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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

CARTA DE FRAGILIDADE AMBIENTAL: ESTUDO DE CASO DA BACIA DO RIO CURRALINHO, REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA PR.

 

 

BOIKO, Josemara Daron,

Universidade Federal do Paraná, bolsista CAPES.

E-mail: jb.geo@bol.com.br

SANTOS, Leonardo José Cordeiro.

Universidade Federal do Paraná. E-mail: santos@ufpr.br

 

Palavras chave: meio ambiente, fragilidade ambiental, geomorfologia

 

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

 

1 - Introdução

 

O crescimento do contingente populacional dos centros urbanos, verificado nos últimos anos vem acarretando um aumento progressivo no valor das terras, corroborando para a segregação principalmente da população de menor poder aquisitivo em direção a periferia das cidades, normalmente áreas de menor valor agregado.

A ocupação das áreas periféricas vem sendo pauta de grandes discussões sociais, pois estas regiões normalmente são consideradas áreas de fragilidade ambiental alta ou muito alta, por se tratar de mananciais, isto é reservas hídricas para abastecimento público, onde a urbanização pode acarretar graves problemas ambientais como a produção de lixo, impermeabilização da superfície através da edificação e arruamentos, vias de esgotos clandestinos, processos erosivos desencadeados pelo desmatamento das matas ciliares, modificando tanto as formas de relevo, quanto as relações existentes entre os sedimentos carregados e sua deposição no leito dos rios, além da alteração na qualidade da água, e devido a ocupação de áreas íngremes, provocando movimento de massa pela falta de cobertura vegetal, entre outros problemas.

A área escolhida para o desenvolvimento deste estudo foi a Bacia Hidrográfica do Rio Curralinho que possui uma área de 40,28km², pertencente aos municípios de Quatro Barras e Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Sua escolha se baseia no fato de que esta bacia pertence a um conjunto de rios que abastecem a Represa do Iraí, uma das mantenedoras do abastecimento de água da capital do Estado – Curitiba e de alguns municípios da RMC. Esta segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), foi criada oficialmente através de Lei no ano de 1974, com principal objetivo de realizar uma integração socioeconômica dos municípios adjacentes à metrópole – Curitiba (COMEC, 2000).

A bacia pertence a área denominada de Mananciais da Serra, e na sua totalidade encontra-se no Primeiro Planalto Paranaense, localizado entre a porção ocidental da Serra do Mar a leste, estendendo-se até a Escarpa Devoniana a oeste. Este planalto é resultado de inúmeros processos erosivos, os quais causaram rebaixamento de seus terrenos, pertencentes a era Pré-cambriana, sua base é de origem cristalina e na sua superfície encontram-se argilas e areias depositadas ao longo do Rio Iguaçu, dos seus afluentes e ao redor da capital do Estado - Curitiba (MAACK, 1968).

A RMC de Curitiba, da qual a bacia do rio Curralinho faz parte, possui diferentes graus de fragilidade ambiental, onde qualquer alteração no sistema formado pela bacia hidrográfica pode acarretar graves problemas ambientais, sendo por tanto o estudo dos impactos ambientais sobre esta região de suma importância, pois a mesma vem sofrendo profundas alterações em partes do seu curso graças à diversificada ação antrópica na região, a começar pela formação da própria Represa do Iraí que alterou substancialmente a paisagem local, sua relação natural com seus afluentes e com a população local.

Como objetivo principal do presente estudo, pretende-se elaborar a carta fragilidade ambiental da bacia hidrográfica do rio Curralinho. Como objetivos secundários pretende-se: (a) elaborar mapas temáticos dos aspectos físico-naturais: mapa geomorfológico (declividade e formas de relevo) e mapa pedológico; (b) gerar um produto síntese proveniente do cruzamento dos mapas temáticos Mapa de Fragilidade Potencial, e (c) estabelecer recomendações de uso e ocupação de acordo com os condicionantes do meio físico. A utilidade deste estudo é no planejamento sócio econômico, tendo como ponto de partida as necessidades sociais e econômicas, aliadas as reais condições ambientais da região.

 

2 - Metodologia

 

Em 1994, Ross elabora uma análise empírica da fragilidade dos ambientes naturais e antropizados, utilizando a bacia hidrográfica como delimitação de área onde as intervenções humanas devem ser planejadas com o objetivo de um correto ordenamento territorial. Suas premissas foram: a potencialidades dos recursos naturais e a fragilidade dos ambientes. Como concepção teórica propôs o estudo da dinâmica dos ambientes naturais com ou sem intervenção humana e a elaboração do zoneamento ambiental como base cartográfica útil à análise da fragilidade.

Ao desenvolver seu estudo sobre a fragilidade ambiental, Ross (1996) utilizando-se dos conceitos de unidades ecodinâmicas criados por Tricart (1977) adapta-os a novos critérios de avaliação do meio físico e biótico, aplicando-os no planejamento territorial divididos em: unidades estáveis - aquelas em equilíbrio dinâmico porém poupadas das ações humanas e unidades instáveis - aquelas em equilíbrio dinâmico instável potencialmente com ações antrópicas. Tanto as Unidades Ecodinâmicas Estáveis quanto as Unidades Ecodinâmicas Instáveis, podem ter variações de instabilidade em diversos graus desde Muito Baixa a Muito Alta, utilizando números de 1 a 5 para demonstrar os diferentes graus de fragilidade dos ambientes.

A escala de detalhamento do mapeamento geomorfológico proposta por ROSS (1994) para escalas com maior detalhamento, entre 1:25.000, 1:10.000, 1:5.000 e 1:2.000 devem ter como base às formas das vertentes e as classes de fragilidade definidas conforme a declividade do terreno, onde: 1- Muito baixa, as classes com até 6% de declividade,       2- Baixa com declividade entre 6 e 12%, 3-Média, as classes com 12 a 20%, 4- Alta, as declividades entre 20 e 30% e a classe 5- Muito alta com declividades acima de 30%.

Rodrigues (1998), para avaliar o relevo utilizou a cartografia geomorfológica, através de modelos de interpretação dos compartimentos do relevo para os processos de esculturação e estruturação, além da ação antrópica no sistema geomorfológico. Como objetivo principal buscou analisar aspectos da relação relevo-solo na fragilidade de relevos muito dissecados, e secundários, elaborar uma cartografia geomorfológica das formas e processos atuais; análise da fragilidade inserindo solo através das características físicas; experimentação em campo através do penetrômetro manual e à percussão; avaliar o comportamento solo em função da dinâmica superficial atual; e a elaboração da Carta de Fragilidade do Relevo. Realizou a interpretação geomorfológica utilizando a vertente como condicionante e tendo por base os processos de esculturação do relevo de erosão superficial, de desestabilização da vertente por meio do movimento de massa, além da questão têmporo-espacial e da cartografia geomorfológica. Tratou a variável solos a partir das características de estrutura, textura, grau de coesão, plasticidade, e espessura/profundidade dos horizontes sub e superficiais, e da sua relação com a litologia e o clima.

As metodologias já desenvolvidas em sua grande maioria tratam da questão geomorfológica tendo como categoria única de análise do relevo, a declividade como forma de definição da sua taxonomia, e como o intuito principal deste estudo é o aprimoramento da análise da fragilidade ambiental, buscou-se outras metodologias que viessem de encontro a esta necessidade. Sendo a metodologia de Rodrigues (1998) a que mais se aproxima do propósito deste estudo, é utilizada como parâmetro para o detalhamento, não em sua totalidade, já que esta trata-se de uma tese de doutorado, mas em parte, principalmente no quesito de mapeamento geomorfológico, para o qual será aprofundado a questão das formas de relevo de 5º e 6º Táxon, definidos por Ross (1992), evidenciando a morfometria e a morfologia, juntamente com os parâmetros pedológicos, para a elaboração da classificação da fragilidade ambiental e do mapeamento temático.

 

3 - Resultados

 

Os resultados preliminares da análise demonstram que o terço superior da bacia possui as declividades mais elevadas, com vertentes mais curtas, onde se encontram as áreas de maior fragilidade, e que devem ser consideradas áreas de preservação ambiental, com uso restrito e/ou proibitivo, dada às condições naturais da região com áreas montanhosas propícias a processo erosivos e deslizamento de massa naturalmente. Segundo levantamento feito pela SUDERHSA (2000), esta porção está em sua maioria coberta pela vegetação natural.

 No terço médio ao norte as declividades tornam-se mais suaves, com vertentes alongadas, encontram-se algumas áreas ocupadas, áreas estas com fragilidade moderada, pois as declividades mais suaves são propicias ao uso e ocupação, desde que previamente se elabore um planejamento, delimitando as formas e uso conforme a capacidade natural da região. Nesta área a ocupação se dá através de culturas temporárias, campos, área urbanizada e com alguns pontos de vegetação plantada.

Na área do terço inferior ao sul e oeste, encontram-se as vertentes mais longas, devido à baixa declividade da região, são áreas de baixa fragilidade, e que sofrem com a ação antrópica se comparada com o restante da bacia é elevada, o que pode acarretar em problemas, pois naturalmente a baixa vertente é a área de planície aluvial, normalmente com solos encharcados e inundáveis, impossibilitando assim sua ocupação e uso, mas na prática não é isso que se percebe, pois esta em parte está urbanizada, sendo então necessário uma reorganização para minimizar os problemas já existente e coibir problemas futuros.

As conclusões acima colocadas, são como o próprio título sugere, preliminares, pois o estudo está em andamento podendo sofrer mudanças conforme os dados forem sendo compilados e analisados.

 

4 - Considerações Finais

 

A metodologia escolhida aliada ao uso de SIG's (Sistema de Informações Geográficas) até o momento, tem-se mostrada apta ao desenvolvimento do estudo, pois proporcionou o cruzamento dos temas geomorfologia e solos, visando a criação do mapa temático de Fragilidade Ambiental da bacia hidrográfica do rio Curralinho, proporcionando a análise ambiental dos aspectos físicos e dando margem a elaboração de novas formas de uso e ocupação bem como a resolução ou atenuação de antigos problemas da região como áreas urbanizadas de forma irregular, corroborando para um melhor aproveitamento das características locais tanto naturais quanto sociais, visando a melhoria da qualidade de vida da população envolvida.

 

5 - Bibliografia

 

COMEC - Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba. Zoneamento da APA do Iraí, CD. Curitiba, 2000.

 

MAACK, R., Geografia física do Estado do Paraná. Curitiba: Papelaria Rosner Ltda., 1968, 350 p.

 

RODRIGUES, C. S., Análise empírico-experimental da fragilidade relevo-solo no cristalino do planalto paulistano: sub-bacia do reservatório Billings. São Paulo: 1998. Tese (Doutorado em Geografia Física) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 264p.

 

ROSS, J. L. S., Geomorfologia: ambiente e planejamento. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1992, 85 p.

 

____. Análise empírica da fragilidade dos ambientes naturais e antropizados. In: Revista do Departamento de Geografia; n.8, p. 63 - 74. São Paulo, USP, 1994.

 

____. In: GUERRA, A. J. T.; CUNHA, S. B. da, Geomorfologia aplicada aos EIAs-RIMAs. In: Geomorfologia e meio ambiente. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996, 394p.

 

SUDERHSA – Superintendência de Desenvolvimento dos Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental. Programa de saneamento ambiental da Região Metropolitana de Curitiba – PROSAN, SIG - para gestão de recursos hídricos do Alto Iguaçu. Curitiba, 2000.

 

Tricart, J., Ecodinâmica, Rio de Janeiro: SUPREN, 1977, 97 p.