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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


 

COMPARTIMENTOS AMBIENTAIS EM FORMAÇÕES SUPERFICIAIS QUATERNÁRIAS – ANÁLISE E MAPEAMENTO NA BACIA HIDROGRAFICA DO ARROIO PUITÃ; RIO GRANDE DO SUL.




Rafael Lacerda Martins rlmart@terra.com.br
Universidade Luterana do Brasil/ULBRA. Curso de Geografia
Roberto Verdum verdum@vortex.ufrgs.br
Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS. Depto de Geografia




Palavras Chaves: compartimentos ambientais, arroio Puitã, Rio Grande do Sul.
Eixo 3: Aplicações da Geografia Física à Pesquisa.
Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos.





Este trabalho tem como objetivo identificar a relação existente entre os critérios estabelecidos para o mapeamento dos compartimentos ambientais e os processos morfogenéticos da bacia hidrográfica do Arroio Puitã, localizada no oeste do estado do Rio Grande do Sul. A metodologia proposta fundamenta-se na compartimentação ambiental, e para tal são dimensionados e diferenciados através de critérios (físico-ecológicos). As feições erosivas foram classificadas como sendo: os areais, ravinamentos e voçorocamentos. Como resultado foi apresentado o detalhamento dos principais processos morfogenéticos que caracterizam a crise erosiva da área de estudo, assim como permitiu a elaboração do mapa de compartimentos ambientais e da dinâmica dos meios da bacia hidrográfica do arroio Puitã.
A localização regional da área de estudo pode ser definida a partir da descrição geográfica da chamada fronteira oeste, ou seja, se localiza a leste da calha do Rio Uruguai tendo com limite extremo o meridiano 58°W e o limite interno continental marcado aproximadamente pelo meridiano 54° 30’W, ao norte da região podemos definir a posição da latitude 28° 30’S ou o limite municipal de São Borja, já no limite sul podemos estabelecer à fronteira com o país vizinho Uruguai. Em relação à paisagem fica caracterizados o predomínio extensivo de campos e coxilhas, matas subtropicais, relevos testemunhos e extensas superfícies de depósitos aluvionares.
Mais especificamente a área de estudo desse trabalho compreende a bacia hidrográfica do arroio Puitã, que está localizada na chamada região fronteira Oeste do Estado do Rio Grande do Sul. Situa-se ao Norte do rio Itú e a Oeste da serra do Iguariaçá, entre as latitudes 28o 55’S e 29o 15’S, e as longitudes 55o 15’W e 55o 35’W. O arroio Puitã corresponde a um afluente do rio Itú e que por sua vez é afluente do rio Ibicuí. A sub-bacia do arroio Puitã aparece localizada na área de três municípios da região, mais precisamente nos municípios de Maçambará, Itaqui e São Borja.
Para o estabelecimento da etapa de confecção dos mapas de compartimentação ambiental foi necessário utilizar uma série de materiais: as cartas topográficas editadas em 1978 na escala de 1:50.000 da diretoria do Serviço geográfico do Ministério do Exército (DSG)
¹ , conforme a articulação das cartas topográficas da bacia hidrográfica do arroio Puitã, os mapas temáticos do projeto RADAM na escala de 1:250.000; as fotografias aéreas de 1996 na escala de 1:60.000 e a imagem de 05 de fevereiro de 2000, do satélite LANDSAT 5 sensor TM com bandas espectrais do visível e do infravermelho próximo e médio do espectro eletromagnético. Esses materiais serviram como fonte para a base da referida técnica de compartimentação ambiental e delimitação da bacia hidrográfica. Em conjunto a esses procedimento, a investigação de campo teve a responsabilidade de enriquecer a identificação dos compartimentos ambientais e os processos morfogenéticos e seus agentes erosivos, bem como, ajudar no desenvolvimento da análise e caracterização propostas.
A identificação e a localização dos diferentes critérios, (pedológicos, litológicos, morfológicos, uso do solo e cobertura vegetal). Os critérios descritos foram espacializados e classificados de acordo com sua escala de inter-relação com os processos morfogenéticos, com a idéia de cruzar os diferentes critérios estabelecidos anteriormente.
Em seguida, desenvolveu-se a elaboração de uma etapa de construção de um quadro síntese com a finalidade de organizar na forma sistemática a ocorrência dos diferentes processos morfogenéticos dentro da compartimentação ambiental. Incluído a isto, associou-se à aplicação das técnicas de geoprocessamento e sensoriamento remoto formando uma etapa de espacialização e cruzamento dos diferentes processos diante da diferenciação e do dimensionamento da compartimentação ambiental. Para a elaboração desta etapa foi necessário utilizar diferentes softwares que permitiram estabelecer informações quantitativas e temáticas a respeito da análise inicial e das diferentes classes.

O contexto da compartimentação ambiental.

Atualmente existe uma nova tendência em estudos da análise geomorfológica, os estudos que relacionam os aspectos geomorfológicos apreciando num contexto mais amplo, englobando as estruturas, as inter-relações e os processos espaciais, com o abandono de estudos da “geomorfologia isolada e simplificada”, de enfoque restrito e unilateral, cuja análise do relevo tem sido dissociada dos demais componentes do ambiente. Dentro desta nova perspectiva, os estudos dos processos, em especial dos “processos geomorfogenéticos, ainda são em número reduzido principalmente em função das dificuldades técnicas de observação.” (CHRISTOFOLETTI 1977, p.51). No entanto, estas dificuldades estão sendo enfrentadas, pois este tipo de estudo é de suma importância para a Geomorfologia, cuja preocupação é o estudo do papel que os elementos ou formas do relevo exercem no contexto amplo do ambiente com os seus mosaicos de diferentes critérios.
O relevo, porém, não pode ser visto apenas como fator de modo estático, mas deve ser encarado e pesquisado como variável dinâmica, integrante e participante de todo o geossistema, vinculado diretamente, à matéria e à energia que circula através dos geossistemas, que compõem a paisagem geográfica, Troppmair (1990). Dentro dos estudos geo-ecológicos, as informações sobre as formas topográficas, a morfodinâmica atuante e a análise das formações superficiais são indispensáveis, mas um aspecto deve ser enfocado com destaque, o estudo das formações superficiais.
Segundo, Radam Brasil (1986) a Geologia da bacia hidrográfica do arroio Puitã, situa-se sob o domínio da bacia intracratânica do Paraná, caracterizada por uma extensa plataforma recoberta por sedimentos e lavas que se expressam das bordas para o centro da referida bacia sedimentar.
Na bacia hidrográfica do arroio Puitã, são identificados nos mapeamentos geológicos a formação, Serra Geral (jurocretáceo), constituída por derrames basálticos distribuídos ao norte e a nordeste da área de estudo, além do predomínio da formação Botucatu encontrado em grande parte da bacia hidrográfica, formada por arenitos eólicos avermelhados com estratificação cruzada, ocupando algumas áreas mais rebaixadas, e setores médios das vertentes. Com mesma textura do arenito Botucatu, ocorrem arenitos intertrápicos, os quais foram cozidos pelos derrames basálticos da formação Serra Geral. Supõe-se que, as formações mais recentes são do período holocênico, constituído por depósitos de aluviões ao longo do arroio Puitã, a partir dos estudos desenvolvidos em áreas semelhantes nos trabalhos de Suertegaray (1998) e Verdum (1997).

Processos modeladores dos compartimentos.

Em relação aos aspectos da forma do relevo, podemos relacionar que os modelados são resultados de forças endógenas e forças exógenas ou externas, resultando assim, formas erosivas, residuais ou deposicionais, através de complexos processos combinados e que atuam durante longos períodos e recebem o nome de processos morfogenéticos associados aos domínios morfoclimáticos. O resultado desses processos morfogenéticos será as diferentes formas na superfície, resultando num mosaico topográfico e biogeográfico.
Em relação aos processos modeladores dos compartimentos da bacia hidrográfica do arroio Puitã, analisados nesse estudo, podemos traçar algumas considerações, que o grau de erosão num primeiro momento leva em conta as superfícies retrabalhadas e destruídas sem a preocupação em perceber o tipo e os agentes transformadores e modificadores da superfície, e sim percebendo as alterações em desequilíbrio. Já em uma segunda análise são verificados os solos erosionados, com ravinamento, provenientes da ação hídrica onde pode ser distinguida basicamente em três tipos de erosão: a erosão laminar, onde consiste a eliminação da camada superficial do solo, causando na maioria das vezes um aprofundamento vertical no terreno, a erosão em sulcos, constituídas por uma rede de sulcos paralelos, tornando-se, em certos locais anastomosados, e a erosão em barrancos poucos profundos causando uma erosão regressiva. A erosão eólica manifesta-se pela deflação em áreas desprovidas pela vegetação.
Quanto às definições para os agentes causadores da erosão eólica, pode-se caracterizá-la como sendo o transporte aéreo, ou por rolamento, de partículas de solo pela ação do vento e a relação com ambientes de vegetação insuficiente para cobrir e proteger o solo. Observa-se que o teor de umidade dos solos é um fator limitante da intensidade com que a erosão eólica pode ocorrer.
Em relação à metodologia específica para identificar os processos modeladores dos compartimentos, citamos num primeiro momento o cadastramento através da cartografia das ocorrências de ravinas, voçorocas, assoreamento dos fluxos hídricos, incisões superficiais pouco profundas e áreas de ocorrência de arenização por meio da interpretação de fotografias aéreas mais atualizadas possíveis. Essa interpretação distinguiu os processos erosivos e, com isso, permite a elaboração de uma cartografia numa escala possível de análise, conforme figura 1.
Esses processos erosivos e deposicionais, extraídos a partir da análise das fotografias aéreas, foram classificados como: ravinamentos e voçorocamentos, profundas incisões verticais no solo e nas formações superficiais inconsolidadas.


Ocorrência de ravinamento no solo, provocando profunda incisão, prejudicando intensamente o uso e a dinâmica do compartimento. Sulcos e ravinas formados na superfície de encostas com vegetação campestre relativamente degredada. Observa-se no interior da ravina, indicando nova organização do escoamento superficial concentrado. Data: Novembro de 2000.


O método de foto-interpretação em fotografias áreas com escala de 1:60.000, também permitiu mapear outras classes de processos morfogenéticos como, ravinamentos de fundo de valão, em canais fluviais, identificados como feições com canais pouco profundos, situados nas depressões do terreno; canais fluviais em processos de ravinamento e assoreamento, segmentos da rede de drenagem em estágios distintos de aprofundamento e crise erosiva. E por fim, a identificação dos areais, constituída por áreas desprovidas de cobertura vegetal e matéria orgânica, com mobilidade de sedimentos durante as precipitações torrenciais e pela ação eólica.



Formações dos areais na bacia hidrográfica do arroio Puitã, depósitos areníticos (pouco consolidados) ou arenosos (não consolidados) são os promotores nessas áreas da dificuldade de fixação da vegetação devido à constante mobilidade dos sedimentos. Data: Fevereiro de 2001.


Compartimentação ambiental.

A compartimentação ambiental, consiste em qualquer uma das partições ou segmentos afins em que se subdividem os ambientes, de acordo com a abordagem do estudo a ser realizado e de conformidade com as características do meio a que se refere. Dessa forma, um compartimento ambiental detém todos os conjuntos de fatores ambientais de mesma natureza, ou seja, os mesmos critérios. Os cenários ambientais, consistem na representação modelada de um espaço qualquer biogeofísico, por meio dos elementos essenciais que o constituem e da dinâmica que apresentam em decorrência das relações que mantêm entre si, de acordo com uma finalidade de conhecimento e de decisão previamente estabelecida.
Portanto, o mapa de compartimentos ambientais, reagrupa todas essas informações, sendo o resultado da aplicação dos métodos e das técnicas do sensoriamento remoto e do geoprocessamento, assim como, as verificações em campo.
Tal cartografia pode ser previamente interpretada visando ao estudo dos processos erosivos ou a correlação da distribuição dos processos morfogenéticos com os diferentes critérios sugeridos para esse trabalho, estabelecendo assim relações espaciais entre esses dados.
A partir da diferenciação, da análise e do mapeamento dos quatro compartimentos geomorfológicos da bacia hidrográfica do arroio Puitã, podemos concluir que o compartimento geomorfológico definido como de colina e de escarpa, são os compartimentos que apresentam maior susceptibilidade aos processos degradacionais. É justamente num desses compartimentos que se encontram os areais. Além da análise geomorfológica e caracterização geológica, procurou-se também analisar outros critérios que auxiliam na explicação dos processos morfogenéticos. Os areais ocorrem predominantemente no compartimento de colinas, com substrato arenítico e que são, na sua grande parte, decorrentes da deposição eólica.
As informações do critério pedológico da bacia hidrográfica do arroio Puitã apresentam os seguintes tipos de solos, CA-Cruz Alta: latossolo vermelho- escuro distrófico, textura média, relevo ondulado, substrato arenito. G-Guassupi: litólicos distrófico, textura média, relevo fortemente ondulado, substrato basalto. JC-Júlio de Castilhos: podzólico vermelho-amarelo álico, textura argilosa, relevo ondulado, substrato basalto. Pe1-Pedregal: litólico eutrófico textura média, relevo suavemente ondulado, substrato basalto. SB-São Borja: laterítico bruno-avermelhado distrófico, textura argilosa, relevo suavemente ondulado, substrato basalto. Vi-Virgínia: brunizém hidromórfico, textura argilosa, relevo suavemente ondulado, substrato sedimentos de basalto. Va1-Vacacaí: planossolo textura média, relevo plano, substrato sedimentos aluviais recentes. A metodologia para o mapeamento de solos foi realizada a partir do material pré-existente da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul em escala cartográfica de 1:1.250.000, em conjunto com as cartas temáticas de solos do projeto Radam Brasil (1986).
A caracterização do uso do solo e da cobertura vegetal permitiu identificar áreas com a proposta de recuperação através do florestamento de espécies exóticas, que nesse momento não foi alvo de análise sobre o potencial de recuperação das áreas degradadas encontradas na bacia hidrográfica. A análise da cobertura vegetal remete a uma identificação e localização dos setores da bacia que ainda dimensionam uma vegetação de escarpa de um porte arbóreo/arbustiva, localizados a nordeste da bacia hidrográfica. Junto a isso, também é observada ao longo dos cursos fluviais uma ocorrência de vegetação, que podemos configurar como sendo mata ciliar.

Análise dos compartimentos degradados.

Como resultado foi apresentado o detalhamento dos principais processos morfogenéticos que caracterizam a crise erosiva da área de estudo, assim como permitiu a elaboração do mapa de compartimentos ambientais e da dinâmica dos meios da bacia hidrográfica do arroio Puitã. O mapeamento preliminar foi aprimorado com a realização das observações de campo, corrigindo alguns erros nas interpretações das fotografias aéreas e promovendo a atualização das informações referentes, até então, ao ano de 1996, no que concerne ao desenvolvimento das feições erosivas e deposicionais. Os dados gerados foram convertidos para meio digital, originando o mapa de compartimentos ambientais e processos morfogenéticos em formações superficiais quaternárias da bacia hidrográfica do arroio Puitã, conforme Figura 2.
A partir da análise da representação cartográfica e da tabela síntese, conforme Tabela 1, constata-se que a ocorrência dos referidos processos morfogenéticos situa-se principalmente no compartimento geomorfológico de colinas, verificada no grupo coxilha, sendo constatado mais especificamente no setor de Coxilha A e C, da espacialização apresentada nesse trabalho. Exceto por alguns ravinamentos e voçorocamentos localizados no grupo Escarpa, setor denominado de Paredão. Assim, confirma-se a maior fragilidade das morfologias de colinas, decorrente da friabilidade dos solos e das formações superficiais quaternárias inconsolidadas, sendo essa fator que dificulta o desenvolvimento da vegetação.
Nesse compartimento ambiental das coxilhas é verificado que os solos do tipo latossolo, oriundo do substrato arenítico, e litólico, oriundo do substrato basáltico, apresentam-se como os mais diretamente associados aos processos morfogenéticos, apontando sua fragilidade natural e à possível pressão agrícola exercida historicamente pela sociedade que produz localmente. Essa análise também é verificada no momento do cruzamento da classe de parcelamento agrícola, com o mapa de compartimentos ambientais. No contexto dessa informação é verificado que o cruzamento de áreas classificadas no mapeamento de uso de solo como parcelamento agrícola, apresentam-se basicamente localizados nos compartimentos ambientais mais degradados da bacia hidrográfica do arroio Puitã, ou seja, no grupo Coxilha A e C. Uma possível indicação dessa degradação acentuada pode ser explicada pelo uso dessas áreas, que permaneceram sob agricultura altamente mecanizada, por um período prolongado, a partir daí tendem a se tornar mais sensíveis à formação de ravinas, que podem evoluir para voçorocas.
Ravinas e voçorocas podem ser consideradas como incisões que resultam da tendência de sistemas naturais a atingir um estado de equilíbrio entre energia disponível e eficiência do sistema em dissipar energia. Quando um sistema natural (encosta, bacia hidrográfica, etc) não é eficiente para dissipar a energia disponível, o sistema se adapta, de forma a atingir novo estado de equilíbrio, (BAK, 1997 apud OLIVEIRA 1999). O termo erosão acelerada dos solos, por vezes utilizados para fazer referência à erosão por voçorocas, deriva da concepção de que ravinas e voçorocas, resultam da intervenção causada pelas atividades humanas, (NEBOIT, 1983 apud OLIVEIRA 1999).
A pressão exercida pela ocupação em determinadas áreas, principalmente por atividades agrícolas intensivas, e aliada a uma despreocupação quanto à adoção de práticas ligadas a conservação da natureza dos compartimentos ambientais, tem mostrado uma tarefa muito difícil de recuperação do potencial produtivo dessas áreas, a qual tem como causa principal a erosão acelerada. Essa tendência é verificada nas entrevistas realizadas junto aos produtores rurais da região. A preocupação em resolver questões relacionadas a esse tema tem propiciado a criação de metodologias de trabalho e técnicas de manejo voltadas à adoção de medidas que busquem compatibilizar os usos com as limitações particulares a cada compartimento.
Segundo (SENTIS 1993 apud MAFRA 1999), não existem causas simples para a degradação das terras por erosão, e sim uma hierarquia de causas que devem ser estudadas a distintos níveis para que possam executar políticas adequadas de uso, manejo e conservação. Então a erosão não é somente um fenômeno físico e cartográfico, mas também um problema social e econômico e resulta fundamentalmente de uma inadequada relação entre as características de certo compartimento ambiental e a sociedade.
 

Tabela 1. Síntese dos compartimentos ambientais da bacia hidrográfica do arroio Puitã.

 

Solo.

Vegetação.

Atividades agro-pastoris.

Processos Morfogenéticos.

Grupo Planície

 

 

 

 

Planície

Vacacaí (planossolo)

Arbórea / Arbustiva

Rizicultura

Ravinamentos / Assoreamentos

Grupo Coxilha

 

 

 

 

Coxilha A

Cruz Alta (latossolo)

Campo

Pecuária / Cultivos1 / Florestamento

Ravinamentos / Voçorocamentos / Areais

Coxilha B

São Borja / Virgínia (laterítico bruno-avermelhado e brunizem)

Campo

Pecuária / Cultivos1

N/I

Coxilha C

Pedregal (litólico)

Campo

Pecuária / Cultivos1

Ravinamentos / Voçorocamentos / Areais

Grupo Escarpa

 

 

 

 

Paredão

Guassupi (litólico)

Arbórea / Arbustiva

Extração Florestal / Cultivos 2

Ravinamentos / Voçorocamentos

Grupo Planalto

 

 

 

 

Cerro I

Cruz Alta (latossolo)

Campo

Pecuária / Cultivos1

N/I

Cerro II

Pedregal (litólico)

Campo

Pecuária / Cultivos1

N/I

 

Este trabalho também permitiu identificar e analisar quais os compartimentos geomorfológicos que são os mais sensíveis, as fases de escoamento superficial direto, geradoras de cheias, remodeladores dos glacis na base das vertentes rochosas e das colinas suaves, além do material arenoso que resulta deste processo que é exposto a deflação. A conjunção dos dois processos (escoamento superficial direto e deflação) desenvolve a degradação contínua da cobertura vegetal e a exposição do solo e das litologias, cujas características arenosas revelam uma grande fragilidade do meio e que constituem os chamados “desertos do sudoeste do Rio Grande do Sul”.
A continuidade desses estudos possibilita que futuros trabalhos fiquem centrados no aprofundamento da fragilidade estrutural do potencial ecológico, a pressão dos modelos de exploração agrícola exercida sobre a biomassa vegetal dos campos herbáceos, a dinâmica hidrológica e os principais processos morfogenéticos, conforme Verdum (1997).
As possibilidades reais e efetivas das pesquisas e estudos geo-ecológicos, dimensionaram diferentes informações, como por exemplo, as formas topográficas, a morfodinâmica atuante e a análise das formações superficiais.
A erosão no contexto dos compartimentos ambientais e nas atividades agro-pastoris, pode ser analisada a partir de alguns fatores que causam tal erosão na bacia hidrográfica do arroio Puitã. O entendimento é gerado a partir dos seguintes pressupostos: que as causas da erosão dos solos cultivados dificilmente agem isoladamente, mas sim em uma ação conjunta, como por exemplo, a ação da relação sociedade-natureza, cujas conseqüências são várias e que culminam num grande problema ambiental, que abala as estruturas agropecuárias da maioria das populações. Ou seja, o desgaste do solo agricultável e o parcelamento agrícola, aparecem nesse caso como sendo um fato necessariamente associado com tal relação.
A provável causa desse desgaste está na sua origem, ou seja, no rompimento do equilíbrio que existe no solo. O desequilíbrio ambiental se dá a partir da ação direta dos produtores rurais, no momento da produção pastoril e agrícola, na utilização do solo, isto fica velado na quebra dessa harmonia entre a natureza e a sociedade. Enfim, esse processo que vem ocorrendo de forma desequilibrada da ação da relação sociedade-natureza acaba interferindo e acarretando diversos prejuízos, por vezes incalculáveis e em grande parte incontroláveis.
Certamente que a importância dessa etapa significa e representa um início para um desenvolvimento sustentável em relação à economia e ao desenvolvimento regional, na medida em que isso serve para uma análise dos recursos naturais e das condições do espaço em relação aos processos degradacionais do ambiente.

Notas

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¹ Cartas: Conde de Porto Alegre, Três Bocas, Cândida Vargas, Passo do Goulart.


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