Voltar à Página da AGB-Nacional


                                                                                            

   

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

MEIO FÍSICO URBANO E DIAGNÓSTICO AMBIENTAL: ESTUDO DE CASO NA MICROBACIA HIDROGRÁFICA DO CÓRREGO CERCADINHO,

BELO HORIZONTE -MG*

 

 

SOUZA, Jorge Batista de1a

FIGUEIREDO, Múcio do Amaral1b

BUENO, Guilherme Taitson1

DINIZ, Alisson Duarte1

 

 

1 Curso de Geografia e Análise Ambiental

Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH

 

 

ajorgsouza@ibest.com.br

bm67f@yahoo.com.br

 

 

Palavras-chave: Meio Físico, Diagnóstico Ambiental, Microbacia Hidrográfica

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

Nas últimas décadas, a bacia hidrográfica estabeleceu-se como unidade fundamental para os estudos do ambiente. Prova disso é a difusão do termo microbacia, até pouco tempo de uso restrito a setores específicos como a hidrologia e a geomorfologia, mas que se tornou, nos últimos anos, de domínio público. Isso se justifica, sobretudo, pela importância da água como veículo de transporte e meio de propagação seja das soluções do solo, dos sedimentos, dos poluentes ou dos vetores de doenças, além do uso em atividades humanas diárias.

Uma microbacia hidrográfica pode ser definida como o conjunto de terras drenadas por um rio principal e seus afluentes, cuja delimitação é dada pelas linhas divisoras de água que demarcam seu contorno. Estas linhas são definidas pela conformação das curvas de níel existentes na carta topográfica e ligam os pontos mais elevados da região em torno da drenagem considerada (Cunha & Guerra, 1996).

No diagnóstico ambiental da microbacia, a discussão dos aspectos geomorfológicos e suas diversas implicações, terá uma importante papel na elaboração do diagnóstico final contemplando outras análises biofísicas. Nesse sentido, podemos entender a Geomorfologia como a ciência que estuda a forma, gênese e evolução do modelado dos relevos de uma paisagem, representando a expressão espacial de uma superfície e compondo diferentes configurações da paisagem morfológica. Entretanto, a Geomorfologia não se detém apenas em estudar a topografia, pois envolve os processos responsáveis pela configuração de um relevo, que podem ser endógenos ou exógenos. Os primeiros referem-se às mudanças ocorridas na litosfera; enquanto os processos exógenos traduzem as mudanças ocorridas na atmosfera, biosfera e hidrosfera. Na verdade a gênese de um relevo é elaborada pela integração de ambos os processos no espaço e no tempo.

Segundo Guerra & Cunha (1996), a Geomorfologia pode possuir um caráter integrador na medida em que procura entender a evolução espaço-tempo dos processos do modelado terrestre, tendo em vista escalas de atuação desses processos, antes e depois da intervenção humana, em um determinado ambiente. O geomorfólogo deve estar muito atento a essas intervenções, que podem acelerar em poucos anos processos ou ciclos geomorfológicos que levariam décadas, séculos ou milhares de anos para serem concluídos.

É evidente que o relevo atual, cuja diversidade superficial é o produto do intemperismo das rochas e da decomposição da cobertura vegetal, comporta uma gama de interferências que somente pode ser compreendido à custa de uma investigação minuciosa da paisagem, sem esquecer que o substrato litológico da paisagem é muito influenciado pelos diferentes regimes climáticos passados e presentes. Assim, a complexa rede de interrelações que compõem a análise geomorfológica pode servir às disciplinas vizinhas (biogeografia, hidrologia, pedologia, engenharia civil, geologia, etc) e atingir a almejada objetividade de diagnosticar e prognosticar transformações e impactos ambientais passados, presentes e futuros na paisagem atual na escala de uma microbacia hidrográfica ou de espaços territorialmente maiores.

Nesta perspectiva, pode-se imaginar que o modelado de uma paisagem evidenciada em uma microbacia pode ser considerado como uma representação concreta que comporta e acomoda os recursos naturais desta unidade espacial.

De acordo com essas idéias, decidiu-se adotar os limites da microbacia hidrográfica do córrego Cercadinho, onde se encontra o campus Estoril do UNI-BH (Centro Universitário de Belo Horizonte) como uma área em que se justifica o investimento em atividades de pesquisa e extensão, por uma série de motivos, dentre os quais:

-          trata-se de uma área de expansão urbana recente e acelerada, onde os problemas ambientais e sanitários se apresentam bastante visíveis;

-          verifica-se grande disparidade na população da bacia quanto ao aspecto socioeconômico. Determinados setores, sobretudo na alta e média microbacia, concentram populações de renda elevada, enquanto na parte baixa da microbacia existem moradores de baixa renda, que residem em vilas e favelas, geralmente às margens do córrego;

-          o córrego Cercadinho é dos poucos afluentes do Ribeirão Arrudas cuja calha encontra-se, em sua maior parte, descoberta e sem canalização. A mata ciliar ainda existe, em trechos descontínuos. Trata-se, assim, de um curso d’água cuja intervenção antrópica, até o momento, não tornou impraticável sua recuperação;

-          parte da microbacia do córrego do Cercadinho apresenta baixo grau de interferência antrópica, pois faz parte da Área de Proteção Especial da COPASA-MG (Cia. de Águas e Saneamento de Minas Gerais), onde se encontra um importante ponto de captação de águas. Nessa parte da bacia (alto Cercadinho), a taxa de urbanização é muito baixa e as características físicas do meio (cobertura vegetal, solos, formas de relevo, hidrologia, etc.) apresentam-se próximas das originais. Isso favorece as investigações do meio natural e permite que se levantem hipóteses sobre a evolução pretérita da bacia e sobre suas características anteriores ao processo de urbanização.

No presente trabalho faz-se uma apresentação de alguns aspectos do meio físico, analisando-se as bases geológicas e pedogeomorfológicas da área investigada, além de indicadores de uso e ocupação do solo, associando-os ao processo de diagnóstico ambiental, utilizando a microbacia hidrográfica como unidade territorial analítica.

 

 

CARACTERÍSTICAS DO MEIO FÍSICO LOCAL

 

A ocupação da microbacia do córrego Cercadinho teve início em suas partes norte e noroeste (baixo curso). Mais recentemente, os setores leste e centro-sul vêm passando por rápido processo de urbanização. A bacia encontra-se, assim, no contato entre a área não urbanizada e a área urbanizada e suas partes ainda não ocupadas vêm passando por grande valorização e pressão imobiliária. Além disso, como já abordado, a microbacia ainda preserva uma área protegida, a APE (Área de Proteção Especial) Cercadinho, criada pelo Decreto Estadual nº 32017, de 05 de novembro de 1990. Trata-se da mais antiga área de mananciais para abastecimento de água do município de Belo Horizonte que, a partir de 1990, passa a ser protegida por lei. Essa parcela da bacia apresenta, por esse motivo, baixo potencial de degradação ambiental.

A bacia hidrográfica do Córrego Cercadinho situa-se sobre o domínio geológico compreendido pela borda noroeste do Quadrilátero Ferrífero (Q.F.). Esta borda configura-se em uma estrutura denominada geologicamente como um homoclinal, e geomorfologicamente denominada como um hog back. Ou seja, as duas denominações referem-se à presença de uma estrutura inclinada alinhada no sentido geral SW - NE, composto de diversas camadas de rochas metassedimentares, cujo mergulho (inclinação) ocorre em direção sudeste, para o centro do Q. F.

Segundo ALKMIN & MARSHAK (1998) e UHLEIN & OLIVEIRA (2000), o Q. F. situa-se na porção meridional do cráton do São Francisco, sendo constituído pelas seguintes unidades litoestratigráficas principais: terrenos granito-gnáissicos de idade arqueana, constituindo os Complexos Metamórficos dômicos, e as sequências supracrustais representadas pelo Supergrupo Rio das Velhas (SRV), de idade neoarqueana, pelo Supergrupo Minas (SM) e o Grupo Itacolomi, de idade proterozóica. O arcabouço estrutural do Q. F. registra a influência de quatro eventos tectono-termais superpostos (ALMEIDA & HASUI, 1984; CARNEIRO, 1992; MARSHAK et al., 1992, BRITO NEVES et al., 1996; ALKMIN & MARSHAK, 1998):

 

                       Jequié ou Rio das Velhas com três episódios tectônicos (2,8 – 2,6 Ga);

                       Transamazônico com quatro episódios tectônicos (2,51 – 1,9 Ga);

                       Tafrogênese estateriana (Espinhaço – 1,78 – 1,70 Ga);

                       Brasiliano com duas fases de deformação (0,7 – 0,45 Ga).

 

A área específica englobada pela presente investigação, compreende os setores de alto e médio Cercadinho, e encontra-se inteiramente desenvolvida sobre unidades geológicas pertencentes ao Q. F., correspondendo à sua borda noroeste, no contato com o Complexo Cristalino de Belo Horizonte (área dômica). As nascentes do Córrego Cercadinho encontram-se sobre rochas da Formação Gandarela, constituindo o topo do Grupo Itabira, composta de filitos dolomitícos e hematíticos. Ocorrem dolomitos de granulação fina a média e coloração creme, cinza, rosa ou vermelho (PBH-UFMG-IGC, 1995), sendo o último tipo, rico em hematita e maghemita, produzindo os solos marrom avermelhados encontrados nas vertentes sobre seu domínio. Além disso, são geralmente ricos em manganês, enriquecidos a partir da dissolução do carbonato dolomítico pelas águas pluviais de percolação (PBH-UFMG-IGC, 1995). Na maior parte da área de ocorrência, a Formação Gandarela constitui faixa deprimida, de direção SW - NE, paralela ao eixo da Serra do Curral, sendo extensivamente recoberta por depósitos superficiais laterizados de natureza torrencial, provavelmente de idade terciária. Na área investigada no presente relatório, na altura do Córrego Cercadinho, o leito do mesmo desenvolve-se de acordo com a feição deprimida, de direção SW – NE, proporcionada pela dissolução dos dolomitos e, atualmente, erodindo parte da cobertura laterítica, desenvolve um leito fluvial encaixado, cujo talvegue encontra-se diretamente sobre as rochas da Formação Gandarela.

No seu terço superior, o vale do Córrego Cercadinho encontra-se delimitado sobre duas cristas (interflúvios). A primeira, margem direita, corresponde à Formação Cauê, constituindo a base do Grupo Itabira. É composta por itabiritos silicosos, hematíticos e dolomíticos. Segundo relatório do convênio PBH-UFMG-IGC (1995), esta Formação constitui a crista, indo até a base do terço superior da escarpa da Serra do Curral. A litologia característica é o itabirito silicoso, uma formação ferrífera de fácies óxido constituída de quartzo finamente granular e hematita, sendo localmente rico em maghemita. Podem ser constatadas também intercalações de lentes de diferentes espessuras de itabirito dolomítico, filito hematítico e filito dolomítico (PBH-UFMG-IGC, 1995). Tais intercalações estão associadas à sua origem litológica sedimentar, demarcando o acamamento desta unidade. O itabirito tem sua origem nos sedimentos formados pela precipitação química do ferro e do silício a partir da água do mar, pois, em vários períodos do Pré-cambriano, a região onde se situa o Q. F. foi ciclicamente ocupada por mares continentais, responsáveis pela origem dos sedimentos carbonáticos (dolomitos) e ferruginosos (itabiritos), posteriormente submetidos a intenso metamorfismo (UHLEIN & OLIVEIRA, 2000).

Ainda segundo o convênio PBH-UFMG-IGC (1995), as camadas de itabirito têm direção geral SW - NE, mergulhando para SE com ângulos que variam de 45o – 60o até próximo de 90o, configurando-se geomorfologicamente em estruturas em hog back e cristas isoclinais, respectivamente. Além disso, são extensivamente recobertas por formações lateríticas ricas em fragmentos de itabirito e de hematita/maghemita, provavelmente de idade cenozóica (terciária). Estas couraças lateríticas superficiais recobrem unidades topograficamente inferiores e menos declivosas, avançando sobre as vertentes que compõem a margem direita do terço superior da Bacia do Cercadinho.

A segunda crista, margem esquerda, topograficamente inferior à primeira, corresponde à Formação Cercadinho, base do Grupo Piracicaba, composta por quartzitos cinzas de granulometria média a muito grossa, hematíticos, gradados ou em estratificação cruzada de médio a pequeno porte, intercalados por camadas filíticas cinza-prateadas. As cristas correspondem às camadas quartzíticas e as faixas levemente deprimidas correspondem às camadas filíticas, menos resistentes à ação da erosão, por onde se desenvolvem canais de drenagem superficial, funcionando como áreas de fluxo preferencial.

Desta maneira, percebe-se que a área do alto e médio Cercadinho situa-se sob um domínio geológico-geomorfológico, cujas rochas são de difícil intemperismo e pouco susceptíveis à erosão natural, ou seja, a evolução da paisagem local (desnudação geoquímica) desenvolve-se de forma muito lenta.

Para uma melhor abordagem e análise do tema, optou-se por dividir a microbacia em setores.

O setor 1 (Lagoa Seca) corresponde à extremidade nordeste da bacia. Apresenta altitudes elevadas e, exceto no seu limite leste (Serra do Curral), topografia predominantemente plana. Trata-se de uma área urbanizada em intenso processo de verticalização.

O setor 2 (Alto Cercadinho) corresponde à parte sudeste da bacia. Abrange as nascentes do Córrego do Cercadinho e apresenta altitudes elevadas e relevo predominantemente acidentado. Nesse setor encontra-se a APE-Cercadinho, administrada pela COPASA-MG. Trata-se de uma área de preservação de mananciais para abastecimento cujas características do meio físico foram pouco modificadas. A urbanização atinge as bordas do setor. Abrange ainda uma antiga área de mineração, hoje abandonada, responsável pela degradação de sua parte leste.

O setor 3 (Médio Cercadinho) corresponde à parte centro-norte da bacia. Após cortar as cristas do Alto Cercadinho, o perfil desse córrego apresenta, aqui, menores declividades. O relevo é acidentados nas bordas do setor e mais plano na parte central. Todo o setor é urbanizado. A cobertura vegetal é encontrada apenas em quintais e em uma faixa descontínua, ao longo do córrego. Nesse setor inicia-se, de fato, a degradação do Cercadinho: alteração das margens, disposição de entulhos, adição de esgotamento sanitário residencial e comercial, assoreamento, etc.

Foram realizadas investigações pedogeomorfológicas e de compartimentação do relevo na parte superior da microbacia, onde ainda há menor intervenção antrópica nas feições naturais do relevo. Foram identificados 5 compartimentos de relevo, associados a diferentes coberturas superficiais: 1) vertentes de declividade elevada cobertas por superfície lateritizada; 2) vertentes de declividade elevada com cambissolos, regossolos e litossolos; 3) vertentes de baixa declividade com latossolos; 4) vertentes de declividade elevada com regossolos e litossolos, próximas à rede de drenagem; 5) superfícies planas com solos aluviais, próximas à rede de drenagem. O setor sudoeste da bacia apresenta-se em estágio mais avançado no processo de instalação da drenagem e os canais superficiais já se encontram organizados e encaixados ao longo de falhas e fraturas. A hipótese de evolução da primeira fase do córrego ter sido por dissolução química é levantada devido ao fato de que parte da microbacia se encontrar sobre rochas dolomíticas, mais susceptíveis à dissolução/erosão . Propõe-se, assim, para a área em questão, um modelo de morfogênese inicialmente dominado pela dissolução química, por drenos subsuperficiais ao longo de fraturas e falhas, que evolui para a abertura da drenagem e instalação de canais fluviais superficiais.

Na Análise da compartimentação do relevo, forma observadas diversas formas muito associadas à distribuição geográfica dos solos. Assim, as características geomorfológicas dessa parte da microbacia foram correlacionadas com as superfícies geomórficas  e às classes gerais de solos, demonstrando, dessa forma, como o parâmetro forma do relevo é importante para os trabalhos de mapeamento pedológico e diferenciação dos solos de uma região, proporcionando um excelente suporte metodológico para o diagnóstico do meio físico.

Os aspectos da urbanização têm um significativo papel na modificação/degradação observada nos outros setores da microbacia. Entretanto, devido à inacessibilidade, por serem áreas privadas, a análise "in loco" baseou-se na percepção geral do conjunto de edificações e na sua distribuição espacial.

 

 

SIGNIFICADO DO MEIO FÍSICO NA ORGANIZAÇÃO DO AMBIENTE URBANO

 

A área investigada abrange as vertentes dos setores alto e médio. As observações foram divididas pelas margens esquerda e direita do curso fluvial. No primeiro setor da microbacia (alto Cercadinho), a margem esquerda é constituída por vertentes menos extensas do que as da margem direita, porém mais declivosas. Tal assimetria pode estar relacionada ao local de evolução do curso fluvial do Córrego Cercadinho, controlado por sua vez, por falhas e fraturas e pelo relevo deprimido encontrado na faixa de ocorrência da Formação Gandarela, cuja litologia é constituída de filitos dolomíticos, mais intemperizáveis na presença de água. Além disso, repousa sobre os filitos um depósito laterítico, extensivamente ocorrente na margem direita - onde se faz presente uma área de mineração abandonada, responsável por grande e anômalo aporte de sedimentos para dentro da microbacia - sendo mais resistentes à erosão. Outros fatores são também objetos de análise nas vertentes da margem direita, pois ali se concentram todas as atividades antrópicas causadoras de grandes transformações na paisagem local. As duas mais evidentes e impactantes podem ser assim organizadas:

1)       Explotação do minério de ferro da Formação Cauê

Provavelmente a atividade antrópica pioneira neste local. Durante as décadas anteriores à década de 80 do séc. XX, foi responsável pelo rebaixamento da crista de interflúvio e ao longo do terço superior da vertente NW da Serra do Curral (borda norte do QF e zona de cabeçeiras do córrego Cercadinho). A atividade mineradora provocou importantes mudanças na topografia local, através de grandes escavações e áreas de disposição de rejeitos (sedimentos com baixa concentração de ferro). Em parte da minerada, o impacto ambiental pôde ser mitigado através da construção da malha urbana, diminuindo a erosão dos sedimentos das áreas de disposição de rejeitos e das áreas de escavação, que devem ter sido terraplenadas e reorganizadas. Entretanto, nas partes ainda não urbanizadas, as marcas da atividade mineradora ainda se fazem presentes, denotando uma área intensamente degradada, não só pelo problema da intensidade dos processos erosivos ali presentes, mas também pelo grande impacto visual negativo, representado pela paisagem “lunar”, desprovida de cobertura vegetal adequada. Os processos erosivos visualizados nesta área de mineração abandonada (Figuras 1 e 2), são responsáveis por grande aporte de sedimentos em direção ao curso fluvial do Córrego Cercadinho, desaguando na sua zona de cabeçeiras.

 

  

 

Figuras 1 (esquerda) e 2 (direita): Imagens mostrando focos de erosão na margem direita do alto Cercadinho, em área de mineração abandonada, responsáveis por aporte anômalo de sedimentos para dentro da microbacia. Na foto 1, pode-se ver a área minerada em primeiro plano (Formação Cauê /canga laterítica), o vale fluvial em segundo plano, o morro do Cercadinho em terceiro plano (Formação Cercadinho) e, ao fundo, a Depressão de Belo Horizonte, onde aflora o complexo cristalino. Na foto 2, pode-se ver grandes ravinamentos desenvolvidos sobre áreas de disposição de rejeitos de mineração (Formação Cauê).

 

Grande parte dos sedimentos segue para jusante, depositando-se ao longo da microbacia (médio e baixo Cercadinho). O perfil longitudinal do córrego apresenta um forte gradiente de declividade no primeiro setor (alto), favorecendo o transporte de sedimentos de várias granulometrias, desde argila até matacões. Porém, o problema do excesso de sedimentos no leito fluvial se manifestará com maior intensidade provavelmente no terço inferior da microbacia (baixo Cercadinho), através do acúmulo de sedimentos no seu talvegue (assoreamento), ocasionado pela diminuição no gradiente de declividade e da capacidade de transporte do mesmo. No entanto deve ser considerado o aporte de descargas hídricas provindas dos sistemas sanitários dos prédios que compõem a densa e verticalizada malha urbana de parte da microbacia.

2)       Proliferação da malha urbana

Após a inviabilização econômica da explotação de minério de ferro na região onde se encontra atualmente um bairro de classe média alta, a área foi destinada à incorporação imobiliária. A progressiva impermeabilização do solo vem trazendo uma conseqüência negativa e inexorável. O aporte de águas pluviais canalizadas para dentro da calha fluvial do córrego Cercadinho pode estar sofrendo um significativo aumento, pois as áreas da superfície do solo impermeabilizadas com construções civis proporcionam uma interrupção e/ou crescente diminuição no índice de infiltração de águas pluviais. O excedente é então, escoado por superfícies impermeabilizadas (telhados, calhas, tubulações, ruas pavimentadas, canaletas, sarjetas, galerias pluviais, etc.) até confluir com o córrego Cercadinho. Os impactos do aumento de aporte de águas pluviais deve se manifestar nos setores médio e baixo da microbacia, em áreas de menor declividade ou em que o mesmo está canalizado.

O setor médio da microbacia, evoluindo à partir da ruptura de declive com o segmento do alto Cercadinho, apresenta características ambientais distintas. A começar pela total urbanização da sua área de abrangência, trazendo diversas modificações na morfologia original das vertentes. A proliferação da malha urbana, com progressiva impermeabilização do solo, além das intervenções de engenharia pública (pavimentação de ruas, construção de galerias pluviais, urbanização de praças, etc.), proporciona um aumento substancial no aporte de águas no leito do córrego, aumentando consequentemente sua capacidade de erosão das margens durante picos de descargas pluviométricas. Nos segmentos de baixa vertente deste setor da microbacia, podem ser verificadas diversas anomalias no processo de urbanização, tais como disposição inadequada de entulhos de construções, construções de prédios na margem do córrego, além de conflitos sociais que refletem nas formas de uso e ocupação, no que pode ser denominado de favelização ripariana (construções indigentes ao longo das margens).

Por outro lado, observa-se que nos segmentos de meia e alta vertente uma malha urbana voltada para classes sociais mais favorecidas. Nestes segmentos da paisagem, predomina litologia filítica de grande estabilidade estrutural. Mesmo sob diversas intervenções de engenharia (cortes de taludes, construções de ruas, adaptações dos terrenos às conformidades dos prédios, etc.) o terreno não apresenta quaisquer anomalias ou cicatrizes que possam constituir risco geológico, tais como a ocorrência de movimentos de massa (figura 3).

 

Figura 3: Talude advindo de corte no terreno, mostrando afloramento de filito alterado da Formação Cercadinho com fraturas (setas) perpendiculares ao mergulho das camadas. Observa-se um ambiente geológicamente estável onde a pedogênese tem dificuldade para se estabelecer (neossolos litólicos naparte superior da foto).

 

Algumas feições específicas produzidas pela atividade antrópica (urbanização) podem ser apontadas como pontos de instabilidade na paisagem, pois funcionam como fatores catalisadores de manifestações de erosão e/ou movimentos de massa, interferindo no modelado natural de forma intensa (figuras 4 e 5) e gerando aporte anômalo de sedimentos para o curso fluvial do córrego do Cercadinho. Além disso, quebram o pouco que resta da harmonia da paisagem local.

 

         

Figura 4 (esquerda) e 5 (direita): na foto 4, vê-se áreas de erosão (sulcos e ravinas) em aterro de arruamento abandonado, geradoras de desarmonia na paisagem local (impacto visual negativo). Na foto 5, ravinamento em aterro de sustentação da pista da uma avenida. Notar as fendas indicativas de movimentação das bermas do aterro (setas).

 

Portanto, pode-se perceber que, assim como outras microbacias urbanizadas do  município de Belo Horizonte, a microbacia hidrográfica do córrego Cercadinho comporta diversos problemas ambientais, fruto da atuação antrópica nas vertentes que a compõem. Com isso, o relevo da região vem sendo modificado em um curto espaço de tempo (cerca de 40 anos), acompanhado de mudanças na cobertura vegetal. As mudanças nas formas de relevo vêm sendo realizadas de acordo com as intervenções supra mencionadas. Os impactos de cunho geomorfológicos gerados pela ação antrópica são contínuos mas podem ser mitigados através de um planejamento urbano em que o monitoramento constante seja parte das políticas públicas de gestão ambiental.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O presente trabalho resultou de parte do relatório em fase de consolidação de diagnóstico ambiental da microbacia hidrográfica do córrego Cercadinho, Belo Horizonte - MG. O levantamento e análise dos aspectos geológico-geomorfológicos mostraram-se de grande valia na categorização dos ambientes identificados nos três setores da microbacia analisados. Podem ser assim delimitados:

-          O levantamento de solos em topossequência para além das cercanias da APE COPASA-MG seria necessário para a consolidação da evolução pedológica e para a análise da sequência transporte - deposição ao longo da bacia. Entretanto, dadas as condições de inacessibilidade a todas as áreas que compõem as vertentes, inferiu-se a dinâmica à jusante, com base em observações em taludes de ruas e de uma área pública desprovida de construções, às margens do córrego cercadinho no seu setor médio.

-          A preservação de parte da microbacia através da constituição de uma Área de Proteção Especial é estratégica. Por estar situada numa zona de cabeçeira, proporciona uma natural mitigação nos impactos à jusante (setores médio e baixo). O setor médio se encontra bastante degradado, pois é alvo de ocupação desordenada nas margens do córrego, constituindo uma área de crescente risco.

-          O baixo risco geológico (estabilidade do manto de alteração se substrato filítico) verificado nas áreas de ocupação verticalizada demonstra uma clara segregação do espaço urbano, onde somente as áreas de risco às margens do curso fluvial são ocupadas por população de baixa renda.

-          Por último, a investigação demonstrou a importância de se conhecer prévia e detalhadamente o meio físico das áreas destinadas à incorporação imobiliária e consequente expansão da malha urbana.

 

Agradecimentos: À Divisão de Controle e Proteção de Mananciais da COPASA-MG, por permitir o acesso à APE-Cercadinho para os levantamentos pedogeomorfológicos.

 

 

NOTA

 

* Trabalho referente a parte do relatório final dos estudos de diagnóstico ambiental da microbacia do córrego Cercadinho, realizado por equipe multidisciplinar do Curso de Geografia e Análise Ambiental do Centro  Universitário de Belo Horizonte - UNI-BH, durante o ano de 2002. O relatório é parte do Projeto Manuelzão, comandado pela UFMG, de diagnóstico e conservação da bacia hidrográfica do Rio das Velhas, principal afluente do Rio São Francisco.  

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALKMIN, F. F. & MARSHAK, S.. Transamazonian Orogeny in the Southern São Francisco Craton Region, Minas Gerais, Brazil: evidence for Paleoproterozoic Collision and Collapse in the Quadrilátero Ferrífero. Precambrian Research, 90: 29 – 58. 1998.

 

ALMEIDA, F. F. M.; HASUI, Y. (ed.). O Pré-Cambriano no Brasil. São Paulo. Edgard Blücher. 1984.

 

BRITO NEVES, B. B.; SÁ, J. M.; NILSON, A. A., BOTELHO, N. F.. A Tafrogênese Estateriana nos Blocos Paleoproterozóicos da América do Sul e Processos Subsequentes. Geonomos, 3: 1 – 21. 1996.

 

CARNEIRO, M. A.. O Complexo Metamórfico do Bonfim Setentrional. Revista da Escola de Minas – REM, 45: 155 – 156. 1992.

 

CUNHA, S. B. da & GUERRA, A. J. T. Degradação Ambiental. In: Guerra, A. J. T. & Cunha, S. B. da (Org.). Geomorfologia e Meio Ambiente. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil. 1996. p. 337-379.

 

GUERRA, A. J. T. & CUNHA, S. B. da (Org.). Geomorfologia e Meio Ambiente. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil. 1996. 372 p.

 

MARSHAK, S.; ALKMIN, F. F.; JORDT-EVANGELISTA, H.. Proterozoic Crustal Extension and the Generation of Dome-and-Keel Structure in an Archean Granite-greenstone Terrane. Nature, 357: 491 – 493. 1992.

 

PBH-UFMG-IGC (Prefeitura Municipal de Belo Horizonte – Universidade Federal de Minas Gerais – Instituto de Geociências). Estudos Geológicos, Hidrogeológicos, Geotécnicos e Geoambientais Integrados no Município de Belo Horizonte. Relatório Final. Belo Horizonte. UFMG – IGC. 1995.        

 

UHLEIN, A.  & OLIVEIRA, H. A.. História Geológica do Quadrilátero Ferrífero. Ciência Hoje, 27(160): 68 – 71. 2000.