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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

PERCEPÇÃO AMBIENTAL E AVALIAÇÃO DE RISCO NO BAIRRO DOM BOSCO, JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS.

 

 

Sarah LAWALL[1]( sarahlawall@bol.com.br ) & Geraldo César ROCHA[2] (geraldo@ichl.ufjf.br)

 

 

Departamento de Geociências & Laboratório de Geoprocessamento Aplicado/UFJF.

 

Palavras-chaves: risco ambiental, escorregamento e urbanização.

 

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

A cidade de Juiz de Fora está localizada no sudeste mineiro, na Unidade Serrana na Zona da Mata, pertencente à Serra da Mantiqueira Setentrional. Esta região possui altitudes que variam de 1000 m, nos pontos mais elevados, a  650 m no fundo do vale do rio Paraibuna, sendo os níveis médios de 800m.

Em decorrências dessas feições, o processo de ocupação e em seguida urbanização do município se estendeu em todo curso médio do rio Paraibuna. Este processo se intensificou em meados do século XIX com a construção da Estrada União & Indústria, que ligava o estado de Minas Gerais ao Rio de Janeiro passando pela  cidade de Juiz de Fora. Esse fator, atrelado à posição geográfica da cidade em relação as capitais regionais, viabilizou uma diversidade de investimentos urbanos locais, destacando-se a instalação da primeira Usina Hidrelétrica da América do Sul (Usina de Marmelos, atualmente Museu Histórico) que visava atender à demanda de consumo do setor industrial. 

Nesta fase a população da cidade crescia em um ritmo acelerado com a participação dos estrangeiros atraídos pela política do governo imperial. Entre 1889 e 1930 a cidade atingiu a importância nacional pela industrialização onde foi considerada a "Manchester Mineira". Segundo os dados do IBGE, Juiz de Fora possuía em 1920 um total de 118.166 habitantes, destacando o crescimento dessa população na área urbana (IBGE,1996).

“Em meados do século XX a produção industrial sofre limitações e fragilidades de diversos fatores, uma delas foi à falta de investimentos voltados para modernização da produção, onde culminou na transformação do perfil econômico da cidade”(IPPLAN,1999). A cidade passou a ser considerada como pólo regional prestador de serviços , desenvolvendo atividades terciárias que se tornaram tradicionais, como educação e saúde, ampliando-se não só para Zona da Mata como outras cidades Mineiras e do Estado do Rio de Janeiro. Além desses serviços destacados, o comércio varejista, a rede bancária, as pequenas e médias empresas , especialmente as têxteis, e a construção civil definem o atual empreendimento do poder público em simetria com setor privado, além de incentivos fiscais usados para atrair novas industriais e o recurso da criação dos distritos industrias que oferecem subsídios e toda a infra-estrutura para estas. Estes são esforços que a cidade vem desenvolvendo com o objetivo de retomar ao crescimento econômico e industrial e que atraem a população para a cidade disponibilizando-a o mercado de trabalho.

Dentro desse contexto histórico, a cidade hoje, assim como as principais cidades de porte médio no Brasil, vêm sofrendo com o crescimento urbano desordenado, segundo dados de Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística do ano de 2000, a cidade de Juiz de Fora conta com uma população de 456.432 habitantes em uma área de 1.429,8 Km2, sendo que 99,17% desses habitantes residem em área urbana. A expansão urbana e por conseqüência, o crescimento populacional tem ultrapassado os limites do centro e dos arredores da cidade levando esta população a escolherem outras áreas para moradia, sendo por diversas vezes prejudicadas as classes sociais desprivilegiadas, ou seja, a população de baixa renda.. Essa população carente é deslocada para áreas periféricas onde não são atendidas pelas  infra-estruturas urbanas básica como saneamento, calçamento, transporte e luz elétrica. Segundo GUERRA & GONÇALVES (2001,pg 189), "espaço urbano é resultado de drásticas transformações antrópica sobre o meio físico ao longo dos anos". E esse episódio torna-se mais comum e dinâmico no município trazendo um custo alto para toda sociedade. A cidade de Juiz de Fora vive atualmente um dos maiores exemplos de degradação ambiental,  colocando em risco a segurança e a qualidade de vida da sua população. Como exemplos podemos citar a ocorrência de erosão e o assoreamento dos canais fluviais, o desmatamento, a degradação e poluição do rio Paraibuna e também os processos de movimentos de massa, como os escorregamentos das encostas intensificados pela ação antrópica na ocupação de áreas criticas.

“É crescente a demanda para pesquisar  os impactos ambientais urbanos, na qual é fundamental a compreensão da cidade moderna (novas mudanças na forma de produção, função, estrutura, dinâmica e infra-estrutura), como movimento, e as relações  entre a sociedade e a natureza .O mapeamento de impactos ambientais certamente guardará estreita relação com a espacialização diferencial das classes sociais na cidade, peculiar a cada momento de sua história social e política”(GUERRA & CUNHA, 2001). E neste contexto que o Departamento de Geociências  da Universidade Federal de Juiz de Fora insere-se como agente direto na elaboração de diagnósticos e mapeamentos, que servem de subsídios para o planejamento do uso e ocupação de solo urbano.

O presente trabalho tendo como área piloto o bairro Dom Bosco, está localizado a sul do município, possuindo uma população local de 4.073 habitantes em  área de 37,38 hectares (IBGE,2000), caracterizada por possuir fatores físicos e antrópicos favoráveis a dinâmica de movimentação de massas, sob forma de escorregamentos que vem afetando a comunidade local. É de suma importância a espacialização em formato digital,  permitindo avaliação ambiental do evento, no qual são cruzados dados ou entidades tanto ambientais como sociais. Com esses resultados obtidos partindo do uso de Sistema de Informação Geográfica (SAGA/UFRJ), e com o auxílio do geoprocessamento como ferramenta de decisão para analise ambiental seguindo sua metodologia, são fornecidos subsídios, atrelados à pesquisa social de percepção ambiental, para elaboração e aplicação de praticas de educação ambiental atingindo diretamente a população local que vive esse quadro de risco, onde se pode atenuar e viabilizar a convivência dessa comunidade aos problemas ambientais do seu meio.

 

OBJETIVOS

 

"A realidade de um espaço urbano é representativa de um estágio histórico dos movimentos de mudanças sociais e ecológicas (particulares e gerais) combinadas, que modificam permanentemente o espaço em questão ..." (COELHO, 2001). É neste contexto que o presente trabalho retrata seus principais objetivos, aparado por dois elementos fundamentais para compreensão do espaço urbano: o homem e o meio físico.

Em primeiro instante, é essencial a realização de avaliações e assinaturas ambientais (utilizando cartogramas digitais previamente elaborados ) visando obter o cartograma que servirá de parâmetro para a delimitação das áreas mais susceptíveis ao evento, ou seja,  risco a escorregamento.

Aliado ao estudo e representação das entidades do meio físico, o segundo instante pauta-se na avaliação da percepção ambiental da população local seguindo o seu contexto social, econômico e cultural, consistindo no uso de questionário social elaborado e aplicado por CASTRO (2003).

E por fim e correlacionando o homem ao seu meio, incentivar e viabilizar ações mitigadoras sob o risco a escorregamento junto à comunidade local inserindo a prática de educação ambiental.

 

METODOLOGIA

 

O estudo da  avaliação de risco a escorregamento foi realizado seguindo a metodologia de utilização das técnicas de Geoprocessamento para Análise Ambiental, elaborado por XAVIER-DA-SILVA (2001) como ferramenta de apoio as decisões para os problemas ambientais. E em conjunto com essa técnica, foi realizado a interpretação de questionário social, elaborado por CASTRO ( 2003), para melhor entendimento do contexto social, econômico e cultural da população local, bem como o estudo feito pelo mesmo da percepção ambiental em decorrência dos problemas de ordem ambiental destacados.

Essa metodologia conta com duas principais fases, que abrange tanto os fatores geo-ambientais como os fatores sócio-econômicos.

Dentro da primeira fase, Geoprocessamento, seguindo os procedimentos diagnósticos, foram selecionados os cartogramas digitais, em formato raster, para constituir os inventários  ambientais, estando estes padronizados em escala de 1:2000 e resolução de 1 m. A escala descrita é justificada por permitir maior detalhamento do bairro em questão, compatível ao estudo aplicado para reconhecimento e delimitação das áreas mais fragilizadas e susceptíveis aos fatores geo-ambientais do risco escorregamento. As entidades ambientais escolhidas foram declividade, solo, vegetação, litologia e dados básicos datado de 2000 (contendo dados de expansão populacional).

Em seguida, foram utilizados os cartogramas escolhidos para o cruzamento e/ou avaliação recorrendo ao módulo de Avaliação Ambiental do Sistema Geográfico de Informação, SAGA/UFRJ, elaborado pelo Laboratório de Geoprocessamento Aplicado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e intitulado de Sistema de Análise Geo-Ambiental. Com o sistema de Pesos (0-100) e Notas (0-10), dados respectivamente aos cartogramas digitais e as categorias e/ou legendas, foi dado início ao cruzamento dos planos de informações, possibilitando o caráter avaliativo e qualitativo do estudo.  As avaliações seguiram uma ordem de cruzamentos dos mapas digitais proporcionado pela utilização de Árvores de decisão que "são procedimentos exploratórios e podem gerar o acervo de conhecimentos – informação – que compõe um ambiental, podem constituir este modelo digital da realidade ambiental." (XAVIER-DA-SILVA, 2001).

 

ÁRVORE DE DECISÃO PARA ÁREA PILOTO DO BAIRRO DOM BOSCO

 

(clique para ampliar)

 

 Foram cruzados, em primeiro plano, os cartogramas de Solo e Vegetação, que resultaram na elaboração do um cartograma digital denominado  Fragilidade Bio-pedológica ao Risco a Escorregamento, onde se tem as maiores notas voltadas para as áreas representadas por classes de solo mais susceptíveis ao escorregamento associados à cobertura vegetal que oferecem menor proteção ao fator de risco. E as menores notas voltadas para as áreas onde apresenta uma classe de solo e cobertura vegetal mais resistentes ao escorregamento.

Em seguida, foram cruzados os cartogramas de Declividade e Litologia o que gerou no Cartograma Digital de Fragilidade relevo-litológica, onde seguiu a mesma metodologia de análise utilizada no primeiro. As maiores notas foram dadas para áreas de maior declividade associadas à maior fragilidade litógica, sendo estas possuidoras de rochas fraturadas, rochas intemperizadas e talus, e por conseguinte, as menores notas para as áreas de menor declividade e maior resistência do material litológico à movimento por escorregamento.

Possuindo os cartogramas de Fragilidade Bio-pedológica e Fragilidade Declive-litológica foram realizadas novas avaliações, o que resultou na Fragilidade Bio-Física. Esse cartograma possui um peso considerável devido a concentração das informações geo-fisicas acerca dos cruzamentos das entidades físicas selecionadas conforme o objetivo da representação cartográfica.

Acompanhando a Arvore de Decisão, é realizado a última avaliação tendo como base o meio físico representado pelo cartograma digital Bio-físico e a inclusão dos Dados Básicos que são  informações de caráter Geo-sociais, o que resultou no mapa digital de Risco à Escorregamento. O método também é semelhante aos cruzamentos anteriores, sendo as notas maiores para áreas mais frágeis fisicamente, associadas com o uso e ocupação irregulares exercidos sobre a forma e estrutura do local, e as menores notas para as áreas menos frágeis com o uso e ocupação mesmo que irregular, mas com o risco atenuado ou diminuído

Para finalizar a etapa de geoprocessamento, os cartogramas digitais foram inseridos no programa CorelDraw 10 ( software gráfico e vetorial ) com a finalidade de passar por um acabamento final.

A segunda fase da metodologia parte da interpretação de questionário social aplicado por CASTRO (2003) na qual insere-se a percepção ambiental da comunidade local, bem como, realça a sua realidade e faz o levantamento de dados essenciais aos fatores de risco ambiental, partindo das condições sociais, econômicas e culturais que envolve os aspectos de infra-estrutura urbana, a moradia e a assistência de serviços públicos. 

Partindo do estudo cartográfico e do questionário social, são sugeridas as práticas de Educação Ambiental sob a utilização de ações mitigadoras frente à comunidade no intuito de esclarecer e informar sobre o risco ambiental de escorregamento, e acionar práticas  diárias que amenizem o evento.

O quadro a seguir demonstra a metodologia empregada na Educação Ambiental não-formal extraída em DIAS (2003).


 

COMUNIDADE
PERFIL AMBIENTAL
PRIORIDADES OBJETIVOS
ESTRATÉGIAS
PROGRAMA/PROJETO
TÉCNICAS E MÉTODOS

VISITAS, OFICINAS, PAINÉIS, PALESTRAS, CARTAZES.


O programa do projeto é realizado junto à comunidade,  iniciado no ambiente escolar, com alunos do ensino fundamental, tendo como técnicas e métodos o recurso de visitas, palestras, oficinas, painéis, cartazes, sendo elaborado em conjunto com o professor de Geografia responsável pelas turmas, com duração de 50 minutos e frequência a ser determinada.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Nos cartogramas gerados, seguindo a Arvore de Decisão proposta, foram significativos os resultados para a análise ambiental, possibilitando a identificação das áreas fragilizadas quanto ao risco à escorregamento, bem como a finalização com o cartograma do Risco indicando a áreas mais susceptíveis ao escorregamento e  localizado em áreas urbanizadas, com elevada concentração populacional.

Os  primeiros cartogramas a serem cruzados foram o solo e vegetação, os quais resultaram no cartograma de Fragilidade Bio-pedológica. Esse cartograma indicou que as maiores notas, ou as áreas mais fragilizadas, residem na área urbanizada possuindo solo  classificado como raso e a cobertura vegetal degradada ou  sem nenhum tipo de vegetação. As menores notas, definindo as áreas menos frágeis ao escorregamento inserindo-se sob a predominância de Latossolo Vermelho-amarelo álico , combinado com a cobertura vegetal sob forma de mata, capoeira, e áreas em regeneração onde são fatores que atenuam o movimento de massa.

Os cartogramas de declividade e litologia, são os segundos a serem cruzados resultando no cartograma de Fragilidade Declive-litológica. Este cartograma indicou que as maiores notas estão em áreas de declividade superior a 40% associadas a litologia do Complexo Talus, caracterizado por rochas fraturadas e intemperizadas, fragilizadas quanto ao uso e ocupação, tornando-se fator agravante para a intensificação do risco ao escorregamento. Essa maior fragilidade está inserida nas áreas de maior concentração da comunidade local e se entendendo nas mediações. E as áreas menos fragilizadas se encontram com declividades inferiores a 40% associadas a litologia local classificada de gnaisse com granada.

Os dois cartogramas gerados na avaliação ambiental (Fragilidade Bio-pedológica e Fragilidade Declive-litológica) foram devidamente cruzados para a obtenção dos dados de caráter geo-físico (cartograma de Fragilidade Bio-física), demonstrando sob forma digital a realidade física do bairro estudado, e evidenciando o risco a que a população está submetida.

E por fim, para a elaboração do mapa final, ou mapa de Risco à Escorregamento, foram avaliados/cruzados os mapas de origem Bio-fisica e os de origem social, ou seja, Fragilidade Bio-fisica com Dados Básicos da população do ano de 2000. O resultado desse cruzamento é apresentado conforme a intensidade do risco demarcado, sendo estes graduados em baixíssimo, baixo, médio, alto e altíssimo risco. Para maior entendimento da dimensão do risco apresentado, foi utilizado no módulo de Avaliação Ambiental, e feita a Assinatura Ambiental que tem como finalidade a delimitação em hectares das áreas destacadas quantificando as devidas intensidades de risco. O gráfico 1 a seguir é resultado de Assinatura Ambiental.


 

Como percebe-se pelo gráfico apresentado, as maiores áreas estão delimitadas na intensidade de Médio Risco à Escorregamento, porém a intensidade classificada como Alto e Altíssimo Risco está localizada em área urbanizada, onde há maior concentração populacional. Portanto,o Dom Bosco possui fatores que combinados agravam a ocorrência do deslizamento assim como, intensifica o risco.

 

A foto 1 e o mapa 1 enfatizam as áreas de  risco ao escorregamento no bairro Dom Bosco.


 Mapa 1

Autor: ROCHA, G.C 2003

 

Após o estudo dirigido ao meio ambiente sob o aspecto físico, foi avaliado os parâmetros sócio-culturais e econômicos da população local com o intuito de gerar o perfil ou a "fotografia" do seu contexto frente as fragilidades físicas do meio e a convivência com o risco ambiental de escorregamento.

Para a comprovação dos dados foi utilizado questionário social elaborado por CASTRO (2003) o qual teve, dentre os seus objetivos, obter o grau de percepção ambiental da comunidade diante dos impactos ambientais, e principalmente o escorregamento de encostas. Para MACEDO (2000) a percepção ambiental é definida como o processo de organizar sensações, necessárias para o desenvolvimento da consciência sobre o ambiental que nos cerca e de nós mesmos. A motivação pessoal, as emoções, os valores, os interesses e outros estados mentais influenciam o que as pessoas percebem, diferenciando o sentido de percepção entre as pessoas (MACEDO,2000). A percepção pode também ser entendida como um processo mental de interação do indivíduo com o meio ambiente, desenvolvido através de mecanismos perceptivos (dirigidos pelos estímulos externos, captados através dos cinco sentidos, onde a visão é o que mais se destaca) e, principalmente, cognitivos (RIO,1999).

A avaliação social foi realizada onde foram obtidos resultados significantes para a conclusão do trabalho. Em geral, o bairro possui uma população carente, de baixa renda, com baixo nível de escolaridade sendo porém, a grande maioria assistida com serviços públicos de infra-estrutura urbana como, água canalizada, rede de esgoto com captação pluvial, coleta de lixo periódica, luz elétrica . Os índices apontam que 37,5% da população recebe entre 1 e 3 salários mínimos sendo que 47,8% das residências tem até 5 moradores, e estas 85,2% são edificações unifamiliares horizontais e habitante do bairro há mais de 5 anos.Sobre a escolaridade é denotado que 55,7% dos entrevistados possui 1º grau completo, sendo que 37,1 relataram estarem desempregados.

As características ou o perfil das edificações na comunidade são geralmente de alvenaria, com fundação de concreto e a cobertura sob forma de laje também de concreto, 26,1% destacam que possui em seu terreno corte superior a 90 graus em relação a fundação e 35,2% afirmam existir vegetação na encosta e ou barranco.

E dentro do comportamento frente aos problemas vivenciados atrelados a percepção do ambiente, a comunidade destaca os meios de transportes e segurança como os maiores problemas assistenciais do bairro, e dentro os problemas de ordem ambiental local destacam o escorregamento, observando que 25% da comunidade relata já ter enfrentado tal problema. Porém, 56,8% relatam que não estão expostos a riscos ambientais com exceção do risco de doença através do lixo em sua residência. Em relação a cidade de Juiz de Fora, o que mais lhe incomodam é a sujeira e o esgoto lançado no rio Paraibuna.

A partir desse dados de características principais da população, de suas residências e do seu comportamento frente ao risco e percepção do ambiente conclui-se, dentro dos índices apresentados, que a população local necessita de maiores informações e esclarecimentos sobre a sua realidade ambiental bem como, as ações viáveis para o melhoramento das condições de moradia atreladas ao meio ambiente em que está inserida. Essa população possui um grau de percepção do ambiente interno ou local e também de sua cidade, mesmo apresentando nível de escolaridade baixo, o que desperta o interesse e a disposição de elaborar iniciativas educacionais para maior orientação e conhecimento dessa comunidade. O maior medo apresentado por esses moradores é a perda de seu "espaço" ou território uma vez que, com a ocorrência do deslizamento suas casas são removidas ou interditadas.

 Em janeiro do ano corrente, foram desabrigadas nove famílias  tendo suas residências removidas do local por motivo de escorregamento.O poder público, representado pela Prefeitura Municipal de Juiz de Fora, tomou medidas paulatinas em relação ao abrigo e a construção de casas populares para esses desabrigados. E como destaca-se no texto acima, essa comunidade é carente e reside no bairro a mais de 5 anos, portanto, a grande maioria das vezes, não possuem outro lugar para construção de suas moradas.

Neste contexto, foi destacado a importância da Educação Ambiental no objetivo de estimular e aguçar a percepção do meio por essa comunidade atenuando os problemas ambientais eminentes.  Dentre os conceitos e da evolução acerca da educação Ambiental destaca-se que "seja um processo por meio do qual as pessoas apreendam como funciona o ambiente, como dependemos dele, como o afetamos e como promovemos a sua sustentabilidade"(DIAS, 2003) .Para esse mesmo autor, "a prática de Educação Ambiental pretende desenvolver o conhecimento, compreensão, habilidade e motivação da comunidade visando adquirir, valores e atitudes necessários para lidar com as questões ou problemas ambientais e por fim, encontrar soluções sustentáveis".Seguindo a metodologia proposta pelo presente trabalho, na qual é representada por forma de esquema aplicativo e denominada de Prática não-formal da educação ambiental tem-se como ferramenta inicia o perfil real da comunidade.Sendo este perfil definido por DIAS (2003), " o perfil ambiental, sob uma abordagem da ecologia humana, fornece subsídios reais. Além dos aspectos sociais, econômicos, culturais e outros, deve traçar o mapa político local (quem é quem, quais as lideranças comunitárias expressivas) e sua teia de interações, influências e hierarquias. O perfil ambiental termina revelando as prioridades da comunidade, e estas a determinação dos objetivos".

As necessidades do bairro Dom Bosco é reconhecida pelos aspectos físicos e sociais traçados e avaliados nesse trabalho, e também são traçadas as metas de aplicabilidade desse método na comunidade. Em principio será realizado, uma visita nas entidades assistenciais do bairro, como a Sociedade Pro-melhoramento, a Unidade Básica de Saúde e a Escola Estadual Dom Orione para esclarecimento do projeto e solicitação destes para maior enriquecimento do trabalho, sendo estes agentes de grande peso e recorrência da população local. Em seguida, será processado as informações acerca do risco ambiental á escorregamento começando com a Escola Estadual Dom Orione , com alunos da disciplina de Geografia no ensino fundamental. O recurso utilizado será, como anteriormente proposto, de oficinas participativas, palestras, e elaboração de cartazes e painéis. A participação ativa dos alunos e o uso da dinâmica de grupo torna o assunto problematizado em diversão e conhecimento onde o aluno terá oportunidade de demonstrar e expor a sua realidade e de ser membro ativo no processo comunitário de envolvimento do problema.

As práticas de Educação Ambiental estão atreladas a ações cotidianas de mitigação do risco ao escorregamento e o planejamento para situações emergenciais. Quanto as ações mitigadores algumas práticas serão incluídas  para a orientação acerca dos fatores condicionantes  tanto naturais quanto induzidos pela ação antrópica,  tais como: o desmatamento como fator de aceleração do processo, os cortes em terrenos acentuados e incorretos para implantação de moradias, a disposição do lixo, as queimadas, dentre outros . E associado a conscientização, o plano emergencial frente ao evento ocorrido ou seja, como se portar diante do escorregamento,  o que fazer, quem chamar, onde recorrer, a onde alojar.

Esse é um trabalho que requer um processo lento e demorado, mas que diante dos fatos e tendo o contato com essa comunidade que necessita da informação e de recursos assistenciais, o resultado será imediato e de grande serventia na atenuação e no equilíbrio do meio com o homem.

 

 

NOTAS

 

[1] Acadêmica do curso de Geografia, UFJF. .

[2] Prof. Adjunto do Departamento de Geociências da UFJF

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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