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T167

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEORAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

A PERCEPÇÃO CLMÁTICA NO MUNICÍPIO DE CAMPINAS-SP

 

 

 

Fabiana Luz de Oliveira

Universidade Estadual de Campinas

 

 

Palavras-chave: percepção, clima, homem

 

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

Introdução e Justificativa

Mais do que em qualquer outro momento da história do homem, assiste-se atualmente a um crescente aumento de problemas de todas as ordens: contaminação do ar, solos, água, esgotamento de recursos naturais, perda de biodiversidade, crises energéticas, aumento de doenças próprias do estilo de vida estressante a qual uma parcela considerável da população mundial está submetida, violência crescente - notadamente nos centros urbanos - falta de moradia, de infra-estrutura básica, etc.

Centros urbanos de médio a grande porte concentram população, atividades econômicas e, conseqüentemente, problemas ambientais associados, particularmente amplificados nos últimos anos.

Essas questões de ordem ambiental –aqui entendidos de forma ampla, incluindo processos físicos e sócio – econômicos- têm causalidades múltiplas, complexas e com especificidades importantes no tempo e no espaço. Soluções viáveis e efetivas demandam, pois, a consideração de uma miríade de fatores, sendo que alguns têm sido ao menos parcialmente negligenciados.

A preocupação com o entendimento dos atributos físicos de um dado ambiente caracterizou a evolução das sociedades, mas encontra-se cada vez menos presente no atual estilo de vida. Alguns locais do globo com distintos regimes climáticos (e conseqüentemente processos bióticos e abióticos associados diversos) – apresentam arquitetura, materiais de construção, cores predominantes usadas nas edificações e atividades econômicas profundamente relacionadas com as características ambientais, de forma a tirar o melhor proveito das condições dominantes. Manifestações artísticas e culturais comprovam essa preocupação, de forma que o folclore, as lendas, o cancioneiro e os provérbios revelam um conhecimento das condições prevalecentes de tempo e clima, com associações em geral pertinentes, ainda que não acompanhadas de uma explicação científica da gênese das situações.

Entretanto, observa-se que o estilo de vida atual das populações de municípios de médio e grande porte caracteriza-se por um pequeno comprometimento com o seu ambiente, o que muitas vezes reverte contra esses habitantes, não raro vitimados por episódios que fazem parte da dinâmica atmosférica do local, como chuvas convectivas -eventos comuns nos regimes climáticos da maior parte do território nacional.

Há uma crescente falta de ajuste entre a população, seu ambiente, as atividades econômicas predominantes e o estágio de desenvolvimento atual da sociedade. Cada vez mais externalidades comandam o modo de vida das populações, aumentando o descomprometimento de uma dada sociedade com o seu ambiente físico-cultural.

A questão da percepção climática pelas populações –que certamente reveste-se de variados matizes, de acordo com a sociedade, o lugar, o momento-adquire importância tanto no contexto do dia-a-dia como naquele referente a questões de mais longo prazo, como eventuais mudanças climáticas.

Assim, este estudo tem por objetivo avaliar a questão da percepção climática dos moradores de Campinas-SP, pólo científico, industrial e tecnológico, de grande expressão no Brasil, cuja importância ultrapassa os limites estaduais e até nacionais.

A Região Metropolitana de Campinas (RMC) agrega 19 municípios, abriga 2,3 milhões de habitantes, o que equivale a 6,3% da população do Estado de São Paulo. Segundo pesquisas realizadas pelo governo estadual, a RMC soma 12% das intenções de investimento em São Paulo (http://www.campinas.sp.gov.br).

Contrastando com esse quadro de modernidade e importância, o município, todavia, carece de inúmeras informações, principalmente com relação aos problemas ambientais decorrentes da ocupação desordenada, rápida e agressiva do espaço territorial, questões compartilhadas em diferente extensão com outros centros urbanos brasileiros.

Esses fatos podem ter como uma de suas causalidades a perda de contato da população com o meio natural, o “divórcio” das pessoas com o ambiente.

Segundo Day (1979) “É por meio dos processos perceptivos que mantemos contato com o ambiente. Até a mera sobrevivência depende de um contínuo ajustamento perceptivo à grande variedade de energia em contígua mudança que nos cerca. Por essa razão, o estudo da percepção é fundamental para a compreensão do comportamento e da experiência dos seres humanos”.

Sartori (2000) coloca que “O clima representa papel estratégico na percepção do homem em relação ao meio ambiente -sendo objeto estudado na bioclimatologia humana- o problema de como os indivíduos percebem o clima é parte principal no campo da percepção ambiental, pois ele está na interface entre as pessoas e o ambiente”.

Para Tuan (1980) “as atividades do homem rural estão vinculadas aos grandes ciclos da natureza, sendo um observador do seu entorno, mais atento do que em qualquer outro ambiente”.

Já no meio urbano a ação antrópica cria um ambiente peculiar, com alteração no recebimento de energia primária, produção e consumo de energia secundária, importação e canalização de água e de outros materiais, mudança no uso da terra, na topografia, contaminação do ar, da água, do solo e modificações na fauna e na flora.

A inclusão de infra-estruturas urbanas induz alterações no clima local ao mesmo tempo em que o comprometimento das pessoas com o ambiente natural fica cada vez mais indireto, tendo em vista que a maioria da população trabalha e/ou estuda em locais fechados e se locomove através de veículos, restando pouco tempo para o contato direto ou indireto (pela observação) com o ambiente, inclusive atmosférico

Sem dúvida o clima interfere em nossa vida e bem-estar de muitas maneiras, e determinar a extensão de sua influência não é tarefa fácil.

Segundo SHAW (1965) ”o clima atua sobre o homem de três modos principais: 1) constrói obstáculos que limitam seus movimentos; 2) é o principal fator físico influenciando a natureza e a quantidade da maioria dos materiais necessários a alimentação, vestuário e abrigo; 3) tem influência direta e importante sobre a saúde e energia humana”.

Sensações de conforto ou desconforto e a percepção climatológica e meteorológica -estas últimas sendo a maneira como se percebe e como se sente o clima e o tempo- podem ser enquadradas como uma faceta mais diversa e complexa da percepção geográfica, a qual desde os anos sessenta, começara a despertar a atenção dos pesquisadores com diversas formações (geógrafos, urbanistas e psicólogos), num conjunto de base espacial e psicológica ligada a percepção do meio. (VIDE, 1990).

Objetivos

    1. Objetivos Gerais

A pesquisa visa avaliar o grau de percepção dos indivíduos que vivem no meio urbano e rural com relação ao seu ambiente climático, tendo por enfoque o município de Campinas-SP.

Objetivos Específicos

  • Colaborar para o desenvolvimento dos estudos de percepção ambiental, sobretudo climática, área que ainda não é bem explorada em nosso país.

  • Organizar e analisar os dados climáticos de forma a poder identificar fatos habituais e anômalos do clima.

  • Elaborar e aplicar questionários que sejam representativos e que demonstrem a realidade perceptiva dos indivíduos.

  • Entender melhor a relação homem rural-clima e homem-urbano-clima e identificar as diferenças e semelhanças destas relações.

  • Contribuir para um melhor planejamento no município de Campinas, que considere a percepção dos moradores como fator relevante na organização do espaço.

A percepção dos moradores do município com relação ao comportamento climático será apurada tendo por base a aplicação de questionários a serem respondidos por munícipes de diferentes níveis de escolaridade, idade e morando em pontos diversos de Campinas. Alguns trabalhos (SARTORI, 2000) demonstraram que a percepção do tempo e do clima pelo homem rural e urbano é bastante diferenciada, de forma que nesse estudo essa questão será investigada.

A pesquisa será conduzida para dois períodos:

  • nível temporal mais curto (diário): serão selecionados alguns episódios recentes que, segundo as análises estatísticas, tenham características de eventos habituais e excepcionais. Os questionários conterão perguntas gerais fechadas (sexo, idade, profissão, endereço, tempo de residência no local) e abertas e fechadas com relação a percepção climática, mas não direcionadas, de forma que a percepção dos entrevistados quanto ao real comportamento dos episódios em análise possa ser checada. Nesse nível será possível inferir informações quanto a percepção do tempo atmosférico.

  • Nível temporal mais longo (em princípio, três anos recentes (2000-2001-2002): Nesta etapa serão selecionados alguns entrevistados da etapa anterior, segundo o critério de residência no local. Os indivíduos que residam a mais de cinco responderão novamente questões relacionadas ao clima do local.

Estima-se aplicar 100 questionários destinados a moradores das áreas urbana e rural do município de Campinas, mas de forma proporcional, de maneira a se ter representatividade na comparação dos resultados. Estes questionários serão elaborados, testados e aplicados a partir da definição dos episódios a serem averiguados mais detalhadamente (etapa anterior).

Após esses levantamentos, serão elaborados gráficos, mapas e tabelas para interpretação dos resultados, em correlação com os fatos climáticos, de maneira a aferir o grau de percepção climática das diferentes parcelas da população campineira.


BIBLIOGRÁFIA BÁSICA

 

Day, R.H. Psicologia da Percepção. Rio de Janeiro: José Olympo Editora, 1979.

 

Lutz, J.T. “Climate Perception”. In: The Journal of Geography. 73 (9): 21-37. Dezembro,1974.

 

Sartori, M.G.B. Clima e Percepção. v.1(227p). Tese de Doutorado-FFLCH. São Paulo: Univesidade de São Paulo,2000.

 

Tuan,Y. Espaço e Lugar. São Paulo: Editora Difel,1980.

 

Tuan,Y. Topofilia. São Paulo: Editor Difel,1983.

 

Vide, J.M. La percepción del clima en las cidades. In: Revista de Geografia.v.4:27-33. Barcelona,1990.

 

Wilks, D.S. Theoretical Probability Distributions. In: Statistical methods in the atmospheric sciences. p.86 –93. San Diego, 1995.

 

Sítio especializado: Prefeitura municipal de Campinas: http://www.campinas.sp.gov.br