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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

POSIÇÃO NA VERTENTE E DESEMPENHO TÉRMICO DE HABITAÇÕES COM TECNOLOGIA CONSTRUTIVA SEMELHANTE

 

 

            Eric Macedo Massa  USP  <ericmassa@yahoo.com.br>

Adriana Midori Nakanishi  USP  <drimin@bol.com.br>

            Encarnação Amélia F. Barreto  USP  <encarna@ig.com.br>

            Tarik Rezende de Azevedo  USP  <xtarikx@usp.br>

Thiago Oller de Castro  USP <tollcs@yahoo.com.br>

 

 

 

Palavras-chave: microclimatologia, conforto térmico, climatologia aplicada

 

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

 

1. INTRODUÇÃO

 

Existem alguns trabalhos que buscam entender o clima da Região Metropolitana de São Paulo, seja na escala local (principalmente) quanto na escala mesoclimática. Tarifa e Armani (2001) apresentam uma proposta de taxonomia espacial que em algumas áreas atinge a escala topoclimática, mas sugerem que se aprofunde o estudo nesta e na escala microclimática. A proposta deste trabalho foi o estudo de um fragmento da Cidade de São Paulo, no caso, a favela Paraisópolis, a segunda maior de São Paulo, e uma das maiores do Brasil. Ela localiza-se no centro do Morumbi, bairro de casarões e condomínios de elevado padrão aquisitivo, e é apontada pelos autores acima como uma unidade climática.

O objetivo específico do presente trabalho foi verificar se haveria variação microclimática nos ambientes internos das edificações a partir da observação em três postos, considerando que se inserem num mesmo mesoclima. Tais variações deveriam ocorrer por fatores topoclimáticos, uma vez que os postos foram localizados em diferentes altitudes e diferentes locais no interior do grotão estudado (dois postos em altitudes equivalentes e faces opostas e um posto no fundo do vale).

No caso desta equipe, ficou definido um trabalho dentro das casas que possibilitasse medir a variação da temperatura interna em diferentes níveis e altitude, desde o topo até o talvegue, para que fossem comparados aos dados de umidade e temperatura obtidos por outro que trabalhou na mesma área, mas no exterior das moradias. A hipótese norteadora deste estudo, portanto, foi que há variações significativas da temperatura e da umidade no ambiente interno das edificações diretamente associadas às diferenças de altitude e posição no relevo local. A altitude varia entre 810 e 770 m.

O objetivo final desta medição seria verificar se ocorre variação de temperatura e umidade expressivas a ponto de permitir inferir a influência da topografia na incidência de doenças respiratórias nos moradores, especialmente nas crianças. O estudo da climatologia aplicada ao uso em outras ciências - no caso, a saúde pública não constitui uma proposta inovadora na Geografia (Sobral, 1988 e 2001), mas num curso de graduação ela pode ser considerada arrojada. Sobretudo porque os dados foram coletados em diferentes frentes de trabalho por quatro turmas em dias e horários diferentes, com o intuito de buscar resultados que viessem beneficiar a comunidade desta região. Comunidade e favela estas, que não podem ser encaradas como mero objeto de estudo, já que pudemos experimentar um universo de outras vivencias, por muitos de nós nunca percebidas em um trabalho prático de geografia.

 

2. MATERIAIS E MÉTODOS

 

Na primeira visita a Favela de Paraisópolis em 20/03/2003, tivemos a oportunidade de ter o primeiro contato com a região investigada e delimitar a área de estudo da equipe. Foi realizada uma segunda visita, desta vez com um grupo mais compacto, em 29/03/2003, para definir qual a tipologia de casas dominante na Favela, já que tínhamos uma quantidade reduzida de instrumentos para medição de temperatura. Optamos por uma dada tipologia de edificação, aquela que fosse predominante ao simples olhar, uma vez que não havia como catalogar todas as habitações. Utilizamos nossa própria percepção para escolhermos, então, as edificações construídas em alvenaria, sem laje e com cobertura de telhas de fibrocimento.

A partir da escolha da tipologia, neste mesmo dia (29/03/2003), escolheram-se as casas e foi feito um primeiro contato com os moradores, pedindo sua autorização para a instalação dos instrumentos que tínhamos disponíveis. Neste caso, eram três termógrafos e uma quantidade maior de termômetros de máxima e mínima. Explicou-se aos moradores que autorizavam a instalação que o período de medição seria de aproximadamente dois meses e qual seria o destino final das informações colhidas em suas residências.

 Para a escolha dos barracos foi definido, numa foto aérea do local, um transecto no sentido leste-oeste do topo de uma vertente ao topo da vertente oposta do vale. Ao longo do transecto, localizou-se em campo, com auxílio de um GPS, a habitação que estivesse mais próxima de cada um dos intervalos altimétricos de dez em dez metros. Resultou na seguinte distribuição: 810 metros (no Posto 1, topo 1) e 806 metros (no posto 7, topo 2), sendo estas duas as mais altas, e 777 metros, sendo esta a mais baixa, no fundo de vale, (posto 4). Os demais postos, 2,3, 5 e 6 foram escolhidos levando em consideração sempre a variação de aproximadamente 10 metros de altitude entre cada posto, conforme pode ser observado na figura 1.

Em todos os postos foram instalados termômetros de máxima e mínima, para a averiguação da menor e maior temperatura interna em intervalos semanais. Já os termógrafos foram instalados no interior das casas de maior altitude de cada vertente e da residência situada no fundo de vale, a fim de registrar dados contínuos de temperatura para efeito de melhor comparação e investigação entre os pontos extremos.

Para homogeneizar ao máximo as condições de medição das temperaturas extremas, os termômetros de máxima e mínima foram afixados na parede dos quartos. Embora o ideal é que os termógrafos fossem instalados nos mesmos ambientes, optou-se pelo outro cômodo, normalmente a sala/cozinha para que o ruído do cronômetro não incomodasse os moradores. Todos os termógrafos foram instalados o mais afastado possível de eletrodomésticos que irradiam calor (fogão, televisor, geladeira, etc).

 

Figura 1: Localização e altitude dos postos.

 

O registro das temperaturas efetuou-se na estação de outono, num período de 8 semanas (03/04/2003 – 29/05/2003), sendo que, semanalmente, as quintas-feiras à noite, um grupo de alunos efetuava as leituras e a troca dos diagramas dos registradores. A redução dos diagramas foi feita em intervalos horários com auxílio de nanômetro, o que permitiu obter a precisão de 0,1 oC. Foi feita a correção dos horários por distribuição linear da diferença entre o período real de rotação do cronômetro e o período correto. Em seguida, por interpolação linear, calculou-se a temperatura das horas cheias a fim de permitir a comparação entre os postos.

A análise das variações de temperatura entre os postos foi realizada considerando-se os dados coletados nos três postos em que foram instalados os termógrafos em duas escalas de tempo: a escala semanal e a escala diária. Para a escala semanal foram utilizados os dados de temperaturas máximas e mínimas de cada posto, tanto no interior das casas (termômetros de máxima e mínima) quanto do ambiente externo (registradores digitais).

 Visando uma análise mais detalhada das variações de temperatura entre os postos, foram utilizados dados horários referentes a um período de quatro dias (23/5/2003 à 26/5/2003). Como método de análise dos dados constantes nesse período, dividiu-se cada dia em sete períodos, os quais foram separados considerando-se a intensidade da insolação fornecida pela estação Experimental do Laboratório de Climatologia e Biogeografia do Departamento de Geografia da USP que dista poucos quilômetros da Favela de Paraisópolis. Adotou-se a seguinte periodização: 0 a 5 h, 6 a 8 h, 9 a 10 h, 11 a 12 h, 13 a 14 h, 15 a 17 h e 18 a 23 h. Para efeito de comparação entre os postos sob diferentes tipos de tempo, utilizaram-se ainda, dados representativos de um dia de céu nublado (04.04.03) e de céu claro (13.04.03).

Na interpretação dos dados recorreu-se ao diagrama de conforto térmico (Olgway, 1988), às imagens da banda termal do Satélite GOES fornecidas pelo INPE e aos dados de radiação solar, precipitação e vento da Estação Experimental do Laboratório de Climatologia e Biogeografia e demais dados coletados concomitantemente por outros grupos na mesma área de estudo.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

3.1 Comparação da temperatura entre os postos

Esperava-se que nos postos localizados nos topos das vertentes com cotas equivalentes (810 e 806 m) fossem registradas temperaturas mínimas superiores às do posto localizado no fundo de vale (777 m). Isto ocorreria em função da drenagem de ar frio para o fundo do vale durante as madrugadas de céu claro. Embora este último posto tenha registrado as menores mínimas em quatro das oito semanas, nessas ocasiões as mínimas dos três postos foram muito próximas.

 

 

Em relação às máximas, a evolução das temperaturas ocorreu de maneira semelhante: embora as maiores máximas tenham sido registradas no posto 7 em cinco das oito semanas, estas não foram significativamente maiores do que as máximas dos demais postos.

Para a análise mais detalhada das variações de temperatura, foram construídos dois gráficos (1 e 2) referentes respectivamente a um dia nublado e a um dia céu claro. Verificou-se que as menores diferenças de temperatura entre os postos ocorreram no dia de tempo nublado. No dia de céu claro ocorreu uma diferença significativa de temperatura no período vespertino entre os três postos.

Os postos localizados nos topos, ao contrário do esperado, apresentaram uma expressiva amplitude de 2,5 ºC entre 14 e 16 horas. O posto localizado no fundo de vale registrou temperaturas intermediárias, comparadas às obtidas dos postos 1 e 7 dos topos. Dessa forma, os resultados obtidos nestes dois dias foram semelhantes aos obtidos em escala semanal.

 

 

3.2 Comparação entre a temperatura no interior e exterior das edificações.

Pressupunha-se que no interior das casas localizadas nos postos 1 e 7 (topo), as máximas fossem semelhantes e mais baixas do que a do posto 4, localizado no fundo de vale (777 m). No entanto, os postos 1 e 7 apresentaram temperaturas máximas discrepantes. As máximas do posto 7 foram em média, 7,8 ºC mais altas que a do posto 1. A menor diferença entre os estes dois postos foi de 4,5 ºC entre 1 e 8 de maio, período em que observou-se através das imagens de satélite e cartas sinóticas a passagem de uma frente polar. A maior diferença entre os referidos postos foi de 12º C na semana seguinte, entre 8 e 15 de maio, após a dissipação da frente e sob domínio do anticiclone tropical atlântico. Já o posto 4  situado no fundo de vale, apresentou temperaturas máximas  intermediárias entre  as dos postos 1 e 7, como pode se observar no gráfico 3.

Na comparação entre a temperatura ambiente e interna, verificou-se uma amplitude maior no posto 7, tanto em relação às máximas quanto em relação às mínimas. Isso sugere que essa diferença esteja relacionada com o tipo da construção e a localização na vertente. O posto 7, no topo da vertente voltada à leste, recebe maior incidência de raios solares no período matutino. Por volta das 15 horas, horário em que normalmente foram registradas as máximas em toda a área de estudo, a radiação termal quase não encontra resistência nas telhas de fibrocimento. Como resultado, o pequeno volume interno da casa atinge temperaturas mais elevadas do que do ambiente externo.

Já o posto 4, no fundo de vale, recebe maior insolação por volta das 11 horas da manhã. Dessa forma, o aquecimento menos intenso é refletido na amplitude de temperatura menor entre o interior e o exterior da casa.

 

 

Ainda em relação ao posto 4, foi notável na sexta e sétima semanas que as máximas dentro da residência foram praticamente iguais as máximas ambiente e inferiores na oitava semana. Essa é uma tendência que se acentua com a proximidade do inverno, e é mais evidente nas casas localizadas no fundo de vale. Em direção aos meses de inverno, em geral o gradiente das máximas entre o interior das casas e o ambiente externo é menor.

 

3.3 Umidade Relativa do ar

No período analisado, não foram registradas diferenças significativas entre os postos, embora a exemplo das temperaturas, as variações de umidade foram bruscas durante a madrugada e ao entardecer. Durante a passagem de frentes polares, semanas 1 (3 à 10/04), 6 (8 à 15/05) e 7 (15 à 22/05), verificaram-se as menores variações do período analisado.

 

3.4 Análise integrada da temperatura e umidade - Escala semanal

Para determinar a sensação de conforto térmico utilizou-se o diagrama de conforto proposto por Olgway (1998). Este diagrama consiste na correlação entre os índices de umidade e de temperatura em um gráfico de dispersão.

 

 

Para realizar esta análise, foram relacionados os horários e postos que apresentaram as condições mais críticas em relação ao conforto humano. Dessa forma, foram escolhidos o posto 4 (em razão de ter apresentado as mínimas mais baixas na maior parte do período analisado) às 5:30 (horário em que foram registradas as menores temperaturas e maiores valores de umidade relativa do ar) para a análise do desconforto gerado pelo frio e o Posto 7 (por ter registrado as maiores máximas)  às 15:00 (horário em que foram registrados as temperaturas máximas) para a análise do desconforto gerado pelo calor.

No posto 4 às 5:30 da manhã, o desconforto térmico foi bastante evidente. Em apenas 1 (1,5 %) dos 66 dias de medição neste horário houve a condição de conforto térmico. Em 97% do tempo houve desconforto gerado pelo frio e em 1,5% pelo calor.

Já no horário das 15:00, no posto 7, a distribuição dos pontos no gráfico foi mais heterogênea. (gráfico 4). Em 24% do período analisado houve conforto, em 49% desconforto por calor e em 27% desconforto por frio. Essas condições são altamente propícias para gerar doenças ligadas ao aparelho respiratório na população da favela Paraisópolis.

 

3.5 Análise integrada da temperatura e umidade - Escala diária

Para um entendimento mais profundo com relação à sensação de conforto térmico a que estão sujeitos os moradores das residências estudadas, foi realizada a análise horária de um período de quatro dias. Os diagramas de conforto térmico foram analisados nos três postos, conforme as faixas de horário estipuladas anteriormente.

 

3.5.1 Dia 23 de maio de 2003

Já no primeiro dia foram verificadas variações atípicas com relação aos demais. Este dia foi o único do período em que houve precipitação, o que acarretou num aumento significativo da umidade relativa nos três postos. A temperatura também teve uma queda brusca nessa data em função da passagem de uma frente polar.

Na primeira faixa de horário do dia, observamos que o posto 1 apresentou dois pontos dentro da zona de conforto e o posto 7 apresentou dois. Já o posto 4, localizado no fundo do vale, não teve nenhum dos pontos inseridos nessa zona. Podemos observar claramente que o posto 4 tem os pontos mais distantes da zona de conforto do gráfico, uma vez que tem maior umidade relativa e temperaturas mais baixas. Os outros dois postos têm a temperatura um maior e umidade relativa menor, aproximando-os da zona de conforto, ou mesmo deixando-os dentro dessa zona em certos horários.

Na segunda faixa de horário, observamos que os postos 1 e 7 têm um ponto dentro da zona de conforto, além de ter os outros pontos bem próximos a essa zona. O posto 4 ainda mantém a umidade relativa mais alta que os outros postos, distanciando-se ainda mais da zona de conforto. Verificando o gráfico com as temperaturas dos três postos, constatamos que o posto 1 começa a elevar sua temperatura mais rapidamente nessa faixa de horário, uma vez que se localiza na face do grotão voltada para o nascer do sol, enquanto no posto 4 a temperatura se eleva mais lentamente, já que não recebe a radiação solar diretamente nesse horário. No posto 7, o período de elevação da temperatura começa somente entre 8 e 9 horas, já que somente nesse período sofre maior incidência de radiação.

Entre 9 e 10 horas, a intensidade da insolação aumenta. As temperaturas também se elevam nesse período, motivo pelo qual dos três postos ficam dentro da zona de conforto térmico ou mesmo bem próximas, como o que ocorre no posto 4, uma vez que ainda mantém uma umidade relativa mais alta. Entre 11 e 12 horas, temos todos os postos dentro da zona de conforto térmico, embora o posto 1 apresente temperaturas mais elevadas.

No período entre 13 e 14 horas, há um aumento brusco na umidade relativa dos três postos e uma queda nas temperaturas. Recorrendo à imagem do satélite meteorológico, verificamos que havia uma frente polar entrando pela porção sudeste do estado de São Paulo, causando nebulosidade, como verificado nos dados de radiação. Também constatamos no horário de 14 horas o início de precipitação, que acumula 14,7 mm. até as 16 horas. A precipitação aumenta bruscamente as umidades relativas dos postos, principalmente no posto 4 em razão do escoamento pluvial em direção aos fundos de vale.

No período de 15 até 17 horas, quando a insolação diminui, tendendo a zero, o posto 4 chega a ter 100% de umidade relativa. O posto 7 demora mais para ter a queda na temperatura, provavelmente pelo fato de ser uma residência com ventilação precária. No final do dia, os postos permanecem com temperatura baixa e com umidade relativa alta, devido aos fatos ocorridos nas horas anteriores. O posto 4 tem a menor temperatura na faixa de horário e o posto 7 a maior. Observou-se ainda que a frente polar continuou avançando rapidamente.

 

3.5.2 Dia 24 de maio de 2003

A madrugada apresenta os pontos ainda com a umidade relativa alta, influenciada pelos eventos do dia anterior. O posto 4 permanece o período inteiro com umidade relativa a 100%, enquanto o posto 7 tem esse índice em alguns horários, já o posto 1 não chega a esse patamar. O posto 7, no entanto, tem a queda de temperatura mais lenta. Por volta das 6 horas, quando inicia a insolação, constatamos que a temperatura do posto 1 eleva-se mais rapidamente, enquanto o posto 4 tem sua temperatura começando a aumentar às 8 horas, fato que só ocorre no posto 7 a partir de 10 horas. Verifica-se, no entanto, que no decorrer do dia, o posto 1 apresenta as menores temperaturas. Já o posto 4 atinge a maior temperatura nesse horário. O posto 7, que demora mais a receber insolação direta, chega ao máximo de temperatura do dia e demora mais que os outros postos para perder temperatura, já que acumulou a insolação do dia inteiro e no fim do dia a recebe diretamente. O posto 4  tem queda de temperatura mais brusca que os outros postos.

Na primeira faixa de horário não encontramos nenhum dos três postos dentro da zona de conforto, devido às temperaturas baixas e alta umidade. Entre 6 e 8 horas os postos ainda estão fora dessa zona, embora, o posto 1 apresente uma movimentação mais rápida em direção à zona de conforto.

Entre 9 e 10 horas, os postos 1 e 7 ainda rumam em direção à zona de conforto, diminuindo cada vez mais a umidade relativa, embora com temperaturas ainda baixas. Já o posto 4, mantém umidade relativa muito alta. Entre 11 e 12 horas, os três postos chegam próximos à zona de conforto. Nesta faixa de horário ocorre o ápice da insolação, no entanto, os postos ainda não têm a temperatura passando de 21,1ºC. O posto 4 já tem nesse horário, umidade relativa mais baixa, aproximando-se dos outros postos lentamente. Entre 13 e 14 horas, não temos ainda nenhum posto dentro da zona de conforto, no entanto estão bem próximos. Notamos nesse dia, que os postos não chegam a ultrapassar a faixa de 21,1ºC, o que não permite atingir a zona de conforto. No entanto, alcançam valores bem próximos nos períodos de máxima insolação. Já a umidade relativa fica em níveis aceitáveis. Entre 15 e 17 horas, embora a insolação diminua bastante ainda temos os pontos bastante próximos da zona de conforto. O posto 4 continua a apresentar maior umidade relativa.

Nota-se que no início da noite, com o fim da insolação, a temperatura dos postos cai ao mesmo tempo em que as umidades relativas sobem, levando a um distanciamento cada vez maior da zona de conforto térmico.

 

3.5.3 Dia 25 de maio de 2003

No período da madrugada, diferentemente do que ocorre nos dois dias anteriores, há uma queda progressiva e quase linear dos pontos no gráfico de conforto, com uma queda contínua da temperatura e um aumento expressivo da umidade. Verifica-se esse fato nos três postos, sendo que o posto 4, no fundo do vale, novamente atinge 100% de umidade relativa, além de marcar a menor temperatura do dia, 14ºC às 5 horas.

Das 6 às 8 horas, o posto 7 ainda apresenta um aumento da umidade e registra a menor temperatura do dia (12,4 ºC), o mesmo acontecendo para o posto 4 (11,4 ºC), que continua com a máxima umidade. O posto 1 inicia sua aproximação da zona de conforto por receber ser a primeira a receber radiação solar dentre as três edificações. entre 9 e 10 horas, prossegue a diminuição da umidade e o aumento da temperatura, com o posto 1 atingindo sua maior elevação do dia (20,6 ºC). No entanto, no período de sol à pino (11 e 12 horas), suas temperaturas começam a cair, fato oposto aos dois outros postos, que alcançam a zona de conforto ao meio-dia. Entre as 12 e 15 horas, o posto 4 permanece na zona de conforto térmico, com temperaturas variando entre 21,2 a 22,4 ºC e umidade relativa entre 54,5 e 63,8%. Já o posto 7 permanece na zona de conforto em todo o período vespertino, com temperaturas que de 21,7 a 26,4 ºC e umidade de 44,1 a 52,4 %. Este conforto não é atingido em nenhum momento do dia no posto 1, devido às temperaturas que não passam do limite de 21,1 ºC.

Pelas imagens de satélite, observamos uma frente polar enfraquecida no Estado de São Paulo que vai rapidamente se deslocando na direção do oceano. A partir das 12 horas até o final do dia, deixa o Estado, permitindo a entrada da radiação solar e, conseqüentemente, a elevação da temperatura. Esse fato favoreceu a entrada dos postos 4 e 7 na zona de conforto durante a tarde.

Entre as 18 e 23 horas ocorre uma queda contínua da temperatura em todos os postos, sendo que no posto 1, de forma mais gradual. Da mesma forma, há uma progressiva elevação da umidade, com o posto 4 atingindo quase 100%.

 

3.5.4 Dia 26 de maio de 2003

Este dia possui uma semelhança muito grande em relação ao dia anterior, quanto a disposição dos pontos nos gráficos de conforto térmico. Há uma queda sucessiva da temperatura e aumento da umidade da meia-noite às 5 da manhã, com o posto 4 chegando novamente a 100%. Entre 6 e 8 horas, a penetração dos raios solares começa a influenciar na elevação da temperatura, fato mais evidente no posto 1. A radiação também influi para a diminuição da umidade, exceção ocorrida no posto 4.

No período das 9 e 10 horas, semelhante ao que acontece no dia anterior, a radiação solar intensifica elevando de forma brusca a temperatura e a umidade no posto 4.  Às 10 horas, o posto 1 atinge a zona de conforto (21,5 ºC e 64,5%), o único durante o dia todo. Já o posto 7 continua com temperaturas baixas. Da mesma forma que o dia anterior, a partir do meio-dia a temperatura começa a cair no posto 1, enquanto que a de outros postos se eleva. Em conseqüência disso, quatro pontos são inseridos na zona de conforto no posto 4, entre as 12 e 16 horas. Já no posto 7 entram 5 pontos na zona de conforto, entre as 13 e 18 horas.

No meio da tarde, da mesma forma dos dias anteriores, inicia-se uma queda da temperatura e aumento da umidade. No faixa das 18 às 23 horas, os três postos apresentam comportamentos atípicos nos gráficos de conforto. No posto 1 há pouca variância nas temperaturas, porém aumento da umidade. O posto 7 apresenta diminuição da temperatura e variação sucessiva nos valores da umidade, fato diferente em relação aos outros postos dos dias antecedentes. Somente o posto 4 exibe um comportamento típico para o horário, com queda gradual da temperatura e aumento gradativo da umidade relativa. Possivelmente tenha ocorrido a entrada da brisa marinha, mantendo-se uma célula de ar semiconfinada no fundo do vale.

 

CONCLUSÕES

 

As diferenças de temperatura significativas registradas entre os postos não podem ser associadas ao fator relevo quando considerados os registros de temperaturas máximas e mínimas semanais, pois os postos localizados nos topos do Grotão apresentaram maiores diferenças entre si, do que em relação ao posto situado no fundo de vale, tanto em relação às máximas, quanto em relação às mínimas. Sendo mais razoável, portanto, relacionar este comportamento à orientação das vertentes.

As maiores variações e diferenças de temperatura entre o interior e o exterior das casas e entre os postos ocorreram nos períodos de dias claros nos quais prevaleceram os sistemas de alta pressão. Na ocorrência de frentes frias as variações e diferenças de temperatura entre os postos não foram tão significativas (menor de 1º C). Embora não tenham sido registradas diferenças significativas em relação à umidade relativa do ar entre os postos, verificou-se que as variações foram mais bruscas nos dias de céu claro.

Já na análise horária da temperatura e umidade, nota-se variação entre os postos 1, 4 e 7. O posto 4 apresentou maior umidade relativa em relação aos outros dois postos, uma vez que se encontrava no fundo vale, fato este evidenciado com maior nitidez no período em que ocorrera precipitação. Tal fato tem interferência direta no conforto térmico. Na análise diária, também verifica-se que há uma dinâmica diferenciada entre os três postos em relação a temperatura. Como o posto 1 se encontrava na face do grotão voltada para leste, mostrava aumento de temperatura mais rápido que os outros postos no período da manhã, enquanto o posto 7, que só recebia insolação direta na parte da tarde, por estar localizado na face do grotão voltada para oeste, demorava mais para aquecer pela manhã, porém mantinha temperaturas mais altas até o início da noite. Quando analisada a variação microclimática dos postos estudados, esta é mais facilmente evidenciada em escala horária, pois nas medições semanais não é verificada variação com relação ao relevo, como o que foi observado nas medições diárias.

As variações de temperatura e umidade verificadas e a sua análise integrada, evidenciada pelos diagramas de conforto térmico, revelaram condições críticas para o conforto humano – calor em excesso durante o período vespertino e muito frio e umidade nas madrugadas. Esses dados revelam condições extremamente nocivas à saúde dos moradores de Paraisópolis, potencializando o surgimento de doenças ligadas ao aparelho respiratório em seus habitantes.

 

 

REFERÊNCIAS

 

TARIFA, J. R. & ARMANI, G (2001) "Os Climas Urbanos" in Os Climas na Cidade de São Paulo. TARIFA, J. R. & AZEVEDO, T. R. ogs. Coleção Novos Caminhos, n. 4. Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo.

 

OLGWAY, V. (1998) Arquitectura Y Clima. Editorial Gustavo Gili S.A., Barcelona.

 

SOBRAL, H. R. (1988) Poluição do ar e doenças respiratórias em crianças da Grande São Paulo: um estudo de geografia médica. Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

 

SOBRAL, H. R. (2001) "Poluição do ar e doenças respiratórias" in Os Climas na Cidade de São Paulo. TARIFA, J. R. & AZEVEDO, T. R. ogs. Coleção Novos Caminhos, n. 4. Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo.