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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

CALAMIDADE EM CABO FRIO – O EPISÓDIO DAS CHEIAS

 DE DEZEMBRO DE 2002

 

 

 

 

Evandro Biassi Barbiére ¹;

Lucy Pinto Hack ²;

Sônia Luiza Terron ²;

Francisco Cristiano Orlando ²;

 

 

 

¹ Universidade Federal Fluminense - UFF

² Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-RJ

 

 

 

 

 

Palavras- chave: Cabo Frio; cheias; calamidade

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos

 

 

 

 

 

1. INTRODUÇÃO

 

Apesar dos baixos índices pluviométricos registrados em Cabo Frio (média de 823mm/ano), um episódio anômalo e sem precedentes ocorreu, no final do outono de 2002 (estação do ano que se responsabiliza por apenas 23% da pluviosidade média anual). Tal fato aconteceu no início de dezembro, quando as chuvas alcançaram uma altura incomum, com patamares jamais atingidos na cidade, com maior intensidade no dia 09 de dezembro daquele ano, quando choveu 65mm em menos de 24 horas, seguidos de 9,6mm no dia seguinte,  provocando enchentes, causando destruição de barracos e mortes, segundo a Defesa Civil local.

Os baixos índices pluviométricos observados no Município nos induz, mais propriamente a ocorrência de um tipo climático tendendo ao Semi-Árido (BSh, segundo Koppen). Um dos principais fatores responsáveis pela semi-aridez está associado à presença de águas frias pelo fenômeno da ressurgência, motivado pelo ramo da Corrente do Brasil, que se aproxima bastante da costa neste trecho do Estado.

 

2. OBJETIVOS

 

O objetivo principal foi o de procurar identificar as causas das enchentes ocorridas em 09 e 10 de dezembro de 2002, na cidade de Cabo Frio,  visto que tal fato nunca havia acontecido antes, segundo a Defesa Civil local, seja somente por excesso de chuvas, por bueiros entupidos, seja por qualquer fato humano, do tipo canal não dragado, de modo a ser elaborado um resumo conclusivo dos motivos que originaram a catástrofe, evitando que volte a ocorrer num futuro próximo, por ocasião de um novo índice pluviométrico elevado, para esta região, nesta época do ano, em uma estação que se responsabiliza por apenas 1/4 da pluviosidade média anual.

 

3. METODOLOGIA

 

Utilizamos dados pluviométricos do  período de 1970 a 1986 medidos em Cabo Frio e Iguaba Grande, para se chegar ao valor “normal” do período comum entre as duas localidades, uma vez que o posto Meteorológico de Cabo Frio  deixou de operar a partir de 1987  acreditamos que por sua grande proximidade (cerca de 20km.) e a insignificante variação das coordenadas geográficas (Latitude, Longitude e Altitude), e a bastante  semelhança em seus totais médios acreditamos que Iguaba Grande que concentra um total pluviométrico médio anual de 909,8mm, correspondendo a cerca de 9,5% a mais do que Cabo Frio (823mm/anuais), possa servir de referencial explicativo para se desvendar a ocorrência da referida calamidade. Para se chegar ao aspecto conclusivo, a nível de detalhes lançamos mãos do volume pluviométrico diário medidos em Iguaba Grande, durante o mês de dezembro de 2002, o que nos permitiu calcular um balanço hídrico também muito semelhante entre as duas localidades, e correlacionamos as chuvas de dezembro de 2002 à circulação atmosférica, dominante naquele período utilizando Cartas Sinóticas fornecidas pelo INPE, e ainda informações da altura das marés cedidos pelo IBGE.

 

4. A ANÁLISE E SEUS RESULTADOS

 

4.1 Altura Média Comparativa da Pluviosidade de Iguaba Grande e Cabo

Frio no Período de 1970 a 1986

 

Na procura de identificar a existência de algum ano ou seqüência de anos que apresentassem distorções marcantes entre as duas localidades, ao longo de 17 anos, elaboramos um gráfico da distribuição anual da pluviosidade, onde se verifica que estas não aconteceram em sua plenitude. Os afastamentos que ocorreram se deram em 1974 (28,7%)  e 1979 (23,0%) de superávit para Cabo Frio e 1979 (23,0%) e 1986 (49,0%) a mais para Iguaba Grande, sendo este último percentual nos parece duvidoso pelo fechamento da Estação Meteorológica. Nos demais anos o afastamento não excedeu a 20%, como pode ser constatado pela Figura abaixo (Fig.1),  que revela uma correlação bastante confiável, razão pela qual   utilizamos os dados medidos em Iguaba Grande, na tentativa de explicar o fenômeno ocorrido nos dias 09 e 10 de dezembro de 2002. 

 

Fig.1 – Fonte: INMET-UFF

 

4.2 – Balanço Hídrico Comparativo entre Cabo Frio e Iguaba Grande -período de 1970 à 1986

 

Afastamento igualmente pouco perceptível é revelado pela representação do Balanço Hídrico para as duas localidades, tanto no que se refere a reposição e retirada de água, divergindo nos valores calculados para a deficiência hídrica. Todavia diverge em cerca de 43%  quando consideramos a deficiência hídrica excedente em Cabo Frio, como se pode visualizar pelas Figuras abaixo, (fig. 2) e (fig. 3).

 

Fig. 2

 

 

Fig. 3

 

4.3 – Circulação Atmosférica dominante nos dias 09 e 10

 

4.3.1 – Análise Horária das Cartas Sinóticas do Período

 

Para um melhor entendimento de como evoluiu a circulação atmosférica, estendemos o período do dia 07 a 18 do mês de dezembro, conforme figura abaixo:

 

 Fig. 4

 

  PT

        FF 

     FF 

    ZCAS 

    PT 

    PT 

    PT 

    PT 

    PT 

    PT 

    PT 

    PT 

 07

0 08

0 09

     10

1 11

 12

 13

  14

 15

 16

 17

 18

 

LEGENDA:

 

PT = Massa Polar Tropicalizada

FF = Frente Fria

ZCAS = Zona de Convergência do Atlântico Sul

 

Segundo as imagens de satélite observamos que no dia 7 o Estado do Rio de Janeiro estava sob a ação de uma Massa Polar Tropicalizada com pouca nebulosidade e ausência de precipitação em Cabo Frio. Uma nova frente encontrava-se no Paraná, com nuvens cumuliformes à oeste deste Estado, e mais enfraquecida no litoral. A frente fria anterior já se encontrava no sul da Bahia, enquanto que o Estado do Rio continuava sob a ação da Massa Polar Tropicalizada, com nova frente fria avançando pelo litoral do Estado de São Paulo, apresentando forte nebulosidade do Paraná ao Uruguai e uma terceira frente já estava se definindo na Argentina, na altura da Baia Blanca.

No dia 8 de dezembro, a frente fria que se encontrava no sul do Brasil, avançou pelo litoral alcançando o Estado do Rio de Janeiro. Sua baixa dinâmica situava-se no centro sul do Estado do Rio de Janeiro, associada à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), e se apresentava semi-estacionária no oceano junto ao litoral do Estado, com formação de nuvens cumuliformes praticamente em  toda a região de Cabo Frio.

No dia 9 a frente fria avançou pelo oceano, estendendo-se do Estado do Rio de Janeiro ao Espírito Santo, e o interior continental do Estado, apresentava-se coberto por uma forte nebulosidade, oriunda da associação da baixa dinâmica da frente com a Zona de Convergência do Atlântico. Como resultado, foi então registrado a queda de um violento temporal na cidade com trovoadas e relâmpagos, que iniciou-se por volta das 19horas (local), e durou cerca de 3horas, alcançando a chuva um total significativo de  65mm. A partir das 22horas a chuva continuava, porém com menor intensidade, se prolongando até às 5 horas da manha do dia 9 de dezembro. Como podem ser observados nas imagens de satélites das figuras 5 e 6 respectivamente.

 

22:39hs GMT do dia 8 de dezembro de 2002

Fig. 5 – Fonte: INPE

 

 

03:11hs GMT do dia 9 de dezembro de 2002

Fig. 6 – Fonte: INPE

 

Coincidindo com a ocorrência de uma maré de sizígia, a qual atingiu o maior nível dos dias estudados, alcançando a aproximadamente a altura de 1,5 metros, ao que tudo indica, a interferência da lua cheia foi decisiva, juntamente com a função dos fortes ventos oriundos da chegada da Massa Polar, conforme figura (Fig. 7):

 

06:12hs GMT do dia 9 de dezembro de 2002

Fig. 7 – Fonte: INPE

 

Em 10 de dezembro a foto de satélite mostra que a frente fria avançou pelo oceano estendendo-se do litoral do Espírito Santo ao litoral baiano. Porém a área continental do Estado do Rio de Janeiro permanecia sob a ação da baixa dinâmica da frente associada à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), responsabilizando-se por 9,6mm de chuvas, conforme figura (Fig. 8):

 

15:09hs GMT do dia 10 de dezembro de 2002

Fig. 8 – Fonte: INPE

 

Nos dias subseqüentes, a frente continuou avançando para o nordeste ocasionando ainda chuvas fracas em Cabo Frio do dia 11 ao dia 18. Provavelmente, a região já se encontrava sob domínio da Massa Polar Tropicalizada.

 

4.3.2 – Conseqüências do Episódio Pluviométrico

 

Através da análise das cartas sinóticas, foi possível compreender a causa da tragédia que se abateu sobre Cabo Frio, nos dias 9 e 10 de dezembro de 2002.

O início das chuvas que se deu por volta das 19 horas, provocou o alagamento da cidade, ainda de madrugada, e quando amanheceu o dia, Cabo Frio já estava coberto pela água. Com seu baixo escoamento e com a continuidade da chuva, embora a partir das três horas da manhã esta ainda continuava, porém de modo mais brando. A cidade só deixou de ficar debaixo d´água no dia 12 de dezembro de 2002.

A Defesa Civil Municipal e o Corpo de Bombeiros realizava a retirada dos moradores de suas casas, abrigando 16 pessoas num CIEP local.

Foram distribuídos nos dias 10, 11 e 12; refeições, água, leite, fraldas descartáveis e cloro para a população das casas afetadas (80 casas e cerca de 400 pessoas), e foi providenciado a vacinação contra tétano e hepatite B no próprio local.

A forte chuva que atingiu a cidade no dia 9 de dezembro deixou em toda a Região dos Lagos um rastro de destruição. Mas o verdadeiro caos foi registrado em Cabo Frio, onde pelo menos sete bairros ficaram em situação crítica, segundo a avaliação do Corpo de Bombeiros da cidade, que recebeu vários chamados de socorro dos desabrigados, e um muro, que desabou no bairro da Gamboa, deixou uma senhora ferida. No Jardim Esperança e Boca do Mato, moradores perderam praticamente tudo dentro das casas, e no Parque Burle o valão voltou a transbordar, inundando ruas transversais. São Cristóvão e Guarani também foram duramente castigados pelas chuvas.

No centro, muitas lojas permaneceram fechadas em plena segunda-feira, vítimas da enchente. Vários comerciantes perderam quase todo o estoque, com mercadorias estragadas pela água e amargaram grandesrejuízos. Muitos funcionários não conseguiram chegar aos locais de trabalho. Movimento zero de vendas a pouco menos quinze dias do Natal. Este o saldo negativo do comércio de Cabo Frio, ocasionado pelas fortes chuvas que caíram em toda a cidade na parte da manhã, chegando a alcançar os joelhos e mesmo a cintura das pessoas.

Os bairros mais atingidos pelas chuvas foram: Jardim Esperança,  Jacaré, Bosque do Peró, Parque Burle, Manoel Correa e Boca do Mato, além de outros municípios de Iguaba Grande.

Escolas fechadas, moradores impedidos de sair de casa e comércio em crise, foram as principais conseqüências dos prejuízos causados pela chuva, fotos do bairro de Gamboa:

 

      

 

5. CONCLUSÃO

 

Os índices pluviométricos elevados, jamais ocorridos, que assolou Cabo Frio em 9 de dezembro de 2002, podem ser explicados pela presença de uma frente fria semi-estacionária, com formação de nuvens cumuliformes provocando um temporal jamais ocorrido no município, que associado as condições do terreno que outrora fora uma superfície de alagadiço com o lençol freático bastante alto, e ainda o elevado nível da maré naquele dia, não permitiu o escoamento do volume de água precipitada.

A nossa proposta para manejo, com a finalidade de evitar, no futuro que ocorra novamente destruições provocadas por outras enchentes, seria o de fazer, nos bairros mais atingidos, um estudo de escoamento que possa distribuir melhor as águas das chuvas para outras áreas que não tenham sido do tipo alagadiço, e que deveria estar concluído o mais breve possível, de modo a evitar a coincidência de um novo índice pluviométrico elevado associado a uma altura significativa  das marés para a região nesta época do ano.

 

6.  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

ALAIR  altera prazo de conclusão para algumas obras até o dia 18. Folha dos Lagos, Cabo Frio, p.2, 10 dez. 2002.

 

BARBIÉRE, Evandro Biassi. Ritmo climático e extração e extração do sal em Cabo Frio. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro : IBGE, v.37, n.4, p.23-109, out./dez. 1975.

 

BERNARDES, Lysia Maria Cavalcanti. Tipos de clima do Estado do Rio. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, 14 (1): 57-80, jan./mar. 1952

 

CABO Frio vive dia de caos. Folha dos Lagos, Cabo Frio, p.5, 10 dez. 2000.

 

CABO FRIO (RJ). Coordenadoria Municipal de Defesa Civil. Relatório mensal de atividades realizadas. Cabo Frio, dez. 2002.

 

CABO FRIO (RJ). Coordenadoria Municipal de Defesa Civil. Relatório n. COMDEC 014/2002. Cabo Frio, 2002.

 

CABO FRIO (RJ). Coordenadoria Municipal da Defesa Civil. Socorros prestados devidos as fortes chuvas do dia 09/12/02. Cabo Frio, 2002.

 

CHUVA deixa escolas sem aula. Folha dos Lagos, Cabo Frio, p.5, 11 dez. 2002.

 

CHUVAS devem continuar até sexta. Folha dos Lagos, Cabo Frio, p. 4, 10 dez. 2002.

 

COMÉRCIO tem prejuízo com as chuvas. Folha dos Lagos, Cabo Frio, p.3, 10 dez. 2002.

 

ENCICLOPÉDIA dos Municípios brasileiros. Rio de Janeiro : IBGE, 1958. V.22, p.210-215.

 

ESTUDOS para o planejamento municipal : Cabo Frio,4. Rio de Janeiro : FIDERJ, 1977.

 

O GLOBO, Rio de Janeiro. Disponível em : < http: // www.oglobo.com.br >.  Acesso em : jan . 2003.

 

HOSPITAIS têm movimento tranqüilo. Folha dos Lagos, Cabo Frio, p. 5, 11 dez. 2002.

 

INSTITUTO Brasileiro de Geografia e Estatística, Rio de Janeiro. Disponível em : <http://www.ibge.gov.br>  Acesso em : Fev. 2003.

 

INSTITUTO Nacional de Pesquisa Espacial, São Paulo. Disponível em : <http://www.inpe.com.br>.Acesso em :  Mar. 2003.