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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

RELAÇÃO DO BARRAMENTO DO RIO PIRANHAS/AÇU (RN) COM AS     ALTERAÇÕES AMBIENTAIS, EM  SEU BAIXO CURSO E ZONA COSTEIRA CORRESPONDENTE

 

 

Paulo Roberto de Menezes

prdemenezes@bol.com.br

Maria do Socorro Costa Martim

smartim@cchla.ufrn.br

Fernando Moreira da Silva

fernandoxmoreira@bol.com.br

 

 

Universidade Federal do Rio Grande do Norte -

Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes Departamento de Geografia Base de Pesquisa - Estudos Geoambientais

 


Palavras-chave: Barramento, erosão/acresção costeira, zona costeira

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso





 

A zona costeira do litoral, Galinhos, Guamaré e Macau-RN, ( figura 01), até recentemente era pontilhada por pequenas vilas e povoados de difícil acesso. Com a abertura de novas estradas bordejando a linha de costa e facilitando o acesso a estas áreas, com a difusão da filosofia de lazer voltada para o mar; e os planos estaduais de turismo incentivando e contemplando empreendimentos vultuosos na zona costeira, além dos diversos sistemas atuantes sobre a geomorfologia, contribuem para exacerbar o problema de erosão  na área em estudo.

 

Fonte: IDEMA,2001.

Figura 01-Mapa de localização da área

 

O problema da erosão é de certo modo antropogênico no sentido que se ninguém construísse próximo à linha de costa, este fenômeno não teria importância para o homem. Adicionalmente, o homem contribui para exacerbar o problema numa variedade de maneira tais como: práticas inadequadas de ocupação do solo; construção de Açudes e represas, reduzindo o suprimento de sedimento para as praias; construção de obras de engenharia (molhes, muros.), alterando o transporte de sedimentos no litoral.(ver figuras 02 e 03). 

A erosão costeira, como um risco ambiental para o homem, tende a se agravar nos próximos anos, em função do aparecimento, nas últimas décadas de uma filosofia de lazer e turismo voltados para a zona costeira, resultando na incorporação imobiliária de extensos trechos edificados.

É importante, entretanto lembrar que estudo de registros de mareógrafos para a América do Sul apontam para um tendência recente de elevação do nível do mar.

 

Foto: PAULO MENEZES, nov./2002.

 Figura 02 Praia do Corta Cachorro (Macau/RN). Erosão costeira sobre a     obra                    de engenharia (estrada) ao logo da zona de estirâncio, atividades impactante      antrópica (exploração/produção de Petróleo).

 

 

Foto: PAULO MENEZES, nov./2002.

Figura 03 – Erosão costeira no campo de Macau-RN com visada diferente

 

A área está totalmente inclusa no cinturão de ventos alísios do Atlântico Sul, onde este fato tem duas implicações importantes: i – as ondas que exercem papel geomórfico importante ao longo da linha de costa, são geradas nestes cinturões de ventos alísios, e ii – por causa da grande estabilidade destes ventos, os sistemas de ondas, vão também se caracterizar pela sua constância, o que se refletirá em padrões de dispersão de sedimentos ao longo da linha de costa, mantendo o equilíbrio dinâmico.

Estudos geológicos mais detalhados de Miranda (1983), Bagnoli (1988), 1995); Bagnoli e Oliveira  (1995) e Farias (1997) evidenciaram a importância da dinâmica costeira na área Galinhos/ Macau, com a migração para oeste da ilha de barreira da Ponta do Tubarão, afetando a morfologia do fundo marinho e do litoral.  Este crescimento para oeste da ilha de barreira modificou a movimentação do prisma de maré, fazendo com que fosse assoreado por bancos de areia, formados pela ilha de barreira em migração.

Em virtude dos efeitos erosivos observados, foram trabalhadas as áreas críticas do litoral, por   Bandeira (1992), Bandeira e Salim (1999), seguidos de outros estudos mais recentes, como: Lima et al. (2002).

Utilizando-se de pesquisas realizadas por Lima et al. (2002), foram trabalhadas imagens de satélites e fotografias aéreas, no período (1954/2000) resultando em mapas/painéis com evoluções espaço-temporais da linha de costa entre os municípios de Galinhos, Guamaré e Macau, figuras: 04, 05, 06, 07 e 08. Estes dados foram confrontados com gráficos de precipitações pluviométricas acumuladas na bacia hidrográfica do rio Açu, nas estações de Macau, Pendências, Carnaubais, Guamaré e Porto do Mangue no período de 1953/2000, conforme figuras: 09 e 10. Existe uma relação entre os dados hidrológicos, meteorológicos, sedimentológicos, nos períodos (1954/1967 e 1988/2000) em que há uma menor ocorrência de precipitações pluviométricas (média de 507mm e 540mm respectivamente). Nestes períodos, atuaram tanto o fenômeno El Niño, como o La Niña, porém o El Niño foi mais atuante e de maior intensidade. É evidenciada uma maior erosão na linha de costa, conforme figuras 04, 05, 07, e 08. Por outro lado no período (1967/1988), neste período atuaram os fenômenos El Niño e La Niña, onde o fenômeno La Niña se fez presente com maior intensidade, alterando todo sistema atmosférico e oceânico, ocorreu uma maior incidência de precipitações pluviométricas na área (média de 612 mm, máxima de 2000 mm em 1985), é evidenciada acresção de sedimento a linha de costa, conforme verificada nas figura 04 e 06.

Assim, de acordo com os dados observados, os anos de menor precipitação pluviométrica, há menor disponibilidade de sedimentos carreados ao litoral, modificando a morfologia e a dinâmica da zona costeira. A erosão é mais acentuada, conforme foram observados nos mapas. Devemos prosseguir com estes estudos no futuro, com mais refino de dados.

Diante destes fatos pode-se correlacionar os barramentos dos rios temporários do Nordeste como prejudiciais à zona costeira, na redução da carga de sedimentos e volume de água doce, necessários ao equilíbrio  dinâmico do estuário e zona costeira.

Para um melhor entendimento , conforme Ropelewski e Halpert ,1989, ( apud EMPARN, 2001) El Niño é um fenômeno atmosférico caracterizado por um aquecimento anormal das águas superficiais no oceano Pacífico Tropical, e que pode afetar o clima regional e global, mudando os padrões de vento a nível mundial, e afetando assim, os regimes de chuva em regiões tropicais e de latitudes médias. La  Niña  representa um fenômeno oceânico-atmosférico com características opostas ao El Niño, e que denota-se por um esfriamento anormal nas águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical

Atualmente, o Rio Açu está perenizado a jusante da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves até a comunidade de Porto Carão distrito do Município de Pendências, onde empreendedores da indústrias salineira local, fizeram mais uma vez, barramento do rio Açu, não deixando o mesmo fluir livremente até a sua foz. Este fato é observado desde 1988 por fotografias aéreas da área, as vezes, só voltando ao seu curso normal nos períodos das cheias (meses de fevereiro a maio), quando é observada uma maior vazão da barragem Armando Ribeiro Gonçalves.

 

Fonte: LIMA et al., 2002.

Figura 04 – Mapa evolução da linha de costa de Galinhos/RN, período 1954/2000.

 

Fonte: LIMA et al., 2002.

Figura 05 – Variação da linha de costa na praia do Minhoto Guamaré/RN, período 1954/1967.

 

Fonte: LIMA et al., 2002.

Figura 06 – Variação da linha de costa na praia do Minhoto Guamaré/RN, período 1967/1988.

 

Fonte: LIMA et al., 2002.

Figura 07 – Variação da linha de costa na praia do Minhoto Guamaré/RN, período 1988/2000.

 

Fonte: LIMA et al., 2002.

Figura 08 – Mapa evolução da Ponta do Tubarão, Macau/RN, período 1989/2000.

 

Fonte: Boletim Pluviométrico da EMPARN, 2001.

Figura 09 – Gráfico de precipitações pluviométricas acumuladas/ano, na Bacia  

do Rio Piranhas/Açu, período 1953/2000.

 

Fonte: Boletim Pluviométrico da EMPARN, 2001.

Figura 10 – Gráfico de precipitações pluviométricas acumuladas/ano, na Bacia

do Rio Piranhas/ Açu, período 1980/2000, indicação de El Niño e  La      Niña.

 

CONSIDERACÕES FINAIS

 

·     As condições climáticas da região de estudo estão relacionados diretamente com indicadores meteorológicos definidos por direção e velocidade dos ventos, insolação, precipitação pluviométrica e temperatura atmosférica.

·     Existe uma relação dos dados meteorológicos, hidrogeológicos, sedimentológicos e físico-químicos, onde foi constatado que em anos de menores precipitação pluviométrica (maior atuação do fenômeno El Niño), abaixo da média anual, que é de 560 mm, é evidente uma maior erosão (avanço) da linha de costa (Galinhos, Guamaré e Macau) e uma evidencia na redução da produção de pescado.  Nem sempre as ocorrências dos fenômenos El Niño e La Niña estão associados com anos mais ou menos chuvosos.

·     Em anos de maiores precipitações pluviométricas, em geral, acima da média anual (maior atuação do fenônemo La Niña), registra-se uma acresção (recuo) da linha de costa (Galinhos, Guamaré e Macau), além de ocorrer uma maior captura de pescado estuarino/marítimo da região.

·     Os barramentos do rio Açu, e de outras bacias hidrográficas, agem como agente redutor de fluxo e energia ( carga de sedimentos, matéria orgânica e água doce) para a zona costeira, acelerando modificações ao sistema morfodinâmico costeiro e a cadeia alimentar estuarino/marítimo.

·     A ação antrópica sobre os espaços do baixo curso do rio Açu e zona costeira, estão alterando os aspectos morfológicos, paisagísticos e os ecossistemas associados.

·      A jusante da barragem Armando Ribeiro Gonçalves o rio Açu torna a ser barrado (tapagem) em três pontos. A descarga hídrica do rio Açu só chega à foz nos períodos de cheia (meses março/junho) quando consegue romper estes barramentos. 

·      O frágil equilíbrio entre os diversos componentes do meio biológico e ecossistemas encontram-se em situação limite e em alguns casos, já de desequilíbrio perceptível na área, como degradação de planícies de maré; destruição da cobertura vegetal (caatinga, mata ciliar e manguezais); degradação de planícies de deflação; risco potencial de poluição (petróleo) nas planícies de inundações (canais de maré e áreas de manguezal) e área de estirâncio ao longo do litoral Macau/Guamaré.

Como um estudo pioneiro, abrem-se perspectivas às pesquisas futuras, sugerendo-se monitoramento e acompanhamentos sobre os barramentos e os seus efeitos impactantes no baixo curso do rio Açu e seja ampliado no aspecto regional, em outras bacias hidrográficas.

Como utilizou-se de médias pluviométricas anuais, em períodos longos, incluíndo atuações dos fenômenos El Niño/La Niña, novas linhas de pesquisa deverão ser realizada para uma maior clareza, onde  poderia utilizar anos extremos de La Niña e El Niño (casos isolados)

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BAGNOLI, Eduardo. Ilhas de barreira: conceituação teórica e um exemplo do Recente (Ponta do Tubarão Litoral Norte do Estado do Rio Grande do Norte). Natal: PETROBRÁS. DEBAR. SELAB, 1988. 20f. Relatório Interno.

 

BAGNOLI, Eduardo; OLIVEIRA, J.W. Ponta do Tubarão, um exemplo de incorporação de áreas marinhas ao continente, pela migração lateral de um sistema ilha de barreira / laguna, no litoral Norte do Estado do Rio Grande do Norte. In: SIMPÓSIO SOBRE PROCESSOS SEDIMENTARES E PROBLEMAS AMBIENTAIS NA ZONA COSTEIRA NORDESTE DO BRASIL, 1., 1995,  Recife. Anais...  Recife: 1995. p.129-133.

 

BANDEIRA, Jefferson.V. Análise do problema de erosão na linha de costa nas imediações dos poços de produção de petróleo MA-14, MA-15 e MA-19, do Campo da PETROBRÁS de Macau RN.  Belo Horizonte: CDTN/CNEN, 1992.  Relatório TE4-013/92 (Relatório técnico de consultoria para a PETROBRÁS/RPNS/DIREN).

 

BANDEIRA, Jefferson.V.; SALIM, L.H. Análise dos fenômenos hidro-sedimentológicos na linha de costa das regiões dos campos de Serra e Macau, Município de Macau RN.  Belo Horizonte: CNEN/CDTN, 1999. 24f. Relatório RC-C7-001/99.

 

EMPARN EMPRESA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA DO RIO GRANDE DO NORTE. Departamento de Metereologia e Recursos Hídricos. Banco de Dados das Estações Meteorológicas do Rio Grande do Norte e Relatórios Técnico Interno: coletânia de trabahos, 1980/2001. Natal: 2001.

 

FARIAS, Paulo.R. Cordeiro. Caracterização ambiental das áreas de atuação da Petrobrás no Estado do Rio Grande do Norte. Geologia de superfície da área de detalhe de Macau.  Natal: PETROBRÁS.E & P RNCE.DEBAR.DIREX.SELAB, 1997. Relatório Final. 83f. (Relatório interno CT GEXP/GELAB No. 46/97).

 

LIMA, Zuleide Maria de et al. Caracterização geoambiental do trecho entre Galinhos e Macau_RN. In: FORÚM AMBIENTAL, 1., 2002, Natal. Desenvolvimento Sustentável da Industria Energética no Ecossistema Costeiro de Macau e Guamaré-RN. Natal: 2002.

 

MIRANDA, F. M. Geologia da área de Macauzinho, litoral norte do Estado do Rio Grande do Norte. Relatório de Graduação de curso de geologia. da UFRN, Natal, 1983. 168 p.