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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

VARIÁVEIS GEOLÓGICAS NA ESTRUTURAÇÃO DOS PADRÕES DE CANAL DO RIO MOGI GUAÇU/SP.


Márcio Henrique de Campos Zancopé - Unesp/IGCE - Rio Claro. Av. 12, 757 Cep. 13.500-460 Rio Claro/SP. E-mail: zacgeo66@hotmail.com

Archimedes Perez Filho - Prof. Titular - IG/Unicamp. Cx. Postal 6152, Cep 13083-970 Campinas/SP. E-mail: archi@ige.unicamp.br


Palavras-chave: Geomorfologia Fluvial; Sistema Fluvial; Canal fluvial.
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.
Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos.


INTRODUÇÃO 

O canal principal da rede de drenagem de uma bacia hidrográfica equilibra o fluxo de energia e matéria do sistema fluvial. O arranjo espacial em planta do canal fluvial apresenta um conjunto de características geométricas que demonstra a forma como o sistema se organiza para facilitar e dar continuidade ao fluxo de energia e matéria. A este arranjo espacial dá-se o nome de padrão de canal fluvial.
Ao longo do perfil longitudinal de um rio alternam-se diferentes padrões de canal, demonstrando as diversas formas do rio transportar sua carga detrítica e o excedente de água da bacia hidrográfica. Cada padrão de canal fluvial é resultado da combinação de um inter-relacionamento específico das variáveis do sistema fluvial, por conseguinte dos processos morfodinâmicos do canal.
Assim, este trabalho procura evidenciar as relações do substrato geológico com a sucessão dos diferentes padrões de canal de um rio, demonstrando como diversas litologias e estruturas geológicas (variáveis qualitativas) interferem, produzindo uma seqüência de padrões de canal com características distintas.
Para tanto, investigou-se o Rio Mogi Guaçu localizado na região centro-nordeste do Estado de São Paulo. Possui sua nascente a aproximadamente 1.510m de altitude, no município de Bom Repouso, SW de Minas Gerais e escoa suas primeiras águas em direção N, até o município de Borda da Mata, onde aderna para W atravessando Ouro Fino e Jacutinga. Após percorrer aproximados 120Km, ingressa em território paulista com direção preferencial NE-SW, até no município de Mogi Guaçu, onde adota rumo E-W. Em Araras aderna para N. Pouco a jusante, a 290Km da nascente, no remanso da Cachoeira de Emas (Pirassununga), assume direção preferencial ESE-WNW, até próximo ao município de Rincão, onde aderna para NNW até desaguar no Rio Pardo, a 483m de altitude, no nordeste paulista, após percorrer aproximadamente 520Km de comprimento desde a nascente.

METODOLOGIA

Longitudinalmente um rio apresenta diferentes padrões de canal, resultado de distintas morfodinâmicas. Leopold; Wolman (1970), Knighton (1984) e Hickin; Nanson (1975) apresentam os diferentes tipos de padrão de canal e os mecanismos de fluxo e transporte de sedimentos. Afirmam ainda que os padrões retilíneos, meândricos e anastomosados, são considerados formas limiares entre os diversos tipos que se pode encontrar num curso d'água, estabelecendo um continuum de formas e processos (SCHUMM, 1977; CHRISTOFOLETI, 1981).
A fim de identificar diferentes padrões de canal do Rio Mogi Guaçu, procedeu-se levantamento morfométrico do canal e fisiográfico das planícies fluviais, como executado por Zancopé; Perez Filho (2002). 
O dados fisiográficos (mapeamento) do canal e das planícies do Rio Mogi Guaçu foram obtidos por fotointerpretação. Para tanto, utilizou-se fotografias aéreas do levantamento aerofotogramétrico adquiridas pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC/SP), 1962, e com escala aproximada de 1:25.000, que recobriam o canal e as planícies.
Os dados morfométricos do canal do Rio Mogi Guaçu foram obtidos utilizando cartas topográficas do Instituto Brasileiro de Geográfica e Estatística (IBGE) na escala 1:50.000 e do Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo (IGC/SP) na escala 1:10.000, que recobriam as áreas do canal e das planícies fluviais.
Posteriormente, procedeu-se o cruzamento dos dados, co-relacionando os segmentos do canal do Mogi com distintos aspectos fisiográficos, com os diferentes índices de sinuosidade (Is).
Os dados referentes as litologias e estruturas geológicas por onde o Rio Mogi Guaçu escoa foram extraídos dos mapeamentos geológicos do Levantamento de Recursos Naturais, do Projeto Radambrasil, vol.32 (BRASIL, 1983), na escala 1:1.000.000; e, pelos mapas geológicos do DAEE/UNESP-IGCE/RC (SÃO PAULO, 1982a; 1982b; 1982c), escala 1:250.000, folhas Ribeirão Preto, Campinas e Araraquara.

RESULTADOS E CONCLUSÕES

Identificou-se sete padrões de canal no Rio Mogi Guaçu, que foram nomeados segundo suas características geomorfológicas e/ou de toponímia.
Alto curso. (0-145 Km da nascente) Com índice de sinuosidade Is=1,422, apresenta-se tortuoso em vale estreito, alternado por planícies alveolares com desenvolvimento de pequenos meandramentos;
Contato Serra-Depressão. (145-184 Km da nascente) Apresentando índice de sinuosidade Is=1,33, este padrão desenvolve canal tortuoso em restrita planície fluvial e vale estreito;
Estes padrões apresentam características típicas das drenagens do Domínio dos Mares de Morros. Canal tortuoso, alinhado pelo condicionamento estrutural e erosão diferencial, alterna-se com trechos em planícies alveolares, que em alguns casos apresenta desenvolvimento de meandros de pequena magnitude. Os meandros nestes trechos são proporcionais a ordem hierárquica, a área da bacia e magnitude das vazões. A meteorização e pedogênese regional produzem materiais particulados de pequena granulometria, que se apresentam em maiores proporções nestes trechos. A erosão diferencial segmenta trechos com desenvolvimento de meandramentos.
Meandros de Conchal. (184-229 Km da nascente) Este padrão desenvolve meandros em ampla planície e índice de sinuosidade Is=1,566. Perez Filho; Donzelli; Lepsch (1980) e Perez Filho; Rodrigues Silva; Rego (1983) encontraram diferentes níveis topográficos nestas planícies, dentre eles dois níveis de terraço;
Meandros de Leme. (229-267 Km da nascente) Com índice de sinuosidade Is=1,478 e meandros encaixados que apresentam elevada amplitude;
Os fatores importantes para os padrões Meandros de Conchal, Meandros de Leme e Meandros de Jataí residem nas estruturas sedimentares Paleo-Mesozóicas. Estas estruturas, além de originar carga detrítica mais grosseira em proporções mais expressivas que nos padrões sobre o Complexo Cristalino, permitem ao canal divagar mais livremente. A segmentação dos meandramentos por rápidos e corredeiras é explicada pelas intrusões básicas (diques e sills de diabásio e gabros), que pontilham o perfil , criando soleiras mais resistentes à erosão.
Boqueirão de Porto Ferreira. (267-374 Km da nascente) Com índice de sinuosidade Is=1,2, apresenta-se tortuoso com vale estreito. Destaca-se ainda, por transpor a região de 'cuestas' que marca os limites entre a Depressão Periférica Paulista e o Planalto Ocidental Paulista;
O padrão Boqueirão de Porto Ferreira é influenciado pela travessia do relevo de 'cuestas', que marca a fronteira entre a Depressão Paulista e o Planalto Ocidental Paulista. O soerguimento desigual da Bacia do Paraná, no final do Jurássico, como mostra Ross (1991) e Radambrasil (BRASIL, 1983), promoveu a dissecação e formação da Depressão Periférica Paulista e do boqueirão por onde escoa o Mogi. Silva (1997) evidencia a reativação de falhamentos transcorrentes neste período que ainda hoje orientam a drenagem regional.
Meandros de Jataí. (374-454 Km da nascente) Desenvolve meandros harmônicos em extensa planície, alcançando índice de sinuosidade Is=2,13.
Os arenitos da Formação Botucatu se comportam como motivador para o desenvolvimento do padrão Meandros de Jataí. Ao drenar esta Formação, os afluentes contribuiriam com maior quantidade de carga detrítica. Este fator é impulsionado pelo padrão Boqueirão de Porto Ferreira e afluentes, localizados a montante, que dissecam incisivamente parte da região cuestiforme do NE paulista. Por conseguinte, promove o desenvolvimento do meandramento e a franca ampliação da planície fluvial neste trecho.
Foz do Mogi: (454-529 Km da nascente) Este padrão apresenta-se tortuoso em estreita planície fluvial, com índice de sinuosidade Is=1,042.
O padrão Foz do Mogi possui suas características por escoar sobre os basaltos da Formação Serra Geral. A meteorização e pedogênese regional promovem o incremento de carga detrítica de menor granulometria em maiores quantidades. Em adição, o padrão de montante regula o fornecimento de carga detrítica de maior granulometria, pela dinâmica meândrica de erosão-deposição. Os basaltos, mais resistentes, permitem o encaixe do canal, condicionando o padrão retilíneo, o estreitamento do vale e da planície fluvial.
Constata-se que o substrato geológico e a tectônica se comportam como variáveis de grande importância para o estabelecimento da configuração atual dos padrões de canal do Rio Mogi Guaçu, uma vez que ocorreu boa correlação entre a distribuição dos padrões e das litologias e estruturas geológicas.
Por fim, cabe lembrar que não se investigou todas as variáveis envolvidas para a determinação dos diversos padrões de canal fluvial do Rio Mogi Guaçu. Contudo sua transposição por diferentes litologias e estruturas geológicas demonstrou ser significativo para as modificações nas demais variáveis, resultando distintas inter-relações e combinações, que conseqüentemente produziram os diversos padrões de canal fluvial. A alteração dos processos morfodinâmicos fluviais ao longo do perfil longitudinal, reorganizou o sistema fluvial em diversos locais, pela adaptação dos mecanismos de transporte da carda detrítica (uma das principais funções de um curso d'água), produzindo distintos padrões de canal.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério das Minas e Energia. Projeto Radambrasil: Levantamento de Recursos Naturais, Folhas SF.23/24 Rio de Janeiro/Vitória. Rio de Janeiro, 1983. Vol. 32. p. 780. (6 mapas: geologia; geomorfologia; pedologia; vegetação; uso potencial da terra; avaliação do relevo).

CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia Fluvial: o canal fluvial. São Paulo: Edgard Blücher, 1981. p. 313.

KNIGHTON, D. Fluvial Forms and Process. London: E. Arnold, 1984. p. 218.

LEOLPOLD, L. B.; WOLMAN, M. G. River Channel Patterns. In: DURY, G. H. (ed.) Rivers and River Tarreces. London: Macmillan, 1970. Cap. 7, p. 197-236.

HICKIN, E.J.; NANSON, G.C. The character of channel migration on the Beatton River, northeast British Columbia, Canada. The Geological Society of America Bulletin, v. 86, n. 4, p. 487-494, 1975.

PEREZ FILHO, A.; DONZELLI, J. L.; LEPSCH, I. F.; Relação solos-geomorfologia em várzea do Rio Mogi Guaçu. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 4, p. 181-187, 1980.

PEREZ FILHO, A.; RODRIGUES SILVA, F. B.; REGO, M. J. M. Análise de uma toposseqüência de solo no Vale do Rio Mogi Guaçu. Geociências, Rio Claro, v. 2, p. 33-41, 1983.

ROSS, J. L. S. O Relevo Brasileiro, as Superfícies de Aplanamento e os Níveis Morforlógicos. Revista do Departamento de Geografia da USP. São Paulo, n. 5, 7-24, 1991.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Obras e Meio Ambiente; DAEE; Unesp. Mapa Geológico do Estado de São Paulo. São Paulo, 1982a. 1 mapa da Folha SF-23-V-C (Ribeirão Preto).Esc. 1:250.000. 

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Obras e Meio Ambiente; DAEE; Unesp. Mapa Geológico do Estado de São Paulo. São Paulo, 1982b. 1 mapa da Folha SF-23-Y-A (Campinas). Esc. 1:250.000. 

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Obras e Meio Ambiente; DAEE; Unesp. Mapa Geológico do Estado de São Paulo. São Paulo, 1982c. 1 mapa da Folha SF-22-X-D (Araraquara). Esc. 1:250.000.

SCHUMM, S. The Fluvial System. N. York: J. Wiley & Sons, 1977. p. 338.

SILVA, C. L. Aspectos Neotectônicos do Médio Vale do Rio Mogi Guaçu: região de Pirassununga. 1997. Dissertação (Mestrado em Geologia Regional) - Instituto de Geociências e Ciências Exatas. Universidade Estadual Paulista. Rio Claro.

ZANCOPÉ, M. H. de C.; PEREZ FILHO, A. Os padrões de canal do Rio Mogi Guaçu/SP. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE GEOMORFOLOGIA, n. 4, 2002, São Luiz. Caderno de Resumos. São Luiz: UFMA, 2002. v.1, p.109-109.4