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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA




 

ANÁLISE MORFOMÉTRICA DA BACIA HIDROGRÁFICA SANGA AREAL DO PAREDÃO - RS[1].

 


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Silvana Fernandes Neto

Acadêmica do Curso de Geografia UFSM

e-mail: silfeneto@terra.com.br

 

Edgardo Ramos Medeiros

Geólogo, Prof. do Curso de Geografia, Dep. Geociências - UFSM

e-mail: edgardo@base.ufsm.br

 

Luis Eduardo Robaina

Geólogo, Prof. do Curso de Geografia, Dep. Geociências - UFSM

e-mail: lesro@hanoi.base.ufsm.br

 


 

 

Palavras-chave: morfometria, bacia hidrográfica

Eixo: 3-Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4-Aplicações temáticas em estudos de casos

 

 

 

[1] Trabalho realizado no Laboratório de Geologia Ambiental – LAGEOLAM – CCNE/UFSM






 

 

 

1. INTRODUÇÃO:

 

A crescente preocupação com o meio ambiente norteam estudos,que retratam os elementos da paisagem como objeto de estudo e o homem, como agente modificador do meio.

Dentro deste contexto, o presente trabalho objetiva uma caracterização da energia do relevo da Bacia Hidrográfica Sanga Areal do Paredão, através de uma análise morfométrica.

O estudo morfométrico de uma bacia hidrográfica consiste no levantamento de índices, relações e valores numéricos, quanto a área, perímetro e hipsometria, os quais definem a natureza de um sistema de drenagem.

Conforme Christofoletti (1974), bacia hidrográfica é definida como: “área drenada por um determinado rio ou por um sistema fluvial”. Os fatores que compõem este meio, interagem, originando processos inter-relacionados, definindo as paisagens geográficas, que apresentam potencial de utilização baseado, segundo as características de seus componentes, em processos geológico–geomorfológico e hidrológico, formando um ecossistema único.

 

 

2. CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ÁREA:

 

A Bacia Hidrográfica Sanga Areal do Paredão encontra-se localizada a 29°55’22”e 30°3’12”S e 54°30’2” e 54°36’17”W, abrangendo parte dos municípios de Cacequi e São Gabriel - RS, na porção centro-oeste e sudeste do Estado do Rio Grande do Sul, Figura 01.
 

Figura 01: Mapa de localização da Bacia Hidrográfica Sanga Areal do Paredão

Org.: FERNANDES NETO, S.

 

Encontra-se inserida na compartimentação geomorfológica da Depressão Periférica, na unidade de relevo denominada Depressão Central, caracterizada por um relevo de colinas alongadas (coxilhas), levemente onduladas, constituídas,em geral, por rochas sedimentares da Bacia do Paraná.

No que se refere aos dados climáticos, segundo a classificação de Köppen, citado por Nimer (1977), o clima predominante na região é o temperado quente (mesotérmico brando Cfa), o qual apresenta-se com características de invernos frios, com temperatura média do mês mais frio entre 13°C e 15°C e verões quentes, com média do mês mais quente superior a 24°C. As precipitações são regulares durante o ano todo, não apresentando estação seca, com índices pluviométricos anuais entre 1500 mm e 1600 mm.

A vegetação natural da área compreende extensas áreas de savanas-estépicas (campos) associadas às florestas ciliares, muito degradadas. A pouca cobertura vegetal dos solos favorece a ação da erosão, pois facilita o destacamento das partículas de solo, as quais estão relacionadas à superação da resistência pelo impacto das gotas da chuva ou pela força de escoamento superficial da água.

Os solos são de cor vermelha, devido aos óxidos de ferro; são friáveis, com textura arenosa, formando agregados angulares e uma estrutura em colunas. Conforme EMBRAPA (1999), podem ser classificados como Argissolos vermelhos, que conforme Bertoni e Lombardi Neto (1985), em estudos realizados no estado de São Paulo, podem ser classificados como de alto índice de erodibilidade. Os solos da região apresentam um baixo conteúdo orgânico, em geral, inferior a 1% de matéria orgânica.

Frenzel (1980) comenta os fatores de análise de perda da potencialidade dos solos, ou seja, declividades, características dos solos, precipitação, cobertura vegetal e forma de uso. Salienta que estas avaliações são importantes, pois fornecem dados sobre a estabilidade dos solos, bem como fornece orientação, para os cuidados que os mesmos requerem, quando utilizados.

 

 

3. METODOLOGIA

 

Os levantamentos preliminares  foram realizados através de estudos bibliográficos, interpretação de cartas topográficas de escala de 1:50.000,com a  complementação dos dados através da interpretação da imagem de satélite Landsat 7 (Maio de 2000), a qual abrange toda a área de estudo. Também foram realizadas várias atividades de campo para conferência dos dados.

A análise morfométrica da bacia hidrográfica Sanga Areal do Paredão iniciou-se a partir de uma ordenação dos canais fluviais, com a finalidade de estabelecer a sua hierarquia . Para isto, utilizou-se o método de Strahler (1974), onde considera todo curso sem tributário como sendo de primeira ordem. A junção de dois cursos d’água de mesma ordem forma outro de ordem imediatamente superior, sendo que este não se estende a tributários menores, referindo-se apenas a segmentos do canal principal.

Logo em seguida, estabeleceu-se o padrão de drenagem segundo Christofoletti (1974), onde refere-se ao arranjamento espacial dos cursos fluviais, que podem ser influenciados em sua atividade morfogenética, pela natureza e disposição das camadas rochosas, pela resistência litológica variável, pelas diferenças de declividade e pela evolução geomorfológica da região.

O padrão de drenagem, corresponde ao conjunto de canais superficiais e vias de escoamento interno. Sendo que possuem características variáveis quanto à densidade, forma, extensão e direção, que por sua vez são fatores dependentes do material rochoso sobre o qual se encontra desenvolvida a rede de drenagem. A rede de drenagem pode estar submetida a controle estrutural e tipo de rocha, podendo assim revelar a atitude dos corpos rochosos, a disposição e espaçamento dos planos de fraqueza, bem como ao tipo de material exposto.

A densidade de drenagem foi analisada a partir de Horton apud Cristofoletti (1974), que a definiu como a relação entre o comprimento total dos canais de escoamento e a área total, podendo assim ser calculada através da formula

Dd = L/A  onde:     Dd é a densidade da drenagem;

L é o comprimento total dos canais e

A é a área da bacia.

Analisando as curvas de nível obteve-se os dados referente a variação altimétrica, em conjunto os dados referentes ao comprimento de rampa, o qual retrata a variação da elevação dos terrenos que compõe a bacia. A variação altimétrica chega a 109 metros, com o ponto de menor altitude, localizado a juzante da bacia junto à várzea do Rio Cacequi, de 97 metros e o ponto mais alto, localizado à montante com 206 metros. O comprimento de rampa varia em torno de 1000 metros por toda a extensão da bacia.

Para o estudo da declividade, utilizou-se das cartas topográficas de escala 1:50.000, onde as curvas de nível estão representadas de 20 em 20 metros, as quais indicam o grau de inclinação do relevo, revestindo-se, assim de grande importância para a determinação do uso correto do terreno,  sempre buscando o melhor aproveitamento do mesmo.

Para a representação através do mapa de declividade, seguiu-se a proposta de De Biasi (1970) e utilizou-se um ábaco para a delimitação das classes, entre as curvas de nível indicando o grau de inclinação da área.

Devido as características da toponímia da bacia hidrográfica, também se utilizou a técnica do ábaco complementar, que consiste na divisão do ábaco ao meio para ser utilizado entre uma curva de nível e um curso d’água, supondo que o mesmo esteja aproximadamente a um desnível de 10 metros em relação a curva de nível.

Após a confecção do ábaco, o mesmo foi passado entre as curvas de nível, determinando-se as áreas das classes em toda a bacia hidrográfica.

Para análise, definiu-se 4 classes de declividades:

< 2%: indica áreas planas, quando próximas da rede de drenagem são áreas de acumulação;

2 – 5%: são áreas propícias a agricultura e também onde começa à ocorrência dos processos erosivos;

5 – 12%: esta faixa define o limite máximo do emprego da mecanização na agricultura;

> 12%: são áreas mais elevadas, com predomínio de cabeceira de drenagem.

 

 

4. ANÁLISE MORFOMÉTRICA

 

A bacia hidrográfica Sanga Areal do Paredão possui uma área de captação de 20.977,7615 hectares, com um perímetro de 71,72 km. Seu curso principal apresenta cerca de37.946,8804 metros de comprimento com uma direção predominante de NE-SW, sendo esta definida por um forte controle estrutural.

Possui uma hierarquia fluvial de 6ª ordem, que deságua no Rio Cacequi. Encontra-se sobre rochas sedimentares, com uma  rede de drenagem bastante ampla, conforme Quadro 01, de padrão retangular-dendrítico, influenciado por falhamentos ou linhas de fraqueza, assim definidas por Christofoletti (1974).


Quadro 01 – Rede de drenagem da Sanga Areal do Paredão.

Hierarquia

Nº canais

%

Compr. Total

(m)

Compr. Médio

(m)

Densidade

(m/ha)

1ª ordem

484

72,67

209438,88

432,72

9,98

2ª ordem

133

19,97

104464,51

785,45

4,98

3ª ordem

36

5,41

57372,74

1393,69

2,73

4ª ordem

10

1,50

39200,93

3920,09

1,87

5ª ordem

2

0,30

11421,99

5710,99

0,54

6ª ordem

1

0,15

18208,02

18202,02

0,87

Total

666

100

440107,07

660,82

20,97

Org.: FERNANDES NETO, S.

 

Como se observa no quadro acima,  a rede de drenagem é ampla, percorrendo um total de 440107,04 metros lineares, distribuídos em torno de 666 canais, perfazendo uma densidade de 20,97 m/ha. Isto indica que o comportamento hidrológico das rochas repercute diretamente na densidade da drenagem, pois naquelas onde a infiltração apresenta-se com dificuldade, ocorre um maior escoamento superficial, gerando assim possibilidade de esculturação dos canais, bem como a atuação de processos erosivos.

Como pode-se observar,  72,67 % dos canais são de primeira ordem, sendo estes  os que apresentam com comprimento médio menor e com isto maior densidade por área. Isto vem a confirmar o que relata Christofoletti (1974), que diz “à medida que aumenta o valor numérico da densidade, há uma diminuição do tamanho dos componentes fluviais da bacia de drenagem”.

Para definição da forma da bacia hidrográfica, calculou-se o índice de forma, o qual correlaciona a extensão de seu perímetro  com a área da mesma, sendo que o valor obtido quanto mais próximo da unidade, vai representar uma bacia circular. Para calcular este índice usou-se a fórmula:

 

onde K é o índice de forma, P é o perímetro da bacia, e A é a sua área.
 

Assim, chegou-se ao resultado do índice de forma igual a 1,4, que demonstra  tratar-se de uma bacia hidrográfica de forma alongada. Este dado também se confirma devido a mesma apresentar, como medidas, comprimento igual a 24,52 km e uma largura média de 10,02 km.

Quanto ao relevo tem-se uma área com pouca variação altimétrica, uma amplitude máxima de 109 metros e um comprimento de rampa, de maneira geral variando em torno de 1000 metros, retratando uma bacia de relevo levemente ondulado, com coxilhas alongadas. As declividades concentram-se entre 2 e 5%,  representando cerca de 39% da área total.

Quadro 02: Classes de declividade da bacia hidrográfica

 

Classes

Área (ha)

%

< 2 %

4126,64

19,67

2 5%

8207,11

39,12

5 12%

6764,30

32,25

> 12%

1717,09

8,19

TOTAL

20815,14

99,22

Org.: FERNANDES NETO, S.

 

OBS.: A área total da bacia hidrográfica é de 20977,76ha, a diferença de 162,62ha, ou 0,78%, com relação ao quadro acima, refere-se a área da drenagem da Sanga Areal do Paredão.

 

 

5. COMPARTIMENTAÇÃO DA BACIA HIDROGRÁFICA

 

Para melhor análise da bacia hidrográfica, realizou-se uma compartimentação do relevo, através da análise da rede de drenagem, hipsometria e declividades (Quadro 03), onde obteve-se 3 setores, representados na Figura 02:

Quadro 03: Quantificação das áreas de classes de declividades por Setor

 

 

SETOR

1

SETOR

2

SETOR

3

Classes

Área (ha)

%

Área (ha)

%

Área (ha)

%

< 2 %

2233,35

29,58

1180,64

20,64

712,65

9,45

2 5%

3348,50

44,35

2123,84

37,12

2734,77

36,25

5 12%

1751,56

23,20

2077,52

36,31

2935,22

38,91

> 12%

216,68

2,87

339,45

5,93

1160,96

15,39

TOTAL

7550,09

100

5721,45

100

7543,60

100

Org.: FERNANDES NETO, S. 

 

Figura 02. Mapa com a representação dos setores

Org.: FERNANDES NETO, S.

 

SETOR 1:

Este setor encontra-se localizado a margem esquerda da Sanga Areal do Paredão, na porção Sudoeste da bacia, com área de 7550,09 hectares.

Caracteriza-se por apresentar uma amplitude altimétrica máxima de 87 metros, com o ponto de maior altitude (184 metros) ao sul do setor; amplitude das vertentes de 40 metros, comprimento de rampa em torno de 1000 metros e declividades predominantes de 2 a 5%, sendo cerca de 44% da área. Isto caracteriza um relevo plano, com áreas propícias para o uso com agricultura, confirmado por uma grande área de acumulação ou várzea junto a Sanga Areal do Paredão, onde encontra-se o cultivo do arroz irrigado.

Quanto à rede de drenagem tem-se cerca de 11 sub-bacias. Destas 6 (seis) são de 2ª ordem, caracterizadas por vertentes alongadas e paralelas, com direção predominante Noroeste em relação ao rio principal, indicando  forte controle estrutural.

Também é neste setor que encontra-se o menor número de voçorocas, apesar de ser uma área, segundo o grau de declividade, propício ao surgimento de processos erosivos.

 

SETOR 2:

Encontra-se localizado a margem direita da Sanga Areal do Paredão, na porção Noroeste da bacia, abrangendo uma área de 5721,45 hectares.

Apresenta-se com amplitude altimétrica de 67 metros, ponto de maio altitude de 164 metros ao centro do setor, amplitude das vertentes de 40 metros, comprimento de rampa em torno de 800 metros e declividades que variam até 12%. Desta  área, que chega a 5721,54 ha, cerca de 37% pertencem a classe de declividade de 2 a 5% e 36% pertencem a classe de 5 a 12%. Trata-se de um setor homogêneo quanto ao seu relevo formando colinas, utilizadas para pecuária extensiva e também para, o cultivo de milho, soja, melancia e arroz.

A rede de drenagem encontra-se mais diversificada, tem-se cerca de 15 sub-bacias, sendo 7 (sete) de 2ª ordem, caracterizadas por vertentes alongadas e dendríticas, devido às diferenças de declividades no setor.

 

SETOR 3:

Encontra-se localizado na porção Este da bacia, a sua montante, com área de 7543,60 hectares.

Caracteriza-se por apresentar uma maior amplitude altimétrica que chega a 96 metros. É neste setor que tem o ponto mais alto da bacia hidrográfica, com 206 metros de altitude localizado a Sudeste do mesmo. As amplitudes das vertentes são de 40 metros, comprimento de rampa em torno de 600 metros e declividades que variam até >12%. Contitui-se na classe predominante, chegando em torno de 38,91%. Isto caracteriza um relevo de maior energia, salvo próximo a rede de drenagem principal, onde encontra-se áreas mais planas utilizadas para  uso agrícola.

Quanto à rede de drenagem, na porção à montante, tem-se uma drenagem mais concentrada e onde se apresentam as maiores altitudes. Tem-se cerca de 37 sub-bacias, sendo destas 16 de 1ª ordem e 14 de 2ª.

É neste setor que encontra-se um forte controle estrutural, pois a drenagem SAP, muda de direção abruptamente, mudando de SE – NW para NE – SW, percorrendo por este sentido até a sua foz.

Neste setor encontra-se o maior número de processos de voçorocamento, associados ao pacote litológico friável, a declividade das vertentes mais acentuadas.

 

 

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A área caracteriza-se por apresentar significativa ocorrência de processos erosivos gerando voçorocas.

A análise pretende servir de apoio para estudos interpretativos da dinâmica superficial e para um mapeamento Geoambiental.

 

 

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BERTONI, J. & LOMBARDI NETO, F. Conservação do Solo. Piracicaba: Livroceres; 1985. 368p.

 

CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. São Paulo: Edgard Blücher, Ed. da Universidade de São Paulo, 1974.

 

DE BIASI, M. Carta de Declividade de Vertentes: confecção e utilização. São Paulo, Instituto de Geografia – USP, 1970. p. 8 – 16.

 

EMBRAPA. Sistema brasileiro de classificação de solos. Brasília: Embrapa produção de informação; 1999.412p.

 

FRENZEL, A. “Medidas preventivas contra processos erosivos”. Simpósio sobre controle de erosão. Curitiba. PR. 1980.

 

NIMER, Edmon. Clima. In: Geografia do Brasil, Região Sul. Rio de Janeiro. IBGE 1977. Vol. 5 p. 35 – 79.

 

STRAHLER, A. N. Geografia Física. Barcelona: Omega. 1974.