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E3-3.4T132

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

CARACTERIZAÇÃO DA FISIOGRAFIA DA PARTE SUL DO PARQUE NACIONAL DA CHAPADA DIAMANTINA-BA A PARTIR DOS ASPECTOS FITOGEOGRÁFICOS COM BASE EM SENSORIAMENTO REMOTO

 

 

Jocimara Souza Britto Lobão (jlobao@gd.com.br)

Washington de Jesus Sant’anna da Franca Rocha (wrocha@uefs.br)

Joselisa Maria Chaves (joselisa@uefs,br)

Carlos César Uchôa de Lima (uchoa@uefs.br)

 

 

Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

Sub-eixo 3.4: Aplicações Temáticas em estudos de caso

 

 

 

A Chapada Diamantina, localizada na parte central do Estado da Bahia, tem sido palco de ações intensivas em busca de ouro e diamante desde o século XVIII, sendo hoje área de preservação e de forte potencial turístico, em função de sua paisagem de beleza cênica. Nesta região situa-se o Parque Nacional da Chapada Diamantina, que foi criado em 17 de setembro de 1985 pelo decreto nº 91.655 e conta com uma área total de 1.520 Km2, localizado entre os municípios de Lençóis, Andaraí, Mucugê, Palmeiras e Ibicoara.

O conhecimento do meio físico é de fundamental importância para que se possa planejar e tomar decisões acertadas acerca da sustentabilidade do ambiente. No Parque Nacional da Chapada Diamantina, este conhecimento torna-se mais relevante por ser um ambiente que outrora fora intensamente degradado pela ação do garimpo e por possuir um enorme potencial turístico em função das suas belezas naturais.

Este trabalho tem como objetivo caracterizar o meio físico com base na fitogeografia, identificada em imagem de satélite, a partir de processamento digital e obtenção de produtos específicos como: NDVI (Índice de Diferença Normalizada de Vegetação), CP (Componentes Principais) e fusão IHS.

Os conceitos aplicados neste trabalho para descrição fitogeográfica estão apoiados na classificação da vegetação brasileira, adaptada a um Sistema Universal (VELOSO, H.P. & GÓES-FILHO), que também serviram de base para a classificação feita pelo RADAMBRASIL. Neste, a vegetação neotropical é separada em regiões fitoecológicas a partir do viés paleoclimático de adaptação ao ambiente ecológico pelas plantas.

A Chapada Diamantina é um prolongamento da Serra do Espinhaço e funciona como divisor de águas separando as bacias dos rios São Francisco, Contas e Paraguaçu. Na borda Leste da Chapada Diamantina encontra-se a Serra do Sincorá

, onde está localizado o Parque acional da Chapada Diamantina. A área de estudo inclui quase todo o Parque, limitando-se ao Norte com a carta de Lençóis SUDENE SD 24-V-A-V e ao sul com a de Mucugê SUDENE 24-V-C-II. Situa-se entre as coordenadas 12º30’ e 13º30’ de latitude sul e 41º05’ e 41º35’ de longitude oeste (Figura 1).

Figura 1 – Mapa de Localização da área de estudo

Fonte: Adaptado do SRH, 2001,

Embora esta área esteja incluída na região semi-árida da Bahia, ela possui precipitações anuais oscilando entre 800 e 1400mm com máximas entre novembro a janeiro e mínimas entre julho e setembro. Estes altos índices pluviométricos se explicam em função do regime de chuvas orográficas. Nestas condições tem-se na parte leste da serra os maiores índices pluviométricos, provocados pelas massas de ar úmidas, trazidas do Oceano Atlântico pelos ventos alísios. Essas massas de ar precipitam-se ao chocarem com a serra que possui altitude variado entre 1000 a 1700 metros de. Assim, há maior umidade na parte oriental da serra (lado barlavento) que a parte ocidental (lado sotavento).

 

 

MATERIAIS E MÉTODOS

 

Para a construção deste trabalho utilizou-se: imagem de satélite LANDSAT 7 cena 217 ponto 69 com seis bandas multiespectrais (1-2-3-4-5-7), todas com resolução espacial de 25m, adquiridas em 28 de outubro de 2001; carta topográfica SD 24-V-A-V - Lençóis SUDENE, 1987; 24-V-C-II - Mucugê, SUDENE, 1976; SD 24-V-C-I - Piatã, SUDENE, 1976; e SD 24-V-A-IV - Palmeiras, SUDENE, 1976; dados digitais do Projeto Sempre Viva (curvas topográfica, rios e modelo digital); Mapas de Geologia, Geomorfologia, Solos e Vegetação do RADAMBRASIL, escala 1:1.000.000, (BRASIL, 1981). Visando uma melhor utilização da diversidade de dados, (bibliográficos, mapas analógicos e digitais, além da imagem), adotou-se o procedimento metodológico resumido no fluxograma abaixo (Figura 2) :

 

 

Figura 2 – Fluxograma metodológico

 

O trabalho contou com uma etapa inicial de revisão bibliográfica que intercalou todo o seu processo de construção, elaboração da metodologia e integração dos dados e informações sobre a área de estudo.

Para a etapa de campo, selecionou-se previamente pontos notáveis na imagem, que foram utilizados para verificar a acurácia do georreferenciamento e pontos representando as diferentes características espectrais visualizadas na imagem orientadas pela diferença espectral perceptível na imagem de satélite LANDSAT7, a partir de duas composições coloridas selecionadas preliminarmente: 5R-4G-3B e 4R-5G-7B. Posteriormente, em campo, os pontos selecionados foram caracterizados de acordo com a diversidade física da área levando em consideração os aspectos geológicos, geomorfológicos, de solo e principalmente de vegetação.

Na etapa de laboratório, iniciou-se o processamento digital da imagem. Esta fase foi intercalada com a etapa de campo e subdividida em três: pré-processamento, processamento e pós-processamento.

A fase de pré-processamento iniciou com o recorte e delimitação da área em função dos limites do parque e das cartas topográficas disponíveis.

Em seguida, realizou-se o georreferenciamento prévio no recorte da imagem, selecionando-se 80 pontos a partir das curvas de nível do Projeto Sempre Viva e do layer dos rios locais, obtendo-se um RMS de 0,47 pixel. Esse georreferenciamento foi posteriormente checado com os pontos notáveis, obtidos em campo com um GPS, onde se observou a acurácia em função da perfeita sobreposição desses pontos na imagem.

Na fase de processamento, realizou-se a seleção de atributos estatísticos para a seleção de bandas da composição colorida que foi inicialmente utilizada para a etapa de campo. Assim, analisou-se estatisticamente a imagem através da sua matriz de variância (para indicar a banda que possui maior quantidade de informações), obtendo-se a banda 5, e a covariância (com a finalidade de verificar a menor correlação entre os pares de bandas), mostrando-se menos correlacionadas os pares de bandas 4-7 e 4-5. Assim selecionou-se a composição colorida 4R-5G-7B, combinando variedade de informação com baixa redundância..

Ainda na etapa de processamento aplicou-se realces de contraste, gerou-se o índice de vegetação NDVI (bandas 3 e 4), e a Transformação por Componentes Principais total das bandas da imagem LANDSAT.

A vegetação possui uma assinatura espectral com alto contraste entre a região do visível (banda 3 com grande absortância) e o infravermelho próximo (banda 4 com alta reflectância). Logo, quanto maior for esta diferença maior será o vigor vegetativo da vegetação na área imagiada. (Moreira, 2001).

Como o objetivo foi identificar a vegetação, aplicou-se o NDVI (equação 1) onde são realizadas operações aritméticas baseadas no contraste entre as bandas do infravermelho próximo e do vermelho, que são as bandas que apresentam diferenças de respostas espectrais para a vegetação.

Equação 1

NDVI = (IVP – Ver)

(IVP + Ver)

 

Numa imagem multiespectral, há sempre informações que se repetem nas diferentes bandas. Assim, visando concentrar o maior número de dados possível avaliou-se as correlações entre as bandas com base na Transformação por Componentes Principais, que as analisa e produz novos conjuntos de bandas, sem correlações, que são denominadas de Componentes Principais - CP.

Em geral, a primeira Componente Principal – (CP1), possui maior quantidade de dados, pois compacta informações presentes em todas as bandas, a segunda Componente Principal – (CP2), terá a informação mais significante do conjunto, a (CP3) conterá informações menos significantes e assim sucessivamente até a última CP que conterá a informação residual (CROSTA, 1999). Para esta transformação utiliza-se matrizes de correlação dos autovalores (que expressa a quantidade de variância) e dos autovetores ( que fornece por meio de fatores de pesos, uma primeira indicação das características espectrais responsáveis por essa variância ou da contribuição de cada banda), para calcular essa componente (equação 2).

Equação 2

 

CP1 = (B1 * e1, 1) + (B2 * e1, 2) + .... (Bn * e1, n)

CPN = (B1 * en, 1) + (B2 * en, 2) + .... (Bn * en, n)

Onde: CP1, ...CPN são as principais componentes, B1,...Bn são as bandas originais e e1,1, ....e1,n/n,1,..., em, n são os auto-vetores.

 

Utilizou-se a Transformação por Componentes Principais, para o conjunto de todas as seis bandas da imagem e obteve-se novas imagens sem correlações e com o máximo de informações concentradas nas três primeiras componentes principais.

De posse desses resultados, produziu-se a fusão da imagem resultante do índice de vegetação NDVI com as três primeiras componentes principais – (CP), por meio da fusão IHS (Hue, Saturation, Intensity) e assim obteve-se em uma única imagem a combinação dos produtos gerados. Na transformação IHS calcula-se as componentes I (Intensity = Intensidade), H (hue = matriz) e S (Saturation = saturação) para um triplete de bandas, onde as cores são definidas por atributos e não por quantidade de cores primárias como no RGB (CROSTA, 1999). Logo, com a integração das Componentes Principais selecionadas (CP 1,2,3) com o Índice NDVI, obteve-se além da imagem com o máximo de informações, o destaque para a informação mais pertinente ao objetivo proposto – a vegetação.

Na etapa de pós-processamento foram sobrepostos os dados do RADAMBRASIL, do Projeto Sempre Viva e os pontos descritos em campo, à imagem processada, gerando-se uma carta imagem com as descrições realizadas em campo e com a sobreposição dos dados de Geologia, Geomorfologia, Solos e Vegetação do RADAMBRASIL.

 

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

 

A classificação do meio físico é uma tarefa complexa pois deve abordar vários elementos. Sua descrição só será significativa se integrar diversas variáveis como: geologia, geomorfologia, solo, clima, vegetação, etc. Em imagens de satélites, a cobertura de vegetação apresenta assinatura espectral que reflete os aspectos físicos da paisagem pois resulta da combinação desses diferentes fatores físicos, logo, serve com indicador da fisiografia.

Com a utilização do índice NDVI, que pode variar de -1 a +1, foi possível identificar cinco classes (Figura 2).

As classes identificadas possibilitaram uma primeira descrição em função das diferenças de intensidade vegetativa encontrada, variando para a área de estudo de -0,65 a 0,60.

Figura 3 – Classes identificadas com a aplicação do NDVI

 

Observa-se assim que há uma concentração da vegetação sadia na parte leste da Serra do Sincorá, que superpõe à serra na parte sul. A vegetação também se desenvolve com mais vigor em quase todas as zonas de fraqueza na parte superior da Serra. Do lado oeste da serra, a vegetação perde densidade e se concentra nas áreas onde ocorrem as drenagens ou sofrem influência das barragens. Através da análise desse resultado, a área de estudo foi dividida, preliminarmente, em 5 unidades:

Unidade I – Esta Unidade possui índices NDVI que variam de -0,65 a -0,01, concentrando os menores valores predominantemente na parte Nordeste que é ocupada por agricultura e pecuária, onde encontra-se áreas com solo exposto, vegetação rala e pequenas manchas remanescente de uma vegetação mais sadia. Unidade II – no bordo leste da Serra do Sincorá a vegetação se apresenta mais densa e sadia acompanhando toda a serra, possuindo em geral, os mais altos valores de NDVI variando entre 0,34 e 0,60. Unidade III – na parte superior da serra, a vegetação é mais escassa, concentrando-se nas zonas de fraqueza das rochas, e/ou em zonas controladas pela drenagem. Entretanto ela se intensifica na parte sul da serra e se confunde com a vegetação que bordeja a serra ao leste. A maior área dessa unidade possui índices NDVI que variam de –0,01 a 0,07. Unidade IV – na parte oeste da serra, percebe-se uma região bem mais homogênea com uma vegetação mais uniforme, com índices NDVI que variam de –0,65 a –0,01. Entretanto possui áreas pontuais de adensamento vegetativo, ao longo do leitos dos rios, onde os índices variam –0,01 a 0,26 e uma área ao sul, onde ocorre os maiores valores de NDVI, variando de 0,26 a 0,60. Unidade V – na parte sudoeste da área de estudo há uma pequena faixa onde a vegetação volta a se adensar tornando-se visivelmente mais sadia, com valores NDVI, em geral, variando entre 0,07 a 0,34.

Essas cinco unidades, preliminarmente obtidas com o índice de vegetação NDVI, foram melhor delimitadas com base no resultado da fusão com as CP, possibilitando uma interpretação mais precisa.

Na imagem processada, com base na Transformação por Principais Componentes (Figura 3) as três primeiras CP concentraram a maior quantidade de informações possível, para o conjunto de bandas TM, obtendo-se assim um total de 98,94% . (Tabela1).

 

Tabela 1 - Estatísticas da Componentes Principais Totais

Banda

%

1

83,73

2

9,33

3

5,88

4

0,57

5

0,42

6

0,06

Figura 3 – Imagem resultante CP 1,2,3, com marcação das unidades fisiográficas

 

Na imagem da figura 3 temos a vegetação em verde concentrada na unidade II e parte sul da unidade III, os solos expostos em tons de rosa, os afloramentos nos tons azuis e, em lilás as vegetações gramíneas.

Figura 4 – Imagem resultante da Fusão IHS das CP 1,2,3 com o NDVI com marcação das unidades fisiográficas

 

Entretanto, vale ressaltar que embora se tenha obtido 98,94%, a informação mais importante para o objetivo proposto se adquiriu com a associação dessas três primeiras CP com a imagem NDVI (Figura 4), pois além de concentrar informações, destacou a vegetação que é o parâmetro utilizado para a caracterização da área de estudo. Assim percebe-se o maior detalhamento da vegetação nas unidades I e II; a diferenciação da vegetação presente na parte sul da unidade III, em relação à unidade II; na unidade IV há um maior contraste entre as vegetações aluviais e da área mais vegetada na parte sul; maior contraste também na unidade V.

 

INTEGRAÇÃO DOS DADOS

 

Os dados do RADAMBRASIL foram tabulados e associados às unidades obtidas com a imagem, e sobrepostos com os dados digitais do Projeto Sempre Viva, após a integração da descrição dos pontos de campo com os resultados do PDI. Assim buscou-se reunir a maior quantidade de dados sobre a área de estudo de forma que fosse possível uma síntese mais precisa das informações adquiridas.

A Unidade I, localiza-se na parte nordeste da área de estudo e esta hidrograficamente representada por um padrão de drenagem dendrítico meandrante. Se particulariza pela deciduidade da sua vegetação, possuindo pluviosidade média de 700mm e por se encontrar intensamente ocupada por agricultura e pecuária. Esta ocupação antrópica dificulta a delimitação, pois os valores médios alcançados pelo NDVI, foram também influenciados pela reflexão dos alvos agrícolas/pecuários formados por pastagens e cultivos temporários que expõem o solo periodicamente. Os valores de NDVI, centrados na áreas agrícolas tornam-se negativos e voltam a se elevar, tornando-se positivos pontualmente em algumas áreas com vegetação mais preservada, sem no entanto tornar-se expressivo. Nestas condições, os limites entre as unidades I e II, se interpenetram.

A Unidade II é quase totalmente formada por Florestas estacionais decíduas, com vegetação secundária sem palmeiras, com altitudes que variam de 360 a 400m. Há pequena faixa alongada de cerrado bordejando a parte sudoeste da unidade com cotas entre 440 e 480m e pequenas áreas de contato entre a floresta estacional decídua e o cerrado. Este cerrado, está concentrado em uma área menor onde a declividade se acentua, com cotas variando de 440 até 920m. Recebe muitos rios que nascem na Serra do Sincorá e possui áreas alagadiças que formam pântanos sobre um modelado de acumulação fluvial. A drenagem oriunda do leste possui menor influência em função dos regimes de chuvas menos abundantes e da hipsometria. Os rios possuem um padrão dendrítico, com regimes permanentes e alguns intermitentes em função da sazonalidade; meandrantes em algumas áreas, por causa das pequenas declividades. Nesta unidade, a ação antrópica também se verifica, só que com menor intensidade, e, influenciado por uma maior disponibilidade hídrica, a vegetação floresce com mais vigor. Nesta região estão os maiores valores do NDVI, logo, é a unidade que possui vegetação mais densa e viçosa.

A Unidade III é a maior unidade, localizada na parte central de Norte a Sul da área de estudo, onde se encontra as maiores altitudes, formando uma serra com leve caimento para leste e cotas altimétricas variando de 520 até 1600m, possuindo topos de até 1700m. Seus limites são formados por escarpas, sendo mais representativo na parte ocidental. Esta unidade é quase totalmente formada por cerrado, considerado pelo RADAMBRASIL como “Refúgio ecológico montano”, que se particulariza por possuir características dissonantes ao reflexo normal da vegetação, podendo ser descrita como campo rupestre e campo limpo. Nesta unidade, há um forte controle estrutural das rochas sobre a drenagem, composta por rios intermitentes e encachoeirados, formando pequenos vales íngremes, onde a vegetação se torna mais densa. Esta unidade foi subdividida em três, para melhor caracterizá-la: i) parte norte, onde a vegetação mais densa se concentra nos vales, influenciadas pelas drenagens, que correm muitas vezes em alvéolos, com altitudes que variam de 640 a 1160, formado por depósitos eluvionares e coluvionares; ii) parte central; onde o afloramento rochoso é mais intenso, conseqüentemente a vegetação é mais rarefeita, ficando mais viçosa apenas nos vales íngremes, embora também se encontre similares da vegetação de galerias, só que em pontos isolados; iii) parte sul, alongada à leste, onde a declividade é bem menos acentuada, há uma faixa de floresta montana, facilmente discernível na imagem LANDSAT e bem separada com a fusão das CP com o NDVI. As declividades são menores e os solos mais desenvolvidos.

A unidade IV é também uma faixa que vai de Norte a Sul, em paralelo à unidade III, é uma área plana ondulada com elevações que variam de 360 a 1360m, sem, no entanto possuir declividades acentuadas. Esta unidade também foi subdividida em três: i) Pequena faixa ao sul, onde a vegetação de destaca, com elevados valores do NDVI, caracterizada por floresta montana, estacional semidecídua, com maior declividade e densidade de rios, e um padrão dendrítico; ii) Pequena área no centro leste da unidade, formada por valores NDVI, intermediários e caracterizada como cerrado parque com floresta de galeria. Área bastante plana, onde não há declividades acentuadas, possuindo altitudes que variam entre 1080 a 1120m de altitudes e; iii) Corresponde a maior parte nesta unidade, formada por um cerrado – gramíneo lenhoso, com floresta de galeria, possuindo altitudes que variam de 1040 a 1360m, sem declividades acentuadas, com rios formando padrões dendrítico, possuindo um certo paralelismo no sentido W-E, encontrando-se com os principais que correm no sentido N-S, em paralelo à Serra do Sincorá.

E, finalmente, a unidade V, que é a menor, localizada no extremo sudoeste da área de estudo, que se particulariza pela alta declividade, onde a hipsometria diminui de forma brusca, com altitudes que variam de 1200 a 600m. Embora esta unidade seja formada apenas por uma pequena faixa, foi possível identificar que a vegetação volta a adquirir valores de NDVI altos, formando um cerrado mais denso e sem florestas de galerias; e áreas de tensão ecológica, caracterizada pela superposição do cerrado com a estepe/caatinga e do cerrado com a floresta estacional, onde há grande variação do NDVI.

Baseado na síntese desses dados, as unidades selecionadas podem ser descritas resumidamente segundo a tabela abaixo (tabela 2):

 

 

Geologia

Geomorfologia

Solos

Vegetação

UNIDADE I

1-Grupo Una:

1.1- Formação Bebedouro - diamictitos, ardósias laminadas e arenitos grossos;

1.2Formação Salitre na Bacia de Utinga: equivale as Unidades Gabriel e Nova América da Bacia de Irecê, representada por calcários com laminação microbiana.

2- Coberturas terrígenas arenosas e areno-lamosas com níveis cascalhosos.

1- Planaltos em estruturas dobradas – pediplano central – modelado de dissolução;

2- Bacias e coberturas sedimentares pediplanos karstificados. Modelado de aplainamento

1-Latossolo Vermelho-escuro – eutrófico e

2- Latossolo Vermelho – amarelo – álico

 

1-Região de Floresta Estacional decídua – Floresta Submontana,

2- Agropecuária e pastagens.

UNIDADE II

1- Grupo Chapada Diamantina

1.1- Formação Caboclo: ritmitos

1.2- Formação Morro do Chapéu: arenitos bem selecionados com geometria sigmoidal. E parte não dividida

2- Grupo Una

2.1- Formação Bebedouro: diamictitos, ardósias laminadas e arenitos grossos.

.

1- Modelado de acumulação fluvial. Pediplano degradado e inundado. Formas aplainadas, parcialmente conservadas.

 

1- Latossolo Vermelho – amarelo – álico 2- Neossolos Aluviais distróficos

 

 

1- Floresta Estacional decídua – vegetação secundária sem palmeiras,

2- Savana (cerrado)

 Parque com vegetação arbórea aberta sem floresta de galeria

3- Contato Savana e Floresta Estacional semidecídua Montana

UNIDADE III

1-Grupo Paraguaçu - 

1.1- Formação Açuruá: ardósias e metassiltitos.

2- Grupo Chapada Diamantina

2.1- Formação Tombador: conglomerados e arenitos conglomeráticos. Além de arenitos grossos mal selecionados com estratificação cruzada.

 

1- Planaltos em estruturas dobradas – encostas orientais

Superfície de Aplainamento retocada desnudada. Superfície de aplainamento elaborada durante fases sucessivas de retomada de erosão, sem perder suas características de aplainamento, cujos processos geram sistemas de planos inclinados as vezes levemente côncavos e predominantemente áreas de deformações

1- Neossolos distróficos

 

1- Região de Savana (cerrado) Refúgio Ecológico montano

2- Contato

2.1 -Savana de  Floresta Estacional com Savana, arbórea, aberta sem floresta de galeria;

2.2-Floresta Estacional com Floresta semidecídua Montana Arbórea aberta sem floresta de galeria;

3- Savana (cerrado) Arbórea aberta sem Floresta de galeria

4- Ecótono - Savana – Floresta Estacional.

 

UNIDADE IV

1- Grupo Paraguaçu

1.1- Formação Açuruá: ardósias e metassiltitos.

1.2- Formação Lagoa de Dentro: metarenitos com estratificação cruzada de grande porte e níveis pelíticos subordinados.

2- Grupo Chapada Diamantina

2.1- Formação Caboclo: ritmitos.

Formação Tombador não dividida

3- Coberturas terrígenas arenosas e areno-lamosas com níveis cascalhosos.

1- Pediplano degradado e inundado. Formas aplainadas, parcialmente conservada tendo perdido a continuidade em conseqüência de mudança do sistema morfogenético e

2- Superfície de aplainamento Retocada Inumada.

 

1- Latossolo Vermelho- amarelo álico

1- Pequena parte ao Norte de Contato Savana – Floresta estacional – savana, arbórea, aberta sem floresta de galeria e Parque sem floresta de galeria.

2- Cerrado Parque com Floresta de galeria e a maior área formada por gramíneas lenhosa, com floresta de galeria; à suldoeste, uma faixa com Floresta Estacional semidecídua – Floresta Montana

3- Áreas de enclaves

UNIDADE V

1- Grupo Paraguaçu

1.1- Formação Lagoa de Dentro: metarenitos com estratificação cruzada de grande porte e níveis pelíticos subordinados.

2- Grupo Chapada Diamantina

2.1- Formação Tombador não dividida

2.2- Formação Caboclo: ritmitos.

1- Pediplano degradado e inundado. Formas aplainadas, parcialmente conservadas. Superfície de aplainamento Retocada Inumada. Superfície de Aplainamento elaborada durante fases sucessivas de retomada de erosão. Depressões interplanálticas – patamar do Médio Paraguaçu

1- Neossolos distróficos

2-  pequena parte com Podizólico vermelho amarelo eutrófico

1- Região de Savana (cerrado) Arbórea aberta sem Floresta de galeria;

2- Tensão Ecológica – Contato Savana Estepe – Ecótono;

3- Contato Savana – Floresta Estacional – Ecótono

 

Tabela 2 – Síntese dos dados

 

Observa-se que as áreas onde ocorrem maior variação dos índices NDVI, coincidem com as ocorrências de áreas de Tensão Ecológica – contato entre diferentes tipos de flora. Isso é claramente perceptível na unidade II, próximo a serra do Sincorá, onde os valores de NDVI decrescem e ocorre o contato de Savana Floresta Estacional com a Semidecídua Montana na Unidade III; em uma pequena área à noroeste na parte sul, onde os valores NDVI aumentam, há o contato entre Savana de Floresta Estacional com Savana Arbórea Aberta sem Floresta de Galeria; e na Unidade V, o contato entre savana com a estepe e do cerrado com a com a floresta estacional. Assim, verifica-se que há uma variação mais acentuada nos valores NDVI, justamente nas áreas onde ocorre contato seja por justaposição das espécies como na parte sul das unidades II e III, formando enclave contato Savana floresta estacional, ou interpenetrando-se, formando ecótonos como na parte pequena área ao Norte da Unidade III.

A única exceção a esse padrão encontra-se numa pequena área ao Norte da unidade IV, onde há o contato entre a Savana - Estepe e a Estepe com a Floresta estacional, pois verifica-se uma ocupação antrópica mais efetiva. Logo, como discutido anteriormente, os valores do NDVI ficam bastante irregulares, mas, em geral mantém-se negativos, influenciado pelo solo exposto.

 

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

 

A análise da fitogeografia da área de estudo como parâmetro para caracterização de unidades fisiográficas, com base nos processamentos digitais na imagem LANDSAT, demonstrou não apenas a importância do uso de novas geotecnologias, mas principalmente como a partir do estudo da vegetação é possível descrever os ambientes físicos naturais. Essa premissa utilizada, foi dificultada pela intervenção antrópica em algumas áreas (a exemplo das unidades I e IV), o que no entanto pode ser utilizado, como parâmetro para avaliar os impactos ambientais causados.

O índice de vegetação NDVI testado demonstrou o enorme potencial desta ferramenta para discriminação da vegetação, enriquecendo as informações sobre o meio físico. A técnica aplicada na Transformação por Componentes Principais complementou e produziu uma imagem rica em detalhes, possibilitando maior precisão e a comparação com as informações dos Índices de vegetação NDVI.

A fusão IHS realizada produziu uma imagem onde foi possível unir essas informações, facilitando o mapeamento mais detalhado das unidades fisiográficas da área de estudo, a partir da intensificação das diferenças espectrais produzidas pela vegetação, associada aos demais elementos físicos, discerníveis na imagem.

Em contrapartida, os resultados obtidos não teriam o mesmo significado se não contasse com os dados de campo, que fundamentaram a escolha dos métodos utilizados e nortearam a metodologia e caracterização proposta. Logo, vale ressaltar a importância do trabalho de campo como base para todo o processo de processamento da imagem e de integração dos dados.

A grande quantidade de possibilidades no processamento digital de imagens de satélites tem gerado um grande acervo de informações das áreas imageadas. Entretanto, é necessário criar metodologias que facilitem esse processamento e garantam uma utilização mais efetiva dessas novas tecnologias a fim de gerar um conhecimento mais acurado sobre o espaço geográfico. Assim a aplicação da metodologia descrita foi de fundamental importância para a obtenção dos resultados apontados e possibilitam novas interpretações, podendo-se inclusive utilizá-la para análises multitemporais a partir de imagens anteriores e posteriores ao período estudado.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BRASIL. Ministério da Minas e Energia. “Secretaria Geral. Projeto RADAMBRASIL,. Folha SD24 Salvador. Mapa de Vegetação, Geologia, Geomorfologia e Solos. Rio de Janeiro. 1981

 

CBPM, 2001. Mapa Digital Geológico do Estado da Bahia, www.cbpm.ba.gov.br.

 

CBPM, 2001. Mapa digital dos limites dos municípios do Estado da Bahia, www.cbpm.ba.gov.br.

 

CROSTA, Álvaro P. Processamento Digital de Imagens de Sensoriamento Remoto. Campinas-SP: IG/UNICAMP, 1993

 

MOREIRA, Maurício Alves. Fundamentos de Sensoriamento Remoto. São José dos Campos-SP: INPE, 2001

 

SRH – Secretaria de Recursos Hídricos – SIG – Sistemas de Informações Geográficas CD-ROM - Vol -01: Salvador, 2001

 

SUDENE, 1976. Cartas topográficas, SD 24-V-A-V - Lençóis; SD 24-V-C-II - Mucugê; SD 24-V-C-I - Piatã; e SD 24-V-A-IV - Palmeiras; Escala 1:100.000

 

VELOSO, H.P. & GÓES-FILHO, L. Fitogeografia brasileira, classificação fisionômico-ecológica da vegetação neotropical. B. Téc. Projeto RADAMBRASIL, Série Vegetação, nº1. Salvador, 1982