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E3-3.4T147

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

MEIO FÍSICO E INTERRELAÇÕES SOCIOECONÔMICAS DA

BACIA DO RIO PARDO – BA
 

 


Mauricio Santana
Moreau - mmoreau@uesc.br;

Ana Maria Souza Santos Moreau;

Raul Reis Amorim.
 


Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais

Universidade Estadual de Santa Cruz - Ilhéus - BA
 

 



Palavras-Chave: Bacia hidrográfica, rio Pardo, caracterização física.
Eixo
3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa.
Sub-eixo
3.4: Aplicação temáticas em estudos de casos.

 

 



1. INTRODUÇÃO


As regiões tropicais se caracterizam por uma marcante diversidade de áreas agrícolas, desérticas e florestais, que se distinguem por diferentes estágios, formas e intensidade de utilização pelo homem, buscando meios necessários à sua subsistência. Em geral, a estrutura destas áreas é determinada por um complexo de fatores ambientais, como: relevo, solo, clima, disponibilidade e salinidade da água, dentre outros.
Todavia, fatores econômicos como as vias de acesso e as facilidades de comercialização dos produtos agrícolas, exercem também destacada influência na ocupação ou no desenvolvimento de certas regiões. Enfatizando aos primeiros fatores, Tinsley (1964), afirma que o estabelecimento do homem sobre a terra é resultante da atuação de fatores associados a razões ecológicas.
Em substituição a áreas naturais de florestas, as principais práticas que envolvem a agricultura em regiões tropicais são os cultivos de subsistência, a formação de plantações comerciais como: seringais, cacauais, cafezais e formação de pastagens.
Toda esta dinâmica de ocupação e uso da terra e suas inter-relações com o ambiente resultam em diferentes níveis de desenvolvimento das regiões, por isso, no intuito de conhecer melhor a estrutura socioeconômica das microrregiões da bacia hidrográfica do Rio Pardo, bem como, as formas de ocupação e seu meio físico (geologia, geomorfologia, pedologia, climatologia e fitogeografia), este trabalho foi desenvolvido.

2. MATERIAL E MÉTODOS


Para caracterização dos aspectos físicos e socioeconômicos da bacia hidrográfica do rio Pardo, foram realizadas revisão bibliográfica e compilação de informações que serviram de subsídios para as discussões. Uma das principais fontes de informações utilizadas foram às publicações da CEPLAC. Dentre elas, a série: Diagnóstico Socioeconômico da Região Cacaueira, com temas específicos referentes à dinâmica do uso da terra, recursos hídricos, solos, aptidão agrícola e processo produtivo do setor agropecuário.
Consultou-se também o RADAM Brasil (Folha Salvador) que apresenta mapas geológicos, geomorfológicos, pedológicos e de vegetação, e, além disso, um caderno explicativo com descrições do meio físico.
Outras fontes de informações foram os censos agropecuários e demográficos do IBGE das décadas de setenta, oitenta, noventa e dos anos, 2000 e 2001, consultados para coleta de dados socioeconômicos. Neste caso, foram eleitos os principais municípios representativos de cada microrregião que compõe a bacia do rio Pardo para coletas destas informações.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO


3.1.Características gerais da bacia hidrográfica do Rio Pardo
A Bacia do Rio Pardo localiza-se entre os paralelos 14º41’ e 15º50’ latitude sul e os meridianos de 38º56’ - 41º43’ longitude oeste, limitando-se ao norte com as Bacias dos Rios Cachoeira, Una e Contas; ao sul com a Bacia do Rio Jequitinhonha e a leste com o oceano Atlântico.
Apresentando uma superfície de 33.480 km², a Bacia do Rio Pardo é a segunda maior do Sul da Bahia, e sua drenagem é composta, principalmente pelos rios: Salsa, o Braço Norte do Salsa, Braço Sul do Salsa, Maiquinique, Mangerona, Preto, Espírito Santo e Galante; estes na margem direita e os rios Catolé Grande, Catulezinho e Verruga na margem esquerda.
Os principais cursos d’água são o rio Pardo, que dar nome a Bacia, o canal do Peso e do Poaçu. O Rio Pardo, cuja nascente encontra-se na vertente da Serra das Almas, em Minas Gerais, na nascente recebe o nome de Pardinho e os índios Camaquans que viviam em suas margens, o chamavam de Patipe.
Este Rio, em terras baianas, corta um imenso território, tendo um curso cuja extensão é de 360 km, banhando, ao longo de seu trajeto as cidades de Cândido Sales, Itambé, Mascote e Canavieiras.
A Bacia do Rio Pardo compreende quatro microrregiões, assim representadas de leste para oeste: Cacaueira (Canavieiras, Camacan e Mascote); Pastoril de Itapetinga (Encruzilhada, Itambé, Itapetinga Itarantim, Macarani e Maiquinique); Encosta do Planalto de Conquista (Pau-Brasil e Potiraguá) e Planalto de Conquista (Barra do Choça, Belo Campo, Caatiba, Cândido Sales e Vitória da Conquista).

3.2. Microrregião Cacaueira
3.2.1.Características físicas
Esta microrregião abrange várias unidades geológicas: Grupo Barreiras, Holoceno Aluvionar, Formação Camacan, Formação Salobro e Suíte Intrusiva Itabuna.
A região de Camacan tem sua área localizada predominantemente em relevo montanhoso, enquanto o litoral do município de Canavieiras é constituído por uma grande planície, com pequenas ondulações, formada na época terciária com altitudes médias variáveis de 200 a mais de 400 m.
A precipitação média fica entre 1.200 e 1.600 mm., mas ao interior e a média fica entre 1.700 a 2.300 mm, mais próximo ao litoral. A temperatura média anual é de 24 ºC. Caracterizada pelos tipos climáticos úmido a subúmido, e seco a subúmido, dando condições para uma cobertura vegetal do tipo floresta tropical atlântica.
Os solos, na sua maioria, são medianamente profundos e moderadamente drenados, destacando-se os Latossolos e Argissolos Amarelos, Argissolos Vermelho-Amarelo Eutrófico e solos com A chernozêmico (Chernossolos). Estes solos derivam de rochas de caráter básico, entre os quais, estão os granulitos mesocráticos.
Também são encontrados solos arenosos, areno-argilosos com acumulação de matéria orgânica, denominados de "mussununga”, que correspondem aos Espodossolos com presença de Ortstein e os Gleissolos localizados nos pontos mais baixos e leito de inundação do Rio Pardo e seus afluentes. A orla da costa é arenosa, encontrando-se nela praias de coqueiros, mangues de grande porte e de densa vegetação.

3.2.2. População e Aspectos Econômicos
Camacan e Canavieiras são os municípios representativos da microrregião Cacaueira que compõem a Bacia do Rio Pardo. Com área de 635,2 km² e densidade demográfica de 49,6 hab/km², Camacan, no ano de 2000, apresentava seu maior contingenciamento (24.282 habitantes) na zona urbana, com apenas 6.773 na zona rural, mas nem sempre foi assim. Canavieiras, também com perfil essencialmente urbano, apresentava no mesmo ano, densidade demográfica bem menor que a de Camacan (25,27 hab/km²), pelo fato do município apresentar o dobro da área do anterior (1.380,50 km2). A população rural era de 8.979 habitantes e a urbana de 26.343 habitantes.
Conforme pode ser observado no Gráfico 1, nas décadas de 70 e 80 os municípios representativos desta microrregião eram essencialmente rurais, com base econômica na cultura do cacau.
 


 

Gráfico 1 – Distribuição das populações dos municípios de Canavieiras e Camacan nas áreas urbana e rural entre 1970 e 2000.

No entanto, a partir desta década houve uma inversão entre o número de pessoas das áreas rurais e urbanas. Atribui-se a atual crise da lavoura cacaueira o motivo por esse êxodo rural, pois, nos últimos anos, a crise vem gerando um alto índice de desemprego no setor agrícola. Vale ainda destacar a queda, para mais da metade na população rural, quando compara-se os dados de 1991 e 2000. Os valores da produção de cacau nos referidos anos podem, em muito, explicar esta queda. Conforme o Quadro 1, em 1991 os municípios de Camacan e Canavieiras produziram 19.180 toneladas de amêndoa, enquanto que em 2000 a produção caiu vertiginosamente para 1.801, portanto dez vezes menos.
A população total em 2000 apresentou um leve decréscimo e a urbana, no referido ano, foi a que apresentou o maior número de habitantes quando comparado com as décadas anteriores. Além do êxodo rural, outro fato que pode explicar os dados é a saída da população de baixa renda desses municípios para os centros maiores, como Itabuna, Vitória da Conquista e Ilhéus, onde passam a sobreviver de atividades informais.
Além do cultivo do cacau, a exploração de madeira de lei e produtos da extração vegetal (piaçava, principalmente) tem sido apontados como produtos econômicos desta microrregião. A partir da década de 1960, a pecuária doméstica foi sendo substituída por fazendas nitidamente pastoris, especialmente, nas porções mais afastadas da costa e com a crise da cacauicultura esta atividade ganhou um novo impulso.
A organização agrária desses municípios é complexa, coexistindo pequenos, médios e grandes estabelecimentos, sendo mais significativo o número de estabelecimento, de tamanho médio (10-100 ha).
Os municípios de Camacan e Canavieiras, principalmente este último, foi onde registrou-se maior diversificação em produtos agrícolas (Quadro 1). Este fato, embora não tenha promovido uma total substituição do cacau, possibilitou que novas áreas passassem a serem ocupadas com diferentes outros produtos. Entretanto, toda atividade considerada como de lavouras permanentes, diminuíram ao longo dos anos, refletindo pouca motivação ou impossibilidade para investimentos no setor agrícola.

Quadro1 – Quantidades produzidas nas lavouras permanentes para os municípios de Camacan e Canavieiras no período entre 1990 a 2001.


 

3.3. Microrregião Pastoril de Itapetinga
3.3.1. Caracterização física
Esta microrregião está situada sobre a unidade geológica Caraíba-Paramirim constituída por um conjunto de rochas para e ortometamórficas, abrangendo maior distribuição geográfica na Bacia do Rio Pardo. Apresenta também zonas arrasadas, com intensa cobertura eluvial, a exemplo do que ocorre nos arredores de Itapetinga. Tal feição morfológica denomina-se Depressão Itabuna-Itapetinga, localizada entre o relevo colinoso da microrregião Cacaueira e o Planalto de Conquista, estendendo-se pelos patamares intermediários, de altitudes em torno de 500 m.
Apresenta precipitação média anual de 500-900 mm, temperatura média anual variando entre 20,6 a 23,4 ºC e período chuvoso concentrado nos períodos de outubro-janeiro e março-abril. O clima é seco subúmido, úmido subúmido e úmido, tendo como conseguinte a presença da Floresta Estacional Decidual.
Os solos identificados são os Chernossolos, Argissolos Vermelho-Amarelo Eutróficos e Latossolos Vermelho-Amarelo desenvolvidos de metatexistos e depósitos detríticos e lateríticos.

3.3.2. População e Aspectos Econômicos
Comparando esta microrregião com a cacaueira, apresentada anteriormente, percebe-se no Gráfico 2, que as tendências de crescimento ou diminuição nos dados populacionais foram diferentes. A população rural diminuiu bastante entre 1970, 80 e 85, havendo a partir daí uma tendência de pouca oscilação. Por outro lado, a população urbana foi crescendo década a década. Este fato reflete-se nas mais baixas densidades demográficas da bacia, com uma nítida estagnação no crescimento da população, durante todo o período em que os dados foram coletados (Gráfico 2).

 


 

Gráfico 2 - Distribuição das populações dos municípios de Itambé, Itapetinga e Macarani nas áreas urbana e rural entre 1970 e 2000.

Além disso, observa-se que no ano de 2000, 85,2% da população dos três municípios abordados, estava concentrada nos centros urbanos. O êxodo rural pode ser explicado, em parte, pelo fato da pecuária empregar pouca mão-de-obra e já se encontrar estruturada, não incorporando um número adicional significativo de empregos. Considere-se, também, que pouca ou nenhuma mudança estrutural que absorvesse uma maior força de trabalho ocorreu desde 1970, nesta microrregião.
A pecuária bovina é a atividade que fornece as maiores divisas à microrregião, assim como também ocupa a grande maioria das terras (Gráfico 3). A suinocultura e a criação de ovinos e eqüinos desenvolvem-se paralelamente, mas num plano bem distante, apenas como suporte para esta atividade.
 


 

Gráfico 3 – Número de estabelecimentos por utilização das terras nos municípios de Itambé, Itapetinga e Macarani, que pertencem a Microrregião Pastorial de Itapetinga.

O relevo suave ondulado a ondulado e a fertilidade natural dos solos têm propiciado a pecuária extensiva, nesta microrregião, com predomínio das pastagens naturais em relação as artificiais, justamente pela capacidade de suporte dos seus solos.

3.4. Microrregião da Encosta do Planalto de Conquista
3.4.1. Caracterização física
Esta microrregião caracteriza-se por ser de clima tropical úmido (tipo Af) com florestas tropicais do tipo ombrófila, pluviosidade superior a 1.300 mm, com média anual de 1.236 mm. Registrando-se 4 períodos (fevereiro, abril, junho e agosto/setembro) com menos de 100 mm/mensais.
Situada sobre os Tabuleiros do Rio Pardo, é formada por uma bacia de sedimentação quase toda balizada por falhas, principalmente de sentido NO-SE, como a de Itapebi, que a limita a sudoeste. Os interflúvios apresentam topos tabulares, convexos ou com tendência a aguçarem-se, e encostas convexizadas, configurando colinas e outeiros, mapeados como fáceis de dissecação homogênea.
Os solos são classificados como Argissolo Vermelho-Amarelo Eutróficos e Latossolos Vermelho Amarelo. Ambos derivados da Formação Camacan, constituída de conglomerados não consolidados, com matriz predominantemente argilosa, apresentando intercalações de finas camadas de arcósio inconsolidado.

Aspectos Populacionais e Econômicos


Atualmente com uma área de 611,70 km², o município de Pau-Brasil representante desta microrregião, apresentou, em 2000, uma população urbana de 6.338 habitantes e rural de 4.308. (Gráfico 4).
 


 

Gráfico 4 - Distribuição das populações do município de Pau-Brasil, nas áreas urbana e rural entre 1970 e 2000.

Pau-Brasil apresentava densidade demográfica, em 2000, de 21,39 hab/km² e a maioria da população encontrava-se na área urbana. De 1970 para 2000 houve uma relativa diminuição na população rural, afetando o crescimento populacional da zona urbana (Gráfico 4). A acentuada diminuição na população total em 2000 justifica-se pela migração da população para Vitória da Conquista
Correspondendo a uma faixa de transição situada entre as terras predominantemente cacaueiras, a leste, e terras voltadas para a criação de gado bovino, a oeste, Pau-Brasil apresenta duas frentes de expansão da ocupação das terras: uma tendo como suporte econômico à cultura do cacau e a outra, a pecuária, que, apesar de ter sido mais tardia, vem ganhando maior força de expressão.
Aproximadamente 66% da superfície municipal de Pau Brasil pertence ao agrossistema pastoril, sendo que a pecuária ocupou 57% do território e a lavoura do cacau, 21%, em 2000.
Apesar do efetivo bovino deste município destinar-se ao corte, a pecuária leiteira também assume papel importante na região. A produção leiteira é vendida ás fábricas de laticínios mais próximas, como as localizadas em Itabuna, Itambé e Itororó.
Ao contrário da pecuária de corte, cujos rebanhos vivem preponderantemente das pastagens naturais, sem maiores cuidados nem alimentação suplementar, como discutido anteriormente sobre a microrregião de Itapetinga, a pecuária leiteira, por outro lado, é mais exigente de mão-de-obra especializada, instalações mais modernas de higiene e estábulos, manejo mais intensivo, etc. Além disso, é um tipo de atividade econômica que emprega mais mão-de-obra, conforme pode ser observado no Gráfico 4, onde o número de habitantes na zona rural é maior que no Pastoril de Itapetinga (Gráfico 2).

Microrregião do Planalto de Conquista
Caracterização física


Esta microrregião encontra-se dominada, geologicamente, por uma Cobertura Detrítica composta por material terrígeno de cor amarelada, detrítico, conglomerático, mal consolidado, com espessura variável, podendo atingir 8 m de espessura junto á serra do Maçal. Lentes finas de arenitos e conglomerados quartzosos, horizontalmente estratificados e depósitos residuais e coluvionares silico-ferruginoso também ocorrem associados.
Quanto às feições geomorfológicas, caracteriza-se por um Planalto denominado de Geraizinhos, que apresenta extensas áreas de topografias tabulares, constituídas por depósitos detríticos do Terciário e do Quaternário. As formas do relevo de ocorrência mais generalizada são os planos inclinados, que se sucedem constituindo pediplanos mais ou menos conservados.
Apresenta precipitação média anual de 500-800 mm, temperatura média anual fica entre 19,6 e 20,2 ºC, tendo como período de concentração das chuvas os meses de outubro-novembro e março-abril. Apresenta como tipos climáticos o Semi-Árido, Seco Subúmido, Úmido Subúmido e Seco Subúmido, estando situada sobre a Floresta Estacional Decidual.
Os solos são classificados como Latossolos Vermelho-Amarelo (Eutrófico, Distrófico e Álico), Latossolo Vermelho-Escuro e Argissolo Vermelho-Amarelo desenvolvidos a partir de depósitos detríticos e lateríticos de cobertura das superfícies Sulamericana.

População e Aspectos Econômicos


Barra do Choça, Belo Campo e Vitória da Conquista correspondem aos os municípios representativos desta microrregião. Em 2000, a área dos mesmos era de 781,30; 610,70; e 3.216 km² respectivamente, com população urbana de 17.721, 8.082 e 225.545 habitantes e população rural de 23.097, 9.573 e 36.974 habitantes, respectivamente.
A microrregião, desde a década de 1970 apresentou os maiores contingentes populacionais na zona urbana (Gráfico 5). A população total sofreu acréscimos significativos de 70/85 e deste período para 2000 o crescimento foi menor (IBGE, 2000). Como fatores, que influenciaram no aumento populacional, merecem destaque à construção da BR-415 (década de 1960) e a arrancada do café na década de 1970.
 


 

Gráfico 5 - Distribuição das populações dos municípios de Barra do Choça, Belo Campo e Vitória da Conquista, nas áreas urbana e rural entre 1970 e 2000.

Os municípios de Belo Campo e Barra do Choça caracterizam-se por serem essencialmente rurais, havendo inclusive nos dois municípios, um crescimento significativo da população rural da década de 70 até 2000. Em 2000, 53% e 60% da população total dos mesmos faziam parte do quadro agrário.
Sabe-se que o crescimento populacional rural, quando não é acompanhado da expansão do mercado de trabalho, no mesmo nível, faz com que a população excedente ocorra ao setor de subsistência, expandindo-o, ao mesmo tempo em que se constata um processo de partilha dos pequenos estabelecimentos já existentes, através de herança (SEPLANTEC, 1998).
A maior parte da população urbana (91%) dos três municípios se concentrou, em 2000, em Vitória da Conquista (262.494 habitantes), o principal centro da microrregião e um dos principais centros das funções regionais do Estado. Este município vem evoluindo, por sua posição, de uma tradicional função de “porta do sertão”, e beneficiando-se com a circulação moderna, especialmente com a abertura da BR-116 (Rio-Bahia).
A microrregião do Planalto de Conquista caracteriza-se pela ocorrência significativa de pequenos (<10 ha) e médios (10-100 ha) estabelecimentos que são explorados predominantemente por produtores proprietários.
A microrregião apresenta uma pequena parte de sua área destinada à agricultura, se comparada às áreas de pecuária, e, no entanto, os produtos dessa agricultura são os responsáveis pela maior parcela do valor da produção total.
A pecuária nesta região caracteriza-se pela criação de gado bovino. Vitória da Conquista, em 2001, contribuiu com 66,12 % da criação de gado da microrregião. Além do gado criado na própria região, outros animais oriundos de outras áreas, são engordados nos pastos de aluguel dos municípios em estudo, e têm em Salvador e Feira de Santana os seus centros consumidores. Destaca-se também na pecuária, a criação de suíno, sendo Vitória da Conquista o principal centro criador.
Apesar de ser encontrada áreas de rebanhos leiteiros, nas proximidades dos centros urbanos, há um predomínio da pecuária de corte, apoiada na utilização intensiva das pastagens.
Apesar das crises de seca que sempre assolam esta região, Leite (1976), indica que não há mostras de preocupação com o problema por parte dos criadores, pois os campos de palmas, segundo o autor, além de raros, não são cuidados, e, além disso, os fazendeiros não fazem qualquer provisão de recursos.
Na área ocupada com lavoura permanente, destaca-se o cultivo do café (Quadro 2). A partir da década de 1970, o café ressurgiu merecendo destaque neste processo de volta o fato do cultivo vir a ocupar uma área onde o café não passava de mera ocorrência - Barra do Choça e pela utilização de avanços tecnológicos, tais como sementes selecionadas, preparo mecânico, calagem, fertilização do solo e plantio de mudas em curvas de nível (Leite, 1976).
A região de Vitória da Conquista beneficiou-se na arrancada desta nova fase de implantação desta cultura, pela maior infra-estrutura disponível, pela maior facilidade oferecida pelos meios de comunicação e também em função da experiência anterior de ocupação.
 


 

Quadro2 – Quantidades produzidas nas lavouras permanentes para os municípios de Barra do Choça, Belo Campo e Vitória da Conquista, no período entre 1990 a 2001.
Microrregião do Planalto de Conquista
Municípios = Barra do Choça, Belo Campo e Vitória da Conquista - BA
Quantidade produzida
Lavoura permanente Ano
                               1990    1991    1992      1993    1994    1995   1996   1997   1998   1999   2000   2001
Banana (Mil cachos)  223      223      814      1.460   1.460   1.460   932     932    1.040   1.040 1.180  8984
Manga (Mil Frutos)      0         0          70         140     70       70       70       70       70      69      70      30
Café(em coco) (Ton.) 31450 31450 17788     13716    58911 18144 12600  12600  11970 19560 19287 39120
Laranja (Mil frutos)     12.000 11.820 9.632    9.016    9.016   6.310   3.164  3.955   3.990  3.955 3.955 462

CONSIDERAÇÕES FINAIS


Estendendo-se do litoral até o Planalto de Vitória da Conquista, a bacia do Rio Pardo, em linhas gerais, inclui a região úmida cacaueira, região quente e úmida da Encosta do Planalto e região semi-árida à oeste do Planalto de Conquista.
O clima nesta bacia tem grande importância, pois condicionou diferentes classes de solos, de vegetação e diversas formas de ocupação humana. No litoral, as chuvas distribuem-se de maneira regular por todo o ano, e dominando a planície, surgem os tabuleiros que formam extensos glacis de acumulação assentados sobre rochas do complexo cristalino e sobre as formações cretáceas.
Os solos aí desenvolvidos, de modo geral, são pouco férteis, condicionados pelo clima e material de origem pobre em minerais ferro-magnesianos.
A vegetação dos tabuleiros está estreitamente relacionada à natureza do terreno e ao clima, sendo no caso, floresta sempre-verde.
Após as planícies, surgem colinas constituídas de ganisses e granitos, injetados por rochas eruptivas, que deram origem a solos argilosos, profundos, de boa fertilidade. Neste ambiente sobressai-se a lavoura do cacau, que encontrou boas condições para o seu desenvolvimento.
A porção interiorana da bacia é constituída, morfologicamente, pela encosta do planalto baiano, que se estende entre o conjunto planáltico, representado pela Chapada Diamantina e a área litorânea. Estruturalmente, a encosta é modelada por rochas Pré-Cambrianas, fazendo parte da dorsal rebaixada entre a Chapada e a fossa cretácea, situada mais para leste. Nesse trecho forma uma série de planaltos, correspondendo a maciços ou blocos soerguidos de altitudes entre 800 e 1.000 m, distinguindo-se o Planalto de Conquista, de notável originalidade bioclimática.
Abaixo do planalto mencionado, desenvolvem-se extensas superfícies baixas, de altitudes entre 200 e 300 m, ocupadas pelos vales fluviais, destacando-se o vale do rio Pardo, que o compartimentou em vários interflúvios, descendo suavemente formando grandes vales.
Nesta porção, observa-se uma menor influência dos ventos alísios, justificando a ocorrência de chuvas de verão e regime de estação seca no inverno, que exerce influência também sobre a rede hidrográfica, com inúmeros rios temporários.
A flora perde a sua exuberância e desaparece o aspecto higrófilo e mesófilo da mata úmida, acentuando-se os caracteres xerofíticos.
Nesta paisagem, predominam os Latossolos Vermelho-Amarelo, Argissolos Vermelho-Amarelo Eutróficos e Distróficos e uma extensão significativa de Chernossolo Avermelhado.
Nestas porções, a condição climática adversa ao cultivo do cacau não permitiu a instalação desta cultura, por outro lado, as extensas planícies favoreceram o desenvolvimento da pecuária, que se mantêm até os dias de hoje como a base econômica dos municípios pertencentes à Microrregião Pastoril de Itapetinga.
No Planalto de Conquista, a variedade agroclimática aliada aos diferentes solos que aí ocorrem, possibilitaram uma ampla gama de cultivos e inclusive uma certa regionalização em relação àqueles mais exigentes. O café, por exemplo, tem suas áreas mais importantes nos municípios de Vitória da Conquista e Barra do Choça, onde ocorrem solos Latossólicos Álicos e Argissolos Eutróficos.
Um fator que desempenhou uma grande influência no desenvolvimento da região, foi a construção, na década de 1960, da BR-415, permitindo a interligação dos grandes centros regionais Itabuna e Ilhéus, à Vitória da Conquista e conseqüentemente a BR-116.
Mediante as informações do meio físico da Bacia do Rio Pardo e análise dos aspectos sócio-econômicos, podemos concluir que o desenvolvimento das microrregiões em apreço, nem sempre esteve condicionado diretamente à influência do meio físico.
A microrregião do Planalto de Conquista, por exemplo, apesar das condições do meio físico mais adversas, apresenta-se hoje na Bahia como um pólo de desenvolvimento, merecendo destaque o município de Vitória da Conquista. Atribuímos o eminente desenvolvimento a fatores outros, tais como: melhor distribuição das terras, uso diversificado do solo, investimentos tecnológicos e construção de vias de comunicação entre os municípios desta microrregião e as BR-101 e 116.

BIBLIOGRAFIA

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/, 04/08/2003.


LEITE, J. O. Dinâmica no uso da terra. In: Diagnóstico Socioeconômico da Região Cacaueira. Rio de Janeiro, Convênio IICA/CEPLAC, 1976. 280p. il.


SEPLANTEC – Secretária do Planejamento e Tecnológia. Análise global da economia baiana – diagnóstico. Salvador, 1974. 1v. 756p. ilus.


TINSLEY, T. W. The ecological approach to pest and disease problems of cocoa in west Africa. Tropical Science (6): 38-48, 1964.