação das medidas mitigadoras dos impactos e do monitoramento ambiental  do empreendimento, foram: dunas vegetadas, parcialmente vegetadas ou móveis;  permoporosidade do solo e chuvas, capacidade de carga dos terrenos, direção dos ventos e dos fluxos de areias, porte e densidade da vegetação, capacidade fixadora da vegetação,  ausência de vegetação,  escoamento pluvial, sentido do fluxo subterrâneo,  uso e ocupação do solo,   e áreas de interesse ambiental, conforme a Lei Federal 4.771/65 Art. 2º,  Decreto Federal 89.336/84 e Resolução CONAMA 303/2002 (VENTURA, 1992).

 

2. A Central Geradora Eólea de Abaís e sua Área de Influência

2.1 Caracterização técnica do empreendimento

 

A energia eólea é oriunda da energia cinética dos ventos  e constitui um mercado em rápida progressão, apresentando crescimento de 40% ao ano, existindo no mundo, atualmente, 40 fabricantes de turbinas.

O uso de energia eólea como  fonte complementar à energia hidrelétrica é favorecida no Nordeste brasileiro pela  coincidência da intensificação do regime de ventos  com a redução do fluxo de água do rio São Francisco, principal bacia energética .

A Central Eólea de Abaís terá uma capacidade instalada de 23,4 MW e sua estrutura básica constará de 26 turbinas eólicas de 900 KW, cada uma sobre um quadrado de aterro de 15mX15m e uma base circular de concreto com 12m de diâmetro sobre a qual será fixada uma  torre metálica  de 70 metros de altura, que sustentará a turbina, e dentro da qual haverá condutores que transportarão a energia elétrica produzida pelo gerador até a sua unidade de transformação  (600V/13.800V). Uma casa de controle de dois pavimentos permitirá o funcionamento e controle da usina. As 26 turbinas elétricas são do tipo upwind, ou seja, o rotor de três pás de 52,2 metros de diâmetro opera na frente da torre.

A rotação da turbina eólea  resulta da ação do fluxo de massa de ar incidente em seu rotor,  sendo  capaz  de produzir eletricidade com velocidades de vento a partir de 3,5 m/s, e interrompem o seu funcionamento sob velocidades superiores a 25 m/s, mas podem  suportar velocidades de até 50m/s. Um anemômetro e dois sensores serão colocados no topo de cada  torre e enviarão informações digitais à central de controle. Por serem altas, as turbinas podem ficar na planície litorânea sobre os terraços marinhos, sem ocupar as dunas fixas ou móveis.

 

3.  Área de Influência

3.1 Dimensões da área de influência direta

 

O parque eólico  ocupará  uma área de 169 hectares com um total de 26 turbinas geradoras, com  baixa densidade ocupacional de 0,017 e de  0,34% da área total.

 A área selecionada para implantação da Central Eólea   localiza-se no litoral de Estância, distante  cerca de cinco quilômetros do Povoado Santa Cruz do Abaís, também denominado Praia do Abaís, núcleo populacional  de população nativa tradicional  de agricultores e pescadores,  transformando em reduto de segunda residência no verão, quando fica  plenamente habitado. Dista  cerca de 27 quilômetros da Praia do Saco, reduto de veranistas com  incipiente estrutura  turística, e entre ele e o empreendimento os espaços intermediários  apresentam baixa ocupação. Forma um polígono com  largura de 1650 metros  frontais ao mar no lado leste, e 1800 metros de  fundo no lado oeste. Os lados norte e sul possuem, respectivamente, 1.200 metros e 1.290 metros.

Além de pertencer a uma APA com restrições próprias desse tipo de Unidade de Conservação, a área do empreendimento pertence a um espaço de  desenvolvimento do turismo  com progressiva  ocupação de veraneio, que tem nos núcleos de Abaís e da Praia do Saco, em Estância, os principais vetores de crescimento no Litoral Sul de Sergipe.

 

4. Caracterização Ambiental das Áreas de Influência

4.1 Clima e condições meteorológicas

4.1.1 Umidade e temperatura

 

Segundo o Zoneamento Ecológico-Florestal de Sergipe (CONDESE/SUDENE, 1976) o município de Estância registrou, em 30 anos de observações,  valores médios mensais máximos de 26,9 º C e mínimos de 23,7ºC ao ano, com amplitude de apenas 3,2ºC, compatível com a Carta de Isotermas Médias Compensadas Anuais  (CODISE, 1995) onde aparece Estância com 27ºCna faixa marítima   e 25ºC nos  estuários.

Encontra-se na  porção mais úmida do Estado de Sergipe, com normal pluviométrica de 1.283mm em trinta anos de observações. Os anos 1985 a 2001 foram  mais úmido,  com um máximo de chuvas anuais de 2.872mm, um mínimo  de 1.106mm e média de 1.770mm.

 Os meses de abril a setembro  concentram  70% das chuvas anuais e 30% se distribui de outubro a março. Por outro lado,  demanda  manejos cautelosos de estratégias construtivas, devido à  concentração das chuvas,  ameaça  potencial  à estabilidade de obras, em face da  capacidade de suporte dos terrenos e da profundidade do  freático.

Pela classificação climática de Thornthwaite,  baseada na Precipitação, Evapotranspiração Potencial, Excedente Hídrico e Deficiência Hídrica, o clima  é Megatérmico Sub-Úmido Úmido (C2A’a’),  dos  mais úmidos dos climas sergipanos com Índice de Umidade de  6.1 (CONDESE/SUDENE, 1976). A área possui moderada deficiência hídrica de verão que não compromete as atividades agropecuárias, sendo os excedentes de inverno, coadjuvados pelas deficientes condições de drenagem,  responsáveis por alagamentos e emergência do lençol freático em vários locais. É alvo de chuvas intensas, conforme  Tavares e Ellis ( 1980)  que demonstraram que chuvas contínuas horárias de 53,2mm tem recorrência de dois   anos e de 76,6mm cinco  anos, e indicam concentração elevada e recorrência de chuvas intensas em curtos períodos

 

4.1.2  O sistema circulatório regional e local

 

No hemisfério sul e nas latitudes do Estado de Sergipe  o regime dos alíseos é dominante, predominando a direção sudeste. Influenciados  pela localização geográfica, prevalecem os ventos de uma vasta área oceânica, livre de obstáculos, conferindo alta intensidade, continuidade e baixa variabilidade ( AMBIENTEC Consultoria, 2002).

Estudos  precisos dos recursos eóleos em meso-escala e  da dinâmica eólica na região nordeste foram apresentados no WANEB-Wind Atlas for the Northeast of Brasil, citado no RAS ( AMBIENTEC Consultoria, 2002), que classificou os ventos a 50 m do nível do solo para cinco condições topográficas. Observações em diversas estações anemométricas do Nordeste permitiram extrapolar para Abaís, local do empreendimento, os seguintes atributos: alto potencial eólico regional e adequadas características técnicas em nível de micro-escala, posição litorânea frontal ao mar,  ventos com incidência  perpendicular à linha de costa,  velocidade média de 6,0 m/s, predominância de vegetação rasteira que minimiza a rugosidade da superfície e terreno plano com dunas esparsas. 

Dados de Aracaju, semelhante a Abaís, sobre a direção média dos ventos da série 1985/94, indicam o SE como o quadrante de maior frequência em ambos os períodos, seguido do NE , e em terceiro lugar o E. Por fim, os quadrantes de direção de menor frequência, que são o Norte (N) e o Sul (S). De fevereiro a junho as velocidades são as menores, mas nunca com médias inferiores a 4,0m/s (CEPES/CODISE, 2000).

 

4.2 Geologia e Geomorfologia

 

 A área do empreendimento  situa-se na Planície Costeira,  vulnerável a ocupações desordenadas pelo seu relativamente baixo suporte geotécnico, pela existência de ecossistemas frágeis  e de locais onde a modelagem atual da borda continental litorânea se processa de forma intensiva, instável e mutante.

Os compartimentos  do relevo originam-se de formações quaternárias: Praias, Terraços Marinhos e Cordões Litorâneos e  Dunas Holocênicas (WANDERLEY, 1998).

Os sedimentos predominantes  são as areias finas e médias, inconsolidadas, porosas, permeáveis, com baixo conteúdo de argilas, formando os cordões litorâneos e os terraços marinhos,  situados  entre o mar e  a última geração de dunas em processo de formação e largura de 300m a 1.300m. É uma plataforma arenosa plana e suave ondulada com altitudes médias de 3,3 a 5,0 metros, sobre a qual se assentam  dunas.

Os Terraços Marinhos que marginam a praia costumam receber sedimentos arenosos trazidos da praia pelos ventos, que vem reforçar dunas já existentes ou se depositar nessa mesma plataforma. Embora seja esta a unidade geomorfológica predominante, registram-se na área os cordões litorâneos, arrumados em fileirs paralelas e entre uma e outra formam depressões intermediárias  que no inverno tornam-se  alagadas.

As dunas, sobre os terraços marinhos, apresentam altitudes  de 10 a 40 metros, cobertas com vegetação  de restinga herbácea, arbustiva, arbórea e até mesmo de Mata Atlântica, apresentando flancos  desnudos  e sujeitos à mobilidade.  Compõem uma faixa contínua que em geral não ultrapassa 500m de largura,  posicionadas  a  400-1800m, do tipo barcana e semi-coalescentes,  móveis ou parcialmente móveis. Geralmente afastadas, acompanham a praia e dispõe-se em faixa de traçado sinuoso, variando em altitude e porte horizontal. Ao longo de toda a faixa observam-se “colos” que interrompem  a continuidade da faixa e  representam acomodações naturais, muitas vezes amplos e ocupados por casas de veraneio,  ou estreitos e utilizados como passagem e acesso  a praia e  loteamentos.

 

4.3 Vegetação

 

Formação Vegetal de Porte Herbáceo e Sub-Arbustivo -  Composta por espécies rasteiras adaptadas a terrenos secos e a terrenos encharcados, recobre descontinuamente a superfície do solo plana ou suave ondulada, principalmente na porção arenosa  de contato com o mar, onde aparece em forma de vegetação psamófila reptante.
 Mata e Mata de Restinga - Na área onde se pretende construir  a Central Elétrica a Mata ou Mata de Restinga ocorre a cerca de 850 metros da linha de praia,  ganhando espaço no final da área,  onde se  desenvolve  sobre dunas e interdunas.
Restinga Arbustiva e Restinga Arbustiva-Arbórea - Ocupa total ou parcialmente as dunas e os pequenos  montículos  de areia distribuídos pela área,   em grupamentos de vegetação onde se associam espécies de porte arbustivo e espécies arbóreas. Acham-se sobre solos Podzol e Areno-Quartzosos Marinhos,  variando de porte e densidade  com o teor de matéria orgânica. Embora  pareça que as restingas de maior porte colonizam dunas móveis, na verdade são soterradas por elas em seu deslocamento.

Coqueirais – embora sem grande densidade,  aparecem na área de influência direta, onde ocupam parte da Zona 2 do Zoneamento,  e nos  solos mais férteis do  litoral de Estância. Colonizam principalmente os Terraços Marinhos Holocênicos, aparecendo de modo esparso sobre dunas( WANDERLEY, 1998)

 

4.4 Solos

 

Para  Carvalho e  Rizzo (1994, p. 74),

[...] [o] desenvolvimento da atividade agrícola na Zona Costeira exige elevados investimentos em práticas de conservação e exploração, uma vez que a maior parte dos solos é formada por material inconsolidado de baixa fertilidade, imprópria para cultivos tradicionais. Por essa e outras razões, a atividade agrícola no litoral é bastante limitada e localizada, servindo, em alguns casos, como mero disfarce fiscal para a especulação imobiliária.

 Os solos Arenoquartzosos Marinhos Distróficos, encontrados nos terrenos onde pretende se instalar a Central Elétrica são arenosos essencialmente quartzosos e profundos, excessivamente drenados porém sujeitos a encharcamento no inverno por conta das características geológicas e hidrogeológicas do terreno, moderados a extremamente ácidos e de baixa fertilidade natural, e desenvolvem-se a partir de sedimentos holocênicos do Quaternário, típicos da Planície Litorânea, formados principalmente como resultado do trabalho do mar e do vento.

O Solo Podzol é predominante arenoso, fortemente ácido e de muito baixa fertilidade natural, também formados por sedimentos arenoquartzosos da planície litorânea, estando presente nos terrenos onde pretende se instalar a Central Elétrica.Formações de restinga em suas diversas modalidades,   e associações com outras formações  típicas desse solo, predominando o aproveitamento agrícola com coqueiros e a utilização  como pasto. Este solo apresenta problemas de drenagem nas áreas onde o horizonte B aparece muito endurecido e próximo da superfície, funcionando como uma camada de certa impermeabilidade. Normalmente, alagam na época chuvosa, sendo vagarosa a absorção hídrica, permanecendo encharcados por quase todo o período chuvoso.

Na área onde se pretende implantar a Central Energética  os solos arenoquartzosos profundos   e os solos podzol  acham-se utilizados com plantio de coqueiros e colonizados por restingas de portes e características variadas.

 

4.5 Agricultura

 

A cultura  dominante no litoral de Estância é  o coco-da-baía, com  7.286 hectares em 1997 (SEPLANTEC, 1999), equivalente a   14,5 % da área total  cultivada no  Estado e uma produção de 12.568 mil frutos (13%). Produtividade 25% inferior à média estadual. A área do empreendimento é parcialmente aproveitada com plantio de coco e pastagem natural e  com baixa aplicação de capital.

 

4.6População

 

 A área do Município de Estância é de   649.6 km2 e o Censo de 2000 (IBGE) registrou uma  população total  de  58.836 habitantes, densidade demográfica de 90,6 hab/km2 e  de 1996 para 2000,  e  uma taxa de crescimento populacional de 0,91 a.a.

A população urbana  foi de 50.750 habitantes e a rural foi de 8 086, com um esvaziamento do campo pela redução de  2 899 pessoas de 1991 para 2000 ( 26,4%), o que se atribui à falta de oportunidades de trabalho,  buscados na cidade de Estância e em Aracaju, destinos preferenciais da migração campo-cidade.  Em 1991, o litoral de Estância possuía 3.162 habitantes, 33,2% da sua população rural naquele ano,  distribuída pelos povoados tradicionais e turísticos litorâneos.

Não se sabe o número de veranistas na temporada de verão e fins de semana prolongados, acrescido de alguns  turistas,  gerando   demandas comerciais simples e serviços domésticos que   ocupa a mão de obra local. Não há  dados da populacão de Abaís, em virtude da agregação dos povoados nos  setores censitários.   

 

5. Turismo e Segunda-Residência no Litoral de Estância

 

Segundo Wanderley ( 1998), Estância  apresenta, por sua posição confrontante com o mar, a linha de frente da ocupação das praias antes inóspitas das grandes propriedades cocoicultoras e agropecuárias. A Prefeitura Municipal de Estância, informa a existência de cerca de 400 casas de veraneio em Abaís,  instaladas desde a linha confrontante com o mar, onde também se encontra desde 1996 o Calçadão de Abaís. Cerca de 95% são  casas ocupadas apenas na temporada de verão e nos feriados prolongados.

Esta porção frontal ao mar foi definida por Wanderley (2001) como Zona Turística e de Segunda Residência, destinada à ocupação de veraneio, hotéis, pousadas e equipamentos de lazer,  prevalecendo hoje o padrão médio de ocupação, achando-se sujeita a medidas de ordenamento urbano-ambiental que possam  remediar problemas estéticos e funcionais de uma ocupação ocorrida sem diretrizes públicas ou plano-diretor.

 

6. Planos Governamentais e Privados

 

O turismo  prevalece absoluta nos planos privados e governamentais em nível estadual e municipal para todo o litoral de Estância. Esta área é do interesse do PRODETUR, de onde têm provindo recursos financeiros para construção da Rodovia SE 100 Trecho Porto da Nangola-SE 318 até a fronteira com a Bahia, onde essa rodovia turística, também chamada Linha Verde, se articulará com a Linha Verde Baiana ou BA-099. Também do PRODETUR  é a parte maior dos recursos utilizados na construção da ponte sobre o rio da Nangola, que faz a transposição necessária para a continuidade dos trechos rodoviários, e a maior parte dos recursos dos atracadouros de balsas nas margens do rio Piauí, completando o sistema rodo-hidroviário de integração física dos mercados turísticos da Bahia e Sergipe.  O mais recente interesse do PRODETUR  no litoral de Estância é a reconstrução do Calçadão de Abaís, derrubado pelas ondas nas altas marés ocorrida desde sua construção.

Inserida na APA, essa área estará   sujeita à legislação específica do seu Plano de Manejo em elaboração pela ADEMA-Administração Estadual do Meio Ambiente de Sergipe, cumprindo o que determina o Decreto 13.468 /93 que cria a APA.

 

7. Zoneamento Ambiental Integrado

 

Conforme representado na Figura 1, na Figura 2 e na Figura 3   o zoneamento distingue cinco zonas :

 

Z1ZONA 1 – Sedimentos arenosos  de composição quartzosa e granulação fina a média compondo formação dunar holocênica, fixada por vegetação mista de Mata Atlântica e Mata de Restinga. Solos Arenoquartzosos Marinhos Distróficos associados a solos Podzol normalmente drenados e aquífero sedimentar.

 

Z2– ZONA 2 – Sedimentos arenosos de composição quartzosa e granulação fina a média, compondo formação dunar holocênica e terrenos de baixa altitude, cobertos com plantio de Cocus nucifera, solos com predominância de Podzol associados a solos Arenoquartzosos Marinhos Distróficos normalmente drenados e aquífero sedimentar de baixa profundidade.

 

Z3 – ZONA 3– Sedimentos arenosos de composição quartzosa e granulação fina a média, compondo dunas holocênicas individuais ou em formação, fixados por vegetação mista de Restinga Arbustiva e Restinga Arbustiva-Arbórea, Solos Arenoquartzosos Marinhos Distróficos normalmente drenados e aquífero sedimentar.

 

Z4ZONA 4 – Sedimentos arenosos de composição quartzosa e granulação fina a média sujeitos à mobilidade pelo vento, compondo encostas e colos interdunares holocênicos desnudos de vegetação ou esparsamente colonizados por vegetação psamófica reptante. Solos Arenoquartzosos Marinhos Distróficos bem drenados e aquífero sedimentar de baixa profundidade.

 

Z5 – ZONA 5 – Sedimentos arenosos de composição quartzosa e granulação fina a média  parcialmente sujeitos à mobilidade pelo vento, compondo plataforma arenosa plana com pequenos núcleos de areia de Terraços Marinhos Holocênicos e Cordões Litorâneos Holocênicos de origem marinha recobertos em sua quase totalidade por formação herbácea de gramíneas e sub-arbustivas de espécies invasoras. Solos Arenoquartzosos Marinhos Distróficos,  estacionalmente bem drenados e sujeitos à formação de charcos no outono-inverno e inverno, lençol freático de baixa profundidade ou aflorante no período das chuvas.

 

8. Conclusão : Impactos Ambientais

 

As centrais geradoras  eóleas não demandam qualquer tipo de combustível fóssil, não gera qualquer tipo de dejetos, seja sólido, líquido ou gasoso, não necessitando de equipamentos ou sistemas específicos de controle que muitas vezes causam impactos ambientais. Desde sua fase inicial até sua operação a mão de obra local também é utilizada e pelo fato de possuir mão de obra estrangeira haverá um intercâmbio de informações entre os especialistas  e treinamento da mão de obra local. Também outras atividades poderão ser desenvolvidas na área, como agricultura e criação de gado.

Por ser  uma região de potencial turístico,  outros impactos considerados negativos, porém de baixa pontuação na matriz de análise, são considerados abaixo.

Visual- as 26 torres distribuídas numa área rural  pouco modificada e sem edificações irá alterar a paisagem, que perderá seu caráter natural. Parque eóleo semelhante no Ceará constitui-se atrativo turístico local, tendo agregado qualidades cênicas à paisagem.

 Fauna- poderá ocorrer choques de aves contra as pás, particularmente importante  se o parque se situa na rota de aves migratórias. Na prática, os pássaros se desviam das turbinas, sendo insignificante o número de acidentes.

Sonoro- o movimento das pás cortando o vento  poderá atingir 43 decibéis medidos a 200 metros da torre. È considerado  na maioria dos casos menor do que o ruído provocado pelo vento, especialmente em áreas costeiras.

Em uma APA  os impactos de qualquer intervenção devem estar monitorados e controlados, especialmente quando seu potencial turístico está vinculado à paisagem e   ao grau de preservação dos seus recursos naturais  e sob riscos de descaracterização.

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AMBIENTEC Consultoria Ltda. Central geradora eólica Santa Cruz do Abaís, Estância - SE. Relatório ambiental simplificado. Aracaju, 2002.

 

CARVALHO, Vitor C; RIZZO, H.G.. A zona costeira brasileira: subsídios para uma avaliação ambiental. Brasília, 1994.

 

CODISE/SEIC-SE. Carta de isotermas médias compensadas anuais. Aracaju, 1995.

 

CONDESE/SUDENE. Zoneamento ecológico - florestal do Estado de Sergipe. Aracaju, 1976

 

SEPLANTEC-SE. Anuário estatístico de Sergipe. Aracaju, 1999.

 

SEPLANTEC/MMA/GEO Consultoria e Serviços. Zoneamento Ecológico - Econômico do Litoral Sul de Sergipe. Aracaju, 2001.

 

TAVARES, A; ELLIS,  J.. Chuvas máximas em um dia no Nordeste do Brasil. In: Boletim Técnico n.18, p. 17-21. INMET/CNPq, Brasília, 1980.

 

VENTURA, V. J.. Legislação federal sobre o meio ambiente. Taubaté, SP: Vana, 1992.

 

WANDERLEY, Lílian de Lins. Litoral Sul de Sergipe: uma proposta de proteção ambiental e desenvolvimento sustentável. Tese de Doutorado apresentado ao IGCE-Campus de Rio Claro. Rio Claro/SP, 1998.

 

______. A cartografia ambiental das potencialidades e restrições à ocupação turística e de veraneio na Apa litoral sul de Sergipe. Apresentado em pôster na 53ªReunião Anual da SBPC,  13 a 18 de julho de 2001. Salvador, 2001.

 

______; WANDERLEY, Moacyr de Lins. Estudo de impacto ambiental: multidisciplinaridade e integração de campos do conhecimento. Jornal do CREA, Sergipe,  dez.2002, p. 6.Aracaju.

 

______.Zoneamento urbano - ambiental da zona de expansão urbana de Aracaju- Capital do Estado de Sergipe - Brasil.  Apresentado em pôster na 55ª Reunião Anual da SBPC, 13 a 18 de julho de 2003. Recife, 2003.