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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 A VUNERABILIDADE DE USO AO REDOR DAS PEDREIRAS MECANIZADAS EM FEIRA DE SANTANA, BA: UM MODELO.


 

 Adriana Mascarenhas Valente – PROBIC/UEFS (adricageo@bol.com.br)

Liana Maria Barbosa – Ciências Exatas/UEFS (liana@uefs.br)


 

 Palavras chaves: urbanização, mineração e riscos.

Eixo: Aplicações da Geografia Física à Pesquisa.

Sub-eixo: Aplicações temáticas em estudos de casos.


 

INTRODUÇÃO
 

Dentre os municípios do Estado da Bahia, Feira de Santana é um dos maiores, com aproximadamente 500 mil habitantes e densidade demográfica de 360,8 hab/km². Sua história de desenvolvimento relaciona-se com a agricultura e a pecuária (secs. XVI ao XIX) e a instalação do Centro Industrial Subaé (1970). Neste último contexto surgem as atividades de exploração mineral para a produção de brita, pó de brita, meio fio e pedra para calçamento. Dentre as pedreiras, as maiores e mecanizadas são a Itapororoca (I) implantada em 1972 e, a Rio Branco (RB) em atividade desde 1979. Estas pedreiras localizam-se a 12 km (I) e a 5 km (RB) do centro comercial feirense (Fig 1) são responsáveis pelas demandas locais e de municípios próximos (Santo et al., 2001; Valente et al., 2002).

A investigação ao redor dessas pedreiras, efetuadas entre 2000 e 2002, os resultados preliminares revelaram que: (a) a população residente no entorno das pedreiras é de baixa renda; (b) os efeitos da sismicidade, decorrentes das explosões nas pedreiras afetam as residências e (c) os efeitos da interferência sísmica são bem definidos até 3,2 km, a partir desta distância são reduzidos, passando para uma zona de interferência dos efeitos das duas pedreiras, onde as rachaduras nas residências aumentam (Fig. 2; Valente & Barbosa, submetido). Portanto, avaliando os materiais e os tipos de rachaduras, o objetivo deste trabalho é apresentar o diagnóstico dos efeitos das explosões ao redor dessas pedreiras.

O dicionário Aurélio Buarque de Holanda conceitua “rachaduras, fissuras, fendas e trincas como palavras sinônimas que significa abertura numa superfície; qualquer abertura estreita; partir; e quebrar.” Segundo o Novo Dicionário Geológico e Geomorfológico (Guerra & Guerra, 2001), as fraturas, fissuras e fendas são aberturas microscópicas ou macroscópicas que aparecem no corpo de uma rocha, principalmente por causa de esforços tectônicos, tendo direções variadas. Sob ponto de vista da construção civil, as fraturas, fendas ou “trincas representam um dos principais problemas patológicos que afetam os edifícios, sejam eles nas construções residenciais, comerciais ou institucionais” (Thomaz, 1989).

Segundo Chand (1979) e Thomaz (1989), o diagnóstico da causa da trinca (fratura, fenda, rachadura) é difícil. Pois uma causa pode provocar diversas configurações, que podem ser representadas de diversas maneiras. Não raras vezes, observam–se trincas originadas por uma somatória de causas. Desse modo, o estudo dessas feições é de grande importância devido a três aspectos fundamentais: o aviso de um eventual risco para a estrutura, o comprometimento do desempenho da obra em serviço (estanqueidade à água, durabilidade, isolação acústica etc) e o constrangimento psicológico que a fissura exerce sobre os residentes/usuários. A evolução da tecnologia dos materiais de construção, das técnicas dos projetos e execução dos edifícios evoluíram no sentido de tornar a construção cada vez mais leve, com componentes estruturais mais esbeltos e mais resistentes aos ventos.

Ainda segundo Thomaz (1989) as conjunturas sócio-econômicas de países em desenvolvimento como o Brasil, fizeram com que as obras fossem conduzidas com velocidades cada vez maiores, sem o devido rigor no controle dos materiais e dos serviços; tais conjunturas criaram ainda condições para que os trabalhadores mais qualificados fossem paulatinamente se incorporando a setores industriais mais nobres, com melhor remuneração da mão de obra, em detrimento da indústria da construção civil. Desta maneira, apreende-se que resta à população de baixa renda: uso de materiais indevidos e serviços de má qualidade.

Para Corrêa (1989) e Santo (1995) “As populações periféricas fazem parte de um grupo excluído pela classe dominante do centro urbano, por não poder arcar com os custos dos terrenos, ... a exclusão urbana não ocorre isolada, ela está associada a subnutrição, doenças, baixo nível de escolaridade, desemprego e sub-emprego.” Isto é corroborado pelos índices sócio-econômicos obtidos por Valente (2001, 2002). Desse modo, a realidade local suscitou o desenvolvimento desta pesquisa.

MÉTODOS

A pesquisa constou da integração de entrevistas, trabalhos de campo, determinação do perfil da população e avaliação das residências (rachaduras e materiais utilizados), realizadas entre fev/2002 e janeiro de 2003. Foram realizadas entrevistas com a comunidade em torno das pedreiras Itapororoca e Rio Branco, totalizando 115 residências. As rachaduras foram avaliadas, seguindo a distribuição das casas e a descrição previamente apresentada por Valente & Barbosa (submetido) (Fig. 2). Foram efetuadas documentação fotográfica e georeferenciamento das residências, as rachaduras foram descritas e comparadas com as informações de Thomaz (1989) e Chand ((1979).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Descrição Física

Feira de Santana é individualizada em dois grandes domínios litológicos distintos: embasamento cristalino pré-cambriano, localizado no lado leste e oeste do município e coberta sedimentar dentrítica tércio–quaternária na faixa central (Anjos & Bastos, 1968; Barbosa, 2000; Fig. 3). A morfologia da região é relativamente plana, com pequenas elevações e tendo ao centro um planalto limitado pela curva de nível de 200 m com variações de relevo, que não ultrapassam a 50 m no interior do planalto. Segundo Almeida (1992), Feira de Santana apresenta três superfícies geomorfológicas denominadas: cimeira (tabuleiro interiorano), intermediária e inferior. A área de estudo situa-se na superfície cimeira (Itapororoca) e intermediária (Rio Branco). Quanto ao domínio litológico, essas duas pedreiras estão localizadas no domínio de natureza granulítica e gnáissica, constituído pelo embasamento cristalino pré-cambriano, rochas de alto grau metamórfico submetidas a intenso fraturamento e falhamento. Este tipo de rocha é adequado para britagem devido aos seguintes aspectos: resistência, baixa porosidade e fragmentação em dimensões regulares.

Perfil da População

Traçando-se um raio de 6 km ao redor das pedreiras, tendo como centro, bancada de desmonte das pedreiras, foram determinados setores a cada 800 m (Fig. 2). Na pedreira Itapororoca é maior a concentração de residências nos setores mais internos. Enquanto na pedreira Rio Branco ocorre uma área de segurança. A população ali residente é de baixa renda, com menos de um salário mínino por mês: (a) 41,5 % ao redor da Itapororoca e (b) 52 % ao redor da Rio Branco. Atraídos pelos baixos custos dos terrenos somam 78,5 % na Itapororoca e 80 % na Rio Branco. A maioria adquiriu a residência após a implantação das pedreiras: 78,5 % (I) e 66 % (RB), a despeito das explosões que têm afetado as estruturas das residências em um raio de 6 km.

Análise dos Efeitos

Os efeitos da sismicidade decorrente das explosões nas pedreiras é comparável aos graus II e III da escala Mercalli-Modificada, que analisa os efeitos através da percepção das pessoas com relação ao som e vibração. Com relação a distância da bancada de desmonte até as residências identificou-se que: (a) afetam as residências com rachaduras até 6 km, (b) a intensidade do som, pela percepção das pessoas alcança até 4 km; (c) os tremores sentidos pela vibração no piso e nas paredes até 4,8 km.

A análise desses efeitos permitiu a elaboração de um modelo de vulnerabilidade de uso, definindo os riscos no sentido radial em: até 1,6 km (altíssimo), 1,6 a 2,4 km (alto), 2,4 a 3,2 km (médio), 3,2 a 4 km (baixo), 4 a 4,8 km (médio) e de 4,8 a 6 km (alto). De acordo a Lei Orgânica n-37/90 “Art. 170 - O município exigirá distanciamento das industrias e atividades potencialmente poluidoras de, no mínimo, duzentos metros em relação às zonas residenciais ou zonas de uso múltiplo”. E a lei complementar n- 1.612/92 do código do meio ambiente, capitulo X, Art. 135 diz que não poderão ser exploradas pedreiras na zona urbana do município, e quando, sua exploração for a fogo ou mediante a utilização de explosivos, os responsáveis terão que satisfazer as seguintes exigências:

adotar providências determinadas pela prefeitura, visando a segurança dos operários e da população em geral;

declarar expressamente a qualidade e a quantidade de explosivos;

não prejudicar a funcionamento normal de escola, hospital, ambulatório, casa de saúde, de repouso ou similares;

assegurar a existência de faixa de segurança para a exploração da atividade”.

Considerando os resultados obtidos e as premissas das leis municipais, refuta-se o limite mínimo de 200 m de ocupação estabelecida pela Lei Orgânica Municipal 37/90, Art. 170 e propõe-se a continuidade da pesquisa, visando intervenção via educação ambiental (Tabela I).

As rachaduras

Quanto às rachaduras foram identificadas em 66,7 % das residências, não sendo observadas, entretanto em 33,3 %. A distribuição de freqüência destas feições reduz à medida que a residência se distancia da área de detonações e amplia na área de interferência das duas pedreiras (Tabela I, Fig. 2). Tais feições são mais comuns: (a) no encontro de duas paredes (ângulo de 90º), apresentando-se verticais, desde o teto da construção até o piso; (b) em torno das portas e janelas - inclinadas e perpendiculares e acima das portas estendem-se até o teto e, abaixo da janela até o chão); (c) nos muros, apresentando-se verticais ou inclinadas, desde a parte mais alta até o chão; (d) em pisos de cimento, elas são inclinadas e/ou curvas; (e) Nas extremidades da estrutura das construções (nas quinas) inclinadas ou verticais; (f) no meio da estrutura da construção observam-se as rachaduras verticais, logo abaixo do telhado até o piso.

Do ponto de vista da construção civil, o diagnóstico sobre as rachaduras é difícil, porque uma determinada causa de fissura pode se propagar sob diferentes configurações; devido a mais de um problema que, segundo Thomas (1989) e Chand (1979), em alguns casos, o diagnóstico correto só poderá ser elaborado a partir de consultas a especialistas, minuciosos ensaios de laboratórios, revisão de projetos e mesmo instrumentação e o acompanhamento da obra. Portanto, considerando os referenciais adotados e a descrição das rachaduras na área de estudo, identifica-se que as causas decorrem de: (a) concentração de carga em cantos de abertura de janelas e portas; (b) muros extensos com a distância entre um pilar e outro de 4 e 5 m tendem a rachar; esta fragilidade do muro é decorrente da falta de uma amarração adequada que sustenta o muro, além do movimento de variação dimensional dos materiais causados pela mudança de temperatura; (c) recalque diferenciado das fundações, ocorre quando a fundação da casa não foi compactada adequadamente para receber o peso da construção, com isso a fundação tende a ceder com o peso e como conseqüência às paredes e o piso racham; (d) rachaduras abaixo das peças de madeiras são causadas pela concentração de carga, pois a estrutura na casa não consegue suportar o peso do telhado e tende a fraturar; (e) tensão de aderência entre as junções das construções antigas e novas; (f) tensão de aderência entre o bloco / argamassa causa trincas, pois a resistência à tração dos componentes de alvenaria é superior à resistência a tração da argamassa; (g) impermeabilização inadequada do alicerce faz com que a umidade do solo infiltre na construção, tornando-o frágil e deixando-o propício a fraturas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As perspectivas globais (Brobowski, 1998) revelam que o papel das fontes de agregados naturais (areias, cascalhos, argilas e rochas britadas) na sociedade moderna não será reduzido no futuro. Este tema tem atraído pesquisadores e há poucos anos entrou na discussão de políticas públicas em países de primeiro ou terceiro mundo, a exemplo do Canadá ou Quênia. O conflito sócio-econômico gerado pela busca desses recursos está relacionado ao fato que: (a) concomitante as lavras, existem outras opções de uso do solo, como a agricultura ou a urbanização; (b) o processo de extração pode promover esterilização de solos e; (c) a explotação extrema favorece à erosão e ao assoreamento. No nosso estudo de caso, a comunidade se instalou posteriormente às atividades minerais. A motivação foi o fator baixa renda e a necessidade de obtenção da casa própria. A má qualidade dos materiais e dos serviços associados aos tremores (vibrações) ocasionados pelas pedreiras favorecem o surgimento das rachaduras. As rachaduras nas construções são provocadas pela associação de dois fatores: deficiências da construção civil e os sismos (tremores) provocados pela pedreira. Isto determina o conflito entre o bem estar da comunidade e a economia de exploração mineral.

 

 

TABELA 01 – Zoneamento do efeito sísmico.

 

RAIO

 

 

INTERFERÊNCIA SÍSMICA

 

característicaS

0 - 800 m

Zona de altíssimo risco

(AAR)

Impossibilita a ocupação urbana – alta intensidade de barulho, tremores e rachaduras nas construções.

800 - 1600 m

 

 

1600 – 2400 m

Zona de alto risco

(AR)

 

 

 

 

Inadequada à moradia – mais de 75% da população sentem os tremores, variando a intensidade de alto a médio e mais de 60% das residências encontram-se rachadas.

2400 – 3200 m

Zona de médio risco

(MR)

Tremores sentidos por mais de 40% da população e rachaduras nas residências acima de 50%.

3200 – 4000 m

Zona de baixo risco

(BR)

 

Os tremores sentidos pela população e as rachaduras nas residências foram verificados em menos de 30% dos casos.

4000 – 4800 m

Zona de médio risco

(MR)

Apesar de menos de 21% da população sentirem os tremores mais de 60% das moradias encontram-se com rachaduras.

4800 – 6000 m

Zona de alto risco

(Zona de interferência entre as duas pedreiras)

(AR)

Alguns moradores desconhecem a existência das pedreiras nesta zona, pois os tremores não são sentidos, porem mais de 65% das casas encontram-se cojm rachaduras.

 

FIGURA 01- O município de Feira de Santana e a localização das pedreiras. (Modificado do IBGE, Divisão Administrativa de Feira de Santana, 2000.)

 

FIGURA 02- Representação espacial das residências visitadas durante o censo (2000-2002) e as zonas de interferência sísmica.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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