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X SIMPSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FSICA APLICADA

 

IMPACTOS AMBIENTAIS EM REA DE GARIMPO: O CASO DO GARIMPO DE CAXIAS, MUNICPIO DE LUS DOMINGUES - MA

 

 

Llian Daniele Pantoja Gonalves, Curso de Geografia/NEPA/UFMA.lilipantoja@bol.com.br

Neilianne de Ftima Costa Lima, Curso de Geografia/NEPA/UFMA. neilianne@bol.com.br

Raimundo Nonato Braga de Sousa. Curso de geografia/NEPA/UFMA). neobraga@bol.com.br

Antonio Cordeiro Feitosa, DEGEO/NEPA/UFMA. feitos@terra.com.br

 

 

Palavras- chave: impactos ambientais, garimpo, Caxias

 

Eixo Temtico: 3 - Aplicao da Geografia Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 Aplicaes Temticas em Estudos de Caso

 

 

1  INTRODUO

 

Ao longo da histria, as atividades humanas tm representado papel determinante nas relaes do homem com a natureza, sendo direcionadas para os mais variados aspectos dessas relaes. Nesse contexto, a atividade mineradora constitui uma das primeiras expresses, atravs da manipulao de rochas e minerais para a produo de artefatos que facilitassem a vida em sociedade.

inegvel que, no mundo moderno, a minerao de um modo geral assume contornos de importncia decisiva para o desenvolvimento econmico, pois observa-se que os minrios extrados da natureza esto em quase todos os produtos utilizados pelo homem. Entretanto, esta dependncia gera um nus para a sociedade, ou seja, o surgimento de imensas reas degradadas que, ao final da explorao, na maioria das vezes no podem ser ocupadas racionalmente.

Nota-se que o impacto ambiental, positivo e/ou negativo causado pela atividade extrativa depender da freqncia e da intensidade da ao antrpica, refletindo-se nas conseqncias da alterao ambiental no meio fsico submetido aos processos de explorao dos recursos minerais.

Desde o incio de sua colonizao at os dias atuais, o Brasil sofre reflexos de uma atividade extrativa, desordenada e de pouco controle tecnolgico o que acaba sendo um aspecto negativo relacionado s atividades minerais no pas. A vocao aurfera do Brasil incontestvel, a merc de possuir a nao cerca de 3.900.000 km, aproximadamente 46% de seu territrio, dominados por rochas pr-cambrianas de reconhecida favorabilidade geolgica e metalogentica, onde se destacam metalotectos bastante promissores, tais como vrias seqncias de xistos-vedes (greenstone belts), e freqentes filonianos inseridos faixas de cisalhamento (sheear zones).

Segundo Kopezinsk (2000,p.21), a forma de extrair os bens minerais que a natureza nos oferece tem sido aprimorada nos ltimos cinquenta anos. Como atividade extrativa, a minerao, quando exercida sem tcnicas adequadas e sem controle, pode deixar um quadro de degradao oneroso na rea que a abriga.

Na regio noroeste do Estado do Maranho, existem antigas reas de garimpo ainda exploradas com emprego de tcnicas rudimentares, como nas de Aurizona e de Caxias.

No presente estudo, aborda-se- os nveis da degradao scio-ambiental provenientes da extrao do mineral no garimpo de Caxias, o qual est localizado 8km do municpio de Lus DominguesMA (figura 01), uma vez que o mesmo est totalmente em atividade e os danos causados rea so bastante visveis.

 

Figura 01 Mapa de localizao da rea de estudo

 

 

2 METODOLOGIA

 

Para a realizao do presente trabalho foram desenvolvidas as seguintes atividades de pesquisa:

 

levantamento e anlise bibliogrfica relacionada com o tema e a rea objeto de estudo;

visitas ao campo, que foram realizadas em mdia duas vezes ao ano, com o intuito de observar as mudanas ocorridas no local;

elaborao de questionrios;

Aplicao de entrevista com moradores mais antigos da rea do garimpo, a fim de investigar a parte histrica;

Registros fotogrficos das reas mais impactadas do garimpo, onde se percebe os impactos ambientais.

 

Segundo VEIGA apud. BARCELLOS, O garimpo de ouro tem sido praticado de modo desordenado e itinerante. Essa prtica deixa grandes problemas scio- econmicos para as comunidades locais, tendo em vista o dano ambiental causado pelas prticas rudimentares como a amalgao ineficiente combinada ao lanamento de rejeitos no meio ambiente...e aps dcadas de intensa extrao, com mais de 2 mil toneladas produzidas, a garimpagem passa por transformaes na medida em que o ouro facilmente aproveitvel tem se tornado escasso.

 

3 RESULTADOS E DISCUSSO

 

A identificao de minrio de ouro na regio noroeste do Maranho, com possibilidades de explorao aurfera, decorrente dos primeiros estudos de geologia realizados na regio, no incio do sculo XX.

No garimpo de Caxias, foi detectada em 1934 iniciando-se um processo de explorao incipiente, pois os garimpeiros tinham acesso aos barrancos mas na poca no utilizavam mquinas e todo o trabalho era manualmente executado. Os nicos instrumentos usados eram o Pilo de Ferro, pesando aproximadamente uns 200 kg e a tradicional batia.

A partir de 1980 foi dado incio extrao do ouro com emprego de tecnologia rudimentar como motores e bombas para lavagem do cascalho e seleo do material por processo de peneiramento.

O possibilidade de obteno de ouro tornou a rea atrativa de populao, fazendo com que muitos garimpeiros se fixassem no local construindo casebres atualmente ocupados por moradores que presenciaram a formao deste garimpo.

O garimpo de Caxias composto de dez a doze casas em mdia, uma escola e uma casa de farinha comunitria, alm de uma rea reservada para o plantio de alimentos, que serve de sustento para a populao da comunidade. Nessa rea cultivam arroz, mandioca, milho e ainda criam alguns animais.

Durante a dcada de 1980, perodo de maior intensidade da explorao do garimpo, houve muitos conflitos ocasionados pela abundncia de ouro no local. Como a rea fica prxima ao Estado do Par atraiu uma grande massa de pessoas oriundas deste Estado, dentre as quais muitas mal intencionadas com intuito de roubar o ouro garimpado, o que acabou gerando inmeras mortes.

Na poca do governo Collor, o preo do ouro foi desvalorizado, ocasionando o desinteresse de boa parte dos garimpeiros pela atividade extrativa. Foi no decorrer deste perodo que muitos abandonaram o garimpo, deixando crateras cu aberto (dois barrancos), os quais  transformaram-se em verdadeiros lagos no perodo chuvoso (foto 1). Atualmente, tais lagos so utilizados pelos moradores da rea para a atividade de pesca que favorece o suprimento alimentar.

 

Foto 01 -  Formao de Lagos

 

Segundo Kopezinski (2000 p. 26) o impacto ambiental, positivo e/ou negativo causado pela atividade extrativa depender exclusivamente da ao antrpica. A atividade humana que determinar o tipo, a magnitude e as conseqncias da alterao ambiental no meio a ser minerado.

O garimpo de Caxias no possui licena ambiental do Ministrio do Meio Ambiente, nem mesmo uma LP (Licena prvia), o que acaba gerando um certo descontrole do trabalho que feito no local. Mesmo assim, muitos garimpeiros do continuidade extrao do mineral diariamente, na maioria dos casos sem se dar conta da ao degradadora no meio ambiente.

As prticas mais simples na extrao de ouro na rea de Caxias, muita vezes ocasiona impactos ambientais irreversveis ao meio fsico, como, por exemplo o decapeamento, abertura de trincheira, cortes, entre outras, causando grandes modificaes no meio bitico abrangendo vrios nveis, principalmente as propriedades fsicas do solo (fotos 2 e 3).

 

Foto 02 - Alteraes negativas no relevo

 

Foto 03 formas originrias da extrao aurfera

 

Com a freqncia da extrao do ouro, os barrancos chegam a atingir de quarenta a sessenta metros de profundidade, o que proporciona riscos de desmoronamentos e consequentemente com srios riscos de vida e de prejuzos ao patrimnio individual (foto 4). A explorao aurfera se d de forma to intensa que chega a provocar o esgotamento pontual com escassez total do minrio. Com isto, os garimpeiros deslocam os equipamento para outras reas passveis de explorao e novas escavaes so feitas. As crateras escavadas no local anterior vo ficando expostas transformando em novas reas de risco ambiental.

Dessa forma, percebe-se a grande interferncia da atividade mineradora na paisagem da rea de estudo, comprometendo a qualidade do recursos hdricos tanto superficiais quanto os subterrneos; o relevo, acelerando os processos de eroso, transporte e deposio contribuindo para o assoreamento dos canais fluviais; no desmatamento da floresta amaznica, que facilita o surgimento dos processos erosivos e no comprometimento da sade pblica atravs do lanamento do mercrio nas fontes de guas que bastecem a populao local.

 

Foto 04 Lago de 40 60 metros de profundidade

 

No que se refere a extrao do ouro, atualmente com a ajuda do maquinrio, so extradas 100 g/dia, e, com o moinho, em mdia 50 g/dia. Os garimpeiros recebem, do dono do garimpo, o direito a uma parte do que foi extrado. Esse ouro levado para ser vendido e comercializado em Belm-PA onde o ouro mais valorizado.

 

A produo e o uso inadequados do bem mineral podem direta ou indiretamente levar a diferentes formas da degradao ambiental, causando efeitos locais...Assim, no s a provvel futura escassez do bem mineral nos aflige, mas tambm as conseqncias nocivas e, s vezes, desastrosos de sua lavra e utilizao  (TEIXEIRA, et al 2001:455).

 

Um fator agravante em relao aos impactos ambientais o uso do mercrio, que segundo relatos de garimpeiros s usado para apurar o ouro, fora do barranco. Mas evidente que o mnimo usado acaba chegando diretamente ao solo.

 

4  CONCLUSO

 

Nota-se que a rea de garimpo sofre diariamente alteraes prejudiciais, haja vista que o ato de minerar, tanto no processo de extrao mineral quanto o de deposio de rejeitos, modifica a estrutura do terreno.

Uma vez extrado, o mineral no retorna mais ao seu local de origem, ficando em circulao e servindo ao homem e s suas necessidades. Esse aspecto traz consigo uma dupla questo, pois, se de certa maneira, a minerao degrada o terreno verdade, tambm, que este ambiente pode ser restruturado de forma aceitvel, limitando assim o impacto ambiental a um certo perodo de tempo. E nesse contexto que a palavra Reestruturao Ambiental se destaca, devendo ser aplicada em reas degradadas, tendo importncia no sentido de ser uma resposta s aes mitigadoras. E o processo de reestruturao se daria desde os primrdios do processo de planejamento, durante a explorao at um perodo aps o trmino da atividade mineira no local.

Segundo o IBRAM (1992), ao planejar o trabalho de recuperao, deve-se considerar os diagnsticos efetuados nos estudos ambientais que identificam as caractersticas especficas da mina e o local onde est instalada. Essas caractersticas dizem respeito aos aspectos fsicos como a topografia, geologia, solos, rede hidrogrfica e paisagem, aos aspectos biolgicos, como fauna e flora.

Uma outra forma de amenizar o problema, seria proporcionar comunidade palestras que favoream um esclarecimento sobre a problemtica do garimpo, gerando na mesma sensibilizao, uma vez que muitos trabalham na rea sem ter noo dos danos causados ao meio.

Alm de medidas preventivas, importante tentar recuperar, pelo menos em parte, pequenas reas no que se refere a questes paisagsticas, a biota, habilitando-as localmente para a prtica de esportes e/ou outras atividades de lazer. Para tanto, faz-se necessrio uma disponibilizao da Prefeitura de Lus Domingues, no sentido de financiar e promover aes favorveis recuperao e conservao da rea.

Portanto, torna-se cada vez mais urgente a conscientizao da populao quanto extrao e uso de qualquer mineral, de forma que seja levado em conta primeiramente a proteo ao meio ambiente.

 

 

REFERNCIAS

 

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