Voltar à Página da AGB-Nacional

 

 

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

MORFOLOGIA E VARIAÇÕES SAZONAIS NA PLANÍCIE QUATERNÁRIA COSTEIRA DO RIO SÃO FRANCISCO (SE/AL)

 

 

Camila Ferreira Santos - PROBIC-UEFS (mila-geo@bol.com.br)

Liana Maria Barbosa - Ciências Exatas/UEFS (liana@uefs.br)

 

 

Palavras chaves: dunas costeiras, clima, variações sazonais

 

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

INTRODUÇÃO

Os campos de dunas em Baja Califórnia, México são considerados um caso único na literatura devido a ocorrência de dunas barcanas. Isto se deve à cultura, que os sistemas dunares costeiros estão associados com a presença de vegetação e de dunas parabólicas (Packham & Willis, 1997), a exemplo dos campos de dunas parabólicas de Santa Catarina, no Brasil (Bigarella, 2000) ou Provincelands, nos EUA (Winckler, 1992). Ambos tipos de dunas (barcanas e parabólicas) ocorrem na planície costeira do Rio São Francisco. Portanto, essa região se revela importante sob ponto de vista metodológico e relevante para a investigação sobre os controles ambientais responsáveis pela sedimentação eólica.

As variações sazonais e interanuais favorecem os períodos episódicos de sedimentação eólica (Barbosa, 1997 e Barbosa & Dominguez, no prelo), na planície quaternária costeira do Rio São Francisco, os meses ou os anos mais secos favorecem os períodos de reativação eólica, provocando o desenvolvimento, alterações na morfologia e migração de dunas. Ao contrário, os meses ou os anos mais chuvosos favorecem ao desenvolvimento de vegetação e lagoas costeiras, ancorando, mesmo que temporariamente o sistema eólico. Ali, entre Pontal do Peba e Pontal da Barra (foz do rio São Francisco), as dunas compreendem duas gerações: (a) uma inativa, já fixada pela vegetação e mais interna e (b) outra, ativa ou móvel, bordejando a linha de costa e avançando sobre a geração inativa. A geração ativa apresenta três domínios morfológicos, definidos como: a) lençol de areia (LA), superfície arenosa destituída de relevo significativo; b) dunas e interdunas (DI), onde as dunas são do tipo barcana de até 5 m de altura, a zona interdunar é coberta por vegetação rasteira e; c) duna composta com cristas transversais superimpostas (DC), dunas de maior altura (18 a 28 m) no domínio mais interno. Esses campos de dunas estão localizados no extremo sul de Alagoas, município de Piaçabuçu, foram formalizados como Área de Proteção Ambiental de Piaçabuçu, em responsabilidade do IBAMA desde 1983. Associados aos campos de dunas ocorrem ecossistemas de praias, lagoas costeiras, fluviais, pântanos de água doce, mangues e restingas.

O objetivo geral desta pesquisa foi definir a influência das variações sazonais na morfologia das dunas ativas, visando a compreensão dos processos eólicos em curto prazo (nos últimos 41 anos) no trecho entre Pontal do Peba e Pontal da Barra (margem direita da foz do rio São Francisco).

 

MÉTODOS

 

O estudo se baseou na interpretação de fotografias aéreas pancromáticas verticais de 1957 (Terrafoto, 1:20.000), de 1960 (Serviços aéreos Cruzeiro do Sul, 1:25.000), de 1987 (ITERAL, 1:16.500) e imagem de satélite de 2001 (Landsat7 ETM/214-067). Dentre as composições testadas, a adotada para este estudo foi a RGB543 por evidenciar melhor o campo de dunas ativas. A partir deles foram construídos os mapas, onde foram traçados perfis transversais acompanhando as marcas de migração das dunas, usando como referenciais as trilhas (trailing ridges). Das orientações de avanço das dunas, obteve-se a freqüência dos rumos de avanço em feixes: NE-SO (Nordeste – Sudoeste), L-O (Leste – Oeste), SE-NO (Sudeste – Noroeste).

A determinação da morfometria das dunas ativas foi importante para: (a) verificação das variações ambientais, principalmente quando se usa série histórica de fotos e imagens; (b) determinação do sentido predominante de avanço das dunas e; (c) quantificação de uma taxa média de migração eólica.

 

RESULTADOS

 

Nos perfis foram medidos: (a) no domínio LA - 405 m (em 1957), 280 m (em 1960), 576 m (em 1987) e 711 m (em 2001); (b) no domínio DI - 844 m (em 1957), 625 m (em 1960), 899 m (em 1987) e 984 m (em 2001); (c) no domínio DC - 557 m (em 1957), 585 m (em 1960), 424 m (em 1987) e 1.064 m (em 2001).

Em geral, esses domínios morfológicos mostram aumento na largura, indicando atividade efetiva do vento removendo areia da praia adjacente e mobiliando as dunas para o interior da planície costeira. Na porção mais interna a maior largura foi observada na imagem de 2001. Nos demais anos, a variação média esteve entre 424 m e 585 m.

No que se refere às orientações de avanço das dunas, 45 medidas efetuadas no domínio intermediário em fotos aéreas de 1987 apontaram 24,4 % para NE-SO, 73,3 % para E-O e 2,2 % para SE-NO. Estes resultados são semelhantes àqueles apresentados por Santos & Barbosa (2002): (a) 1957 - 29,3 % (NE-SO), 70,1 % (E-O) e 0,5 % (SE-NO); (b) 1960 – 25,2 % (NE-SO), 74,0 % (E-O) e 0,8 % (SE-NO). A extensão da linha de costa entre Pontal do Peba foi de 18 km (1986, Carta do IBGE), de 20 km (1987, fotos aéreas pancromáticas ITERAL), de 17 km (1960, fotos aéreas).

Nesta pesquisa, foram adotados os dados meteorológicos de Pacatuba, A pluviosidade (1957 e 1960) apresentou em: (a) 1957 - os meses de setembro a fevereiro como mais secos e março a agosto como mais chuvosos, pelo regime total anual de chuvas foi considerado seco e sob influência de El Niño; (b) 1960 - setembro, dezembro a fevereiro foram mais secos e março a agosto e outubro a novembro mais chuvosos, ano considerado normal em ambas estações.

Observações feitas a partir dos dados coletados nos anos de 1957 e 1960, mostram uma relação entre o índice de pluviosidade com o fenômeno El Niño e ambos com a orientação das cristas das dunas. Lembrando que quando o ano é considerado seco, a sedimentação eólica é considerada intensa, pois os sedimentos em épocas de estiagem ficam soltos e de fácil remoção, já em épocas de chuva a umidade dificulta o transporte desses sedimentos (Santos, 2002). Enquanto que no ano de 1960, onde não houve a ocorrência do fenômeno a sedimentação eólica foi bem significativa. Nota-se com isso que o fenômeno El Niño impediu que os ventos atuassem de forma mais expressiva e houvesse uma sedimentação eólica mais acentuada no ano de sua ocorrência.

A morfologia das dunas, obtida com a interpretação de fotos aéreas de 1987, apresenta redução no número de dunas isoladas e aumento de dunas com cristas em crescente amalgamadas ou conjugadas, constituindo lençóis dentro do domínio intermediário (DI). Na porção mais interna do domínio intermediário são observadas dunas com características similares aos tipos zibar, ou seja, com braços alongados deixados a barlavento. Defronte ao domínio, a duna composta tem avançado significativamente.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Os resultados revelam em geral, de acordo com a comparação entre os anos 1957, 1960 e 1987, um aumento na largura da cobertura arenosa, indicando o trabalho efetivo e eficaz do vento removendo areia da praia adjacente e mobilidade das dunas. Na série histórica de fotografias e imagem, o sentido de migração das dunas é predominantemente E-O, sem grandes variações no percentual. A relação entre os parâmetros do clima e as variações morfológicas precisa ser esclarecida.

Os anos de 1957 e 1960 não apresentaram uma relação entre o índice de pluviosidade e o fenômeno El Niño. Embora, o ano de 1957 tenha sido caracterizado como seco, a morfologia das dunas revela um transporte eólico melhor favorecido em 1960. É possível portanto, que o fenômeno El Niño seja o controle adicional, gerando assim o contraste entre os períodos analisados.

Os resultados revelam um aumento na largura da cobertura arenosa no decorrer da série histórica analisada, demonstrando nesses anos mais recentes. Houve maior atuação eólica nos domínios mais internos, favorecendo a migração das dunas sobre as lagoas costeiras que são características entre as dunas inativas. Quando o domínio lençol de areia tende a aumentar em largura isto significa que a ação eólica foi atuante. O decréscimo reflete a ausência da ação eólica e ou forte incidência de chuvas retendo os sedimentos .

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Barbosa, L. M. 1997. Campos de dunas costeiras associados à desembocadura do Rio Sâo Fracisco (SE/AL): origem e controles ambientais. Tese de Doutorado. Curso de Pós Graduação em Geologia, Salvador: UFBA.

 

Barbosa, L.M.; Dominguez JML. no prelo. Coastal dunefields at the São Francisco river strandplain, Northeastern Brazil: morphology and environmental controls. Earth Surface Processes and Landforms.

 

Bigarella JJ. 2000. Parabolic dune behavior under effective stom wind conditions. Revista Brasileira da Geomorfologia, 1(1): 1-26.

 

Santos, C. F. & Barbosa, L.M. (2002) Quantificação e significado do rumo de avanço das dunas ativas da planície quaternária costeira do São Francisco. Anais do 4o Simpósio de Geomorfologia do Brasil. São Luís: SGB.

 

Projeto financiado pelo CNPq 470102/2001-2

 

Packham, J.R.; Willis, A.J. 1997. Ecology of dunes, salt marshes and shingles. Chapman & Hall, chapter 6, p. 153 – 165.

 

Winckler, M. 1992. Development of parabolic dunes and interdunal wetlands in the Provincelands, Cape Cod National Seashore. Quaternary coasts of the United States: Marine Lacustrine Systems, SEPM Special publications, 48: 57 – 64.