1.  

    Voltar à Página da AGB-Nacional

     

     

    imprimir o artigo

    E3-3.4T133

     

    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

    FATORES SÓCIO-AMBIENTAIS NA ACELERAÇÃO DE PROCESSOS EROSIVOS EM ÁREAS URBANAS: O BAIRRO SEMINÁRIO, CRATO/CE

     

     

    Simone Cardoso Ribeiro – Universidade Regional do Cariri/URCA; mestranda LAGESOLOS/PPGG/UFRJ; bolsista FUNCAP – simoneribeiro@baydejbc.com.br

    Antonio José Teixeira Guerra (orientador) – LAGESOLOS/PPGG/UFRJ

     

     

    Palavras-Chave: erosão urbana; uso-ocupação do solo; planejamento territorial.

     

    Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

    Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso


    Introdução

    O acelerado processo de urbanização que se tem no século XX constitui-se de quatro tendências básicas: o aumento no ritmo de crescimento das cidades, a distribuição do fenômeno urbano por todos os continentes, o desenvolvimento das metrópoles modernas e a expansão do modo de vida urbano para fora dos limites territoriais das cidades. Dentro das cidades, tem-se, além das formas desiguais de apropriação do espaço e da natureza, suas conseqüências: poluição, degradação das condições ambientais e sociais, queda na qualidade de vida... E tais problemas também atingem a população de forma desigual. São as camadas mais humildes que sofrem mais diretamente as conseqüências negativas das aglomerações urbanas.

    Muitos desses problemas são decorrentes de uma má organização espacial, e da falta de adequação das atividades econômicas às potencialidades e, principalmente aos limites oferecidos pelo substrato geo-ecológico que absorverá suas descargas. Como observa Christofoletti (1995), devido às altas densidades ocupacionais das áreas urbanizadas, a topografia se insere como um dos principais elementos a orientar estas ocupações, tendo que se realizar estudos sobre os processos dinâmicos do relevo, a fim de identificar as áreas propícias para cada tipo de uso e ocupação.

    A vulnerabilidade das áreas urbanas aos azares geomorfológicos naturais (como deslizamentos, cicatrizes erosivas e até mesmo enchentes), segundo o referido autor, está relacionada, principalmente com as condições sócio-econômicas das populações.

    Nas áreas urbanas, as voçorocas surgem principalmente devido ao desmatamento, aos cortes nas encostas para a construção de casas e ruas. A diminuição da infiltração é causada, sobretudo, pela falta de vegetação e a impermeabilização do solo pelas construções, aumentando, assim, o escoamento superficial. Dependendo dos outros fatores controladores presentes - erosividade da chuva, erodibilidade do solo e características da encosta -, pode ser iniciado o processo erosivo, o qual certamente, trará problemas tanto às áreas adjacentes, como aquelas à jusante, pelo assoreamento dos corpos hídricos.

     

    Objetivo e metodologia

    O trabalho, ora apresentado, pretende definir classes de vulnerabilidade aos processos erosivos da área em estudo a partir das combinações entre as classes de vulnerabilidade resultantes de cada parâmetro geo-ambiental e de uso e cobertura do solo (cruzamento, por geoprocessamento, dos mapas temáticos de unidades de relevo, solos e uso e cobertura do solo, dando pesos relativos a maior ou menor capacidade erosiva de cada característica encontrada).

    Os parâmetros geo-ambientais apresentados foram identificados a partir de dados bibliográficos e/ou cartográficos e trabalho de campo. As unidades do relevo e o uso e cobertura do solo, foram obtidos por interpretação de fotografia aéreas em escala 1:15000 do Departamento Nacional de Obras e Saneamento - DNOS –de julho de 1983, e checadas por visitas ao campo; as características dos solos, obtidos através de amostras coletadas em campo, foram identificadas por análises de laboratório (granulometria, teor de matéria orgânica e de agregados). Nestes pontos também foram feitos testes com infiltrômetro para medição da capacidade de infiltração do solo. Dados históricos do uso e ocupação foram obtidos através de entrevistas com os moradores locais.

     

    Resultados

    O município do Crato, assim como todo o Cariri cearense, destaca-se no semi-árido nordestino, tanto por suas condições naturais mais úmidas - decorrentes principalmente do substrato geológico sedimentar que lhe propicia grande capacidade em armazenar umidade -, quanto pela concentração populacional. Localizado no extremo sul do estado do Ceará, o Crato apresenta grande parte de seu território nas encostas da Chapada do Araripe e na sua Depressão Periférica.

    O núcleo urbano do distrito sede espalha-se pelos vales dos rios Batateira e Granjeiro e pelos seus intreflúvios. Teve origem a partir de aldeamento indígena de tribos Kariri e de colonização feita por vaqueiros no século XVII. Foi centro comercial de significativa importância no interior nordestino por todo o século XIX e início do XX, tendo cedido lugar a Juazeiro do Norte a partir da década de 60 deste último. Mesmo assim, continuou apresentando crescimento populacional significativo (sua população aumentou de 46.408 habitantes em 1950 para 104.646 habitantes em 2000, segundo dados do IBGE). Assim, apresenta ocupação antiga, em especial nas áreas próximas ao vale do rio Granjeiro, local de sua fundação.

    O bairro do Seminário, próximo à área central da cidade, tem ocupação predominantemente residencial, feita de forma desordenada por população de média a baixa renda. Espalhado pelo interflúvio entre os vales dos rios Granjeiro e Batateira, apesar de apresentar alta densidade de construções e de população, não dispões de infra-estrutura em esgotamento sanitário, e algumas de suas vias não são pavimentadas. Isto, aliado às características geoambientais predominantes da área (ver tabela 1), resulta em uma alta susceptibilidade do bairro aos azares geomorfológicos, em especial, aos processos erosivos. Pode-se observar cicatrizes erosivas em várias áreas do bairro, em especial na encosta voltada para o vale do rio Granjeiro. Nesta, uma voçoroca provocada por concentração de fluxo superficial oriundo de um canal de recolhimento de águas provenientes dos esgotos das residências, cresce com taxa média de 1 metro por ano (segundo entrevistas feitas com moradores locais). Esta voçoroca já conta com aproximadamente 20 m de profundidade, 10 m de largura e recuo de 30 m a partir da encosta original.

     

    TABELA 1: CARACTERÍSTICAS GEO-AMBIENTAIS DO BAIRRO SEMINÁRIO, CRATO/CE

    PARÂMETROS GEOAMBIENTAIS ESTUDADOS

    Litologia predominante

    Características dos Solos

    Relevo

    Uso e cobertura do solo

    Clima

    arenito fino a médio, amarelado a avermelhado, com estratificações acanaladas e cruzadas. (corresponde à Formação Rio da Batateira, classificada por Mont’Alverne, A.A.F. et al., 1990).


    predominam os sedimentos com textura areno-siltosos e silto-arenosos, com porosidade mediana, pouca matéria orgânica, distinção nítida de horizontes (B textural) e com capacidade de infiltração de medio a alto nas áreas mais planas, diminuindo nas encostas, devido à presença maior de silte) Pode-se, em geral, relacionar estes solos ao Luvissolo Crômico.


    Depressão periférica. Interflúvio formando terrenos com declividades que variam de 0 a mais de 45%

    Altitude média de 500m, separa as microbacias dos rios Batateira e Granjeiro. O topo apresenta forma tabular, enquanto as encostas evoluem intensamente por dissecações vigorosas (em especial a voltada para a microbacia do Granjeiro).

    Bairro residencial com densidade populacional elevada, ocupado predominantemente por população de média a baixa renda. Os loteamentos não contam com infra-estrutura de esgotamento sanitário, e muitas vias não são pavimentadas.

    Precipitação elevada (entre 850 e 1.100 mm anuais), mas com característica semi-árida, com irregularidades e concentração em poucos meses do ano (trimestre fevereiro-março-abril). As temperaturas oscilam entre 23oC e 26o, com média anual de 25oC (FUNCEME, 1990).

    Diante desta realidade, e buscando um planejamento urbano-ambiental mais compatível com as potencialidades de sustentação dos geossistemas, procurou-se identificar quais seriam as áreas mais vulneráveis aos processos erosivos neste bairro, levando em consideração suas características geo-ambientais e as intervenções antrópicas. Para tanto, foi produzida uma carta de vulnerabilidade potencial aos processos erosivos.

    Como afirma Sousa (1999), a carta de vulnerabilidade à erosão constitui um dos produtos capazes de subsidiar a ocupação racional do território e o uso sustentável dos recursos naturais, como o solo, uma vez que é originada a partir de uma integração de dados do meio físico influentes nos processos erosivos.

    Assim, a partir de estudos mais detalhados sobre a dinâmica natural da paisagem – em especial solos, relevo, cobertura vegetal – e da contribuição da ação humana sobre esta é que se vai poder traçar um melhor caminho para o uso e manejo da área de forma a impactá-la da menor forma possível. Como observa Botelho (1999), “é preciso orientar a ocupação humana a fim de que sejam resguardadas as áreas destinadas à preservação ambiental, tendo em vista a conservação dos recursos naturais, a forte instabilidade ou fragilidade ambientais e a alta susceptibilidade à erosão e movimentos de massa que certas porções da paisagem podem apresentar”.

     

     

    Bibliografia Referenciada:

     

    CHRISTOFOLETTI, A. Aplicabilidade do conhecimento geomorfológico nos projetos de planejamento. In: GUERRA, A.J.T. e CUNHA, S.B. da. (org.). Geomorfologia – uma atualização de bases e conceitos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p.415-440.

     

    BOTELHO, R. G. M. Planejamento ambiental em microbacia hidrográfica. In GUERRA, A.J. T.; SILVA, A. S. da E BOTELHO, R. G. M. (org.) Erosão e conservação dos solos: conceitos, temas e aplicações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. p.269-300.

     

    FUNCEME. Balanço hídrico do Ceará. Fortaleza: 1990.

     

    MON’ALVERNE, A.A.F. et al. Projeto avaliação hidrogeológica da Bacia Sedimentar do Araripe. Recife: MME/DNPM, 1996.

     

    SOUSA, C. J. da S. de. Carta de vulnerabilidade à erosão como subsídio ao zoneamento ecológico-econômico em área intensamente antropizada. São José dos Campos/SP: INPE, 1999. (Dissertação de mestrado)