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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

O COTOVELO DO RIO GUARATUBA NA SERRA DO MAR (BERTIOGA-SP): CAPTURA.

 

 

Déborah de Oliveira, Depto. de Geografia-USP, debolive@bol.com.br

 

Prof. Dr. José Pereira de Queiroz Neto, Depto de Geografia-USP, jpqn@aol.com

 

 

 

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

 

1) Objetivos e hipóteses do trabalho

O interesse em estudar a Serra do Mar partiu da Tese de Doutorado de ROSSI (1999), também orientado pelo Prof. Dr. José Pereira de Queiroz Neto, que estudou os solos dessa área e verificou que havia uma cascalheira dentro dos solos Podzol Hidromórfico e Glei Pouco Húmico, que poderia representar um antigo terraço fluvial do Rio Guaratuba, localizado no compartimento denominado planalto.

A fotointerpretação ressaltou a dificuldade em se traçar a rede de drenagem em área de embasamento cristalino e com vegetação densa. Na área pesquisada há uma grande densidade de drenagem e dois rios principais, o Claro ao norte e o Guaratuba mais ao sul e próximo à borda da escarpa, além de um grande número de topos convexos. Cruzando o overlay com a carta topográfica foi possível visualizar a presença de níveis topográficos distintos, alinhados na direção NE-SW, a mesma dos rios principais.

Pela fotointerpretação surgiu então a hipótese de constituir o Rio Guaratuba uma captura fluvial pela erosão regressiva da escarpa, já que ele apresenta uma mudança de direção brusca próximo à sua borda e a cascalheira poderia fazer parte de seu antigo leito num trajeto anterior à captura.

Captura fluvial (river capture ou stream piracy) corresponde ao desvio natural das águas de uma bacia fluvial para outra, promovendo a expansão de uma drenagem em detrimento da vizinha. Ela pode ocorrer através da absorção, do recuo das cabeceiras, do aplainamento lateral, do transbordamento ou do desvio subterrâneo (CHRISTOFOLETTI, 1975). Conforme MILLER (1915), um rio comete pirataria (piracy) ao conquistar seu vizinho.

O recuo das cabeceiras acontece quando dois rios adjacentes estão localizados em altitudes diferentes e os tributários do curso mais baixo provocam a erosão regressiva de suas cabeceiras, atravessando o interflúvio e capturando o curso de água localizado em nível mais alto. O rio que capta é chamado de captador, capturador ou beneficiário; a parte montante do curso captado é chamada de capturada ou decaptada; a alteração brusca que se observa no local da captura é chamada de cotovelo de captura, com um ângulo de cerca de 90o; a parte jusante do curso capturado, por onde corria o antigo rio é chamada de vale morto, seco ou abandonado (wind gap). (CHRISTOFOLETTI, 1975)

Conforme MILLER (1915), na maioria dos casos, o vale seco (wind gap) é apenas um colo no topo do interflúvio cortado pelo recuo das nascente de dois rios que tem suas nascentes em posição oposta uma à outra.

 

2) Localização da área de estudo

A área de pesquisa localiza-se na bacia do alto Rio Guaratuba, na Estação Biológica de Boracéia, município de Bertioga SP,  no reverso imediato da escarpa da Serra do Mar, a aproximadamente 45º 56 e 45º 52 de longitude oeste e 23º 38 e 23º 42 de latitude sul. Limita-se a norte com o município de Salesópolis e a oeste com o município de Biritiba Mirim. O Rio Guaratuba pertence à rede hidrográfica da fachada atlântica paulista.

A Serra do Mar corresponde a um conjunto de escarpas festonadas com cerca de 1.000km de extensão, estendendo-se do Rio de Janeiro ao norte de Santa Catarina. Em São Paulo, ela impõe-se como típica borda de planalto, nivelada em altitudes de 800 a 1.200m. Sua origem está relacionada a processos tectônicos de movimentação vertical ocorridos no Cenozóico. (ALMEIDA & CARNEIRO, 1998)

 

3) Características gerais da área de estudo

Geologia

A Bacia do Alto Guaratuba apresenta gnaisses bandados compostos basicamente por quartzo, mica e feldspato (IPT, 1981), dominantemente tonalíticos, migmatíticos e, em geral, estromáticos.

RADAMBRASIL (1983) insere a área de pesquisa no domínio de dobramentos remobilizados, que apresentam controle estrutural nítido sobre a morfologia atual, evidenciado pelas extensas linhas de falhas, blocos deslocados, escarpas e relevos alinhados coincidindo com os dobramentos originais e/ou falhamentos mais recentes.

Geomorfologia

Como denominado por ROSSI (1999), o Alto Guaratuba insere-se no Complexo Costeiro, que corresponde ao reverso da Serra do Mar ou Planalto.

Esse compartimento está no reverso da Escarpa, que apresenta ruptura de declive acentuada e desníveis de mais de 1.000m. O Planalto é uma zona amorreada, com desníveis altimétricos de até 300m. As declividades são variadas, abrangendo desde pequenas planícies ao longo dos principais cursos d’água, onde predominam declividades de 0º a 2º (0 a 3%), até vertentes com declividades maiores de 25º (46%) e altitudes entre 790 a 912m.

A Escarpa é caracterizada por relevo de denudação, com grande desnível altimétrico e paredões inclinados caindo abruptamente, com os maiores desníveis chegando a atingir 1.260m no lado leste da bacia.

Clima e vegetação

Conforme SANTOS (1965), predomina na Serra do Mar a influência da Massa Tropical Atlântica (Ta), que apresenta temperatura homogênea, porém, com certa instabilidade no verão, pelo contato dessa massa de ar com a corrente marítima quente do Brasil, caracterizando um clima tropical úmido.

Nessa região, a insolação e a nebulosidade são inversamente proporcionais. A maior insolação tem lugar nos meses de outono e inverno, enquanto a nebulosidade máxima é observada na primavera. Apresenta, também, alta taxa de umidade relativa durante todo o ano, resultante, em parte, da evaporação, das invasões da massa de ar polar e da existência da própria serra como barreira, ocasionando elevada nebulosidade e grande pluviosidade, por volta de 2.000mm/ano. A umidade elevada na Serra do Mar, junto á grande nebulosidade e excessiva pluviosidade tornaram esse ambiente favorável ao desenvolvimento da vegetação florestal. (SANTOS, 1965)

 

4) O Rio Guaratuba

O Rio Guaratuba corre de NE-SW até a borda da Escarpa, onde muda bruscamente de direção para N-S, formando um cotovelo de 900;

-na foto-aérea vê-se que tanto o Rio Claro quanto o Rio Guaratuba seguem os alinhamentos NE-SW, mas no campo é possível ver, no cotovelo do Rio Guaratuba, sua mudança de direção, oblíqua e depois mais para jusante, perpendicular às estruturas do gnaisse;

-o nível de base do Rio Guaratuba está mais baixo em relação ao nível de base do Rio Claro. O Rio Guaratuba está a 800m a montante e passa a 790 em direção ao cotovelo e o Rio Claro está a 820m a montante e passa a 810m para jusante;

-o Rio Guaratuba possui um vale muito encaixado exatamente em seu cotovelo de captura. Por outro lado, o Rio Claro mostra um vale mais amplo à Oeste.

-o vale encaixado do Rio Guaratuba no seu cotovelo ocorre provavelmente pelo aumento da descarga de material após a captura devido à elevada declividade da Escarpa, e o vale mais amplo do Rio Claro ocorre provavelmente devido ao decréscimo da descarga de material do Rio Guaratuba, após a captura;

-o Rio Guaratuba foi capturado pela erosão regressiva da Escarpa da Serra do mar, por recuo de cabeceira e, conseqüentemente, por transbordamento. A tectônica teve grande influência na elaboração dos níveis topográficos, que hoje estão sendo destruídos pela ação da erosão.

 

5) Bibliografia

 

ALMEIDA, F.F.M. & CARNEIRO, C.D.R. (1998) “Origem e evolução da Serra do Mar.” Revista Brasileira de Geociências, São Paulo, 28(2): 135-150.

 

CHRISTOFOLETTI, A. (1975) “Capturas fluviais” IN: Enciclopédia Mirador Internacional, São Paulo, vol. 5, p. 2049-2051.

 

IPT (1981) “Mapa geológico do Estado de São Paulo”, São Paulo. Instituto de pesquisas Tecnológicas, Divisão de Minas e Geologia Aplicada. V.1, 93p. v. 2 ilust. (Série Monografias)

 

MILLER, A. M. (1915) “Wind gaps”. Science, Washington, p. 571, 573.

 

RADAMBRASIL. (1983) Ministério de Minas e Energia. “Levantamento dos Recursos Naturais – Folhas SF 23/24, Rio de Janeiro/Vitória”. Rio de Janeiro, 32; 780.

 

ROSSI, M. (1999) “Fatores formadores da paisagem litorânea: a Bacia do Guaratuba, São Paulo – Brasil” São Paulo, 168 p., Tese de Doutoramento, DG-USP.

 

SANTOS, E.O. (1965) “Características climáticas” in: A Baixada Santista, São Paulo, EDUSP, v. 1, p. 95-150.