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    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

    A FORMAÇÃO DE PROCESSOS EROSIVOS NA BACIA DO RIO DO MEIO

    MUNICÍPIO DE PINHAIS – REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA – PR


    Roberto Teobaldo Valim – Geógrafo/UFPR. (robertovalim@aol.com)

    Leonardo José Cordeiro Santos - Prof. Dr. do Dep. de Geografia da UFPR. (santos@ufpr.br)


    Palavras-chave: Solos, Declividade, Erosão.

     

    Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

    Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso



    1. INTRODUÇÃO

    O que diferencia o homem dos outros animais é a capacidade que ele tem de adaptar a natureza a seu favor, transformando-se no principal agente modelador da paisagem.

    Conforme BOARDMAM (1999), 84% das terras do mundo são atingidas pelos processos erosivos, sendo que 56% pela ação das águas (fluvial e pluvial) e 28% pela ação dos ventos (eólica).

    No Brasil, ou mesmo em outros países, os processos erosivos se intensificam com a combinação do regime climático, os solos frágeis e o rápido desenvolvimento econômico.

    Este trabalho tem por objetivo principal confeccionar a carta de suscetibilidade à erosão laminar, na bacia Hidrográfica do Rio do Meio e, como objetivos específicos, verificar in loco o desenvolvimento dos processos erosivos e confeccionar cartas temáticas de solo e declividade.

    A escolha por esta linha de pesquisa está voltada ao problema ambiental que os processos erosivos se tornaram. A erosão, mesmo em condições naturais, prejudica as atividades locais, como em muitos casos, inutilizando as terras para a agricultura, transpondo obstáculos em estradas e arruamentos, e contribuindo para o assoreamento dos rios.

    Para GUERRA (1998, p.166), o ciclo hidrológico é o ponto de partida do processo erosivo. A ação das gotas da chuva, diretamente, ou por meio de gotejamento, causa à erosão por salpicamento (splash) e, quando o solo não consegue mais absorver água, o excesso começa a se mover, provocando erosão através do escoamento superficial (runoff) ou subsuperfícial das águas.

    O escoamento superficial do terreno desempenha um papel importante no mecanismo erosivo. A intensidade do fenômeno depende da velocidade do escoamento e, nas vertentes mais íngremes, a ação da gravidade acentua grandemente o processo (BIGARELLA, 1985, p.93).

    Os processos erosivos são classificados como erosões laminares e lineares. A erosão laminar, de acordo com GUERRA & GUERRA (1997, p.231), é aquela causada pelo escoamento difuso da água em lençol, não havendo fluxos em ravinas. Já as erosões lineares, são sulcos produzidos pelo trabalho erosivo das águas de escoamento, sendo quase sempre, iniciadas a uma distância crítica do topo da encosta, onde o escoamento superficial se torna canalizado. (GUERRA 1998, p.181).

    A decisão de trabalhar com a Bacia Hidrográfica do Rio do Meio, deve-se ao fato de que o Rio do Meio é um dos mananciais do Rio Iguaçu, que por sua vez é responsável por parte das águas captadas e distribuídas a diversas cidades da Região Metropolitana de Curitiba. A bacia Hidrográfica do Rio do Meio está localizada inteiramente no município de Pinhais (figura 1).

    O município de Pinhais, ao longo das ultimas décadas, recebeu um grande contingente de pessoas devido à sua proximidade com a capital Curitiba. Este processo de periferização contribuiu para a ocupação irregular e desordenada de áreas impróprias, e a falta de cobertura vegetal, agravada pela construção de estradas e arruamentos, favoreceu o aparecimento de erosões.

     

     

    1. MÉTODOS E TÉCNICAS

     

    Para concretizar o estudo sobre a suscetibilidade à erosão laminar na bacia do Rio do Meio, foi adotada a metodologia proposta por SALOMÃO (1999), que implica na confecção e cruzamento das cartas de solo e declividade, para chegar a uma carta de suscetibilidade à erosão laminar.

    Para tanto este estudo foi dividido em duas partes, sendo uma de gabinete, onde houve a preparação de bases temáticas, e outra de campo, onde foram feitos levantamentos com objetivo de conhecer melhor a área estudada.

     

    2.1 Preparação de bases cartográficas e temáticas

    Nesta etapa foram confeccionadas as cartas, pedológica e de declividade, que serviram de base para determinação dos fatores naturais ligados ao relevo e ao solo.

    · Carta pedológica: foi utilizada como base a carta de solos, produzida por JACOBS, 2002, em formato analógico na escala 1:50.000.

    Para determinar o índice de erodibilidade dos solos, necessário para confecção da carta de suscetibilidade a erosão laminar, foram utilizados os índices e classes, propostos por SALOMÃO (1999, p.239). Conforme o Quadro 1;

     

    Classes de Erodibilidade

    Índices relativos de Erodibilidade

    Unidades Pedológicas

     

    1

     

    10,0 a 8,1

    -          Cambissolos, Solos Litólicos

    -          Podzólicos abruptos, textura arenosa/média.

    -          Areias Quartzosas

    2

    8,0 a 6,1

    -          Podzólicos não abruptos, textura média/argilosa e textura média

    3

    6,0 a 4,1

    -          Podzólicos de textura argilosa

     

    4

     

    4,0 a 2,1

    -          Latossolo de textura média

    -          Latossolo de textura argilosa

    -          Terra Roxa estruturada

    5

    2,1 a 0

    -          Solos Hidromórficos em relevo plano

     

    Quadro 1- Classes de Erodibilidade dos solos.

     

     

     

    · Carta de declividade: foi confeccionado com base na declividade, extraída de uma carta topográfica, fornecida pela SUDERSHA.

    Para determinar as classes de declividade, foi adotado os valores de declividade propostos por SALOMÃO (1999, p.239), < 6%, de 6% a 12%, de 12% a 20% e > 20%, utilizado uma carta topográfica, da área de estudo, na escala de 1:20.000, com curvas de nível de cinco em cinco metros.

    · Carta de suscetibilidade à erosão laminar: foi confeccionada, a partir do cruzamento digital da carta de declividade com a carta pedológica, que vieram a formar o critério de definição das classes de suscetibilidade à erosão laminar.

    A carta de suscetibilidade à erosão laminar reflete as características naturais do terreno em face do desenvolvimento dos processos erosivos.

    Para definição das classes de suscetibilidade à erosão laminar, foi adotado, conforme o Quadro 2, o modelo proposto por IPT Apud SALOMÃO (1999, p.240).

     

     

    Declividade (%)

    Erodibilidade

     

    (> 20)

     (12 a 20)

    (6 a 12)

    (< 6)

    1

    I

    I

    II

    II

    2

    I

    II

    II

    III

    3

    II

    III

    III

    IV

    4

    III

    IV

    IV

    V

    5

    Não Existe

    Não Existe

    Não Existe

    V

     

     

    Quadro 2- Critério adotado na definição das classes de suscetibilidade á erosão laminar, por meio da relação erodibilidade X declividade (IPT, 1990)


    De acordo com SALOMÃO (1999, p.239), podem ser definidas cinco classes de suscetibilidade à erosão laminar:

    1. Classe I: Extremamente Suscetível - onde os terrenos apresentam problemas complexos de conservação, indicados para preservação ou para reflorestamento;

    · Classe II: Muito Suscetível - onde os terrenos apresentam problemas de conservação, parcialmente favoráveis à ocupação por pastagens, sendo mais apropriados para reflorestamento;

    · Classe III: Moderadamente Suscetível - onde os terrenos apresentam problemas de conservação, sendo mais indicados a pastagens e culturas perenes;

    · Classe IV: Pouco Suscetível - onde os terrenos apresentam problemas de conservação, sendo mais indicados a pastagens e culturas perenes, e eventualmente, a culturas anuais, porém exigindo práticas intensivas mecanizadas de controle de erosão;

    · Classe V: Pouco a Não Suscetível - Corresponde a terrenos sem problemas especiais de conservação, podendo ser utilizados qualquer tipo de cultura;

    2.2 Levantamento de Campo

    Sabendo da importância desta etapa do trabalho, foram feitos três campos, onde foi percorrida, de acordo com as estradas existentes, toda a área da bacia.

    O trabalho de campo foi realizado nos dias 11/01/2003, 19/01/2003 e 15/03/2003, com o objetivo de conhecer a área de estudo e verificar in loco as relações entre as obras de urbanização, como por exemplo, loteamentos e estradas, e a formação de possíveis processos erosivos.

     

     

    3. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

     

    3.1 Características físicas da bacia do Rio do Meio

    A bacia do Rio do Meio, escolhida como área de estudo, possui uma área de aproximadamente 12,98 km², um perímetro de 16.560 m e um canal principal de 6.280 m de extensão, com 42 rios permanentes de 1° ordem, sendo a densidade dos rios de 3,2357/Km². A bacia possui ainda um total de 68 canais, sendo 21 canais de 2° ordem, 4 canais de 3° ordem e o canal principal de 4° ordem, podendo ser classificada como dendrítica, já que o rio principal e seus tributários assemelham-se à configuração de uma árvore. (CHISTOFOLETTI, 1980 p.103).

    A geologia da bacia do Rio do Meio é composta basicamente por argilitos e arcósios, da formação Guabirotuba (Pleistoceno) e, depósitos aluvionares recentes do Holoceno (FOLHA GEOLÓGICA DE PIRAQUARA, 1967).

    Na área abrangida pela Formação Guabirotuba, ressaltam as formas de relevo suavizadas, com morros arredondados de grande amplitude. O relevo possui uma baixa densidade onde as encostas se apresentam longas e convexas, com vales abertos e assimétricos (JACOBS, 2002 p.16).

    As declividades mais acentuadas da bacia do Rio do Meio (figura 2), maior que 20%, se encontram na porção Oeste da bacia, enquanto ao Sul existe o predomínio de uma declividade inferior a 6%, sendo a declividade da bacia do Rio do Meio bastante suave, variando em sua maior parte de 20% a 6%.

    O solo na bacia do Rio do Meio é constituído por cinco classes de solos (figura 3), sendo elas:

    · Solos de horizonte B textural, denominada como Rubrozem, que ocupam 385,47 ha, o que representa 30,90% da área total da bacia;

    · Latossolos, que ocupam 463,50 ha, o que representa 37,16% da área total da bacia;

    · Cambissolos, que ocupam 19,26 ha, o que representa 1,65% da área total da bacia;

    · Solos Hidromórficos, que ocupam 127,80 ha, o que representa 10,24% da área total da bacia;

    · Solos Orgânicos, que ocupam 251,46 ha, o que representa 20,16% da área total da bacia.

     

     

     

     

     

    4. RESULTADOS

     

    O reconhecimento de campo, realizado na área de estudo, apresentou uma região de declividade suave com vários pontos sofrendo ação erosiva, tanto do tipo laminar quanto linear.

    Entretanto com a confecção da carta de suscetibilidade à erosão laminar (Figura 4), observamos que a área de estudo se apresenta, de forma geral com uma baixa aptidão a este tipo de erosão, que apesar de modesta, pode, quando associado ao uso inadequado do solo, evoluir para ravinas e até mesmo voçorocas.

    Os diferentes tipos de solo dividem a bacia do Rio do Meio em três áreas, uma ao norte, uma ao centro e outra ao sul, com diferentes índices relativos de erodibilidade. A área ao norte é formada principalmente por solos de horizonte B textural, denominados como rubrozem, que resultaram numa região muito suscetível à erosão laminar. A área central da bacia, formada principalmente por latossolos, apresenta uma região pouco suscetível e, a área ao sul da bacia do Rio do Meio, formada principalmente por solos orgânicos, apresenta uma declividade extremamente baixa, tornando a região pouco ou não suscetível a este tipo de erosão.

    Entretanto, a carta de suscetibilidade à erosão laminar, representa apenas aptidão erosiva aos fatores naturais, contribuindo para o planejamento prévio de possíveis obras que venham a interferir no equilíbrio natural, como loteamentos, aberturas de estrada, construção de barragens e tantas outras.

    No caso da bacia do Rio do Meio, foi possível verificar o uso incompatível do solo com sua suscetibilidade à erosão, aumentando assim o potencial erosivo natural do terreno.

    O potencial à erosão laminar de acordo com SALOMÃO (1999, p.241), pode ser definido como o resultado da interação entre a suscetibilidade dos terrenos em desenvolver erosão e a ocupação atual das terras.

    Conforme observado em campo (Prancha 1), podemos verificar que o uso inadequado do solo provocou sulcos e ravinas, em áreas pouco ou não suscetíveis à erosão laminar.

    O aparecimento deste tipo de feição erosiva ocorreu de forma independente a formação de erosões laminares.

    Isso se torna aceitável quando consideramos o desequilíbrio causado pela ação antrópica aos fatores naturais, como por exemplo, a alteração ou remoção da cobertura vegetal, para fins urbanos ou agrícolas, a falta de manutenção ou abertura de estradas sem estudo prévio, associado à ausência de calhas ou dissipadores de energia para o escoamento superficial da água da chuva.

     

     

     

    PRANCHA 1.

     

     

     

     

    Foto - A.

    Foto - B.

    Foto - C.

    Foto - D.

    Foto - E.

    Autor: Roberto Teobaldo Valim, 2003

    Foto - F.

     

    5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

    Atualmente, os processos erosivos se apresentam como um grande problema ambiental. A ação erosiva da água destrói os solos, transformando grandes áreas, antes produtivas, em regiões impróprias para a agricultura e urbanização, além de causar um transtorno para as autoridades e a população, que sofrem com os estragos nas estradas e as enchentes causadas pelo assoreamento dos rios.

    O Rio do Meio é um manancial do Rio Iguaçu, cabendo lembrar que o Rio Iguaçu é um dos rios mais importantes do Paraná, sendo responsável por grande parte dos recursos hídricos do Estado, estando ai a importância de estudos voltados a sua conservação.

    A bacia do Rio do Meio apresenta uma reduzida suscetibilidade à erosão laminar, originada principalmente pela declividade suave de seu relevo, salvo em alguns pontos, onde o tipo de solo, aliado com a declividade mais acentuada favorece o aparecimento de erosões laminares e lineares.

    No entanto, observamos com o trabalho de campo e comprovamos com a confecção da carta de suscetibilidade à erosão laminar, que o aparecimento de erosões do tipo sulcos e ravinas, na bacia do Rio do Meio, se deram de forma independente a formação de erosões laminares.

    Isso é possível, quando consideramos que a interferência do homem sobre o meio altera as relações naturais do ambiente, podendo no caso da bacia do Rio do Meio, favorecer o aparecimento de erosões lineares independentemente da formação de erosões laminares.

    Contudo, compete ao governo municipal a realização de estudos de planejamento para o uso e a ocupação do solo, bem como uma fiscalização e conscientização da população residente nesta área.

     

    6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

     

    BIGARELLA, J. J. Visão integrada da problemática da erosão. Curitiba, Associação de defesa e educação ambiental e Associação brasileira de engenharia, 1985, 329p.

     

    CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. 2ª Edição. São Paulo: Edgard Blücher, 1980.

     

    COMISSÃO DA CARTA GEOLOGICA DO PARANÁ. Folha Geológica de Piraquara. Curitiba,1967, 1 mapa: preto e branco. Escala 1:50.000.

     

    GUERRA, A. T. & GUERRA, A. J. T. Novo dicionário geológico geomorfológico, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

     

    GUERRA, A. J. T. & CUNHA, S. B. Geomorfologia: uma atualização de bases e conceitos. In: GUERRA, A. J. T. Processos erosivos nas encostas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p.149-209.

     

    GUERRA, A. J. T., SILVA, A. S. & BOTELLO, R. G. M (Org.). Erosão e conservação dos solos: conceitos temas e aplicações. In: BOARDMAM, J. Prefácio. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. p.16

     

    GUERRA, A. J. T., SILVA, A. S. & BOTELLO, R. G. M (Org.). Erosão e conservação dos solos: conceitos temas e aplicações. In: SALOMÃO, F. X. T. Controle e prevenção dos processos erosivos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. p.229-265

     

    JACOBS, G. A. Dinâmica de uso e ocupação dos mananciais na região metropolitana de Curitiba-Pr. Curitiba, 2002, 255f. Tese de Doutorado em Ciências Florestais, Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.

    SUDERHSA – SUPERINTENDÊNCIA DE DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E SANEAMENTO AMBIENTAL. Carta Topográfica da Bacia do Rio do Meio. Curitiba, 1 mapa: digital.