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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

AS MAIS RECENTES CALAMIDADES PLUVIAIS OCORRIDAS EM PETRÓPOLIS: OS EPISÓDIOS DE 2001 E 2003


Hack, Lucy Pinto
Neves, Silvia
Hutter, Maria Hercília


Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 125, Gávea
Palavras – chave: Calamidade – Pluviosidade – Petrópolis
Eixo: 3 – sub-eixo: 3,4


INTRODUÇÃO 

As chuvas de verão no Sudeste brasileiro não constituem surpresa e estão previstas no calendário climático sazonal de Petrópolis, município do Estado do Rio de Janeiro. Porém, em determinados anos, este episódio pluviométrico sucede com maior intensidade e seus efeitos desastrosos se abatem sobre a população petropolitana, como os de 1988 e 2000 ( Hack, 2002). Segundo Guerra e Gonçalves (2001) “apesar de Petrópolis ser uma cidade de porte médio, a grande concentração populacional, aliada aos fatores naturais, tem sido responsável pela ocorrência de mais de 1.000 eventos catastróficos nas últimas décadas, onde centenas de pessoas morreram”. Em dezembro de 2001 e janeiro de 2003, fortes chuvas causaram, novamente, grandes danos ambientais e sócio-econômicos a Petrópolis e de maior intensidade do que os ocorridos na passagem do ano de 1999 para 2000. Tal fato decorre destes dois mais recentes episódios de calamidade pluvial terem ocorrido após menos de dois anos ao de 2000 e se apresentado na mesma seqüência. A reincidência destas catástrofes parecem ser o resultado de Petrópolis, além de situar-se a oeste da Serra dos Órgãos na borda de suas encostas íngremes que se encontram a pouco mais de 20 quilômetros da Baía de Guanabara, seu sítio urbano apresentar um traçado nitidamente modelado pela acidentada topografia da região, o que torna esta cidade mais vulnerável à atuação das massas polares, durante todo o ano e principalmente no verão, do que Teresópolis e Nova Friburgo, um pouco mais distantes do litoral. Tal ocorrência pode ser reconhecida pela elevada pluviosidade anual de Petrópolis, 2.023,9mm e com chuvas mensais superiores a 60mm.

OBJETIVO

É nosso objetivo, novamente alertar no sentido de que as autoridades responsáveis por Petrópolis levem em consideração o atual plano urbanístico da Lei de Uso, Parcelamento e Ocupação do Solo (LUPOS), aprovada sob o n.º 5.393/98, em função das alterações climáticas resultantes dos impactos ambientais que esta cidade vem sofrendo através de sua expansão e urbanização. Assim como averiguar as conseqüências dos desastres naturais causados pela alteração dos ecossistemas
mantenedores do equilíbrio ecológico.

ÁREA DE ESTUDO

1 – Aspectos geoecológicos e climáticos: Petrópolis localizado a 895 metros de altitude, situa-se na cabeceira do vale do rio Piabanha, na borda da Serra dos Órgãos. Por conseqüência, o seu sítio urbano caracteriza-se por seus alinhamentos montanhosos paralelos, cortados por fraturas e falhas transversais, onde os rios se encaixam em vales estreitos e retilíneos, interrompidos por cotovelos. No local há, pois uma convergência de drenagem devido ao relevo e à estrutura regionais, impedindo o alargamento dos vales e a extensão da sedimentação fluvial. Ao mesmo tempo, blocos maciços e patamares de erosão circundam toda a rede de drenagem. Tal sítio apresenta-se vulnerável às intensas chuvas de verão. A localização serrana de Petrópolis dotou-a, portanto, de um tipo de clima mesotérmico, embora esteja situado em domínio tropical. Analisando a dinâmica atmosférica da região verifica-se que, embora esta cidade permaneça a maior parte do ano sob o domínio da massa Tropical Atlântica, está também sob a influência de seu confronto com a massa Polar, e consequentemente, também, da atuação das frentes frias e/ou linhas de instabilidade. As condições de frontogênese resultantes do confronto destas duas massas de ar são mais freqüentes no inverno, porém as condições de instabilidade são menores, causando quedas acentuadas de temperatura, nevoeiros de encosta e diminuição da pluviosidade. Já no verão, este fenômeno provoca fortes chuvas e trovoadas. À dinâmica atmosférica regional associa-se a elevada topografia local provocando o aumento da turbulência do ar, o que resulta em uma boa freqüência de chuvas durante a maior parte do ano, principalmente a barlavento do relevo. No verão estas precipitações podem se tornar muito intensas, resultando nos fortes aguaceiros que assolam este município.

2 – Associação clima – relevo – ocupação humana: Seu sítio urbano caracterizado pela acidentada topografia da região e como que encaixado no fundo dos vales dos rios Piabanha, Quitandinha e Palatinato apresenta uma disposição linear, acompanhando estes cursos d’água e forma unidades urbanas isoladas, separadas por pontões graníticos e morros. A localização serrana de Petrópolis, por um lado, conferiu-lhe aspectos positivos como é o caso de ter atraído a família imperial de D. Pedro II para esta cidade através da construção de seu Palácio de Verão e a implantação de uma colônia agrícola de imigrantes alemães, tornando-a a primeira cidade planejada do Brasil. Embora tenha fracassado a colônia agrícola, implantada pelo governo imperial, o potencial hidráulico da área oriundo do relevo com vales encaixados, geralmente digitados e separados uns dos outros pelas linhas de relevo, estimulou o estabelecimento do centro industrial, que veio se desenvolver na cidade, principalmente pela influência da colonização alemã. A função industrial e a de veraneio permitiu que a cidade se expandisse, bem como sua população. Por outro lado, as características topográficas do sítio urbano de Petrópolis, associadas à desorganizada ocupação populacional a expôs a sérios impactos ambientais quando da ocorrência de intensas chuvas de verão, através de cheias calamitosas e deslizamentos de encostas. Atualmente a cidade de Petrópolis tem sua expansão horizontal limitada pelo seu próprio relevo e apresenta a mesma forma tentacular que caracterizou o Plano Koeler em 1843. Os bairros petropolitanos apresentam uma grande dependência do centro, pois suas ligações são feitas através dele. Os eixos viários localizam-se nas encostas íngremes e ao longo dos vales. Devido à falta de espaços planos, a crescente população adapta-se à topografia para instalar-se e, na maioria das vezes de forma irresponsável, colocando a vida dos moradores em risco devido à expectativa de desmoronamentos freqüentes na época das fortes chuvas. Na realidade, a correlação clima, topografia e crescimento populacional, em função do desenvolvimento da cidade, sem se adequar aos planos urbanísticos propostos, como o de 1998, agrava o problema quando da ocorrência de calamidades pluviais.

METODOLOGIA

Utilizou-se nesta pesquisa, além dos estudos anteriores do quadro natural da cidade, do seu sítio urbano e sua ocupação, os dados pluviométricos do período de 1973 a 2000, bem como a elaboração de gráficos de pluviosidade deste período com o cálculo do Balanço Hídrico de Thornthwaite e Mather (1955) e seu respectivo gráfico. Analisou-se detalhadamente as chuvas de dezembro de 2001 e janeiro de 2003, cujos dados de pluviosidade foram cedidos pelo Laboratório de Geomorfologia Experimental e Erosão dos Solos - LAGESOLOS do Departamento de Geografia da UFRJ, coordenado pelo Professor Doutor Antônio José Teixeira Guerra. Para dezembro de 2001 utilizou-se os dados pluviométricos das estações meteorológicas de Capela e Corrêas e para janeiro de 2003, a de Corrêas, uma vez que a estação Capela foi desativada em dezembro de 2002. Os “tipos de tempo” que marcaram os episódios críticos de dezembro de 2001 e janeiro de 2003 constituíram-se em uma análise fundamental para a definição destes episódios pluviométricos, bem como do caráter das cheias e movimentos de massa que assolaram o município. Foram utilizados, além dos dados meteorológicos, as imagens de satélite (INPE) e as cartas sinóticas cedidas pelo Ministério da Marinha. Na busca de relações de causas e efeitos, para obter soluções para estas calamidades que se propôs estudar, colaboraram o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil de Petrópolis, principalmente através do auxílio inestimável do Coronel Marco Antônio Vidal que nos cedeu várias fotos, dados pluviométricos mensais dos bairros, os relatórios dos eventos e as notícias publicadas nos jornais locais. Foram realizados vários trabalhos de campo, não só para fotografar as áreas mais atingidas, como também , para obter relatórios de vários cidadãos que vivenciaram os calamitosos acontecimentos. 

Gráficos de Pluviosidade Diária
Petrópolis

Dezembro 2001

Estação Capela

Janeiro 2003

Estação Corrêas


RESULTADOS

1 - O episódio pluviométrico de dezembro de 2001: para a medição das chuvas ocorridas no ano de 2001 foram utilizados dados pluviométricos da estação Capela, situada no primeiro distrito (Petrópolis), a 900 metros de altitude e mais ao sul do município, isto é, praticamente a barlavento e da estação Corrêas, no segundo distrito (Cascatinha), já mais ao norte, em direção ao vale do Paraíba do Sul, ou seja, a sotavento. A estação Capela apresentou um total pluviométrico, em dezembro de 2001 , de 575,3mm e Corrêas, 418,8mm. As fortes chuvas iniciaram-se às 18 horas do dia 23 e se estenderam até o dia 26, totalizando 283,1mm no bairro de Capela (estação Capela) e 187,9mm em Corrêas (estação Corrêas). Do ponto de vista da dinâmica atmosférica, iniciou-se o estudo do episódio pluviométrico, em questão, a partir do dia 20 de dezembro quando, às 00:00 horas GMT o Estado do Rio encontrava-se sob o domínio de uma massa Polar tropicalizada e uma frente fria encontrava-se sobre o oceano, na altura da costa baiana e já em frontólise. Neste dia ocorreram 3,4mm de precipitações apenas em Corrêas. Uma nova frente fria deslocava-se pela Argentina. No dia 21, às 00:00 horas GMT a frente que estava no oceano na costa baiana entrou em frontólise. A que estava na Argentina avançou para o Uruguai; às 12:00 horas GMT a situação permaneceu semelhante. O Sudeste estava sob a ação da massa Polar já tropicalizada. Foram registrados 93,2mm de chuvas em Capela e 3,8mm em Corrêas. No dia 22 às 00:00 horas GMT o Sudeste continuava sob o domínio da massa Polar tropicalizada. A nova frente fria alcançou o Rio Grande do Sul com sua baixa dinâmica estendo-se pelo sul do Brasil até o Centro-Oeste; às 12:00 horas GMT a frente que se encontrava atuando no litoral do Rio Grande do Sul parece ter unido sua baixa dinâmica à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), o que provocou nebulosidade do sul do Brasil até o sul do Estado do Rio; às 15:00 horas GMT a frente alcançou o Paraná, com sua baixa dinâmica associada à ZCAS e formou uma linha de instabilidade no litoral, na direção sudoeste-nordeste, atingindo o sudoeste do Estado do Rio e seu litoral meridional. Em Petrópolis ocorreram 33,2mm de chuvas em Capela e 3,8mm em Corrêas. Às 21:00 horas GMT a nebulosidade aumentou no interior alcançando o Nordeste. No dia 23 às 00:00 horas GMT, a frente já havia alcançado S. Paulo e o Estado do Rio; às 12:00 horas GMT ela ocupou todo o Estado do Rio, ondulando no oceano e sua baixa dinâmica continuou associada à ZCAS, o que causou extensa nebulosidade por todo o interior do país; às 15:00 horas GMT a frente encontrava-se em franca atividade no centro-sul do Estado do Rio, bem como às 18::00 horas GMT. O forte temporal que assolou Petrópolis iniciou-se às 18:00 horas, hora local, chovendo ininterruptamente até o dia 26.

Gráfico de Pluviosidade e Situação Sinótica em Petrópolis

Dezembro 2001





Legenda:

PA – Massa Polar Atlântica
PT – Massa Polar Tropicalizada
FF – Frente Fria
LI – Linha de Instabilidade
ZCAS – Zona de Convergência do Atlântico Sul


No dia 24, às 00:00 horas GMT a nebulosidade da frente já ocupava todo o Estado do Rio, com nuvens de crescimento vertical na área serrana; às 12:00 horas GMT a frente continuou atuante no Estado do Rio, bem como às 15:00 horas GMT. Porém sua vanguarda começou a atingir o Espírito Santo. Às 18:00 horas GMT sua atuação estendia-se por todo o Estado do Rio e Espírito Santo. Registrou-se nesta data a ocorrência de 192,3mm de chuvas nas últimas 24 horas em Capela e 180,6mm em Corrêas. No interior a baixa dinâmica da frente continuava associada à ZCAS. No dia 25, às 00:00 horas GMT a frente continuou avançando para nordeste; às 12:00 horas GMT ela começou a entrar em frontólise no oceano, porém a nebulosidade mantinha-se sobre o Estado do Rio e Minas Gerais e o mesmo correu às 15:00 horas GMT. Registraram-se 89,9mm de chuvas em Capela e 0,9mm em Corrêas. No dia 26 a frente continuava em frontólise no oceano, porém a nebulosidade mantinha-se sobre o Estado do Rio, Espírito Santo e parte de Minas Gerais. Capela registrou 0,9mm de chuvas e Corrêas, 6,4mm. No dia 27, a frente ainda se mantinha em frontólise no oceano e, também, a nebulosidade sobre o Estado do Rio. Cessaram as chuvas em Petrópolis, que, então se encontrava sob o domínio da massa Polar tropicalizada. No dia 28, a frente manteve-se em frontólise no Espírito Santo. Uma nova frente fria avançou novamente pela Argentina. Petrópolis que continuava sob o domínio da massa Polar tropicalizada acusou chuvas somente em Corrêas: 0,8mm. No dia 29 a nova frente fria que já havia alcançado o sul do país, desviou-se para o oceano, permanecendo a massa Polar tropicalizada atuando sobre o Sudeste , porém mantendo-o com nebulosidade. Registrou-se a ocorrência de 10,8mm de chuvas em Corrêas. No dia 30 mais uma frente fria avançou pela Argentina e reativou a frente fria que estava em frontólise no Espírito Santo e na Bahia, parecendo formar-se nova conjunção da baixa dinâmica da frente com a ZCAS. A massa Polar tropicalizada continuou mantendo o Estado do Rio com nebulosidade. Ocorreram 20mm de precipitação em Corrêas. Tal situação sinótica manteve-se no dia 31, porém a nebulosidade abrangeu do Estado do Rio ao Nordeste, o que parece ter sido a causa da queda de 44,9mm de chuvas em Capela e 70,4mm em Corrêas. Através desta análise sinótica foi, então, possível compreender a causa da tragédia que se abateu sobre Petrópolis às vésperas do Natal de 2001.

2 – Conseqüências do episódio pluviométrico: como já se mencionou o temporal que se iniciou às 18 horas do dia 23 e se estendeu até o dia 26, totalizou uma pluviosidade de 283,1mm em Capela e 187,9mm em Corrêas. E, segundo notícias dos jornais locais alcançou um índice pluviométrico de 303mm em Ouitandinha, um dos bairros mais duramente castigado pelas chuvas torrenciais destes dias. Quatorze bairros da cidade foram fortemente atingidos com ruas alagadas, prédios submersos, casas invadidas pela lama e grande número de deslizamentos de terra de grande proporção que deixaram Petrópolis inacessível por 20 horas. Segundo dados oficiais foram 84 os pontos atingidos inseridos em um universo de 11 grandes áreas. Os deslizamentos de terra atingiram os bairros de Quitandinha, o mais afetado, registrando 21 óbitos; o Alto da Independência, cuja rua principal de acesso ao bairro ficou interditada, com 06 óbitos; o bairro de São Sebastião, no qual, a rua D. Henrique, que liga os bairros de Crémerie ao de Siméria, foi interditada e registrou 01 óbito; o bairro de Lopes Trovão, onde uma pedra pesando toneladas colocou em risco eminente 40 casas na rua Roberto F. da Rocha, o que foi solucionado pelo Corpo de Bombeiros, porém mesmo assim registrou 1 óbito. No Centro, na rua Aureliano Coutinho ocorreram deslizamentos na Vila Guerra Peixe, resultando em 1 óbito. Segundo os moradores da Vila, o evento foi causado pela construção irregular de casas na rua 24 de Maio, localizada no alto do morro. Na Vila Felipe, na manhã do dia 24, várias casas foram destruídas pelos deslizamentos de terra, ocorrendo 06 óbitos na rua Jacinto Rebelo. Em Valparaíso foi afetada a avenida Portugal, com a destruição da fábrica de batatas fritas James, localizada na encosta. Tal fato foi decorrente de uma ocupação irregular, à esquerda da fábrica, com derrubada de árvores, construção de casas e de uma estrada no topo desta encosta. Neste mesmo bairro, o Trono de Fátima, ponto turístico e religioso da cidade, foi seriamente afetado em uma de suas encostas, colocando em risco a capela e a imagem que está sobre ela. No Morin, bairro tanto de classe média alta, como de pessoas mais pobres, ocorreram 04 óbitos, sendo atingidas por deslizamentos de terra, as ruas Eugênio Werneck e Otto Márius. Nos bairros Bingen e Capela ocorreram 02 óbitos. Na Estrada do Contorno, os deslizamentos de terra provocaram 07 mortes; na estrada Rio-Petrópolis, 01 óbito e em Corrêas, 03. Além dos deslizamentos de terra várias áreas do município foram alagadas, tais como: rua Coronel Veiga, pelo rio Quitandinha, pois esta rua liga o bairro do mesmo nome ao centro da cidade, que também ficou alagado, como Corrêas e Nogueira (distrito de Petrópolis). Na noite de domingo, dia 23, a inundação na Praça de Corrêas chegou ao topo dos orelhões, invadindo casas e lojas. Segundo dados oficiais do Corpo de Bombeiros, esta nova calamidade pluviométrica contabilizou no total 48 mortes, 32 pessoas desaparecidas e 661 pessoas desabrigadas.

3 – O episódio pluviométrico de janeiro de 2003: Em janeiro de 2003, na análise deste novo episódio pluviométrico, infelizmente só foram utilizados os dados pluviométricos diários da estação meteorológica Corrêas, localizada no segundo distrito de Petrópolis (Cascatinha), a sotavento. Não foi possível obter os dados das chuvas diárias da estação Capela, situada no primeiro distrito


Gráfico de Pluviosidade e Situação Sinótica em Petrópolis


Janeiro 2003




Legenda:

PA – Massa Polar Atlântica
FF – Frente Fria
FE – Frente Estacionária
ZCAS – Zona de Convergência do Atlântico Sul

(Petrópolis) porque ela foi desativada em dezembro de 2002. Esta estação era muito importante porque se encontrava a barlavento e a 900 metros de altitude. Sua localização permitia registrar, por ocasião dos grandes aguaceiros, os maiores totais pluviométricos do município, como os que ocorreram em dezembro de 2001. Em janeiro de 2003, justamente o bairro Bingen, onde estava instalada a estação Capela, bem como o bairro Duarte da Silveira, situado bem próximo ao Bingen, foram os mais assolados pelas fortes chuvas ocorridas do dia 11 ao dia 13, bem como suas desastrosas conseqüências. As chuvas iniciaram-se às 00:00 horas local do dia 11 e duraram cerca de uma hora, totalizando em 24 horas 155mm em Duarte da Silveira, 145mm em Quitandinha e 140mm no Centro, segundo a Defesa Civil. Do ponto de vista da dinâmica atmosférica, iniciou-se o estudo deste episódio pluviométrico a partir do dia 10 de janeiro quando às 12:00 horas GMT o Estado do Rio apresentava-se sob a influência da massa Tropical Atlântica. No sul do Brasil atuava uma frente fria, mais no sentido norte-sul, que se estendia do Uruguai até o sul do Paraná no interior do continente, porém no litoral e no oceano esta frente já avançava para o litoral paulista. Às 20:00 horas GMT a frente polar alcançou o Estado do Rio e Minas Gerais, apresentando forte nebulosidade em Minas Gerais e centro-sul do Estado do Rio. Às 21:00 horas GMT uma nova frente fria, oriunda do Pacífico, foi se formando e reforçando a frente anterior no litoral e oceano, formando nuvens cumuliformes em Minas Gerais e Estado do Rio, principalmente na fronteira dos dois estados. Estas nuvens pareciam ser o resultado da associação da baixa dinâmica da frente com a da Zona da Convergência Intertropical (ZCIT). Às 00:00 horas GMT do dia 11, a frente ainda atuante na região, reforçada pela chegada da nova frente fria pelo oceano, provocou fortes chuvas em Petrópolis, que se abateram sobre a cidade, com grande intensidade, durante uma hora ininterruptamente. Às 12:00 horas GMT, a frente continuou estacionária no Estado do Rio, bem como pelo resto do dia, com sua vanguarda já alcançando o sul da Bahia. Como conseqüência a Defesa Civil de Petrópolis chegou a registrar em 24 horas no dia 11, a queda de 155mm de chuvas no bairro Duarte da Silveira que apresentou o maior índice pluviométrico do município. No dia 12 as imagens de satélite mostraram a frente reforçada e estacionária, estendo-se de Santa Catarina ao sul da Bahia, contribuindo para a manutenção da pluviosidade em Petrópolis, embora em menor quantidade (10mm em Corrêas). No dia 13 a frente ainda se mantinha estacionária no Estado do Rio, porém com precipitações mais reduzidas (8,5mm em Corrêas). No entanto sua nebulosidade estendia-se do Paraná ao sul da Bahia. No dia 14 continuou estacionária no Sudeste, porém com maior nebulosidade sobre o oceano.Nos dias 15 e 16, embora ainda estacionária, a frente entrou em frontólise no Estado do Rio, porém com elevada nebulosidade em Minas Gerais e Centro-Oeste. No dia 17 a nebulosidade recrudesceu no Estado do Rio, pois a frente parece ter recuado como frente quente para o sul. Nos dias 18 e 19 a frente fria continuava estacionária no oceano, porém, no continente, sua baixa dinâmica uniu-se à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) provocando novamente fortes chuvas, tendo sido registrado nos dias 18 e 19: 60,3mm e 50,8mm de precipitações respectivamente (Corrêas). No dia 20 cessaram as chuvas e o Estado do Rio encontrava-se então sob o domínio da massa Polar. Porém uma nova frente fria avançou do sul do Brasil, alcançando o Sudeste no dia 27 e provocou chuvas em Petrópolis, porém menos fortes, dos dias 27 ao dia 30.

4 – Conseqüências do episódio pluviométrico: O estudo da dinâmica atmosférica de Petrópolis, a partir do dia 10 de janeiro, permitiu compreender a mais recente calamidade pluvial que se abateu novamente sobre este município. Ela foi causada pelas fortes chuvas que se iniciaram na madrugada do dia 11 e persistiram intensas durante uma hora, prolongando-se até o dia 13, embora mais reduzidas. Como conseqüência foram registrados 17 óbitos e 276 desabrigados somente na madrugada do dia 11. As principais áreas atingidas foram: Bingen, Duarte da Silveira, Quitandinha, Centro, Morin, Contorno, Itaipava e Pedro do Rio. No Km 82 da Estrada do Contorno, registrou-se 13 vítimas fatais por soterramento, todas da mesma família. Segundo informações da Defesa Civil, no dia 11 a ocorrência de deslizamentos de terra em Petrópolis totalizou: 17 no Bingen, 35 em Quitandinha, 15 em Mosela, 07 em Castrioto e 05 no Centro. Porém em virtude das novas precipitações elevadas nos dias 18,19 22 e de 27 a 30 a Defesa Civil contabilizou no fim do mês de janeiro elevadas ocorrências de deslizamentos de terra e desmoronamentos nos diversos bairros da cidade, tais como: 34 em Capela, 29 no Bingen, 22 em Duarte da Silveira, 106 em Quitandinha, 52 no Centro,19 em Independência, 53 em Mosela, 53 em Corrêas, 12 em Castrioto e 31 em Araras. Nas áreas inundadas 40 carros foram arrastados e jogados dentro dos leitos dos rios em várias ruas da cidade.O maior número ocorreu no bairro Bingen, entre o Hospital Santa Teresa e o bairro Capela. Na rua Piabanha, também próxima ao Hospital Santa Teresa, registrou-se 04 vítimas fatais por afogamento. Ainda no Bingen as marcas da enxurrada ficaram nitidamente visíveis nas grades do SENAI pelo mato preso na altura de dois metros e pontes foram arrancadas pela força da água. Os comerciantes deste bairro foram os mais prejudicados, principalmente as casas de móveis e a Concessionária Peugeot com seus carros boiando em seu pátio. No Centro, a rua do Imperador foi inundada, com a água invadindo lojas, garagens e arrastando bancas de jornal.Vários comerciantes tiveram grande prejuízo, como




Gráficos fornecidos pelo Laboratório Lagesolos da UFRJ.

 farmácias com seus medicamentos totalmente destruídos pela cheia. A rua Coronel Veiga que liga o bairro de Quitandinha ao Centro ficou submersa por duas horas. Na rua Getulio Vargas, no bairro Quitandinha, a força das águas abriu um buraco submergindo um carro e provocou inundações em mais 06 áreas deste bairro. Outros bairros alagados foram os de Mosela (04 áreas) e Castrioto, (04 áreas). A Secretaria de Obras do município calculou que 100 ruas da cidade foram danificadas. Segundo a Defesa Civil, esta nova calamidade contabilizou no total 17 óbitos, 276 desabrigados e 4 residências destruídas.

CONCLUSÕES

 Analisando as duas últimas catástrofes pluviais em Petrópolis, concluiu-se, novamente, que apenas as fortes chuvas de verão não podem ser responsabilizadas por estes infaustos acontecimentos. A elas se soma as características analisadas de seu sítio urbano implantado sobre um relevo movimentado e a ocupação desordenada de sua crescente população. Depois das chuvas de 2001 foram elaborados estudos pelo Laboratório LAGESOLOS do Departamento de Geografia da UFRJ e foram levantados dados sobre os fatores potencializadores, ou seja, fatores que provocam os deslizamentos de terra na cidade de Petrópolis. Estes estudos demonstraram que aproximadamente 60% dos movimentos de massa ocorreram em conseqüência da presença de moradias com construções irregulares e localizadas em áreas de relevo abrupto e impróprio à sua ocupação, associada a um sistema de drenagem inexistente ou inadequado à excessiva quantidade de chuvas que aí ocorrem. E, também, que estes fatores potencializadores eram responsáveis por 92% dos óbitos ocorridos por ocasião das fortes chuvas de verão. Ao estudo destas irregularidades deve ser associado o do crescimento populacional de Petrópolis e das legislações do espaço urbano que foram criteriosamente analisadas por Gonçalves e Guerra (2001). E, através desta análise verifica-se que, vários destes planos tinham como objetivo a preservação ambiental de Petrópolis, tais como o do Major Júlio Frederico Koeler em 1843; o Código de Posturas Municipais de 1900; o Código de Obras de 1931; o Decreto-Lei n.º 143/76; o Plano Diretor de 1992; o Decreto Federal, também, de 92, criando a APA de Petrópolis e, finalmente a Lei de Uso, Parcelamento e Ocupação do Solo (LUPOS) de 1998. Porém, o mesmo não ocorreu entre a década de 50 e 80, quando foram adotados frágeis planos de ocupação do solo urbano, politicamente desarticulados e mal orientados. Tal dicotomia refletiu-se na expansão urbana da cidade, anulando os corretos planos de planejamento urbano anteriores, bem como, o contínuo desrespeito aos planos urbanísticos bem elaborados mais atuais, tanto por parte da população como pelas autoridades competentes, propiciando as recorrentes calamidades. Almeja-se, futuramente, através de uma reflexão crítica, a compreensão de que o problema da ocupação desordenada dos espaços urbanos sob impactos pluviais concentrados, exige estratégias e respeito aos planos de ocupação urbana adequada aos problemas ambientais locais, como é o caso da Lei de Uso, Parcelamento e Ocupação do Solo (LUPOS), nº 5.393/98.

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 __________O clima urbano de Petrópolis – RJ: análise dos impactos ambientais das chuvas de verão nas áreas de risco e nas inundações. In: Os climas das cidades brasileiras, Org.: Neto, J. L. S. UNESP – FCT, Laboratório de Climatologia, Presidente Prudente, S. Paulo, 2002, pp. 89-114. - KOPKE, J. F. Petrópolis, capital do Estado, geopolítica dos municípios. Rio de Janeiro, n. 12, 1958.

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