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    E3-3.4T134

     

    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

    ANÁLISE MICROMORFOLÓGICA DE SOLOS DESENVOLVIDOS SOBRE GRANITO-GNAISSES DE ESPÍRITO SANTO DO PINHAL – SP

     

     

    Vilma Lúcia Macagnan Carvalho-Profa. Depto. Geografia-IGC/UFMG

    vilma@igc.ufmg.br

     

     

     

    Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

    Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

     

     

     

    Buscando entender a organização dos solos através da Análise Estrutural da Cobertura Pedológica em Espírito Santo do Pinhal – SP, foi utilizada a técnica da micromorfologia de solos. A área de estudo corresponde a uma vertente localizada na Escola Técnica Agrícola do município, em uma bacia de 1ª ordem do Córrego do Rosa, afluente do Ribeirão dos porcos que, por sua vez, é afluente do rio Mogi-Guaçu. A Geologia da região é caracterizada por rochas granitóides (granito-gnaisses). O relevo é formado por colinas convexas de vales côncavos, esculpidos por dissecação. Na área de estudo, a altimetria do topo mostra cotas de 923m e o talvegue principal de 875m. A vegetação original de mata foi devastada a partir da década de 20, com o ciclo do café, quando houve intensa atividade agrícola, com sucessivos retrabalhamentos nas camadas superiores dos solos. Atualmente, a vertente apresenta-se coberta por pastagem, com solos rasos e profundos sucedendo-se, às vezes, com cascalhos miúdos na superfície. Os solos encontrados variam do Podzólico Vermelho-amarelo, dominante, ao Latossolo Vermelho-amarelo, que ocorre em forma de manchas normalmente situadas em posições mais elevadas e de relevo mais suave.

    Para realizar a Análise Estrutural da Cobertura Pedológica (Boulet et al., 1982), foram estudados dezesseis perfis verticais de solo e realizadas várias tradagens. Desse total de perfis, onze deles estão situados na toposseqüência principal e o restante, nos dois eixos laterais abertos posteriormente a ela para permitir observar a organização espacial dos horizontes. As tradagens foram realizadas entre os perfis e em vários transectos em direções que possibilitaram identificar os pontos de aparecimento e desaparecimento dos volumes observados nos perfis. Realizando o levantamento da topografia da vertente, conseguiu-se a representação tridimensional dos horizontes, dos limites das frentes de transformação dos volumes e da dinâmica pedológica relacionadas especialmente com o comportamento físico-hídrico. A seqüência topográfica estabelecida apresenta 270m por 40m de distância vertical, sendo a declividade média de aproximadamente 15cm/m na linha de maior declive.

    A análise micromorfológica foi baseada no estudo de 16 lâminas, confeccionadas a partir de amostras indeformadas, previamente impregnadas com resina de poliéster e depois cortadas, polidas a uma espessura de aproximadamente 30  e montadas em lâmina de vidro, conforme técnica adaptada por Chauvel (em 1979 no IG/USP) e divulgada por Castro (1985). Para a escolha das lâminas representativas foi dada atenção especial às transições (verticais e laterais) dos horizontes e as áreas representativas de cada um, pela possibilidade de encontrar testemunhos das possíveis transformações das estruturas ou organizações pedológicas. A interpretação das mesmas foi feita com o auxílio de microscópio ótico polarizante binocular, sob luz natural e polarizada. Os procedimentos de descrição das lâminas seguiram Castro (1989 e também no curso oferecido ao nível de pós-graduação na USP em 1995) e consistem na identificação das organizações (arranjo, tipo, natureza, hierarquia e cronologia). A terminologia empregada por essa autora foi baseada nos trabalhos de Pettijohn (1957), Brewer (1960; 1976), Stoops & Jongerius (1975), Bullock et al. (1985).

     

    Caracterização dos horizontes na toposseqüência

    A prancha 1(em anexo) mostra a localização vertical (resultado da análise morfológica dos perfis) e lateral (resultado das tradagens realizadas entre as trincheiras, para a localização exata do início e final de cada volume), dos horizontes presentes na toposseqüência principal e nos eixos laterais. Uma vez conhecidos os volumes (horizontes) encontrados nos perfís, partiu-se para a identificação das áreas de ocorrência de cada um, com os respectivos pontos de aparecimento e desaparecimento. As tradagens sistemáticas, realizadas ao longo da toposseqüência principal e dos eixos laterais, entre as trincheiras, e também em transectos associados permitiram traçar as Curvas de Isodiferenciação (BOULET et alii, 1978), e a representação gráfica das mesmas permitiram a visualização da terceira dimensão pedológica da vertente, a espacial.

    Pode se verificar nas figuras a extensão do afloramento rochoso ou da rocha pouco alterada a até 50cm de profundidade, o desenvolvimento da hidromorfia na base da vertente e o aparecimento/desaparecimento dos volumes B, E e Bt.

    O afloramento da rocha na altura do perfil P4 coincide com a ruptura de declive e faz com que a vertente apresente dois sistemas morfológicos diferentes, um a montante deste perfil (SI) e outro a jusante dele (SII), pelo menos no que diz respeito aos aspectos observados na toposseqüência principal.

    No SI, ocorrem perfis medianamente desenvolvidos e poucos diferenciados (de P1 a P4), rasos, com presença expressiva da rocha alterada (C), sendo que nos perfis 1 e 4, sua estrutura encontra-se conservada e no P2 e P3, ocorre desenvolvimento de volumes de solo B e o surgimento de um horizonte eluvial (E). No S2, os perfis se apresentam mais desenvolvidos, com acentuada diferenciação dos horizontes em direção à parte inferior da vertente, incluindo o surgimento de novos horizontes.

    Nos perfis P5 e P6 observa-se horizontes B sobre C. Logo após o P6 aparece horizonte E, enquanto o Bt inicia-se entre P7 e P8, apresentando maior espessura no P9. Em seguida deste perfil, desaparece o horizonte B. Na base da vertente, aparece hidromorfia. Estes fatos indicam que o S2 é mais evoluído quando comparado ao S1, em concordância com a disposição morfológica e a circulação hídrica da vertente (QUEIROZ NETO, 1993).

     

    Resultados micromorfológicos

    As descrições das lâminas foram organizadas em tabelas (8 e 9). A tabela 8 mostra a distribuição do esqueleto, plasma e poros. A análise dessa distribuição mostra que os dados são variáveis, de acordo com a posição que o horizonte ocupa no perfil. A maior porcentagem do esqueleto é encontrada no horizonte superficial Ap, com 45% do total de constituintes. Nos horizontes subsuperficiais (E, B1 e A) a participação é de 35% e, nos horizontes mais profundos (B2, Bt, Btg), é muito variável ficando entre 15 e 35%. Já nos horizontes ou transições encontradas na base dos perfis (B2, Bw/C1, Bt/Bw, Bt/C1), a participação do esqueleto fica entre 20 e 25%. Observa-se assim, uma diminuição geral do esqueleto, dos horizontes superficiais para os mais profundos.

     

     

    A participação do plasma na distribuição relativa dos constituintes aumenta do horizonte superficial (30%) para os horizontes subsuperficiais (35 a 45%) e mais profundos (35 a 60%), ou mesmo para os horizontes da base dos perfis (40 a 55 %).

    Os dados que apresentam a menor variação com relação à distribuição verificada nos horizontes analisados (entre 20 e 35 %), são os da porosidade. No entanto, a maior porcentagem foi encontrada na transição dos horizontes C2/Sk1 (35%), na base do perfil 6, e as menores (20%), foram observadas nos horizontes Bt, ou transições deste para os outros (Bt/C1, Bt/B2). Maiores porcentagens de plasma e diminuição da porosidade na distribuição relativa dos constituintes neste horizonte são indicadores de adensamento (VIDAL-TORRADO e LEPSCH, 1993).

    A análise das características apresentadas pelo esqueleto mostra que esse constituinte apresenta-se mal selecionado na maioria das lâminas observadas, pois são encontradas frações correspondentes tanto à areia fina, média, grossa como cascalho, mudando apenas a quantidade encontrada para cada uma delas. Nas lâminas correspondentes aos perfis 10 (Bt e Bt/C1), P11 (Btg) e P6.3 (B2) predomina o esqueleto de dimensões menores (menor que 2mm), enquanto que nas demais, as dimensões são mais heterogêneas (até 7mm). É preciso observar que lâminas com esqueleto mais fino (foto 21) correspondem a horizontes mais profundos de perfis encontrados na parte inferior da vertente, justificando o desaparecimento do B1 (foto 22) nessa porção, a partir do P8 e P6.2.

    Mas, independentemente da posição das lâminas na mesma, ou nos perfis, observou-se que o esqueleto apresenta formato angular a subangular, sendo que o mais grosseiro encontra-se muito fissurado, cariado e com sinais de fragmentação (foto 22). A mineralogia é composta basicamente de quartzo e apresenta uma distribuição aleatória. A uniformidade das características apresentadas pelo esqueleto não permite diferenciar horizontes derivados diretamente da decomposição in situ do granito/gnaisse (Bw, B2 e Bt) de horizontes superficiais supostamente derivados de material coluvional de origem diversa (A, E e Ap) e separados por um horizonte com concentração de cascalho (B1), em analogia com os resultados obtidos por SACATOLINI e MONIZ (1992). Pelo contrário, as características indicam que a seqüência de horizontes observada nos perfis é resultado de um processo pedogenético ocorrido em um mesmo tipo de material que pode ser resultante de um depósito coluvional, dada a concavidade verificada no sopé da vertente, desde que seja originado das rochas presentes, como observaram VIDAL-TORRADO e LEPSCH (1993).

    A cor apresentada pelo plasma varia de bruno-escuro no Ap a bruno claro no E e B (este, tendendo para o amarelo); de vermelho-amarelo escuro no Bt (p8 e P6.3), B2 (P6 e P6.3) e Bw (P6-C2/Bw e P8-Bt/Bw) a vermelho-amarelo claro no B1, Bt (P10 e P11, este último com manchas mais escuras).

    Essa variação da cor ocorre devido à sua constituição. No caso do Ap (bruno-escuro), a influência da matéria orgânica é nítida (foto 23). A mesma tonalidade, um pouco mais clara denuncia a formação do horizonte E, que apresenta sinais de movimentação do ferro (foto 24). O horizonte A (foto 25) que aparece entre o Ap e o B1, apresenta tonalidade bruna com tendência amarela, mostra ainda a presença da matéria orgânica sobre um horizonte provavelmente em transformação (Ap para B1?). Neste caso, a micromorfologia mostrou que é um horizonte com características mais próximas ao Ap do que a um horizonte B. As tonalidades vermelho-amarelas escuras dos demais horizontes analisados ocorrem devido a presença marcante da argila e ferro.

    As estruturas plásmicas observadas sob luz polarizada e relacionadas na tabela 9 (em anexo), são predominantemente sépicas, com características que variam de onissépica no Ap, mossépica no E, vossépica ou vossépica/esquelsépica no B2 do P6, Bt (foto 26) e Bt/C1 do P10, e insépica nos demais horizontes. Exceções foram observadas no A e sua transição para o B1, que apresenta uma estrutura plásmica assépica com extinção pontuada e domínios reconhecíveis (argilassépica), e na transição Bt/Bw com domínios dificilmente identificáveis (silassépica). Essas observações permitem constatar que o plasma analisado apresenta relativamente poucas separações plásmicas devido à um grau de evolução ainda pequeno do solo e, conseqüentemente, da orientação da argila (VIDAL-TORRADO e LEPSCH, 1993).

    Na tabela 9 podem ser observados também dados sobre pedalidade, estrutura de base, porosidade e feições pedológicas encontradas nas lâminas. Com relação à pedalidade, em todos os horizontes foram observados sinais de agregação, mas com graus de desenvolvimento variáveis. O menor grau foi apresentado pelo horizonte E, pois, embora fosse possível distinguir os agregados, estes apresentam uma distribuição relativa enáulica, muitas vezes tendendo para o desmonte da estrutura. Nos horizontes B1, B2 do P6.3 e a transição Bt/Bw, a pedalidade é moderada e nos demais, é fortemente desenvolvida.

    As estruturas de base encontradas nas lâminas variam de porfírica nos horizontes Bt e B2 do P6.3 (foto 27) para porfírica a enáulica localmente no B1,B2 do P6, A (foto 25) e na transição Bt/Bw. Já os horizontes ApeE, assim como a transição C1/Bw do P6 e Bandas no B2 do P6.3, a estrutura é enáulica. Os dados indicam que a estrutura enáulica ou porfírica a enáulica localmente, encontrada na maior parte dos horizontes, muda para porfírica nos horizontes Bt provavelmente como resultado do adensamento ocorrido em sua estrutura, já discutido anteriormente. A variação dos tipos de estruturas de base encontradas apresenta relação com o tipo de porosidade. Os horizontes que apresentaram estrutura enáulica ou porfírica com tendência enáulica (Ap, E, B1, A, B2 do P6 e a transição C1/Bw), desenvolveram poros de empilhamento simples (apenas no E) e complexo, resultantes do arranjamento dos grãos de esqueleto ou dos agregados, além de poros do tipo cavidades, orto (irregulares) e meta (alisados) e, em alguns casos, fissurais (Ap, B1, B2 do P6). Estes últimos (poros cavitários e fissurais), foram encontrados nos demais horizontes, sendo que os poros fissurais, preferencialmente nos horizontes de estrutura porfírica (Bt, B2 do P6.3 e transições Bt/C1 e Bt/Bw).

    As feições pedológicas encontradas merecem uma análise mais cuidadosa, pois revelam processos pedológicos ocorridos, que estão em andamento ou que estão sendo iniciados. Foram encontradas cutãs, pedotúbulos e pelotas fecais.

    De acordo com a origem as cutãs podem, segundo CASTRO (1989 a), ser de difusão, tensão ou iluviação. Nos horizontes analisados, as cutãs de difusão foram observadas no Ap, Btg e transições A/B1 e Bt/C1, em separações plásmicas ocorridas no interior dos agregados ou associadas aos poros, denunciadas pela coloração mais clara e viva do plasma (separação do ferro). Segundo LIMA (1981) e MONIZ et alii (1982), ambos citados por OLIVEIRA (1999), esse tipo de cutãs originam-se em conseqüência da alternância de períodos de encharcamento e secagem, o que pode acarretar fluxo lateral de argila e ferro. Assim, a compressão na parede dos poros quando o solo está molhado, libera a argila, que fica em suspensão até a secagem quando, então, é depositada na superfície dos agregados, de forma pouco orientada. Já as cutãs de tensão aparecem associadas a poros ou esqueleto nos horizontes Ap, B1, B2 do P6, Bt e transição Bt/Bw do P8. A presença desse tipo de cutãs indica que o solo esteve sujeito ao estresse, como resultado dos processos de umedecimento e secagem constatados em campo pela presença de poros fissurais verticais (OLIVEIRA, 1999). Esses dois tipos de cutãs apresentam fábrica interna homogênea e normalmente com fraco a médio grau do padrão estriado (extinções perpendiculares contínuas ao longo da parede dos poros).

    As cutãs de iluviação aparecem nos horizontes B1 (foto 28), Bt e transições Bt/C1, Bt/Bw e Bt/B2, sendo esse processo observado mais intensamente no Bt do perfil 8. Elas aparecem sempre associadas a poros fissurais e cavitários, com fábrica interna laminada (alternância de camadas de argila com camadas de ferro mais escuras – foto 29) e com forte grau do padrão estriado quando observadas sob luz polarizada (foto 26). A presença de cutãs em poros do tipo cavitários foi considerada por OLIVEIRA (1999) como sinal de iluviação lenta e constante. A impregnação dessas cutãs por óxidos de ferro é atribuída pela mesma autora como conseqüência do período de encharcamento, o que normalmente não acontece em cutãs encontradas em cotas altimétricas mais elevadas, por apresentarem drenagem desimpedida. A ocorrência, então, de cutãs de iluviação laminadas no horizonte B1 do P2, é atribuída pela deficiência de drenagem verificada na parte superior da vertente, em função do afloramento rochoso no perfil 4. O aparecimento de fissuras nessas cutãs, posteriores à formação das mesmas, indica que o processo de iluviação encontra-se em andamento.

    Esses dados confirmam a formação do Bt a partir de mudanças estruturais nos horizontes B1, B2 e Bw, seguidas por iluviação em conseqüência da formação do E em sua parte superior, uma vez que as cutãs de iluviação são encontradas sempre associadas a poros onde a circulação de soluções encontra fácil passagem (cavitários e fissurais), chegando a atingir os horizontes encontrados sob ele (CASTRO, 1989 b).

    Pedotúbulos foram identificados nas lâminas do Bt/B2 (provalvelmente originado por uma raiz) e B2 (originado por atividades de fauna) do perfil 6.3 (foto 27). Pelotas fecais foram facilmente identificadas em meta cavidade no Bt do P10 e preenchendo o pedotúbulo encontrado no B2 do P6.3.

    Resta ainda observar que áreas mais escuras na lâmina do horizonte Btg (foto 21) encontrado no P11, foram identificadas como mosqueamentos típicos da hidromorfia verificada neste perfil (áreas de redução do ferro). A ausência de cutãs de iluviação e tensão neste horizonte que mantém estrutura semelhante aos Bt situados nos perfis 8, 9 e 10, indica uma elevação no nível do lençol freático, desencadeando a hidromorfia verificada na base da vertente e, com ela, a destruição dos depósitos de argila.

    Estabelecendo-se uma correlação entre as características gerais observadas nas lâminas pode-se dizer que no perfil 8 o horizonte Ap apresenta sinais de início do processo de eluviação com presença de poucas cutãs de difusão intragregados e associadas à porosidade, que se torna mais presente no horizonte E (foto 24) situado abaixo dele e já formado. Essa transformação é também marcada pela mudança na estrutura de base e na porosidade. Esta última, passa de empilhamento complexo no Ap para empilhamento simples e complexo no E, como resultado do maior desenvolvimento da estrutura enáulica neste último horizonte (no Ap, a estrutura era porfírica tendendo para enáulica).

    Como conseqüência desse processo de eluviação caracterizado no horizonte E, tem-se a iluviação sobre o horizonte Bt, já formado. É nesse Bt do perfil 8 onde foram encontradas as mais “belas” cutãs de iluviação analisadas, com formatos em meia-lua, laminadas, muitas vezes já fissuradas e corroídas pela passagem da água posterior à sua formação (foto 30). Todas essas características associadas à diferença marcante na quantidade de argila (de 130g.Kg-1 no horizonte E para 420g.Kg-1 no Bt), indicam o pleno desenvolvimento do processo, verificando neste perfil a existência de um Bt verdadeiro (CASTRO, 1989 b).

    A presença de cutãs de iluviação, embora em menor quantidade, nas transições Bt/Bw, Bt/C1 e Bt/B2, indicam que o Bt está evoluindo sobre os horizontes encontrados abaixo dele. A presença de bandas caracterizadas por cutãs de iluviação associadas aos poros fissurais presentes no B2 do P6.3 (que, em geral, não apresentam esse tipo de cutãs) também constituem indícios dessa evolução.

    A presença de cutãs de iluviação no horizonte B1 do P2 pode indicar o início do processo de formação do horizonte Bt neste perfil (uma vez que o E é encontrado acima do B1). Considerando que no perfil 7 o horizonte E aparece entre o Ap e o B1, os resultados alcançados no P2 associados aos do P8, podem ser estrapolados e entendidos de maneira à elucidar o processo de eluviação/iluviação que ocorre na vertente. Podemos dizer que a eluviação tem início no horizonte Ap, tanto na parte superior (entre P1 e P2) da vertente como em sua parte média (entre P6 e P7), originando o horizonte E. A iluviação resultante ocorreu no horizonte originalmente localizado sob o Ap, o B1. Como as características observadas na vertente difere da parte superior para a média/inferior, a situação atual do processo de iluviação apresenta duas velocidades de formação.

    Na parte superior, a influência do afloramento rochoso dificulta a circulação da água e o processo encontra-se incipiente. Já nas porções média e inferior da vertente, com a livre circulação da água, o processo de eluviação se torna cada vez mais intenso, originado o horizonte E entre P6 e P7, (entre o Ap e o B1, como na parte superior da vertente), e, no P8, surge o Bt, numa transição ondulada, com línguas de B1 interpenetrando no Bt. Essa transformação é evidenciada pela presença de maior quantidade de esqueleto grosseiro (como no B1) na parte superior do Bt (Bt2).

    Quando observamos os perfis 6.1 , 6.2 e 6.3 , esse processo é melhor apresentado, pois o Bt aparece dissociado do E. Os perfis 6.1 e 6.2 são muito parecidos com o P6, mas apresentam uma diferença entre eles: a transição entre B1 e B2 no P6.1 é plana e no 6.2 é ondulada, indicando alguma modificação (instabilidade na estrutura do B2). No P6.3 , o B1 desaparece, dando lugar ao Bt , sendo este último, subdividido em Bt2 (com esqueleto mais grosseiro) e Bt1 (esqueleto mais fino).

    Analisando a topografia da vertente nesse eixo lateral, verifica-se que ocorre uma ruptura de relevo justamente entre P6.1 e P6.2 , justificando a mudança observada e a presença do Bt entre P6.2 e P6.3 . A partir a ruptura, a topografia passa a ter um formato côncavo em direção ao talvegue lateral, justamente onde encontra-se o P6.3 . O horizonte Bt, então, é formado neste perfil por mudança estrutural do horizonte B2, ao concentrar pelo formato favorável da topografia (côncava), soluções contendo argila e ferro mobilizados da parte superior da vertente e transportados lateralmente através dela (SCATOLINI e MONIZ, 1992).

    No caso do perfil 2.2 , que apresenta o A entre o Ap e o B1, o processo de eluviação tem início na transição A/B1, como a análise da lâmina delgada mostrou, com a presença de cutãs de difusão ainda que em pequena quantidade. Este fato reforça à interpretação do A ser um horizonte de transformação para B1, podendo originar entre eles o E, com o decorrer do tempo.

     

    CONCLUSÕES

     

    A análise micromorfológica realizada foi fundamental para a identificação dos processos pedogenéticos instalados na vertente o que permite estabelecer a dimensão temporal desta cobertura pedológica (RUELLAN, 1993). Assim, concordando com CASTRO (1989 b), ocorrem na vertente três processos:

    1o Alteração da rocha em B: processo vertical ocorrido inicialmente na vertente, e que ainda ocorre, com a alteração da rocha em um volume argiloso. Dominando a parte superior e média da vertente, esse volume evolui de uma estrutura microagregada para uma poliédrica, que, em função da alternância de estação chuvosa com estação seca mais o manejo intenso a que essa área vem sendo submetida, resulta numa concentração residual de quartzo em sua parte superior, sob o Ap.

    2o Frentes de transformação E/BT: processos verticais e laterais instalados num segundo momento, com a transformação dos volumes Ap e B em E e Bt. O surgimento desses dois volumes deve ocorrer separadamente, em nível espacial e temporal, embora em algum momento eles possam ocorrer juntos. O surgimento do E acontece por transformações verificadas no Ap e ganha espaço sobre o volume cascalhento, favorecido, provavelmente, pelo manejo do solo e pela circulação hídrica sazonal e vertical. Mas a constante alternância de períodos de umedecimento com períodos de seca é sentida com maior intensidade na parte média e inferior da vertente, onde ocorre uma concentração de soluções vindas da parte alta. A transformação do B em Bt ocorre, então, em função do processo de adensamento por dessecação (compressão), originando a estrutura em blocos. Esse processo é timidamente sentido na parte alta e média da vertente, mas ganha força e espessura em direção à sua base. É, portanto, um processo vertical e remontante, dando origem a um pseudo Bt. A ocorrência do volume E sobre o Bt, da parte média para a inferior da vertente possibilita a origem do típico Bt, sobretudo no perfil 8, quando a iluviação deste volume corresponde, em boa parte, à eluviação verificada no E. O entupimento verificado nos poros do Bt nesse ponto da vertente dificulta a infiltração vertical e, com isso, o fluxo lateral ganha força, provocando o aprofundamento do E, vertente abaixo e o surgimento deste antes do Bt nos talvegues secundários, laterais à toposseqüência principal.

    3o Hidromorfia: processo lateral e remontante, com a transformação dos volumes presentes a partir da destruição do principal produto das frentes de transformação anteriores (iluviação) e da mobilização do ferro por oxidação e redução.

    Assim, pode-se concluir que a posição na paisagem, o afloramento rochoso na passagem da parte alta para a média vertente, a condição de drenagem interna e o manejo intenso da camada superficial pelo homem, foram fatores determinantes para a organização do sistema de solo (SOUBIÉS e CHAUVEL, 1985) encontrado na vertente.

    Considerando as observações realizadas em outras porções da bacia de 1a ordem em questão, conclui-se também que os solos podzólicos ali encontrados são mais recentes do que os latossolos, sendo ambos integrantes do mesmo sistema pedológico.

    Essas conclusões demonstram que a utilização desses solos deve ser planejada de forma a respeitar o grau de evolução encontrado em cada vertente do sistema pedológico.

    Mas, ao considerar-se a complexidade de características que uma área de transição como esta apresenta, é preciso tomar muito cuidado, como já havia ressaltado ABREU (1973 a, b, c, d), ao extrapolar os resultados para uma escala regional. É preciso distinguir os aspectos e fatos puramente locais ou característicos da área estudada dos que podem estar associados a processos com atuação mais abrangente.

    O trabalho torna-se, então, uma contribuição ao conhecimento da organização e disposição dos solos na paisagem da região e um incentivo à realização de trabalhos posteriores que contemplem outras porções desta área, particularmente interessante, situada entre a Serra da Mantiqueira e a Depressão Periférica Paulista.

     

     

    ANEXOS

     

    Tabela 9 - Pedalidade, estruturas, porosidade e feições pedológicas


     Prancha 1 – Representação dos volumes encontrados na vertente


    Fotos 21a 30 dos perfis em lâmina
     

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