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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

Suscetibilidade e Risco à Erosão e Escorregamentos em Cabeceiras de Drenagem em Anfiteatro, Barra Mansa (RJ).

 

 

Cleber Marques de Castro1 & Maria Naíse de Oliveira Peixoto2

1Geógrafo, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGG/UFRJ).

2Geógrafa, Profa Assistente do Departamento de Geografia (IGEO/UFRJ),

Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

Palavras Chave: Processos erosivos; escorregamentos; risco; cabeceiras de drenagem

 

Eixo Temático:  3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: 3.3 - Gestão e Planejamento Ambiental.


 

 

Introdução

 

Na cidade de Barra Mansa, localizada no médio vale do rio Paraíba do Sul, a ocupação desordenada e a dinâmica dos processos geomorfológicos atuantes nos compartimentos de colinas e morros dissecados sobre substrato cristalino têm resultado no agravamento dos problemas relacionados à erosão, aos movimentos gravitacionais de massa (escorregamentos) e às enchentes. A remoção e deposição de materiais nas encostas e calhas fluviais estão associadas à evolução dos sistemas de drenagem, responsáveis pela atual distribuição espacial da sedimentação fluvial (terraços e planícies fluviais) e dos depósitos de encosta (rampas de colúvio e alúvio-colúvio). Estas feições deposicionais encontram-se atualmente sob forte pressão da ocupação, que se dá predominantemente  ao longo dos eixos de drenagem (fundos de vale, reentrâncias de cabeceiras de drenagem) e encostas adjacentes.

O papel dos fatores morfológicos e das propriedades das coberturas sedimentares/solos sob diferentes usos no desencadeamento da erosão superficial hídrica no médio vale do rio Paraíba do Sul foi analisado em diversos trabalhos realizados no Núcleo de Estudos do Quaternário e Tecnógeno - Nequat/UFRJ (Peixoto, 1993; Lessa et al., 1995; Santos, 1996; Salgado, 1996, entre outros), e, mais recentemente, por Vieira (2002) e Souza (2003)[1]. Estes estudos identificaram controles locais do desencadeamento de diferentes tipos de feições erosivas e sua abrangência espacial, uma vez que estão associados a padrões evolutivos de cabeceiras de drenagem em anfiteatro definidas por Moura et al. (1991), de caráter regional. O mapeamento sistemático de feições erosivas remontantes conectadas à rede de drenagem, relacionadas a fluxos hídricos subsuperficiais, e de voçorocas/ravinas desconectadas (Peixoto et al., 1999; Salgado et al., 2001; Castro, 2002; Silva, et al., inédito), vem permitindo documentar controles morfométricos, lito-estruturais e de nível de base na ocorrência e reativação das feições erosivas conectadas e desconectadas da rede hidrográfica em diversas sub-bacias de drenagem afluentes do rio Paraíba sob usos agrícola e urbano.

Esforços no sentido de viabilizar a aplicação dos conhecimentos existentes sobre a estocagem de sedimentos em cabeceiras e sub-bacias de drenagem na definição de zonas com diferentes graus de suscetibilidade à ocorrência dos processos erosivos de superfície e subsuperfície foram realizados por Moura et al. (1997) e Iervolino (1999). Não obstante os avanços consideráveis obtidos na cartografia e análise espacial da erosão através de SIG, a sua utilização em avaliações de risco, tal como efetuada em Egler et al. (1998), ainda permanece um campo carente de investigação e reflexão.

No presente trabalho, serão apresentados os resultados obtidos na análise espacial de processos erosivos canalizados e movimentos gravitacionais de massa em frentes de expansão urbana da cidade de Barra Mansa (RJ) localizadas em bacias de drenagem tributárias do rio Paraíba do Sul. A análise teve por objetivo identificar áreas com diferentes graus de suscetibilidade em função da situação geomorfológica de ocorrência e comportamento das feições erosivas e escorregamentos identificados, contribuindo para a discussão de critérios para a definição de zonas de risco atual e potencial  (associado a cenários futuros).

 

Suscetibilidade e risco como processo

 

A suscetibilidade à erosão e escorregamentos é referida na literatura como a probabilidade de ocorrência de um evento em uma determinada área (Cerri e Amaral, 1998), sem considerar os danos e prejuízos aos equipamentos urbanos, às residências e à população. As cartas de suscetibilidade são utilizadas para o planejamento do uso do solo e das atividades econômicas, principalmente por profissionais ligados à Geotecnia, à Geomorfologia e à Agronomia.

O conceito de risco, por sua vez, traz a noção de dano, perda e/ou prejuízos causados por processos e eventos, o que amplia em muito a abrngência das análises necessárias para o seu dimensionamento. Assim, o risco implica na mudança de estruturação do problema, sendo analisado sob diferentes perspectivas (Beck 1986; Cerri e Carvalho, 1990; Guzzetti et al., 1999; Canil 2001; Godard et al., 2002; entre outros).

Os processos de erosão acelerada e movimentos de massa figuram no rol daqueles  passíveis de acarretar os chamados riscos naturais[2]. Apresentam estreita relação com processos hidrológicos e atmosféricos, e também com as atividades humanas, atuantes no desencadeamento, aceleração ou mesmo redução e estagnação destes fenômenos.

Nas Geociências, análises de risco relacionadas às atividades econômicas e de uso do solo que interferem e/ou são afetadas direta ou indiretamente por processos da dinâmica superficial vêm sendo conduzidas no âmbito da Geomorfologia, Geologia de Engenharia e/ou “Ambiental” e da Geologia Econômica (vinculada à exploração de bens minerais), além da  Geotecnia. Os riscos geológicos são definidos nestes estudos como situação de perigo ou dano, ao homem e a propriedades, em razão da possibilidade de ocorrência de processo geológico, induzido ou não (Cerri e Amaral, 1998; Zuquette e Nakazawa, 1998, entre outros).  

A quantificação do risco é efetuada através de diferentes equações (vide, por exemplo,  Augusto Filho, 2001), que se propõem, de modo geral, a reunir indicadores e estabelecer valores que permitam representar diferentes graus de perigo, vulnerabilidade e exposição a processos e eventos (cf. Tira et al., 2001). Considerando-se que as dimensões espacial e temporal do risco tendem a se concentrar sobre os eventos e acidentes já deflagrados e de localização precisa em detrimento daqueles passíveis de serem avaliados a partir de cenários em construção, buscou-se tratá-los, aqui, como partes de um processo em curso, de modo a possibilitar uma melhor avaliação das interações com a dinâmica da sociedade.

 

Metodologia

 

A seleção de áreas representativas dos padrões de ocupação nas frentes de expansão urbana constituiu o primeiro passo para a construção de cenários de risco atuais e futuros. Teve o intuito de possibilitar o acompanharmento do comportamento das feições erosivas e escorregamentos mapeados através de fotografias aéreas em escala de detalhe (PMBM, escala 1:8.000-1989), atualizados por cobertura aerofotogramétrica mais recente (1999) e em reconhecimentos de campo (2002/2003). As áreas mapeadas abrangem os principais eixos de drenagem da margem sul do rio Paraíba do Sul (figura 1), onde a expansão urbana tem sido bastante acentuada, em geral a partir de núcleos instalados ao longo da Rodovia Presidente Dutra (BR-116) que se ampliam, posteriormente, para montante nestas bacias.

 

Figura 1: Município de Barra Mansa (RJ) e distritos, com a localização dos principais afluentes do rio Paraíba do Sul. Modificado de Firjan/RJ s/d.

 

As localidades Siderlândia, São Domingos, Cotiara e Km 4 (figura 2), foram selecionadas em uma primeira etapa do estudo, sendo apresentada neste trabalho as análises efetuadas para o Km 4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 2:  Trechos das sub-bacias dos rios (de nordeste para sudeste) Bananal, Bocaiuva (Bocaininha), córrego Cotiara e rio Barra Mansa, afluentes do rio Paraíba do Sul, principais frentes de expansão urbana no distrito-sede do município de Barra Mansa (RJ). Em destaque, a localização das áreas mapeadas. Fonte: Folha Barra Mansa (DSG, 1:25000, 1981).

 

A localidade Km 4 encontra-se na bacia do córrego Cotiara, tributário do rio Paraíba do Sul, tendo a ocupação se instalado às margens da rodovia RJ-157, que liga o distrito sede de Barra Mansa à cidade de Bananal (SP) – figura 3. Apresenta uma morfologia de colinas e morros predominantemente dissecados, com declividades acentuadas nas encostas, vales estreitos e encaixados, contrastando com topos de convexidades suaves.

 

 

Figura 3: Fotografias aéreas (PMBM, 1989, escala 1:8.000) com a visualização da morfologia e padrão de ocupação na localidade Km 4, município de Barra Mansa (RJ). Observa-se na extremidade superior direita da foto, o padrão de ocupação na localidade Vila Independência, mais adensado, se expandindo das vias de acesso principais, localizadas nos eixos de drenagem, para as áreas de topografia mais suave (reentrâncias de cabeceiras de drenagem).

 

A área de ocupação mais adensada no Km 4 encontra-se em grande parte restrita ao fundo de vale do córrego Cotiara e de um pequeno tributário adjacente à rodovia RJ-157, sendo de caráter eminentemente residencial. Atualmente, a ocupação está se expandindo em direção às vertentes onde se encontra a rodovia, inclusive na área destinada ao acostamento.

Para o reconhecimento e mapeamento das feições erosivas e escorregamentos de encostas, utilizou-se a tipologia apresentada em Castro (2002) e Castro et. al. (no prelo), baseada na geometria, situação de atividade e relação com diferentes tipos de intervenções (cortes de estrada, taludes e materiais de aterros, barragens etc.) e as feições indicativas dos diferentes mecanismos de erosão internos às feições - quadro 1.

O mapeamento de feições deposicionais relacionadas à retenção de sedimentos quaternários nos vales fluviais e reentrâncias de cabeceiras de drenagem em anfiteatro (terraço fluvial mais elevado - T1, níveis de sedimentação fluvial inferiores e rampas de alúvio-colúvio), e de origem tecnogênica, foi efetuado junto com a individualização dos diferentes tipos de cabeceiras de drenagem em anfiteatro e sub-bacias de zero e primeira ordem (cf. Moura et al., 1991; 1992), delimitadas pela linha divisora de águas.

 

Resultados e Discussões

 

A distribuição espacial de feições erosivas, movimentos gravitacionais de massa e feições deposicionais pode ser visualizada na figura 4. O trecho analisado da bacia do córrego Cotiara apresenta-se parcialmente esvaziado, com preservação localizada das feições de terraço 1 e rampas de alúvio-colúvio. Foram individualizadas, ao todo, 51 feições de erosão canalizada e escorregamentos, dos quais 21 de grande porte (com área superior a 400 m2) e 30 de médio e pequeno porte, em diferentes tipos de cabeceiras de drenagem e encostas laterais (tabela 1). Do total de 37 cabeceiras de drenagem em anfiteatro delimitadas, 25 (67,5% do total) são do tipo HCP (com hollow côncavo-plano), e 12 (32,5%) do tipo HCA (com hollow côncavo articulado).

A incidência de voçorocas nos HCP é expressiva: 44% apresentam voçorocas conectadas remontantes (sub-tipo 1.1) com ou sem outros tipos de feições erosivas, e 24% apresentam somente voçorocas/ravinas desconectadas (principalmente do sub-tipo 2.4). As voçorocas conectadas remontantes desenvolvem-se nos sedimentos alúvio-coluviais holocênicos dos HCPs, e ao alcançarem o lençol freático passam a constituir novas nascentes e canais de drenagem (foto 1).

 


 

CLASSIFICAÇÃO DE FEIÇÕES EROSIVAS E MOVIMENTOS GRAVITACIONAIS DE MASSA

TIPO

SUB-TIPO

DESCRIÇÃO

SITUAÇÃO

1. Voçoroca conectada

Feição que se encontra interligada com o canal fluvial adjacente (rede de drenagem atual)

1.1 “remontante”

Canal erosivo geralmente profundo, alongado e com ramificações, desenvolvido em rampas de alúvio-colúvio de hollows/fundos de vale côncavos-planos (cabeceiras do tipo HCP, cf. Moura et al, 1991); apresentam crescimento remontante em direção às rampas de alúvio-colúvio tributárias do eixo principal, por mecanismos associados predominantemente a fluxos de sub-superfície no pacote sedimentar e no contato com o embasamento cristalino.

A – Ativa

PA- Parcialmente Ativa

I – Inativa

1.2 “estrangulada”

Feição erosiva profunda e larga em seu trecho superior/médio e estreita no trecho inferior, desenvolvida geralmente em segmentos de média e alta encosta, atingindo o saprolito; apresenta predomínio de expansão lateral por mecanismos associados a fluxos sub-superficiais especialmente no contato deste com coberturas coluviais pouco espessas; geralmente resulta da expansão de feições estranguladas desconectadas até o fundo de vale adjacente ou da sua conexão com canais erosivos remontantes.

1.3 “canais adjacentes”

Feição produzida pela junção de canais erosivos adjacentes devido à sua expansão lateral.

1.4 “linear”

Feição erosiva estreita e alongada, com profundidade variável; desenvolve-se em hollows, encostas laterais/frontais e noses quando associadas à concentração de fluxos superficiais em valas, cercas e caminhos produzidos pelo gado (1.4.1), ou em hollows quando associada à convergência de fluxos superficiais e sub-superficiais devido à geometria do terreno (1.4.2); podem resultar da conexão entre voçorocas/ravinas descontínuas, anteriormente desconectadas da drenagem.

2. Ravinas e Voçorocas desconectadas

Feições não conectadas à rede de drenagem permanente

2.1 “em seções expostas do terreno”

Feição erosiva única ou conjuntos de canais erosivos desenvolvidos em faces expostas do terreno, por mecanismos associados ao escoamento superficial concentrado e/ou a fluxos sub-superficiais; podem ocorrer em cicatrizes de escorregamentos (2.1.1), em cortes de estrada/edificações ou em áreas de empréstimo (2.1.2).

A – Ativa

PA- Parcialmente Ativa

I – Inativa

2.2 “estrangulada”

Feição erosiva profunda e larga em seu trecho superior/médio e estreita no trecho inferior, desenvolvida geralmente em segmentos de média e alta encosta, em grande parte sobre o embasamento alterado; apresenta predomínio de expansão lateral por mecanismos associados a fluxos sub-superficiais no embasamento alterado e no contato deste com coberturas coluviais pouco espessas.

2.3 “canais adjacentes”

Feição erosiva produzida pela junção de canais erosivos adjacentes devido à sua expansão lateral.

2.4 “linear”

Feição erosiva estreita e alongada, com profundidade variável desenvolve-se tanto em hollows como em encostas laterais/frontais e noses quando associadas à concentração de fluxos superficiais em valas, cercas e caminhos produzidos pelo gado (2.4.1), ou em hollows quando associada predominantemente à convergência de fluxos superficiais e sub-superficiais devido à geometria do terreno (2.4.2); pode constituir feições erosivas descontínuas que tendem a se interconectar.

3. Movimentos Gravitacionais de Massa

3.1 Circular (rotacional)

Movimento com profundidade e limites laterais bem definidos cujo material rotaciona ao longo de superfície(s) de ruptura circular(es) ou curva(s); ocorre  associado a cortes de estrada e edificações (3.1.1), associado a entalhes erosivos e/ou fluviais (3.1.2) ou independente destes (3.1.3).

Não classificada

3.2 Planar (translacional)

Movimento geralmente comprido, raso, sem superfície de ruptura bem definida e com espraiamento do material de encosta; ocorre associado a cortes de estrada e edificações (3.2.1), associado a entalhes erosivos e/ou fluviais (3.2.2) ou independente destes (3.2.3).

3.3 Queda

Movimento rápido de blocos ou lascas de rocha associados a planos de fraquezas, não apresentando obrigatoriamente uma superfície de deslizamento (queda livre).

3.4 Corrida

Movimento rápido em que os materiais comportam-se como fluxos altamente viscosos, fruto da perda do atrito interno, associado à concentração de fluxos d’água.

4. Complexo

 

Sinergia de mecanismos impossibilitando o reconhecimento do principal.

Não classificada

Quadro 1: Tipologia de feições erosivas e movimentos gravitacionais de massa proposta por Castro et al. (no prelo). In: Castro (2002).

 

 

Figura 4: Distribuição espacial das feições erosivas, movimentos gravitacionais de massa, feições deposicionais e cabeceiras  de drenagem em anfiteatro na localidade Km 4.  A linha tracejada rosa delimita a área de concentração da ocupação. HCP = cabeceiras de drenagem em anfiteatro com hollow côncavo plano; HCA cabeceiras de drenagem em anfiteatro com hollow côncavo articulado; ENC = segmentos de encosta retilíneos ou convexos externos às cabeceiras em anfiteatro.

(In: Castro, 2002).

 

 

Tipo de Ocorrência

Localização

HCP

HCA

ENC

Somente com voçoroca conectada

3

12%

2

16,6%

-

-

Somente com voçoroca desconectada

6

24%

5

41,7%

6

40%

Com voçoroca conectada e desconectada

7

28%

1

8,3%

-

-

Com voçoroca conectada e escorregamento

1

4%

 

 

 

 

Sem voçoroca

8

32%

4

33,4%

7

46.6%

Somente com escorregamento

-

-

-

-

2

13,3%

 Tabela 1: Frequência de feições erosivas canalizadas (voçorocas e/ou ravinas) e escorregamentos na localidade Km 4, Barra Mansa (RJ). HCP = cabeceiras de drenagem em anfiteatro com hollow côncavo plano; HCA cabeceiras de drenagem em anfiteatro com hollow côncavo articulado; ENC = segmentos de encosta retilíneos ou convexos externos às cabeceiras em anfiteatro. 

  

 Foto 1: Voçoroca conectada remontante  desenvolvida em rampa de alúvio-colúvio na localidade Km 4, Barra Mansa (RJ). As setas assinalam a direção de expansão dos canais erosivos que se ramificam a partir do entalhe erosivo principal (A). Observa-se que as paredes do canal erosivo principal já encontram-se bastante reafeiçoadas, aparentando um canal fluvial. O canal erosivo “B” à direita da foto encontra-se quase totalmente inativo, enquanto o canal “C” está em situação mais ativa. Vê-se ao lado do canal principal uma cicatriz de escorregamento desencadeado pelo entalhe erosivo, já colonizada pela vegetação. 

Considerando a tendência de expansão destas voçorocas e a localização das cabeceiras com hollow côncavo-plano (HCP) próximas ao núcleo de ocupação do Km 4 (a montante do fundo de vale onde encontram-se as residências), estas feições erosivas não configuram risco atual elevado, apesar do grande porte que alcançam. Constitui exceção a área “A” demarcada na figura 4, onde as residências situadas a jusante da cabeceira afetada por voçoroca remontante e por ravinas/voçorocas desconectadas lineares encontram-se expostas à queda de detritos alúvio-coluviais e escorregamentos nas paredes dos canais erosivos, que podem levar ao soterramento em situações extremas.

Nas cabeceiras com hollow côncavo articulado (HCA), a incidência de feições erosivas canalizadas também é  significativa (66,6%), destacando-se no entanto, as ravinas e voçorocas desconectadas lineares desenvolvidas pela concentração de fluxos superficiais em valas, cercas e associados a caminhos produzidos pelo gado (sub-tipo: 2.4.1), ou pela concentração de fluxos superficiais e sub-superficiais nos segmentos côncavos das encostas (2.4.2).

Nos segmentos de encosta retilíneos e convexos, voçorocas desconectadas (40%) e escorregamentos (rotacional e translacional) são documentados. O escorregamento rotacional adjacente à RJ-157 constitui a feição de maior risco para a ocupação no trecho oeste do Km 4 (área “B”). A falta de manutenção do terraceamento na cicatriz do escorregamento, evidente pelo contraste da foto aérea de 1989 (figura 3) com a situação atual (foto 2), levou ao desenvolvimento de ravinas e sulcos que remobilizam os materiais arenos-sílticos do embasamento cristalino alterado e instabilizam o talude, representando perigo aos usuários da rodovia, residentes e usuários de pequenas vendas situadas neste local.

Na identificação das áreas de maior risco atual, deve ser considerado, ainda, o aporte sedimentar gerado pelas feições erosivas e escorregamentos para os fundos de vale, especialmente na situação observada nesta localidade. O córrego Cotiara e a drenagem tributária são canais de pequeno porte, com vazões muito reduzidas, que alcançam maior capacidade de transporte apenas durante períodos e /ou eventos de pluviosidade elevada. Este comportamento favorece o assoreamento das calhas que, por sua vez, intensifica o efeito das cheias. Deste modo, a alteração da dinâmica dos canais fluviais em função dos processos atuantes nas cabeceiras e sub-bacias tributárias do eixo de ocupação no Km 4 constitui aspecto a ser dimensionado para o aprimoramento da definição de zonas de risco com base no quadro atual de ocupação.

O comportamento dos diferentes tipos de feições erosivas e escorregamentos, a avaliação da probabilidade de ocorrência de novos eventos, de expansão das feições existentes e de reativações a partir da suscetibilidade à ocorrência destes processos nas diferentes cabeceiras de drenagem em anfiteatro, ou ainda da sua estabilização devido a ações específicas (obras de contenção e prevenção da erosão superficial em cortes, cicatrizes etc) mostram-se, portanto, elementos importantes para a avaliação de riscos no cenário atual.  

 

 

A distribuição e interação entre estes processos e as tendências de expansão da ocupação também devem ser considerados na construção de cenários que permitam avaliar a intensidade e dimensão espacial do risco. A consolidação deste eixo de expansão urbana constitui fator determinante para esta avaliação. Apesar de não dispor de atrativos, como serviços básicos (escolas, postos de saúde etc.), o Km 4 tem maior proximidade do centro da cidade de Barra Mansa,  o que representa um fator favorável ao crescimento da ocupação. A construção de residências e vias de acesso em locais com topografia mais suave (rampas de alúvio-colúvio e terraços fluviais) pode representar um elemento desencadeador de processos erosivos e escorregamentos nas cabeceiras do tipo HCP sem voçorocas (área “C”) ou de intensificação e conexão das feições documentadas em HCPs com voçorocas/ravinas desconectadas e conectadas (áreas “A” e “B”).

O crescimento da ocupação nas encostas adjecentes à RJ-157 constitui outro local de risco potencial. Além da acentuada declividade das encostas e da exposição de materiais suscetíveis à erosão e escorregamentos em taludes, as cabeceiras e sub-bacias nesta vertente são estreitas, predominantemente esvaziadas, com encostas muito dissecadas.

Ressalta-se que as incisões erosivas de pequeno porte tendem adquirir grande magnitude ao se conectarem com outras feições. A sinergia entre feições erosivas conectadas e desconectadas da rede de drenagem é responsável não apenas pela drástica alteração das dimensões dos canais erosivos, mas também do volume de sedimentos transferidos para os fundos de vale e calhas fluviais, aspecto apontado por Oliveira (1990; 1997) e Castro (2002). A sinergia entre movimentos gravitacionais de massa e ravinas/voçorocas também é recorrente na região. Vincula-se ao desenvolvimento de feições erosivas em cicatrizes de movimentos de massa, ou vice-versa, e favorecem o aumento da magnitude destes eventos. 

 

Considerações Finais

 

A análise da distribuição das feições erosivas e movimentos de massa em cabeceiras de drenagem, através dos mapeamentos elaborados, e das características da ocupação na localidade Km 4 (Barra Mansa, RJ) permite efetuar uma avaliação de riscos segundo duas dimensões: a espacial, e a temporal.  A noção de conectividade entre segmentos da bacia do córrego Cotiara e sub-bacias afluentes, de sinergia entre processos distintos e a localização das feições mapeadas nos diferentes tipos de cabeceiras em anfiteatro constituem os focos principais da análise espacial.  

Na dimensão temporal, o comportamento das feições erosivas e escorregamentos em função dos mecanismos atuantes, dos materiais (sedimentos/solos), da própria morfologia e o reconhecimento das características das áreas passíveis de ocupação urbana, permitem identificar zonas de risco atual (relacionado a processos já instalados) e de risco potencial (associado a cenários futuros).

A perspectiva adotada buscou trabalhar o risco gerado por erosões canalizadas e escorregamentos como um processo, que deve ter seu recorte espacial e de tempo bem delineado. No caso do estudo realizado, os recortes selecionados tiveram como objetivo contribuir para a discussão de critérios de definição de riscos que possam ser utilizados no planejamento urbano municipal, e também em planos diretores de bacias hidrográficas.

 

 

Agradecimentos:

 

A Fundação de Amparo à  Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) pela bolsa de iniciação científica (2001) e pelo apoio financeiro através das bolsas Cientista do Nosso Estado (2001/2002) e Jovem Cientista do Nosso Estado (a partir de maio de 2003) às coordenadoras do projeto.

Ao Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio através das bolsas de iniciação científica (2000) e de mestrado (2002-2003).

À Profa. Dra. Gisela Aquino Pires do Rio, do Departamento de Geografia da UFRJ, pelas sugestões e críticas sobre os conceitos e a literatura de risco utilizada, e atualmente pela co-orientação no mestrado.

Aos amigos do Nequat, Alexandre Ferreira Medeiros, Diogo dos Santos Adelino, Eduardo Vieira de Mello e Vinicius Pinto Moura pela participação nas etapas de campo, nas discussões travadas e ajudas nas demais atividades. 

 

 

Notas

 

[1] Souza (2003) incorpora a análise da hidrologia de encostas na avalição de perdas de solo em parcelas experimentais sob diferentes manejos no município de Paty do Alferes (RJ).

[2] Correspondem aos processos exógenos (erosão, movimentos de massa, assoreamento) geralmente rápidos e de ação sobre pequenas áreas, contrastando com os processos endógenos (terremotos, vulcões etc), geralmente mais raros e de maior alcance espacial (cf. Augusto Filho, 2001).

 

 

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