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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

DEGRADAÇÃO AMBIENTAL E VOÇOROCA DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIBEIRÃO DOURADINHO

 

 

SILVA, Gleiciane Nascimento da1. LAGES. Instituto de Geografia / UFU.

SILVA, Michelle Camilo Machado da1.LAGES. Instituto de Geografia. / UFU.

RODRIGUES, Silvio Carlos2. LAGES. Instituto de Geografia. / UFU.

 

 

Palavra chave: Geomorfologia, Erosão, Voçoroca.

 

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

INTRODUÇÃO

 

Os estudos geomorfológicos requerem o entendimento do relevo e sua dinâmica, procurando a compreensão do funcionamento e da inter-relação entre os componentes naturais, como por exemplo, os solos e os condicionantes hidrológicos, podendo também ressaltar a fragilidade dos ambientes naturais. Sendo assim, os processos erosivos enquadram-se nesta linha, ao mesmo tempo em que degradam os solos, esculpem o relevo, criando, assim, pequenas formas como as voçorocas.

As voçorocas por sua vez são formas recentes de erosão que possuem origens naturais, sendo que a interferência humana tende a acelerar o desenvolvimento dos processos erosivos, e conseqüentemente leva às configurações atuais de degradação ambiental, as quais apresentam-se em diferentes níveis de gravidade, pois implicam na alteração da qualidade do meio físico.

A área estudada localiza-se na região da Bacia Hidrográfica do Ribeirão Douradinho, afluente do Rio Tijuco, situada nas coordenadas UTM 0769221 de latitude Sul e 7892677 de longitude Oeste, na área rural do município de Uberlândia - MG. Estudos realizados no município por Baccaro (1994) indicam um atrelamento entre a ocorrência de voçorocas e as vertentes com declividades entre 5 e 10%, geralmente associadas à presença de rupturas de declive em afloramentos de crostas lateríticas.

1 - Estagiária do Laboratório de Geomorfologia e Erosão de Solos (LAGES) gleicin@yahoo.com.br e michiki81@yahoo.com.br

2 – Orientador: Laboratório de Geomorfologia e Erosão de Solos (LAGES) silgel@ufu.br

 

As voçorocas existentes na área de estudo encontram-se em posição de cabeceiras de drenagem, ocupando antigas áreas de nascentes, e, portanto muito próximas ao nível de afloramento do lençol freático. Recentemente, essas erosões estavam sendo utilizadas para a disposição de pneus que posteriormente foram incinerados. A área compreende relevo em colinas amplas, com média densidade de drenagem.

Os solos superficiais são constituídos por materiais arenosos, permitindo grande infiltração, por serem provenientes da desagregação de arenitos da Formação Marília, que afloram em profundidades superiores a 10 metros. Tais processos de formação de voçorocas desencadeiam-se preferencialmente em colinas, onde a vegetação já foi praticamente retirada e substituída por pastagem e atividades agrícolas, deixando um solo fragilizado (Figura 1), incapaz de deter o escoamento superficial, mudando a infiltração e o nível do lençol freático interferindo no ciclo natural do relevo.

 

 

Figura 1 – Formação de alcova condicionada pela fragilidade do solo.

Autor: RODRIGUES, S. C., 04/062003.

 

 

A localização geral e o detalhamento da área de estudo podem ser visualizados de acordo com a Figura 2.

 

Figura 2 – Mapa de localização da área de estudo e detalhamento dos posicionamentos das voçorocas.

 

 

OBJETIVOS

 

Propõe-se compreender a dinâmica dos processos de formação de voçorocas, cuja localização é na Bacia Hidrográfica do Ribeirão Douradinho, afluente do Rio Tijuco, no município de Uberlândia – MG, proporcionando a caracterização básica dos elementos do meio físico e dos processos de degradação ambiental associados.

 

 

PROCEDIMENTOS OPERACIONAIS

 

Foi realizado a princípio um levantamento bibliográfico e estudos de gabinete, com a interpretação de fotografias aéreas e cartas topográficas para mensurar a dimensão das voçorocas e sua localização exata, bem como visitas à área referida.

Durante as vistorias procedeu-se a coleta de material superficial no interior e no entorno da voçoroca para determinação de sua caracterização física e do pH do solo, em trechos afetados e não afetados pela erosão e deposição de entulho. Este material foi recolhido e analisado no Laboratório de Geomorfologia e Erosão dos Solos da Universidade Federal de Uberlândia.

Em relação à orientação, o GPS (Sistema de Posicionamento Global) foi utilizado para a localização da área, enquanto o altímetro para a mensuração da altitude e profundidade das voçorocas.

 

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

 

Em torno das voçorocas do Ribeirão Douradinho (Figura 3), a vegetação predominante é cerrado degradado, apresentado árvores de pequeno porte com altura entre 3 a 6 metros, que apresentam troncos e galhos retorcidos, com o processo de degradação bastante evoluído, condicionada principalmente pela prática de atividades agrícolas, como a pecuária.

 

Figura 3 Voçoroca do Ribeirão Douradinho. Notar a presença da vegetação degradada.

Autor: RODRIGUES, S. C., 04/062003.

 

As voçorocas apresentam uma profundidade média de 15 metros, com paredes muito inclinadas e declividades superiores a 60%. As dimensões máximas e mínimas de largura e extensão das três voçorocas estão apresentadas na Tabela 1 e posicionados na Figura 4.

 

Tabela 1 Dados referentes a dimensões lineares e areolares das voçorocas visitadas. Obs. Os dados foram calculados com base em fotografias aéreas e cartas topográficas da década de 80 e, portanto representam valores um pouco inferiores aos existentes atualmente. 

VOÇOROCA 1

 

Elementos Dimensionais

Dimensões

Comprimento Principal

375

Largura

100

Área Aproximada (m2)

122.400

Perímetro Aproximado (m)

3.700

 

 

VOÇOROCA 2

 

Elementos Dimensionais

Dimensões

Comprimento Principal

375

Largura

250

Área Aproximada (m2)

68.400

Perímetro Aproximado (m)

2.370

 

 

VOÇOROCA 3

 

Elementos Dimensionais

Dimensões

Comprimento Principal

475

Largura

325

Área Aproximada (m2)

86.900

Perímetro Aproximado (m)

3.600

 

 

(clique para ampliar)

 

 Figura 4 – Indicação da delimitação das voçorocas em detalhe de fotografia aérea datada de 1979 com indicação dos pontos de coleta de solo e observação dos processos erosivos.

 

Através da análise de campo constatou-se um elevado nível de degradação ambiental, como a existência de grande volume de pneus dispostos a céu aberto (ponto 09); aterros na voçoroca juntamente à materiais carbonizados e em processo de erosão, cujos resíduos escoam em direção ao fundo do vale (pontos 7 e 8); exudação de material oleoso adjacente a água no fundo da voçoroca (pontos 04 e 05); carbonização com emissão de fumaça e fuligem na parede da voçoroca (pontos 05 e 06); quantidade significativa de material proveniente do aço, resíduos de pneus e outros elementos no interior da voçoroca (pontos 04, 05, 06, 07,09 e 10); indícios de contaminação do solo através do odor de óleo e graxa (ponto 02 e 03).

Diante da presente realidade através da coleta de material superficial tanto interior como no entorno da voçoroca para determinação de sua caracterização física e do pH do solo. Cujos resultados estão apresentados na Tabela 2.

 

 

Tabela 2 Resultados de análise do pH do solo dos pontos coletados.

Pontos de Coleta

Coordenadas em UTM

Altitude

(m)

Observações

pH

Classe de Reação em relação ao pH de água

 

 

 

 

 

Água

KCl

 

P1

769211

7892651

846

Sedimento superficial do Douradinho (cerrado).

5,8

4,4

Moderadamente ácido.

P2

769236

7892440

839

Sedimentos do fundo de vale.

6,3

5

Moderadamente ácido.

P3

769236

7892440

839

Sedimentos do fundo de vale (intermediário)

6,4

5,6

de moderadamente ácido a praticamente neutro.

P4

769287

7892699

840

Fundo do leito (exudação de óleo) – dentro da voçoroca.

5,7

5,5

Moderadamente ácido.

P5

769287

7892699

840

Área seca (sem presença de água, porém existe contaminação) - dentro da voçoroca.

5,2

5,2

Fortemente ácido a moderadamente ácido.

P6

769287

7892699

840

Sedimento superficial - dentro da voçoroca.

5,7

5,2

Moderadamente ácido.

P7

769108

7892768

845

Depósito de pneus já carbonizados.

6

5,2

Moderadamente ácido.

P8

768977

7892764

845

Depósito de pneus mais recentes.

6,4

5,4

de moderadamente ácido a praticamente neutro.

P9

768995

7892733

842

Sedimento do fundo de vale (área úmida).

6,3

5,5

Moderadamente ácido

P10

769075

7892549

840

Sedimento superficial - dentro da voçoroca.

5,7

4,7

Moderadamente ácido

P11

769075

7892549

840

Sedimento superficial - dentro da voçoroca.

6

4,7

Moderadamente ácido.

 

Diante desses diversos fenômenos observados no campo associados àqueles derivados das análises em laboratório indicam alguns tipos de processos que estão atingindo a área, tais como a contaminação do solo e do lençol freático.

A contaminação do solo e da água ocorreu principalmente devido aos derivados da queima de pneus, que após sua incineração liberaram óleo e fuligem (Figura 5), alterando os teores de pH do solo, como pode ser observado na Tabela 2. Esses valores mostram-se bastante distintos, tendo como base o ponto 5 que possui uma forte acidificação, enquanto nos pontos 6 e 7 apresentam pHs ligeiramente ácidos, variando entre 5 e 5,5, com tendência a neutralidade.

 

Figura 5 - Visualização da contaminação da água e do solo por óleo e fuligem no fundo da voçoroca que percorre até para uma nascente de afluente do Ribeirão Douradinho

Autor: RODRIGUES, S. C., 04/06/2003.

 

Em relação ao lençol freático, a contaminação é evidenciada pelo óleo e outros materiais derivados da queima dos pneus. Este fato é observado no interior das voçorocas, desde sua cabeceira até mais de 500 metros a jusante da mesma. Esta contaminação propaga-se atingindo os corpos de água, sendo utilizados pelo gado das fazendas drenadas pelo curso d’água e também pelos animais silvestres, aumentando a concentração a cada elo da cadeia alimentar.

Devido a este contexto observa-se um rebaixamento no nível do lençol freático, sendo um processo local que pode evoluir para um rebaixamento generalizado das nascentes em toda a bacia hidrográfica, principalmente pela grande quantidade de voçorocas existentes. Evidencia-se também a degradação paisagística da bacia hidrográfica pela grande presença de entulho e material não condizente com o meio (Figura 6).

 

Figura 6 Presença de entulho no interior e no entorno da voçoroca

Autor: RODRIGUES, S. C., 04/06/2003.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Constatou-se uma degradação ambiental grave, pois há alteração da qualidade química das águas desta área e contaminação do manancial. Tendo em vista estes aspectos acima sugere-se ações mitigadoras em relação a presença das voçorocas e a disposição de entulho e pneus no interior ou no entorno dessas.

A literatura especializada não apresenta estudo de caso de situação semelhante. Técnicas de recuperação de áreas atingidas por voçorocas constam de procedimentos que visam dois processos: evitar o crescimento do processo erosivo e recomposição da área atingida pela erosão.

Dentre diversas técnicas utilizadas para contenção do avanço da erosão. Sugere-se o isolamento da área, evitando-se a realização de atividades agropecuárias; elaboração de drenos no fundo da voçoroca, com intenção de canalizar o fluxo de água; elaboração de curvas de nível para contenção de enxurradas; elaboração de obras de terraceamento interno da voçoroca, diminuindo a inclinação e extensão dos taludes, propiciando uma nova dinâmica hídrica interna e possibilitando a revegetação da mesma, com espécies de cerrado e em sucessão ecológica;

Como a área em questão também apresenta uma grande deposição de resíduos urbanos, deve-se antes mesmo de se realizar qualquer medida de recuperação da área erodida, proceder-se a retirada do material composto por entulho e por pneus, pois estes contaminam o ambiente. Estes materiais devem ser dispostos em área apropriada, como os aterros sanitários no caso do lixo ou em área de reprocessamento de entulho ou de pneus.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BACCARO, C. A.D. As Unidades Geomorfológicas e a Erosão nos Chapadões do Município de Uberlândia. In: Revista Sociedade e Natureza. Ano 6, n° 11 e 12 – Jan/Dez, 1994, p. 19-33.

 

BOTELHO,R.G.M., GUERRA.A.T. & SILVA,A.S. Erosão e Conservação dos Solos - Conceitos , Temas e Aplicações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,1999.

 

GUERRA, A.J.T & CUNHA, S.B. da. Geomorfologia e Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil , 1996.

 

ROSS, J.L.S. Geomorfologia: Ambiente e Planejamento. São Paulo: Editora Contexto, 1990.

 

ROSS, J.L.S. O Registro cartográfico dos fatos geomorfológicos e a questão da taxonomia do relevo. São Paulo: Revista do DEGEO – FFLCHA – USP, nº 6,17- p.17-29.