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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

O ritmo da atividade urbana e a concentração de ozônio na camada de mistura na Região Metropolitana de São Paulo e arredores

 

 

Tarik Rezende de Azevedo

Laboratório de Climatologia e Biogeografia

Universidade de São Paulo

xtarikx@usp.br
 

 

 

Palavras-chave: clima urbano, ozônio troposférico, poluição atmosférica.

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

 Introdução

 

A produção de extensas áreas urbanas implica em alterações profundas nos processos de armazenamento e troca de calor em superfície, deformações do campo de vento próximo à superfície, além de várias outras modificações nos atributos climáticos da área urbanizada e arredores (Monteiro, 1976). Dentre estas, desde há muito apontada, e a mais facilmente percebida, figura a poluição atmosférica (Landsberg, 1956). No entanto, o termo poluição é muito genérico, abrigando centenas de gases, líquidos e sólidos em diversos arranjos físicos, para muitos dos quais provavelmente sequer haja clareza dos possíveis efeitos na saúde e bem estar das populações que passam boa parte de sua vida os inalando.

Um gás em especial, o ozônio, tem recebido especial atenção. Embora ao senso comum aparente ser objeto de investigação recente, da ordem de duas décadas, de fato, desde finais do século XIX já era investigado sistematicamente. Ao contrário do que se pensa, o ozônio foi identificado, começou a ser medido e estudado em superfície e não na estratosfera. Por ser extremamente reativo, age como um eficiente oxidante, sobretudo se associado à água, dando origem ao radical hidroxila. Próximo à superfície, portanto, tem vida muito curta, uma vez que com muita facilidade encontra material apto a sofrer reação química absorvendo o terceiro átomo de oxigênio que faz da molécula de ozônio instável. Há uma miríade de reações possíveis. Desde a oxidação de metais mobilizados por via líquida no solo até a redução parcial de moléculas orgânicas da superfície do aparelho respiratório, a gama de possibilidades é simplesmente enorme.

Na verdade, é possível até inferir que boa parte dos processos que envolvem o oxigênio, apresentam as taxas conhecidas justamente pela ação desde gás. Ou, dito de outra forma, ele é o intermediário nas reações que implicam no consumo do gás oxigênio, molécula naturalmente muito estável. A reação intermediária de dissociação do oxigênio e absorção temporária dos dois átomos livres por outras duas moléculas de oxigênio pressupõe um processo que forneça energia suficiente ao menos para o rompimento da molécula original e mais alguma energia cinética para forçar a incorporação em outra. Há uma probabilidade determinável para que a dissociação ocorra pelo natural entrechocar das eletrosferas à dada temperatura (o que de fato ocorre). No entanto, sob radiação solar, sem dúvida, o processo se intensifica em função da intensidade e espectro de freqüências da radiação incidente. Este processo de dissociação direta da molécula de oxigênio predomina na formação do ozônio estratosférico. Estima-se que vinte por cento do ozônio troposférico seja oriundo da difusão do ozônio da estratosfera para níveis mais baixos através da tropopausa (Mouvier, 1997).

No caso da baixa troposfera, a taxa de dissociação direta do oxigênio molecular é muito baixa. A maior parte do ozônio é oriunda da ação de um catalisador, naturalmente produzido nas descargas elétricas e nos processos de combustão, além de outros; o dióxido de nitrogênio.

Para o tipo de tratamento adotado neste trabalho, o relevante mesmo é que há ritmos marcados na taxa de produção de ozônio na camada de mistura determinado pelos ritmos da radiação solar. Ao menos o ritmo diário (associado à rotação da Terra), o ritmo da sazonalidade (imposta pela translação num plano orbital inclinado em relação ao eixo do Planeta) e o ritmo dos tipos de tempo (derivado da circulação em escala sinótica) são facilmente identificáveis no registro hora a hora da concentração de ozônio. Neste trabalho destaca-se o ritmo diário da insolação.

Não são apenas compostos naturais que consomem o ozônio, ou forçam o equilíbrio da reação reversível no sentido de concentrações menores deste gás. Vários dos constituintes da poluição urbana são potenciais consumidores do ozônio. Dentre eles, alguns merecem especial atenção, como os monóxidos de carbono, nitrogênio e enxofre, produzidos em taxas elevadas em áreas urbanas, sobretudo em processos de combustão.

As áreas urbanas apresentam um ritmo próprio, determinado quase que integralmente pelo ritmo do trabalho. No caso dos poluentes atmosféricos, a produção aumenta substancialmente durante o período diurno e início da noite dos dias úteis. A ressuspenção do material particulado, principalmente o mais fino (como a parcela inalável), é determinada pelo mesmo ritmo. No caso da Grande São Paulo, na prática, é o mesmo que dizer que, nos anos recentes, a concentração de poluentes é determinada pela quantidade e pela densidade de veículos automotores em circulação.

Se a produção de ozônio tem um ritmo diário bem marcado e identificável e se a produção de poluentes atmosféricos potencialmente consumidores de ozônio é marcada pelo ritmo semanal da atividade urbana, é perfeitamente plausível admitir como hipótese a ser testada, que a concentração de ozônio na Grande São Paulo, seja também uma função do ritmo semanal da atividade urbana. Menos porque a cidade interfira substancialmente na taxa de produção, mas porque interfere crucialmente em sua taxa de consumo. Esta é a hipótese que nos propusemos a investigar e que para a qual, neste texto, apresentamos o resultado.

 

Materiais e método

 

Foram usados os registros horários da concentração de ozônio obtidos pelas estações telemétricas de monitoramento da qualidade do ar em superfície da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB) na Região Metropolitana de São Paulo e arredores. Das estações existentes, selecionaram-se aquelas com registros no período de 1996 a 2001, que resulta num universo de nove estações na RMSP e uma no centro da sede do Município de Cubatão na Baixada Santista.

Embora haja registros anteriores em algumas destas estações e em outras no período anterior a 1996, eles foram gerados a partir de outros tipos de instrumento e não podem ser comparados diretamente com os registros mais recentes. Os dados das séries fornecidas pela CETESB, e aqui usados, passaram por controle de consistência e validação. Uma vez que a Companhia não fornece com a clareza e detalhamento necessários o método e os critérios sob os quais é feito o controle de qualidade, adotamos, a contragosto, os parâmetros de validação da mesma. Usamos apenas os registros considerados como de qualidade máxima. Desta feita, todas as dez séries de registros, apresentam lacunas e falhas, variando o percentual de horários com registro válido entre 67 e 99%.

Os registros remanescentes foram agregados em valores de tendência central conforme critérios e procedimentos adotados em trabalhos anteriores (Azevedo, 2001, 2002) e os resultados representados em diagramas por isopletas para facilitar a leitura e interpretação.

 

Resultados

 

A concentração média de ozônio nas dez estações selecionadas em função do horário e dia da semana está representada nas Figuras 01 a 10 abaixo. A estratégia de representação adotada permite e privilegia a comparação visual rápida e eficiente dos valores de uma estação e ao mesmo tempo dentre as estações, embora torne mais difícil a determinação exata dos valores numéricos. A escolha foi proposital.

Verifica-se claramente que em todas as dez estações há um marcado ritmo diário da concentração de ozônio. Partindo de uma concentração mínima por volta do alvorecer, esta aumenta em taxa acelerada a partir do início da manhã até por volta das 14 h para depois diminuir em taxa semelhante até pouco depois do ocaso. Daí em diante, a concentração continua a diminuir em taxa bem menor até por volta da meia-noite. Durante o início da madrugada há um suave e pequeno aumento na concentração seguido de um decréscimo igualmente suave até pouco antes do alvorecer, recomeçando o tudo novamente. Pois bem, este é o ritmo mais marcante da concentração do ozônio, relacionado aos processos de sua produção. Este ritmo é determinado pelo ciclo diário da radiação solar, um fenômeno absolutamente natural.

Observando com um pouco mais de minúcia, verifica-se que, de acordo com o dia da semana, este ritmo diário da concentração de ozônio apresenta uma variação significativa, mesmo na escala grosseira (propositalmente adotada) da eqüidistância de 10 unidades de concentração entre as isolinhas na representação. No domingo, em qualquer horário que se tome, a concentração é maior e diminui em direção à quarta-feira. Isto pode ser muito bem distinguido na constrição geral da "saliência" central em todas as figuras e no aprofundamento da mínima do final da madrugada. De fato, este é o comportamento geral, uma vez que, o topo do início da tarde é um pouco mais elevado no meio da semana que no final de semana em duas das estações (Cubatão e Mauá). Voltaremos ao fato mais adiante.

 

 

 

 

 

 

 

 

Figuras 01 a 10. Média da concentração do ozônio troposférico em função do horário (abscissas) e dia da semana (ordenadas). Estação de Cubatão e nove estações da rede de monitoramento da qualidade do ar da CETESB na Região Metropolitana de São Paulo. Período de 1996 a 2002. Unidade de medida da concentração de ozônio em todas as figuras é µg /m³.

 

Chama a atenção também que a concentração de ozônio seja muito díspar dentre as estações. Isto pode ser relacionado à localização das mesmas em duas escalas. Numa escala mais genérica, a de sua localização em relação à mancha urbana da Grande São Paulo como um todo e numa escala mais detalhada às características do entorno imediato, que pode ser representado pelo uso do solo em sentido amplo num raio de algumas centenas de metros de cada uma delas. Infelizmente, o exíguo espaço não permite apresentar o mapa da localização dos postos, mas o mesmo pode ser facilmente consultado no sítio da CETESB na Internet (http//www.cetesb.sp.gov.br).

Podemos considerar como aceitável que a concentração média de ozônio aos domingos é a que mais se aproxima da distribuição do ozônio troposférico que deveria ocorrer caso não houvesse a enorme produção de poluentes pela área urbana. Não que a produção de poluentes aos domingos seja nula ou desprezível, ou que não haja material remanescente da semana anterior a dispersar, mas que, neste dia, a produção certamente é a mínima em relação aos outros dias da semana. Esta é a melhor aproximação possível do que seria ideal; isolar o efeito da produção de poluentes sobre a concentração de ozônio. Para isto, há ainda que distinguir se variações também estão ligadas ao sítio em si e o uso do solo estrito senso.

 

Figura 11. Média da concentração ozônio no domingo em função do horário. Estações da CETESB. Período de 1996 a 2002. Unidade de medida da concentração de ozônio na figuras é µg /m³.

 

Na figura 11 está representada a concentração média de ozônio aos domingos nas dez estações da CETESB selecionadas anteriormente. As estações foram ordenadas de tal forma que, desde a primeira estação (congonhas) até a última (Ibirapuera), a concentração média, sem considerar o horário, seja crescente. Embora o padrão geral de distribuição ao longo das horas do dia seja essencialmente o mesmo em todas elas, há uma diferença entre os dois extremos com fator de ordem 3 a 4. Dada a relativa proximidade das estações, o fato é, no mínimo, intrigante. Como boa parte da área de maior adensamento da mancha urbana da RMSP apresenta baixos índices de vegetação, há uma importante distinção a ser feita dentre as estações e que, em parte explica essa disparidade.

Embora muitos ignorem o fato, as matas e florestas são grandes produtores de hidrocarbonetos gasosos tanto diretamente pela vegetação quanto pela decomposição de material orgânico. Sob ação da luz solar os hidrocarbonetos sobrem foto-oxidação e, em reações em cadeia, seus constituintes são reduzidos a compostos mais simples e estáveis. Em alguns dos processos foquímicos intermediários é gerado ozônio.

Toda fachada litorânea da escarpa da Serra do Mar e parte da borda do Planalto Atlântico no trecho do Estado de São Paulo é recoberta pelos remanescentes da mata atlântica. Esta área age, portanto, como um grande produtor potencial de gases que geram ozônio em seu processo de degradação sob a ação da insolação. As estações de Mauá e São Caetano do Sul estão relativamente próximas ao rebordo da Serra do Mar. Elas recebem a brisa oceano-continente antes que ela tenha passado pela maior parte da mancha urbana, mas logo depois desta ter penteado o dossel da mata atlântica.

A estação do Ibirapuera está localizada numa clareira gramada de um bosque com dezenas de eucaliptos adultos de um dos maiores parques da RMSP. Conforme aludido em outro trabalho (Azevedo, 2002), o Parque do Ibirapuera provavelmente funciona como área de circulação preferencialmente advectiva, sobretudo em períodos de calmaria regional. Desta feita, o ar de níveis mais altos desce e espalha-se pelo Parque e, deste, para os arredores, fato que pode ser facilmente verificado dando uma volta a pé em seu redor num dia sob o domínio de um anticiclone. Ou seja, o ar amostrado pela estação é majoritariamente aquele que ainda não sofreu o consumo de parte significativa do ozônio pelos poluentes, sobretudo emitidos pelos veículos automotores. Se a mesma estação estivesse implantada a pouco menos de dois quilômetros de distância, no trecho próximo ao prédio do Departamento de Trânsito de São Paulo, os registros provavelmente seriam muito parecidos aos de Osasco, Lapa, Congonhas e do Parque Dom Pedro. Estas estações estão localizadas muito próximas ou no interior de áreas de tráfego intenso e quase nenhuma vegetação.

Adotamos o princípio de que a quarta-feira seja o dia de maior atividade urbana quando se agregam registros de períodos longos (alguns anos), dado que a ocorrência de feriados e pontes aumenta em direção à segunda e à sexta-feira (Azevedo, 2001, 2002). Como exposto anteriormente, embora domingo não seja um dia sem emissão de poluentes, é o dia, em média, com a menor emissão. Comparando a concentração média da quarta-feira com a de domingo, obtivemos os resultados apresentados na figura 12. Os valores apresentados consistem na proporção da concentração média de ozônio em cada estação e horário na quarta-feira tendo como base a concentração correspondente no domingo.

 

Figura 12. Proporção da concentração média de ozônio da quarta-feira em relação à concentração média de domingo em função do horário (1996-2002).

 

Verifica-se claramente que há o predomínio absoluto de proporções negativas, sobretudo no período diurno e início da noite. A redução máxima ocorre no início da manhã. Numa das estações a concentração da quarta-feira chega a ser menos da metade da de domingo. Ao final da tarde ocorre uma outra redução relativa, mas menos pronunciada. Embora não seja procedimento muito rigoroso, na sintética figura 13 apresenta-se a média da concentração horária em todas as estações nos dois dias e a proporção da concentração de quarta em relação à de domingo.

 

Figura 13. Concentração média de ozônio na quarta-feira e no domingo em função do horário (1996-2002).

 

Notável a conformação da curva, sobretudo se tomado o desvio absoluto da concentração horária de ozônio na quarta-feira em relação à concentração horária de domingo, na figura 14. Nesta, está representada também uma média de longo prazo da taxa de geração de novas viagens motorizadas em dias úteis na RMSP em função do horário. Os dados foram obtidos da Pesquisa Origem-Destino de 1997 (METRO, 1998). Os resultados desta pesquisa apontavam, para os próximos dez anos, a tendência de haver um aumento da demanda entre os picos da manhã e do final da tarde, em função do esgotamento da vazão de tráfego pelo sistema viário, da disseminação crescente do automóvel, das modificações na estrutura dos serviços e da adoção de sistemas de restrição da circulação de veículos nos horários de pico (rodízio). Assim, é pouco provável que a notável simetria entre as duas curvas seja apenas uma feliz coincidência. Porque a curva de geração de novas viagens é uma taxa de incremento e, portanto, uma das componentes da primeira derivada da curva de viagens que estão ocorrendo (integral). Esta sim é que seria direta e absolutamente comparável com o desvio da concentração de ozônio. Como ignoramos a curva de taxa de extinção de viagens, não basta simplesmente integrar a curva da taxa de geração. Tentamos, nos últimos meses, localizar informações e/ou dados que pudessem servir de indicador do volume de veículos automotores em circulação na RMSP de acordo com o horário e, para nossa surpresa, não encontramos ainda.

 

Figura 14. Comparação do desvio da concentração de ozônio na quarta-feira em relação à concentração de domingo (1996-2002) com a taxa de geração de novas viagens motorizadas na Região Metropolitana de São Paulo (1997).

 

O resultado, ora apresentado, contradiz o que esperamos que seja apenas um mal entendido replicado por meio da mídia: que a poluição de São Paulo implique no aumento da concentração de ozônio. Simplesmente não há de onde ter sido tirada a informação já que os únicos registros sistemáticos da concentração de ozônio realizados na Grande São Paulo são os mesmos que foram usados neste trabalho.

Esta é apenas uma hipótese plausível a partir de resultados de pesquisas sobre o papel da concentração do dióxido de nitrogênio na síntese de ozônio, obtidos em laboratório. Dado que este é derivado da oxidação do monóxido de nitrogênio, em parte gerado nos processos de combustão dos veículos automotores, sua concentração é significativa em áreas urbanas como a Grande São Paulo. Tanto, que a CETESB também acompanha a concentração dos dois gases através da rede telemétrica de monitoramento da qualidade do ar.

 

Figura 15. Exemplos contrastantes da concentração de dióxido de nitrogênio por horário e dia da semana em três estações de monitoramento da qualidade do ar da CETESB (1996-2002).

 

 

Aceita-se que, sob condições controladas, o dióxido de nitrogênio se comporte de acordo com sua concentração relativa. Em concentrações baixas gera ambiente adequado para o consumo do ozônio. Em concentrações médias, propicia ambiente favorável a reações fotoquímicas que geram catalisadores de ozônio como subproduto. Em concentrações elevadas, o excedente de alguns dos subprodutos (dos mesmos processos fotoquímicos) passa para o estado líquido, inibindo a taxa de incremento da concentração de ozônio. Embora o conjunto de componentes e reações envolvidas seja um tanto complexo e extenso[1], há que tentar identificar, ao menos, em que tipo de "ambiência" a Grande São Paulo está localizada em termos da concentração de dióxido de nitrogênio, mesmo que grosseiramente.

A figura 15 apresenta a concentração média de dióxido de nitrogênio em algumas das estações selecionadas anteriormente para o mesmo período. Embora haja uma grande diferença dentre os postos[2], para todos eles, a resposta da questão levantada acima é que, em média, os níveis de concentração de dióxido de nitrogênio caracterizam uma ambiência de baixa concentração deste gás. Ou seja, mesmo que haja episódios em que a concentração aumente a ponto de criar um ambiente teoricamente propício à catálise de ozônio, o que domina é uma situação propícia ao seu consumo.

Ainda sobre a figura 15 e sobre a observação que encerra o último parágrafo, pode-se inferir que a explicação para o alto teor de ozônio em Mauá em relação a congonhas, apontada anteriormente, esteja em seu elevado consumo pelos poluentes, dentre eles o monóxido de nitrogênio produzido pelos veículos automotores na área próxima à estação de congonhas. Consumidos o monóxido e o ozônio, o resultado seria o aumento do teor de dióxido de nitrogênio. Basta então, verificarmos na figura 16, um exemplo da variação hora a hora do ozônio e dos dois gases nitrogenados ao longo da semana. Neste caso, na estação de congonhas.

Os aspectos complementares das três curvas são evidentes. Partindo de segunda-feira, verifica-se um padrão semelhante até a sexta-feira. Pouco antes do alvorecer, inicia-se o crescimento da demanda de viagens motorizadas, que geram, em função do efeito cumulativo do aumento de veículos em circulação e das condições normalmente estáveis da camada de mistura, um aumento na concentração de monóxido de nitrogênio cujo pico matinal se dá por volta das 8:00h da manhã. Este aumento de monóxido, associado ao início da insolação, impõe uma pressão de consumo sobre o ozônio, mesmo que este já esteja sendo produzido em taxas crescentes. Ou seja, se não houvesse a pressão do aumento da concentração de monóxido de nitrogênio, a concentração de ozônio seria significativamente maior. O aumento gradativo da concentração de dióxido de nitrogênio confirma a hipótese.

 

Figura 16. Concentração média de ozônio, monóxido e dióxido de nitrogênio na estação de Congonhas em função do horário e dia da semana (1996-2002). A concentração de NO e NO2 deve ser multiplicada por dez. A anamorfose diferenciada da escala das curvas foi proposital para facilitar a leitura.

 

Mesmo que, aparentemente, a concentração de monóxido diminua em direção ao meio-dia, não implica apenas que sua taxa de produção diminua depois do pico do "rush" matinal. A redução da concentração também pode ser explicada, em parte, por sua conversão em dióxido, pela difusão e pelo aumento da turbulência e elevação do volume encerrado na camada de mistura nos horários de maior insolação. Ao mesmo tempo as taxas de produção de ozônio, naturalmente, atingem seu apogeu.

A eficiência do processo de produção do ozônio diminui ao mesmo tempo em que a taxa de produção de monóxido de nitrogênio aumenta conforme se aproxima o "rush" do final de tarde e início da noite. Este sim, se configura no momento em que a taxa de produção de ozônio está minguando já com o sol no ocaso. No início da noite a concentração de monóxido de nitrogênio atinge seu máximo diário, com concentração muito maior que durante o pico da manhã, a despeito da maior turbulência da camada de mistura. O dióxido de nitrogênio que tem concentração cumulativa até o meio da tarde, passa a ser produzido em taxas cada vez menores, acompanhando a extinção da produção de ozônio, a despeito do aumento da concentração de monóxido. A redução do NO2 depende essencialmente de sua dispersão ocorrer, seja pela ventilação, seja por difusão, em taxa maior que a da produção. No caso em questão, a turbulência vespertina e a brisa oceano-continente provavelmente respondem pela redução acelerada da concentração média deste gás desde o início da noite e madrugada adentro.

Aos sábados temos uma situação intermediária em relação ao domingo. Embora, conforme aludido anteriormente, neste dia (domingo) não ocorra a extinção da produção de poluentes pela cidade, certamente é o dia em que ela é menor. O pico da concentração matinal de monóxido de nitrogênio é quase imperceptível em relação aos dias úteis, ou mesmo em relação ao do sábado. As taxas de produção de ozônio devem ser essencialmente as mesmas, no entanto, a pressão de consumo pelo monóxido de nitrogênio e outros gases (que deliberadamente não foram abordados neste texto) é quase desprezível. A concentração de ozônio traça então, apenas neste dia, uma proeminente curva senoidal em direção ao início da tarde. Há um trânsito considerável nas imediações de Congonhas nas tardes de domingo, pois um dos trechos do anel viário da RMSP é justamente a Av. dos Bandeirantes. Esta dá acesso, numa ponta, às rodovias que ligam a Grande São Paulo ao litoral paulista e, na outra, à Av. Marginal do Rio Pinheiros. Evidentemente que este tráfego é menor que o dos dias úteis, nos quais, quase que cronicamente, ocorrem congestionamentos no final de tarde e início da noite. Ocorre, então, um pico na concentração de monóxido de nitrogênio, embora atinja concentrações de menos da metade daquela dos dias úteis.

 

Conclusão

 

Com os resultados e argumentos apresentados, demonstra-se que, no caso da Grande São Paulo, a concentração de ozônio troposférico em superfície depende essencialmente da densidade e volume de veículos em circulação. O aumento da intensidade da atividade urbana implica em aumento das taxas de produção de monóxido de nitrogênio, por exemplo, que, nas condições ambientais desta enorme cidade, consome parte do ozônio, transformando-se em dióxido de nitrogênio. Portanto, o aumento da atividade urbana, que resulta em aumento da concentração de quase todos os outros poluentes, no caso do ozônio, impõe um efeito inverso.

 

[1] Há muita literatura sobre o assunto. Sugerimos Mouvier (1997) como uma boa introdução.

[2] O espaço para este texto não permite a análise detalhada da distribuição espacial da variação horária e semanal deste gás e outros ao mesmo relacionados, o que será apresentado em outro texto em momento oportuno.

 

 

Referências

 

AZEVEDO, T. R. de. (2001) Dramas climáticos e responsabilidade social: a relação entre o ritmo das atividades econômicas - dias de trabalho e descanso - e o clima urbano. Política e Trabalho, João Pessoa, v. 17, p. 91-111.

 

AZEVEDO, T. R. de; TARIFA, J. R. (2001) O ritmo semanal das atividades humanas e o clima na Região Metropolitana de São Paulo. Geousp, São Paulo, v. 9, p. 9-35.

 

AZEVEDO, T. R. de (2002) Ritmo semanal do campo de vento na Grande São Paulo. In: V SIMPÓSIO BRASILEIRO DE CLIMATOLOGIA GEOGRÁFICA, 2002, Curitiba. Anais. Curitiba: Universidade Federal do Paraná.

 

AZEVEDO, T. R. de. (2002) Tem chovido menos aos domingos e feriados em São Paulo. In: V SIMPÓSIO BRASILEIRO DE CLIMATOLOGIA GEOGRÁFICA, 2002, Curitiba. Anais. Curitiba: Universidade Federal do Paraná.

 

LANDSBERG, H. E. (1956) The Climate of Towns. in THOMAS, W. L. org. Man's Role in Changing the Face of the Earth. London, v. 2, p. 584 - 606.

 

METRO (1998) Pesquisa origem destino 97. Metrô de São Paulo, São Paulo.

 

MONTEIRO, C. A. F. (1976) Teoria e clima urbano. Série Teses e Monografias, n.1. Instituto de Geografia, Universidade de São Paulo.

 

MOUVIER, G. (1997) A poluição atmosférica. Editora Ática, São Paulo.