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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




OS MICROCLIMAS E O USO DO SOLO NA ILHA DO NA
ILHA DO GOVERNADOR





Edson Soares Fialho edsfialho@aol.com ou edsonsoares.fialho@bol.com.br
Prof. Agregado do Depto de Geografia e Meio Ambiente da Pontifícia Universidade Catolólica - PUC-Rio;
Professor Assistente na Universidade de Nova Iguaçu - UNIG;
Professor Titular na Fundação Educacional de Duque de Caxias - FEUDUC
e Prof. da Rede Pública Estadual de Ensino do Rio de Janeiro.
Mestre em Geografia pelo Programa de Pós Graduação em Geografia da UFRJ




 

Palavras-chave: Clima urbano, ilha de calor, Ilha do Governador

 Eixo Temático: 3- Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4- Aplicações temáticas em estudos de casos




 

1. Introdução

O tempo e o clima tem sido e é, uma constante sempre presente modelando a vida da humanidade, desde o seu aparecimento no planeta. deixando marcas na vida do ser humano, nos seus hábitos, costumes e cultura, no decurso de sua existência, através da criação de meios de defesa para a sobrevivência, contra as vicissitudes da variabilidade climática e progredir em busca de uma melhoria das condições de vida, se identificando com o mundo natural.
O clima é um recurso natural precioso. É um patrimônio coletivo da humanidade, que é essencial conhecer e indispensável preservar, a fim de garantir sua qualidade, dada a contribuição decisiva que tem para a existência de todos os seres vivos. Entretanto, o ser humano inconsciente ou conscientemente vem modificando as condições ambientais de seu entorno, criando microclimas artificiais porém, durante muitos séculos, estes se mantiveram dentro dos limites, sem causar impacto ambiental significativo.
As relações da humanidade com o seu ambiente natural se tornaram bem mais complexas após a criação dos aglomerados urbanos e com o crescimento e a intensidade do metabolismo desses novos ambientes. A construção de ambientes climáticos artificiais que modificam as condições climáticas externas pré-existentes nos espaços que ocorrem nas cidades produz uma espécie de “cúpula climática”, dentro da qual se define o que entendemos por clima urbano, cujas características dependem do desenho, densidade e funções das construções, assim como da própria configuração da cidade e das atividades em que nela se realizam.
O ser humano tem contribuído em grande medida para criar, ainda que involuntariamente, os climas urbanos, também está em suas mãos a possibilidade de modificá-los de tal forma que resultem em ambientes mais favoráveis, com vistas a solucionar, ou ao menos minimizar o problema do conforto térmico.
Nesse contexto, o presente trabalho apresenta uma avaliação comparativa do comportamento termohigrométrico entre ambientes de densidades de construção diferentes e a relação desses com os fatores geoecológicos (vento, topografia, posição geográfica) na Ilha do Governador (I.G) e uma pequena reflexão do clima no planejamento urbano.

2. Características da Área de Estudo

A I.G definida após de 1981 como um acidente geográfico com a entrada em vigor do decreto municipal n. 3.157 em 23/6/1981, apresenta 14 bairros (figura 1) e situa-se na porção leste da cidade do Rio de Janeiro, precisamente na Baía de Guanabara (figura 2), com 12 km de comprimento no sentido leste-oeste e variando entre 2 a 5km na largura, totaliza uma área de aproximadamente 40km2 (Russo, 1997).
A delimitação dessa área de estudo foi decorrente da falta de informações e estudos climatológicos, e ao seu contigente populacional, comparável a cidades de porte médio do ponto de vista da estrutura e funções urbanas, apresentando uma população próxima aos 200 mil habitantes.
A evolução do crescimento da área construída se deu de leste para oeste, conforme Figueiredo (2000), como pode ser visto na figura 3, porque antes da inauguração da ponte os terrenos eram de mangues e brejos, impossibilitando a ocupação, que só após sucessivos aterros, criaram condições de utilização da área, que mais tarde serviu para a construção do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro (AIRJ), que hoje movimenta 5.3 milhões de passageiros por ano em 82.088 vôos. Embora significativo, pois isso representa um fluxo de pessoas na ordem de 410.000 passageiros que freqüentam a porção oeste da I.G. por mês e 1.300 por dia. Esse número é muito aquém do Aeroporto de Guarulhos e Congonhas, com 13.2 e 10.5 milhões de passageiros e da própria capacidade do AIRJ de 16 milhões de passageiros por ano, conforme Mansur (2001).


Figura 1 – Localização dos bairros insulanos

Fonte: Atlas da cidade do Rio de janeiro (cd-room), 1998

Figura 2 – Localização da Área de Estudo na Cidade do RJ

Fonte: Atlas da cidade do Rio de Janeiro (cd-room), 1998

Figura 3 – Processo Histórico dos Loteamentos na Ilha do Governador

Fonte: Adaptado de Figueiredo (2000)

 

3. Procedimentos Metodológicos

Quanto a seleção das áreas para os levantamentos de campo, procurou-se obter a maior quantidade de áreas diferenciadas quanto ao uso do solo, totalizando nove áreas, ao longo de um transecto que partiu de Tubiacanga (no bairro do Galeão) até a Freguesia, passando pelo Jardim Guanabara, Portuguesa, Moneró, Jardim Carioca, Tauá, Cocotá e Ribeira (figura 4). Para cada área amostral foram designadas duplas que ficaram encarregadas das medidas. Nestas áreas as duplas foram responsáveis pela coleta em três pontos em cada área, identificados como: Posto A, Posto B e Posto C (figuras 5a e 5b) constituíram a base dos experimentos microclimáticos de campo de acordo com a estratégia já adotada em pesquisa anterior no Climageo (Brandão, 1996).
Cabe ressaltar que a única exceção, foi o ponto localizado na Ribeira, onde ficou instalado um termohigrômetro TH 508 René Graf de leitura horária, cedido pelo professor Luís Alberto Martins, coordenador do Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental – LCAA - da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Os pontos de medida espacializados em ambientes mais abertos ou densamente ocupados, foram analisados, a partir da estratégia adotada por Oke e Maxwell (1975) e Jonhson (1985), que utiliza a taxa de resfriamento e aquecimento em situações sazonais de verão e de inverno.


Figura 4 - Localização dos pontos Amostrais

Organizado pelo autor (2002)

Figura 5 - Localização dos pontos fixos
 

5.2a Ponto Fixo da Freguesia

5.2b Ponto Fixo do Cocotá

Ponto A - Praia da Guanabara(de frente para a loja de móveis Gramado)
Ponto B - R. Comendador Bastos c/a R. Mag. Martins
Ponto C - R. Comendador Bastos c/ R. Cambuí.

 

Ponto A - Praça da R. Mareante
Ponto B - Esq. da R. Mareante c/ R. Capitão Barbosa
Ponto C - Praça Danaídes (Biblioteca Euclides da Cunha)

 

Quanto à abordagem topoclimática, a variação espaço-temporal dos atributos climáticos nos ambientes mensurados foi alcançada considerando-se a média dos três pontos de cada área amostral, por julgar ser esta representativa da caracterização no nível topoclimático (Brandão, 1996). No que se refere ao horário das leituras, estas se restringiram a um período de medidas compreendidas no intervalo das 8 às 20 horas (com leituras horárias), que foram mantidas nos experimentos de campo realizados em 10/3/1999 e 18/8/1999. Para o cálculo da taxa de aquecimento, considerou o primeiro horário (8 horas), início das medidas dos pontos fixos até às 12 horas, e o de resfriamento das 13 horas até às 20 horas.
Durante os experimentos, ocorreram alguns problemas como atraso na leitura e quebra de equipamento, principalmente, no experimento de inverno, quando o psicrômetro de funda da dupla situada na Portuguesa quebrou, além Desse o ponto do Jardim Carioca, por motivos logísticos, não houve como substituir o equipamento, não apresentando informações no inverno. Quanto ao instrumental utilizado nos experimentos de campo, as duplas portavam um Kit de campo (figura 6), cedido pelo Climageo/UFRJ, constituído de uma pequena bolsa, contendo o material a ser utilizado no trabalho: psicrômetro de funda, manual de instruções, tabela psicrométrica, para estimar a umidade relativa, escala de Beaufort para estimar a intensidade do vento, fita de cetim para determinar a direção do vento, uma tabela de anotações das medidas de campo e uma pequena lanterna, já que as medições se estendiam até à noite.


Figura 6 – Kit de Campo

1 - Psicrômetro de Funda 2 - Recipiente Plástico 3 - Bolsa 4 - Fita de cetim 5 - Lanterna
Foto tirada por Marília Aparecida Ribeiro Carreira em Novembro de 2001


4. O Campo Térmico na Ilha do Governador

4.1. Pontos fixos no verão


As condições de tempo para o dia 10 de março de 1999, foram de predomínio da Massa Tropical Atlântica, com pouca nebulosidade e intensidade do vento baixa (1 a 2 na Escala Beaufort). A variação espaço-temporal individualiza dois centros de aquecimento contínuo. O primeiro se prolonga da Portuguesa até o Moneró; e o segundo, do Tauá a Ribeira, interrompido no bairro do Jardim Carioca; logo após, no bairro da Freguesia a temperatura voltou a decrescer (figura 7 e Anexo 1).
O perfil demonstra com nitidez que a porção centro–norte da I.G. apresenta o maior núcleo de calor, enquanto nas extremidades as temperaturas são amenas, seguidas das temperaturas do Jardim Carioca, pelo fato de se encontrarem em uma área mais elevada (cota 60 metros). Contudo, este dado não é tão significativo, visto que, a pouca ou quase inexistente arborização e a intensa urbanização dificultam a ação dos ventos.
Às 13 horas os bairros da Portuguesa e Moneró, registraram, 34.4ºC e 33.8ºC, respectivamente. O segundo núcleo de ilha de calor registrou seus valores máximos em momentos distintos: no Tauá, 31.7ºC às 13 horas; no Cocotá 33ºC às 17 horas; e na Ribeira, 32ºC às 14 horas. É importante lembrar que as áreas de maior aquecimento não se devem apenas à elevada densidade populacional e de construção, mas também ao fluxo de veículos automotores, principalmente nos bairros do Tauá, Cocotá e Galeão, cortados pelas duas principais vias de acesso, que são a e Estrada do Galeão e a Estrada da Cacuia.
O bairro do Moneró, também apresentou ilha de calor, em virtude do fluxo de veículos da Estrada de Tubiacanga, juntamente com a Avenida do Magistério, associado a sua posição setentrional. Cabe lembrar que as encostas e os locais situados ao norte das vertentes no hemisfério sul apresentam um maior tempo de exposição aos raios solares, o que vem a contribuir para o aquecimento do bairro. Além disso, essa posição dificulta a ação dos ventos da brisa marítima de sudeste, das quais está mais resguardado. Esse fator é muito importante na amenização das áreas em clima tropical. Os ventos predominantes nesta porção da I.G. são do quadrante norte e de baixa intensidade.
Quanto à umidade relativa do ar, esta se comportou de modo inverso, ou seja, as áreas mais aquecidas foram aquelas que apresentaram os menores percentuais de umidade relativa, exceto, o bairro do Cocotá que, apesar de ser um core de grande aquecimento térmico, não registrou baixos índices de umidade relativa, muito pelo contrário, ao longo de todo o dia, caracterizando-se por uma "ilha úmida", fato este não muito comum ao longo da literatura especializada. Os valores nunca foram inferiores a 70% (figura 8).
A explicação para tal fato pode estar associada a sua proximidade em relação a uma massa d'água (Baía da Guanabara), mas ainda é insuficiente, não sendo possível definir a causa. Entretanto, tudo leva a crer que a causa deve estar atrelada à proximidade a corpos líquidos e, junto a isso, à presença dos ventos de leste, que transportam esta umidade para dentro da malha urbana, como também o fato de situar-se em uma pequena depressão.
As áreas de maior gradiente térmico horizontal ao longo do transecto oscilaram ao longo do dia. Nas partes extremas do dia, ou seja, manhã (8 às 10 horas) e no período do entardecer até o anoitecer (17 às 20 horas).
Nestes dois períodos, as diferenças variaram de 1.1ºC, às 19 horas, entre a Portuguesa (29.9ºC) e o Jardim Guanabara (28.8ºC), até 3.3ºC, às 10 horas, entre os bairros da Portuguesa (32.3ºC) e o da Ribeira (28ºC). No período compreendido entre as 11 e 16 horas, a diferença térmica horizontal foi intensa às 11 horas, quando a diferença chegou a alcançar 4.9ºC entre os bairros da Portuguesa (33.9º) e Ribeira (29ºC).
Ao acompanhar a variação do comportamento térmico horário, verifica-se que o bairro da Portuguesa sempre está mais aquecido, apresentando-se como o "core" da ilha de calor, enquanto o bairro do Jardim Guanabara se apresentou com os menores registros, o que se manteve entre as 12 e 20 horas, perdendo este posto apenas nos primeiros horários da manhã, por vezes para o bairro do Jardim Carioca nos dois primeiros horários (8 horas: 27.2ºC e 9 horas: 27.9ºC), e o bairro da Ribeira entre as 10 e 11 horas, com 28ºC e 29ºC, respectivamente.


Figura 7

Variação Temporoespacial da Temperatura
Transeto Tubiacanga –Freguesia em 10/03/1999

Figura 8

Variação Temporoespacial Umidade Relativa do Ar
Transeto Tubiacanga –Freguesia em 10/03/1999
 

Provavelmente, o efeito da brisa marítima apenas surtiu efeito quando do aumento da sua intensidade, que ficou mais nítida após as 11 horas. Cabe informar que o início da atuação da brisa marítima está entre as 9 e 10 horas, quando o continente já se encontra mais aquecido, se intensificando ao longo do dia. Além da intensificação dos centros de maior temperatura ao longo do dia, é importante também observar o comportamento do balanço radiativo, obtido através da taxa de aquecimento e resfriamento, que revela os locais que perderam com mais velocidade ou não a energia armazenada ao longo do dia.
Essa análise possibilitou verificar os pontos de medida que são mais influenciados pelas atividades antrópicas e/ou condicionantes geoecológicos na espacialização do campo térmico, auxiliando no entendimento na variação espacial do fenômeno.
A Portuguesa apresentou a maior taxa de aquecimento, com 1.04ºC-h; mais surpreendente ainda foi a forte taxa de resfriamento, no valor de 0.53C-h , enquanto o Moneró apresentou uma taxa superior, com 0.67ºC-h. Estes valores, podem ser entendidos a partir da maior amplitude térmica ao longo do dia, em função da maior atividade urbana nestes dois bairros ao longo do dia, enquanto Tubiacanga, que se situa em uma área de menor densidade de construção e populacional, apenas registrou a temperatura que fora influenciado mais por fatores geoecológicos do que necessariamente antrópicos. Ao comparar mais cuidadosamente os pontos da Portuguesa e do Moneró, fica clara a maior ação dos fatores antrópicos sobre a Portuguesa, visto que a sua taxa de decaimento da temperatura é menor.
Quanto aos fatores geoecológicos, é preciso entender que a ação dos ventos também contribui no resfriamento noturno. A maior taxa de decaimento, na Portuguesa, em relação a Tubiacanga, pode ser explicada pela ação da brisa marítima de sudeste, canalizada ao longo do vale do rio Jequiá, como também a redução do tráfego de veículos; já em Tubiacanga, por estar mais resguardada da ação das brisas de sudeste, há um retardamento na sua taxa de decaimento, mesmo apresentando áreas mais esparsas e vegetadas. Esta área, durante o período noturno, é afetada pelos ventos de noroeste, provenientes do continente, que transferem as emanações do complexo da Petrobrás, em Duque de Caxias, para faixa litorânea norte da I. G.
O Jardim Guanabara e a Ribeira apresentaram baixas taxas de aquecimento e de resfriamento, que ficaram em torno de 0.4ºC-h e 0.12ºC-h. Por causa de ambos estarem próximos a corpos líquidos, fornecedores constantes de umidade à atmosfera e agem como reguladores térmicos. Daí a pequena diferença quanto às taxas de aquecimento e resfriamento, apresentando uma pequena amplitude térmica diária.

4.2. Pontos fixos no inverno

No inverno, o gradiente térmico horizontal entre os pontos apresentou maior intensidade. As condições sinóticas ao longo do dia e da semana eram do predomínio da Massa Polar Atlântica. No período da manhã, das 8 às 10 horas, as temperaturas, ao longo do transecto, se situaram entre 18ºC e 21ºC, excetuando o Cocotá, que, já às 10 horas, registrava 22.4ºC. As menores temperaturas nesse momento foram alcançadas na Ribeira.
Ao longo do transecto, como pode ser percebido nas figuras 9 (anexo 2) e 10, o ponto do Jardim Carioca apresentou problemas, sendo os seus dados descartados na análise. O horário de maior intensidade da ilha de calor foi, novamente, às 11 horas da manhã; o ponto de maior temperatura foi de 6.1ºC, verificado entre os bairros do Cocotá (24.1ºC) e o da Ribeira (18ºC). Comparando as estações, pode-se verificar que o segmento oeste/leste manteve o comportamento verificado no verão, quando os núcleos de maior aquecimento se apresentaram nos pontos da Portuguesa, Moneró, Tauá e Cocotá. Contudo, a intensidade da amplitude térmica se encontrou mais fortalecida.
No que se refere à umidade relativa do ar, esta se comportou de maneira proporcionalmente inversa na maioria parte dos pontos, exceto no Cocotá e no Tauá que, mesmo sendo áreas definidas como centros de maior aquecimento, não apresentaram valores de umidade relativa, inferiores a 70% no verão.
No que tange ao balanço radiativo, os pontos da Portuguesa e Cocotá tiveram taxas de aquecimento muito elevadas, porém muito diferentes, enquanto na Portuguesa a taxa era de 0.96ºC-h, no Cocotá era de 1.62ºC-h. Entretanto, o resfriamento foi acentuado no Cocotá com valor de 0.78ºC-h, e na Portuguesa, um pouco menor que 0.65ºC-h, mostrando que neste último há um maior retardamento em liberar a energia adquirida ao longo do dia.
Em linhas gerais, o comportamento dos pontos próximos aos corpos líquidos, situados na posição leste sul e sudeste, apresentaram taxas de decaimento menores, enquanto aqueles situados mais a nordeste, noroeste, registraram valores superiores, o que vem corroborar o efeito das brisas de sudeste como atenuadores térmicos, visto que as porções norte, nordeste e noroeste são mais resguardadas da ação eólica. O mesmo se verificou no verão.


Figura 9

Variação Temporoespacial da Temperatura
Transeto Tubiacanga –Freguesia em 10/08/1999

Figura 10

Variação Temporoespacial Umidade Relativa do Ar
Transeto Tubiacanga –Freguesia em 10/08/1999
 

5. Discussão dos Resultados

O estudo desenvolvido na I.G., constatou a existência de núcleos mais aquecidos nos pontos de medida nos bairros da Portuguesa, Moneró, Tauá e Cocotá. As diferenças térmicas foram mais elevadas entre às 11 e 14 horas, tanto no verão quanto no inverno. A intensidade máxima do gradiente horizontal térmico foi de 4.9ºC no verão e 6.1ºC no inverno, ambos às 11 horas. A presença de corpos líquidos nem sempre foi um atenuador da temperatura, em todos os momentos do dia, principalmente nas áreas situadas ao norte e leste da I.G., que apresentaram temperaturas mais elevadas no período da tarde (13 às 16 horas). O balanço de radiação, analisado à luz da taxa de resfriamento, possibilitou constatar que os locais de maior densidade de construção e atividades urbanas, concentradas ao longo dos vales principais, onde se localizam as vias de maior importância, como a Estrada do Galeão e da Estrada do Cacuia, foram os pontos de maior temperatura ao longo do dia, enquanto em Tubiacanga, área de menos densidade de construção, situada ao lado do AIRJ, apresentou temperaturas mais amenas, principalmente na parte da manhã (8 às 11 horas) e ao final do dia (18 às 20 horas).
Entre às 12 e 16 horas, o Jardim Guanabara se apresentou como o local mais fresco, em razão da brisa marinha. Apesar de litorâneo, em Tubiacanga os ventos são de menor intensidade. Tal constatação, demonstra a influência dos fatores geoecológicos. Esse jogo de fluxos intra-urbanos, conjugados com os fatores geoecológicos, foram responsáveis pela configuração dos núcleos de calor verificados nas medidas horárias de verão e inverno.

6. Considerações Finais

Os resultados obtidos, de fato possibilitaram a comprovação da interferência do urbano sobre a baixa atmosfera, na medida em que o uso do solo, foi o fator determinante para a delimitação das ilhas de calor.
Nos dias de experimento de campo, as condições sinóticas, eram favoráveis: no verão o sistema predominante era a massa tropical atlântica e, no inverno as massas polares atlântica, propiciando excelentes condições de tempo para detectar a ilha de calor e a configuração do campo térmico.
Embora as condições de tempo fossem ideais, para a realização dos experimentos de campo, também foi possível registrar diferenças térmicas de 6ºC, na I.G., segundo estudo realizado por Fialho e Brandão (2000), por meio de medidas intinerantes (6, 13 e 21 horas), sob condições de tempo nublado, às 13 horas, enquanto nos horários das 6 e 21 horas, apesar do tempo nublado, ele se manteve mais constante, apresentando diferenças de 0.8ºC e 2ºC, respectivamente.
Os núcleos das ilhas de calor, na I. G., quase sempre coincidiram com os locais de pouca arborização e intenso tráfego de veículos. Principalmente, nos bairros onde a uma grande concentração de lojas e prestadores de serviços, como por exemplo, a Portuguesa, que hoje é o bairro central da Ilha do Governador.
Os resultados referentes às causas do desconforto térmico dos bairros, permitiram verificar que a natureza, que permeia a cidade tem sido negligenciada. Essa atitude, que predomina na I.G., como também nos demais centros urbanos, vem agravar os problemas ambientais urbanos, como a poluição do ar e o desconforto térmico, que auxiliam por conseguinte no aumento da demanda do consumo de energia para a criação de microclimas mais amenos. Tais procedimentos acabam, gerarando um ciclo vicioso, intensificado pelo meio de vida individualista, que sempre vislumbra alternativas de cunho micro local, onde se resolve o problema de um quarteirão e não de um bairro.
A concentração de atividades, na I.G. em alguns bairros (Cacuia, Tauá e Portuguesa), acarreta congestionamentos diários. Principalmente, o que se estende da Cedae até o Colégio Cenecista Lemos Cunha; ao longo da Estrada da Cacuia e na Estrada Paranapuã, entre a Igreja São Sebastião (Cocotá) e o supermercado Mundial (Tauá). Porem, a solução para o problema, não passa pela desconcentração das atividades comerciais, visto que, o problema do congestionamento é causado pelo excesso de veículos, associada a uma política ausente de transportes de massa, hoje mais complicada, em virtude do aumento de Kombis e Vans, que aproveitam as falhas do sistema de transporte rodoviário na cidade do Rio, oferecendo mais comodidade e agilidade.
A solução para o problema, passa pela retomada do transporte hidroviário (Barcas). Apesar de outras soluções serem colocadas, como a criação de uma ponte ligando Tubiacanga a Caxias, idéia essa antiga, mas descartada na medida que em 1985, foi inaugurada a Ponte Nova (obra estadual), ao lado, onde se localiza a Ponte Brigadeiro Trompowisk. Essa obra, por sua vez, não melhorou o tráfego e a vida do insulano.
Como se percebe o desafio para o encontro de soluções para os problemas ambientais urbanos insulanos, passa pela revalorização da natureza, por meio de ações coordenadas entre os órgãos reguladores do espaço urbano. O planejamento então, representa um instrumento dirigido a programar o uso do território, as atividades produtivas, o ordenamento dos assentamentos humanos e o desenvolvimento da sociedade, em congruência com a vocação natural da terra, o aproveitamento sustentável dos recursos e a proteção e qualidade do meio ambiente (Rodriguez, 1997).
Todavia, se faz necessário, além do plano, o entendimento dos problemas, segundo a percepção da população, que pode auxiliar nas obras de intervenção urbanística na cidade. Caso isso não seja priorizado, nada será resolvido, na medida que, o espaço não for entendido como uma instância social e não como um mero apoio das atividades econômicas. Uma vez que, o espaço físico é o reflexo não somente dos processos naturais, como também das contradições da sociedade, em que os interesses sócio–econômicos constituem os determinantes das formas de apropriação e exploração do espaço.

7. Referências Bibliográficas

BRANDÃO, A. M. de P. M. O Clima Urbano da Cidade do Rio de Janeiro. 395p. Tese (Doutorado em Geografia)–FFLCH–Universidade de São Paulo, 1996

FIALHO, E. S., BRANDÃO, A. M. de P. M. Particularidades do Clima Urbano da Cidade do Rio de Janeiro: O caso da Ilha do Governador. In: IV SIMPÓSIO BRASILEIRO DE CLIMATOLOGIA GEOGRÁFICA, 1, 2000, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro, Climageo/UFRJ, 2000, 10p. CD-ROM

FIALHO, E. S., BRANDÃO, A. M. de P. M. A Variabilidade Temporoespacial do Campo Térmico na Ilha do Governador em Situações Sazonais Contrastantes In: V SIMPÓSIO BRASILEIRO DE CLIMATOLOGIA GEOGRÁFICA, 1, 2002,. Anais... Curitiba, 2002, 10p. CD-ROM

FIGUEIREDO, C. Agentes modeladores e sua atuação na Ilha do Governador (1567-1980). Dissertação (monografia em Geografia) – CCMN-IGEO. Departamento de Geografia, 2000, 57p.

JONHSON, D. B. Urban Modification of Diurnal Temperatures Cycles in Birmingham, UK. Journal of Climatology. v. 5, p. 221–225, 1985

MANSUR, A. Com o vento a favor. Revista Época. Rio de Janeiro. v. 3, n. 149, p. 86-93, 2001

OKE, T. R. e MAXWELL, G. B. Urban heat island dynamics in Montreal and Vancouver. Atmospheric Environment. v. 9, p. 191-200, 1975

RODRIGUEZ, J. M. M. Planejamento Ambiental: Bases Conceituais, Níveis e Métodos. In: CAVALCANTI. A. P. B. (org.). Desenvolvimento Sustentável e Planejamento: Bases Teóricas e Planejamento. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará - Imprensa Universitária, 1997. p. 37-50.

RUSSO, P. R. Ilha do Governador: Considerações acerca de seu processo de ocupação. Revista GEOUERJ. Rio de Janeiro, n. 2, p. 89-100, 1997

8. Anexos


Anexo 1.
Temperatura do ar obtidos no experimento de campo de verão (10/3/1999) na Ilha do Governador


Anexo 2
Temperatura do ar obtidas no experimento de Campo de inverno (18/8/1999), na Ilha do Governador


 

9. AGRADECIMENTOS:
A Professora Ana Maria de Paiva Macedo Brandão, minha orientadora do mestrado, que muito se dedicou e me ajudou.. Aos companheiros de caminhada Paulo Roberto Russo, Wellinghton de Assis, Luís Alberto Martins e Érika Collischonn pela paciência e colaboração em momentos decisivos da dissertação e a Galera do CLIMAGEO (Andrews Lacerda, Marília Carreira, Tatiana Malheiros e Daniela França)