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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

RELACIONAMENTO ENTRE O SOLO E A COBERTURA VEGETAL AO LONGO DO RIO GUAPI NA APA-GUAPIMIRIM - RJ

 

 

CLÁUDIO HENRIQUE REIS

 Universidade Severino Sombra - USS

reisgeo@bol.com.br 

RODRIGO BASTOS SATIAGO

 Universidade Severino Sombra - USS

rbsantiago@ig.com.br

 



 

Palavras-Chave: Geomorfologia flúvio-marinho, análise textural e manguezais

Eixo: 3-Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4-Aplicações temáticas em estudos de casos

 




 

 

1 - Introdução

 

O último trecho representativo de manguezais da orla oriental da Baía de Guanabara, conhecida também como “Recôncavo da Baía de Guanabara” (hoje restrito na Área de Proteção Ambiental Guapimirim), vem sofrendo há décadas destruição constante. Embora significativamente reduzida à faixa de manguezais remanescentes, ainda desempenha importante papel para a qualidade da água e a vida da baía. Seu estado ambiental atual, contudo, requer sérios cuidados para que essa função possa ser preservada.

O desmatamento irracional, intimamente relacionado à ocupação da região do Recôncavo da Baía de Guanabara, propiciou a intensificação dos processos erosivos e acarretou um aumento no fornecimento de detritos para o sistema de drenagem. A alteração do regime hidrológico dos principais rios da baixada através de obras de retificação, aprofundamento e alargamento dos canais, ocasionou o incremento na capacidade de transporte de carga sólida. As atuações antrópicas, como estas, vêm proporcionando um assoreamento acelerado da Baía de Guanabara.

A intensidade de mudanças que ocorrem nos manguezais do Recôncavo necessita ser acompanhada de maneira sistemática, o que aumenta a freqüência de informações, e possibilita assim avaliações mais acuradas e atualizadas dos seus impactos.

O objetivo geral deste trabalho é investigar as alterações da textura do solo e as mudanças da cobertura vegetal ao longo do Rio Guapi, na área da APA- Guapimirim. 

 

 2 - Localização da Área

 

A área de interesse deste trabalho compreende a Área de Proteção Ambiental Guapimirim, que corresponde à faixa litorânea dos municípios de São Gonçalo, Itaboraí, Guapimirim e Magé, localizados na orla oriental da Baía de Guanabara. A região está situada entre os paralelos 22o38 a 22°48 sul e os meridianos de 42o58 a 43o05 a oeste de Greenwich (figura 1).

 

Fig. 1 - Localização da área

 

3- Hidrografia

 

A região em estudo é drenada pelas bacias dos rios Caceribu, Guapi, Guaraí e Guaxindiba.

As redes hidrográficas dos quatro rios mencionadas já sofreram modificações em grande escala através da construção de canais e adutoras e de dragagens periódicas de seus leitos. Os cursos dos rios Guapimirim, Macacu e Guaxindiba estão traçados na figura 2, na qual pode ser verificado que o rio Caceribu era o maior afluente da margem esquerda do rio Macacu que, por sua vez, era o mais longo e o mais caudaloso dos rios que deságuam na Baía de Guanabara; e, também, o rio que tinha as maiores cheias antes das alterações. Todos os rios que desciam da Serra dos Órgãos, ao chegarem à baixada eram logo flanqueados por uma planície aluvial que se alargava rapidamente para jusante. Na época das grandes enchentes, essa planície inundava-se e os declives eram tão fracos que as águas não podiam escoar, inundando as terras durante a maior parte da estação chuvosa (Araújo e Maciel, 1979).

 

Fig. 2 - Leito dos principais rios antes das alterações de retificação de curso.

Fonte: Araújo e Maciel (1979).

 

A partir de 1947, foram iniciadas as obras que desviariam o curso do rio Macacu, logo após receber as águas do rio Guapiaçu para a bacia do rio Guapimirim que deságuam na baía com o nome de Guapi. Em decorrência desta mudança, o rio Caceribu não é mais um tributário do Macacu, passando a desaguar diretamente na baía, e tendo como principal afluente o rio Guaraí-Mirim.

Os trabalhos de dragagem no rio Caceribu foram iniciados também em 1947 e concluídos em 1957, numa extensão de 20 Km. Retificaram-se os cursos dos rios Macacu e Guapiaçu em uma extensão aproximadamente de 36 Km cada um. Todos os seus afluentes principais foram também retificados em cerca de 80 Km. Todos estes cursos de rios são dragados periodicamente, para facilitar o escoamento das água (Planidro, 1970).

 

4 - Características Litológicas\Geomorfológicas

 

Em seus estudos sobre a geomorfologia da Baía de Guanabara, Ruellan (1944) a identifica como uma antiga Ria. Lamego (1946) descreve que a Formação da Guanabara só começou a se esboçar no final da era Mesozóica e início da era Cenozóica.

Em Estudos realizados em sedimentos do quaternário na região da Baía de Guanabara, Amador (1974) afirma que a Ria da Guanabara, antigo Vale Fluvial Pleistocênico, teve há aproximadamente 16.000 anos iniciado seu processo de "afogamento" por águas marinhas. Amador (1974) descreve também que este processo assinala o limite entre o Pleistoceno e o Holoceno. O mesmo autor denominou esta fase como "Transgressão Guanabarina" relacionável à Transgressão Flandriana.

                Amador E.S. (1980), dando continuidade às pesquisas no período quaternário na região da baía de Guanabara, afirma que as seqüências dos movimentos transgressivos e regressivos iniciados na "Transgressão Guanabarina" resultaram em sucessivos depósitos sedimentares que são descritos a seguir:

 

4.1 - Sedimentos Flúvio Marinhos

 

Segundo Amador e Ponzi (1974) os sedimentos flúvio-marinhos constituem uma interdigitação de depósitos fluviais e marinhos regressivos. Litologicamente são constituídos de sedimentos finos, síltico-argilosos ou argilo-siltosos, ricos em matéria orgânica. Normalmente a área de ocorrência destes sedimentos é perfeitamente demarcável pela existência de brejos ou pântanos. O maior desenvolvimento destes depósitos na região em estudo ocorre no baixo curso dos rios Guapi, Guaraí, Caceribu e Guaxindiba. Genericamente os sedimentos flúvio-marinhos correspondem a ambiente de planície de maré, em regime estuarino. Estes sedimentos são encontrados até dezenas de quilômetros para o interior, apresentando uma superfície suavemente inclinada.

 

4.2 - Sedimentos fluviais

 

Ocupam a retaguarda dos terraços marinhos. Morfologicamente, estes depósitos estão associados a um nível topográfico de extrema regularidade e altitude variável, em função da posição do curso fluvial considerado, podendo ser divididos em:

Terraços de Várzea 2 - normalmente constituído por areias finas, estratificadas, intercaladas com lentes irregulares e estreitas de argilas, são quase sempre capeados por alúvios ou colúvios mais recentes. Alguns afloramentos são observáveis nos barrancos dos principais rios da região.

 Terraços de Várzea 1 - são basicamente sedimentos finos (argilo-síltosos ou síltico-argilosos), bastante orgânicos, com pouca espessura. Encontrados acima do nível da planície de inundação atual e capeiam os sedimentos de várzea 2

 

4.3 - Sedimentos marinhos

 

Os sedimentos marinhos são representados por argila de coloração cinza-escura, por vezes síltica à arenosa, podendo ou não conter fragmentos de conchas de bivalves e gastrópodes dispersos no material argiloso, ou ainda conter verdadeiros níveis de concentração desses moluscos, podendo ser divididos em:

 

·Terraços Marinhos II - ocorrem até cerca de 6 metros de altitude, e correspondem a uma posição de nível de mar de cerca de 3 metros acima do atual.

 

·Terraços Marinhos I - com altitude de até 3 metros, correlacionam-se com um nível de mar acima do atual, de aproximadamente 1,5 metros.

 

5 - Solos

 

De acordo com o Boletim do Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas (1958), o tipo de solo predominante em todo o recôncavo da baía é do tipo Hidromórfico, apresentando predominantemente materiais argilosos e arenosos mais ou menos estratificados, decorrentes da deposição fluvial marinha.

Segundo ainda o mesmo Boletim citado anteriormente, na faixa litorânea o solo apresenta um horizonte A com espessura variando de poucos centímetros até 30 cm ou mais, com o conteúdo em matéria orgânica mineralizado, apresentando textura variando do síltico-argiloso até argiloso. O horizonte B apresenta muitas vezes uma camada de conchas a profundidades diversas, além de grande variação no conteúdo de salinidade.

O solo da área de estudo é caracterizado por um horizonte A apresentando textura, variando do siltoso ao argilo-arenoso com conteúdo de matéria orgânica (figura. 3).

 

Fig. 3 - Características do horizonte A em solos de mangue

 

Na margem da baía de Guanabara outros elementos estão sendo incorporados no horizonte A por ação antrópica, como material plástico, garrafas de vidros e restos de utensílios domésticos (figura 4), estes materiais são trazidos pelas marés altas e, conseqüentemente depositados nesta região.

 

Fig. 4 - Ação antrópica em solos de mangue

 

A caracterização geral do solo do rio Guapi foi feita a partir de amostras obtidas (6 amostras) das áreas mais representativas do trecho. Não foi possível obter um número maior de amostras em virtude da dificuldade de acesso em determinados pontos da região.

O processo de obtenção das amostras de solo constituiu-se em perfurações através de um trado com profundidade variando de 0 a 1,50 m. A figura 5 mostra os pontos de coleta das amostras e as tabelas de 1 a 6 apresentam as descrições de cada amostra.

 

Fig. 5 - Pontos de coleta de amostra de solo no rio Guapi

 

TABELA 1 - AMOSTRA 1

Horizonte e Profundidade

Textura

Cor

Vegetação Predominante

Ap

0 - 15 cm

siltoso ligeiramente plástica e pegajoso, mais de 6% de mica muscovita, raízes finas abundantes.

2,5 Y 5/2 + 20% 5 YR 4/6

gramíneas

Cg

15 - 45 cm

siltoso, por entre planos de penetração das raízes, ferro férrico

2,5 YR 4/4

 

Cg2

45 - 55 cm

siltoso, 6 % de mica muscovita

2,5 Y 4/0 com 15% de manchas 2,5 YR 4/4

 

Cg3

55 - 65 cm

silto-argiloso, arenoso + 6% de mica muscovita

5 Y 5/1

 

Cg4

65 - 95 cm

silto-argiloso arenoso cascalhamento, mica muscovita grande e média em abundância

N 5/0

 

Abg

baixo de 95 cm

siltoso tixotrópico e resto de plantas

Tiers - presença de matéria orgânica com restos de plantas

2,5 Y 3/2

 

OBS: Lençol freático a 30 cm de profundidade, a 60 cm matéria orgânica em decomposição.

 

TABELA 2 - AMOSTRA 2

Horizonte e Profundidade

Textura

Cor

Vegetação Predominante

A1

0 - 10 cm

siltoso matéria orgânica abundante,  50% de raízes finas

N 4/0

medida feita em um canal com presença de avicênia, junto ao leito do rio presença de gramínea

Cg

10 - 15 cm

argilo-siltoso

2,5 Y 2/0

 

Cg2

15 - 35 cm

siltoso

10 Yr 3/3

s

Cg3

35 - 65 cm

siltoso

10 YR 3/3 + 2/1

 

Ba

65 cm - 1 m

matéria orgânica oxidada, tixotrópica

7,5 YR 3/2

 

Abg

abaixo de 1 m

Argilo-siltoso muito plástico e pegajoso

7,5 YR 4/0

 

 

TABELA 3 - AMOSTRA 3

Horizonte e Profundidade

Textura

Cor

Vegetação Predominante

A1

0 - 30 Cm

Argiloso Muito Plástico E Pegajoso

2,5 Y 2/0

Foz Do Rio Guapi Presença De Rizófora

Cg

Abaixo De 1 M

Argiloso, Com Mica Muscovita Abundante

2,5 Y 2/0

Seguida De Avicênia,

 

TABELA 4 - AMOSTRA 4

Horizonte e Profundidade

Textura

Cor

Vegetação Predominante

Ap

0 - 30 cm

associadas as raízes finas, talos cilíndricos e talos triangulares

5 YR 4/1 manchas de cor 5 Y 5/8

leito do rio Guapi, prox. a foz, presença de

Cg

abaixo de 1 m

mais de 20% sfragnum (fibris)

2,5 Y 3/2

Espartina seguida de lagunculária

OBS: Turfa pouco alterada

 

TABELA 5 - AMOSTRA 5

Horizonte e Profundidade

Textura

Cor

Vegetação Predominante

Ap1

0 - 10 cm

silto-argiloso 6% de mica muscovita fina

2,5 Y 2/0 40% de manchas 10 YR 4/6

presença de invasoras

Chg

10 - 30 cm

argilo-siltoso com mais de 10% de mica muscovita, raízes de 40 cm

10 Y 4/1 30% de manchas 10 YR 4/6

 

Abg

30 cm - 1 m

siltoso raízes finas abundantes e sfragnum presente

2,5 Y 4/2 20% de manchas 2,5 Y 6/8

 

Abg2

abaixo 1 m

siltoso com acumulação de sfragnum

2,5 Y 4/2 + 2/0 sfragnum fibris

 

 

TABELA 6 - AMOSTRA 6

Horizonte e Profundidade

Textura

Cor

Vegetação Predominante

0 - 20 cm

siltoso raízes finas abundantes, matéria orgânica do tipo sáprico

2,5 Y 3/2

avicênia

20 - 50 cm

siltoso, matéria orgânica do tipo sáprico

5Y 4/1

 

50 cm - 70 cm

siltoso, plástico e pegajoso mais 5% de mica muscovita e mais 3 a 5% de vermiculita e presença de conchas

5Y 4/1

 

70 cm - 1,50 m

siltoso, cascalhento  com acumulação de sfragnum

5Y 4/1 com manchas 10 YR 8/3

 

 

6 – Conclusão

 

Após a análise das tabelas de amostras de solo da APA-Guapimirim, verifica-se que, mesmo com um número de amostras muito pequeno, é possível definir uma ligeira diferença no substrato do solo, sendo esta mais evidente ao longo do Rio Guapi. A variação do solo, principalmente, no horizonte A, reflete uma mudança no tipo de vegetação.

Em conseqüência do número reduzido de amostras de solo, não foi possível criar um mapa de solo da região. Com a confecção deste mapa, seria possível o cruzamento com dados obtidos da classificação digital e dos intervalos altimétricos, e averiguar, com mais detalhe, a relação solo X vegetação.

 

 

7 – Referencia Bibliográfica

 

ABNT.  Manguezal, metodologia para estudo do ecossistema: padronização. Rio de Janeiro, 1988. 8 p.

 

Amador, E.S.  Praias fósseis do recôncavo da Baía de Guanabara. Anais da Academia  Brasileira de Ciencias, 46(2): 253-262, jun. 1974.

 

Amador, E.S.  Unidades sedimentares cenozóicas do recôncavo da Baía de Guanabara. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 52(4): 756-761, dez. 1980.

 

Amador, E.S. e Ponzi, V.R.A.  Evolução geomorfológica da Baía de Guanabara. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 46(3\4): 693, ago\dez. 1974.

 

Amador, E.S. e Vilela, R.A  Assoreamento da Baía de Guanabara - Taxa de sedimentação. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 50(1): 124-125, mar. 1978.

 

Araújo, D.S.D.; Maciel, N.C.  Os manguezais do recôncavo da Baía de Guanabara. Rio de Janeiro, FEEMA, 1979. 119p.

 

Dansereau, P.  Distribuição de zonas e sucessão na restinga do Rio de Janeiro. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro, v. 5, n. 60, p. 1431-1443, 1948.

 

Planidro.  Ampliação do sistema de abastecimento de águas de Niterói e São Gonçalo. Estudo hidrológico e inquerito sanitário. Rio de Janeiro, 1970.  51p.

 

Ruellan, F.  Evolução geomorfológica da Baía de Guanabara e das regiões vizinhas.  Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, 6(4):445-505, abr./jun., 1944.