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    E3-3.4T135

     

    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

    ESTUDO MORFO-ESTRUTURAL PRELIMINAR DA BORDA OESTE DA CHAPADA DA CONTAGEM EM CEILÂNDIA, DISTRITO FEDERAL



    Roselir de Oliveira Nascimento¹;

    José Elói Campos Guimarães¹;

    Claudete Aparecida²;

    Dellavedove Baccaro²


     

    ¹ UnB
    ² UFU-MG



    Palavras-chave: compartimentação geomorfológica, bordas de chapada, lineamentos estruturais

    Eixo 3: Aplicações da Geografia Física à Pesquisa.

    Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos.


     

     

    1. INTRODUÇÃO

     

    No Distrito Federal, distinguem-se, na paisagem, extensas superfícies planas denominadas “Chapadas”, delimitadas por encostas com declividades variadas. Estas superfícies caracterizam residuais ou testemunhos de antigas superfícies de aplainamento que se encontram, atualmente, em processo de entalhamento. O contato entre a superfície plana e encostas ocorre por ruptura de declive que será definida, neste trabalho, como a borda de chapada. Tal feição evolui a medida em que se desenvolvem as drenagens (recuo de cabeceiras de drenagem). As couraças lateríticas, que ocorrem nas bordas, têm importante papel na manutenção das mesmas. Entretanto, neste trabalho, as couraças não serão caracterizadas e sim mencionado, apenas seu papel na manutenção do modelado das bordas.

    A rede de drenagem, responsável pelo entalhamento e diferenciação de feições geomorfológicas, é controlada por fatores lito-estruturais identificados, em cartas ou imagens de satélite e fotografias aéreas, pela presença de lineamentos e padrões de drenagem diversificados.

    O presente trabalho é resultado parcial de pesquisa desenvolvida em bordas de chapada no Distrito Federal e tem por objetivo identificar o controle lito-estrutural nas feições geomorfológicas e correlacionar os resultados ao contexto geológico regional. A área escolhida para o desenvolvimento deste trabalho localiza-se nas proximidades da cidade de Ceilândia a oeste de Brasília, cujas coordenadas geográficas de referência são: 15°51’ de latitude sul e 48°06’ de longitude oeste (Figura 1).

     

     

    figura 1- Localização da área de estudo

     

    A metodologia empregada neste trabalho desenvolveu-se a partir de levantamento de dados geológicos e geomorfológicos locais e regionais, com apoio de campo, seguido de medição e plotagem em gráficos roseta, das direções de lineamentos de drenagens obtidas em cartas topográficas na escala de 1:10.000. Os dados foram organizados segundo a classificação de ordem das drenagens (Strahler, apud CHRISTOFOLETTI, 1980).

    A identificação dos lineamentos levou em consideração as cristas e vales alinhados, as quebras de relevo (positivas ou negativas) e as variações tonais e texturais em imagens de satélite Lansat e fotografias aéreas. Os resultados foram interpretados, tornando possível, portanto, analisar as feições geomorfológicas sob o ponto de vista do controle lito-estrutural.

     

    2. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

     

    O Distrito Federal está inserido na Faixa de Dobramentos Brasília, cuja evolução ocorreu em cinco fases de deformação hierarquizadas dentro de um único evento deformacional relacionado ao Ciclo Orogenético Brasiliano (final do Neoproterozóico, aproximadamente 570Ma.). Tal ciclo, caracterizado por tectônica compressiva (W-E) em direção ao cráton do São Francisco, apresenta as quatro primeiras fases com deformações tipo dobramentos e fraturamentos (caráter dúctil-rúpti)l e foram responsáveis pela formação de domos (domo de Brasília, domo do Pipiripau e domo de Sobradinho) e bacias estruturais. A última fase foi responsável pelo desenvolvimento de estruturas de fraturamentos (rúptil) incluindo falhas e fraturas (Freitas-Silva & Campos 1998).

    O domo de Brasília abrange aproximadamente 40% da área do Distrito Federal e apresenta-se truncado por superfície de aplainamento. Quanto aos lineamentos, estes seguem um padrão regional com três conjuntos de direções: os lineamentos de extensão (em torno de N20oW e N20oE), os de cisalhamento (aproximadamente W-E) e o par conjugado de cisalhamento (em torno de N45oW e N45oE).

    A geologia no Distrito Federal é composta por rochas metassedimentares de baixo grau, denominadas por grupos Canastra, Paranoá, Araxá e Bambui (Figura 2). O contato entre os grupos ocorre por meio de falhas de empurrão. O Grupo Paranoá ocupa, no D.F., 65% do território e apresenta-se dividido em seis unidades, conforme a coluna estratigráfica (da base para o topo): Unidade S (Metassiltito), Unidade A (Ardósia), R3 (Metarritmito Arenoso), Q3 (Quartzito Médio), R4 (Metarritmito Argiloso), PPC (Areno-argiloso-carbonatado) (Freitas-Silva & Campos 1998).

     

    (Para ampliar clique na figura)

     

    A área de estudo localiza-se no setor oeste do Domo Estrutural de Brasília. Duas unidades litológicas que compõem o Grupo Paranoá estão presentes na área, sendo representadas pela Unidade Q3 (Quartzito Médio) e Unidade R4 (Metarritmito Argiloso). A Unidade Q3 constitui-se de quartzitos finos a médios muito localmente grossos, brancos ou cinzas (cinza escuro quando fresco), bem selecionados, maturos mineralogicamente, em geral muito silicificados e intensamente fraturados. Onde se encontram menos recristalizados mostram grãos arredondados, em contatos tangenciais e ricos em minerais pesados (Freitas-Silva & Campos 1998). A unidade R4 compreende metarritmitos homogêneos com intercalações centimétricas regulares de metassiltitos, metalamitos e quartzitos finos que apresentam coloração cinza, amarelada, rosada ou avermelhada em função dos diferentes graus de intemperismo.

    O modelado da área de estudo representa um sistema organizado pela transição de superfície de aplainamento, borda e encosta. A superfície de aplainamento insere-se no compartimento geomorfológico Chapada da Contagem (NOVAES PINTO, 1993). Possui declividade menor que 8% e é mantida pelos quartzitos Q3 que na área estudada não afloram, sendo sua caracterização feita com base em dados de poços tubulares profundos.

    A borda da chapada (ruptura de declive) mantém alinhamento geral na direção N50W sendo “festonada” devido ao entalhe da drenagem que individualiza setores paralelos de prolongamento da chapada e de reentrâncias. O desnível entre a borda e a encosta, em alguns setores, é de aproximadamente 150 metros. Observa-se em campo, a presença de couraças lateríticas nas bordas. Em estudos geomorfológicos no Distrito Federal, MARTINS (2000) analisa a evolução de fácies lateríticas em trechos de bordas evidenciando a resistência das couraças aos processos erosivos e, portanto, o papel deste material como controlador de feições de ruptura de declive entre chapadas e encostas.

    As encostas compõem a unidade geomorfolópgica Região Dissecada do Vale do Curso Superior do Rio Descoberto. São esculpidas em metarritmitos da Unidade R4 e entalhadas por inúmeras drenagens, caracterizando alta densidade hidrográfica devido à dinâmica erosiva sobre os metarritmitos que afloram nos canais e representam material impermeável. Os vales que entalham as encostas são profundos e em “V”. Nos perfis topográficos das encostas observa-se patamar, interpretado, inicialmente, como feição estrutural neotectônica. Esta feição se prolonga na área com direção aproximada SE –NW.

     

    3. RESULTADOS

     

    Os dados referentes aos 1052 lineamentos foram representados em rosetas organizadas segundo a ordem de drenagem conforme a figura 3. A figura 4 refere-se à roseta com o total das medidas.

    Os lineamentos de primeira ordem destacam principalmente o par conjugado de cisalhamento com direções preferenciais variando entre N40-60W e N50-60E. As faturas de extensão e de cisalhamento ocorrem em moderada densidade (Figura 3-a). Os lineamentos de segunda ordem destacam amplamente as fraturas que compõem o par conjugado de cisalhamento e essa ordem de drenagem mascara as famílias de fraturas de extensão, de cisalhamento e as de natureza híbrida (Figura 3-b). Drenagens de terceira ordem destacam direção preferencial N20-30E que é a principal família de fratura de extensão observada no Distrito Federal. Ainda ocorre, de forma bem distinta, o par conjugado de cisalhamento (Figura 3-c). A figura 3-d mostra restrita presença de lineamentos de quarta ordem (apenas 30 medidas na mesma área de observação) e apresenta as mesmas duas famílias destacadas nas demais rosetas.

    A roseta que inclui o total das medidas apresenta o mesmo padrão geral observado em outras áreas do Distrito Federal onde podem ser destacadas as três famílias principais de fraturas além das fraturas de natureza mista (híbridas). Assim, destacam-se as fraturas de cisalhamento, as de extensão e o par conjugado de cisalhamento.

     

    Figura 3 - Lineamentos estruturais representados por canais de: (a) 1a ordem, número de medidas: 763; (b) canais de 2 a ordem, número de medidas: 195; (c) canais de 3 a ordem, número de medidas: 64; (d) canais de 4 a ordem, número de medidas: 30

     

    Figura 4 – Direção da drenagem total, número de medidas: 1052

     

    Todas as interpretações genéticas das famílias de fraturas consideram que a compressão máxima durante a evolução do orógeno foi de oeste para leste o que implica na presença de um σ1 horizontal nas primeiras fases de deformação e de um σ1 vertical na fase final da deformação.

     

    4. DISCUSSÕES E CONCLUSÕES

    A compartimentação geomorfológica na área tem como controles litologia, lineamentos, neotectônica e presença de couraças lateríticas. O contato entre os quartzitos (Unidade Q3) e os metarritmitos argilosos (Unidade R4) marca a transição entre as feições de topo de chapada e as encostas. Este contato é representado pelo alinhamento geral da borda na direção N50W.

    O caráter “festonado” da borda é explicado pelo entalhamento de canais de drenagem de segunda e terceira ordem, representados pelo par conjugado de cisalhamento cuja direção preferencial observada é de N30-70E. Os canais de primeira ordem são responsáveis pelas incisões menores na borda seguindo os lineamentos dos pares conjugados de cisalhamento com direção preferencial N40-60W. No trecho NW da borda, verifica-se a influência maior dos lineamentos de extensão em canais de segunda e terceira ordens.

    O grande lineamento de direção geral NW-SE, que marca um patamar na encosta, é interpretado como feição neotectônica representada por falha de pequeno rejeito que auxilia na retomada erosiva na área. A interpretação de algumas estruturas como geradas por reativação neotectônica de zonas anteriormente existentes é compatível com as conclusões de CAMPOS et al. (1999), JOKO (2002) e MARTINS (1999) que estudaram a presença da tectônica ressurgente em diferentes setores do Distrito Federal.

    Os lineamentos estruturais controlam em grande parte a rede de drenagem e são responsáveis pela incisão dos vales em “V” presentes no compartimento de encostas.

    Os processos erosivos lineares observados na região apresentam controle antrópico e natural. O controle antrópico é relativo a  impermeabilização das áreas de chapada e conseqüente aumento do escoamento superficial, com disposição final do excedente pluvial de forma inadequada (sem a presença de dissipadores, condutos ou galerias). O controle natural é relacionado às zonas de fraquezas representadas pelas estruturas planares (fraturas, juntas e falhas de pequeno rejeito) que tendem a concentrar os escoamentos superficiais e subsuperficiais (fluxos superficial e interno) que são responsáveis pelo transporte de partículas, culminando com o desencadeamento de erosão superficial e subterrânea.

    A presença de uma camada extensa e contínua de couraça laterítica atua no sentido de preservação do perfil chapada-encosta. A presença deste material é interpretada como a área de exposição de camada horizontal que se adentra para o interior da chapada e representa um antigo horizonte plintítico que marca a transição do regolito para a rocha. O horizonte plintítico, transformado em petroplintita, é resistente aos processos de intemperismo. A existência deste horizonte no interior da chapada é confirmada pelos dados de perfuração de poços profundos.

     

    5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

     

    FREITAS-SILVA F. H & CAMPOS J. E. G Hidrogeologia do Distrito Federal. In: IEMA. Inventário Hidrogeológico e dos Recursos Hídricos Superficiais do Distrito Federal, vol. IV,1998. Brasília, IEMA/SEMATEC/UnB, 85p. 1998.

     

    CAMPOS, J.E.G.; FREITAS-SILVA, F.H. & DARDENNE, M.A. Sobre a ocorrência de conglomerados da Formação Abaeté, Eocretáceo da Bacia Sanfranciscana, na região do Distrito Federal, Brasil. In: Simp. Brasileiro Geol. Do Cretáceo, 5., 1999, Ãguas de São Pedro - SP. Boletim de Resumos Expandidos, 1999. p 339-343.

     

    CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. 2. ed. São Paulo: E. Blücher, 1980. 188p.

     

    JOKO, C.T. Hidrogeologia da região de São Sebastião - DF, implicações para a gestão do sistema de abastecimento de Água. Brasília, 2002.159f.Dissertação (Mestrado) - Instituto de Geociências, Universidade de Brasília.

     

    MARTINS, E. de S. Petrografia, mineralogia e geomorfologia de rególitos lateríticos no Distrito Federal. Brasília, 2000. 228 f. Tese (Doutorado) - Instituto de Geociências, Universidade de Brasília.

     

    NOVAES PINTO, M. Caracterização Geomorfológica do Distrito Federal. In: Cerrado: caracterização, ocupação e perspectiva. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1993. p. 285-320.