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    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

    CAMPOS PERDIDOS: SIGNIFICADO E SIGNIFICÂNCIA




     

     

    Elves Marcelo Barreto Pereira

    Andréa dos Santos Coelho





    Palavras chave: paisagem, modo de vida

    Eixo 3: Aplicação da Geografia à Pesquisa

    Sub-eixo 3.4: Aplicações Temáticas em Estudos de Caso





     

     

    Partindo de análises feitas em campo na região da bacia do rio Tapajós,constatamos as diferenças existentes entre os gêneros de vida das populações ribeirinhas residentes em relação  às de outras populações de bacias como as dos rios Tocantins,Pará e Amazonas,tomando como  ponto de referência o comportamento do  relevo,que condiciona a forma como organizam suas moradias por exemplo.

    Trabalhamos gênero de vida dentro das perspectivas de Marx Sorre: “ Não é exagerado considerar o gênero  de vida,pelo menos inicialmente como combinação de técnicas’;

    Conjuntos de técnicas,os gêneros de vida são formas ativas de adaptação dos grupos humanos ao meio geográfico.Da especialização deste, de sua estabilidade depende, em grande parte, a especialização e a estabilidade do gênero de vida, suas possibilidades de duração. Suas mudanças locais traduzem-se como variantes’;

    ‘Os elementos espirituais contam tanto quanto os elementos materiais, mais acessíveis .E naturalmente, também contam os elementos sociais:a constituição de um gênero de vida é inconcebível fora de uma sociedade organizada.” (Max Sorre)

    Essa diferenciação no gênero de vida das comunidades situadas às margens dos rios amazônicos mostra-nos que não se deve generalizar  os povos da Amazônia. Pois mesmo as comunidades ditas ribeirinhas, podem possuir em comum uma única característica, o fato de estarem localizadas às margens dos rios, dado este que  entendemos como insuficiente para caracterizar a comunidade como ribeirinha e os indivíduos residentes nela como ribeirinhos.Pois entendemos como comunidade ribeirinha aquela onde o rio é o  principal referencial na organização de sua reprodução, constituindo-se dessa forma como o espaço das relações sociais que canalizam os fluxos de pessoas e informações. Como também sendo  o principal provedor de alimentos.Mas também é o espaço do simbólico de onde se originam seus mitos e crenças. Esta é uma discussão interessante mas não é o que pretendemos desenvolver neste momento,mas que nos serve de base para compreendemos São Luiz doTapajós como comunidade ribeirinha.

    São Luiz do Tapajós,distrito do município de Itaituba no oeste do Estado do Pará,está localizado à margem direita do rio Tapajós apresentando as seguintes coordenadas geográficas  S 4º 27’29.2” W 56º 14’59.8”.

    A história de povoamento desta comunidade remonta ao séc. XIX,e coincide com o ciclo da borracha que teve em São Luiz do Tapajós um de seus entrepostos comerciais. Esse fato concorreu para  que a comunidade  vivenciasse um período de relativa   prosperidade  em decorrência  das atividades desenvolvidas pelo comércio do látex.  As ruínas presentes no que foi a antiga orla e também das construções como prédios e a praça em frente a igreja matriz testemunham esta época.

    Com o declínio do ciclo da borracha na Amazônia, São Luiz do Tapajós entra em um processo de desestruturação de sua organização espacial, e estagnação econômica, seu espaço foi reestruturado tendo suas atividades reprodutivas organizadas com base na pesca e agricultura de subsistência.  A construção da transamazônica, que havia sido inicialmente projetada para acompanhar a margem direita do rio Tapajós, teve sua rota alterada para a sede do município de Itaituba, que fica localizada na margem esquerda, fazendo com que as expectativas criadas em torno do projeto, pelos moradores de  São Luiz do Tapajós, fossem frustradas. Estes viam no acesso a rodovia a possibilidade de terem sua economia re-aquecida.

    O distrito de São Luiz do Tapajós possui dentro de sua área limite um intrigante ambiente que se configura em campos naturais com presença de “dunas e vegetação de restingaem meio a uma área de floresta ombrófila densa, quase ou nada mexida pelo homem, conhecido pela população local como Campos dos perdidos  ou Campos Perdidos, esse nome se deve ao fato, segundo alguns moradores, de que no passado os índios inicialmente e depois os caçadores que passaram a residir na comunidade, ao adentrarem  nos  campos sentiam-se perdidos pois a trilha feita na mata parecia não possuir continuação a partir desse ponto.

    Como foi salientado as principais atividades de reprodução do gênero de vida desta comunidade assentam-se na pesca e na agricultura de subsistência, como também na caça e algumas atividades extrativistas.O interessante é que todas as atividades estão organizadas dentro de uma lógica que caracteriza a comunidade como ribeirinha e que a relação com os campos dos perdidos refere-se como atividade complementar na reprodução do seu gênero de vida.

    Tendo consciência da dinâmica social não estamos aqui rezando pela eternização do gênero de vida que ocorre em São Luiz do Tapajós. Estamos querendo entender uma realidade que pode sofrer grandes mudanças com a implantação de um projeto de eco-turismo promovido pelo SEBRAE,o qual possui como ponto de referência o campo dos perdidos.Este projeto inclui cachoeiras, que surgem principalmente no período do  “verão amazônico”, que se caracteriza por uma diminuição das chuvas fazendo com que as águas do rio Tapajós diminuam; permitindo o seu aparecimento assim como praias nas margens do rio.

    Os campos dos perdidos podem ser  localizados a partir das seguintes coordenadas geográficas S 4º 26´30.6”  W 56º 13´101” .As principais características observadas são: vegetação sobre o solo arenoso,predomínio de gramíneas fazendo lembrar uma grande plantação de arroz amadurecida, este aspecto  reflete a coloração avermelhada na foto de satélite, sobre as elevações de areia aparece uma vegetação semelhante a de praias e dunas litorâneas, nessas elevações a vegetação é rarefeita e com espécies exóticas,entre estas elevações existe uma vegetação de características caducifólia.Registra-se também a abundância de bromélias dentre elas o ananás ,no entorno dos campos  há a ocorrência de pequenas palmeiras  cujo as copas se sobressaem ,em alguns casos formam um cordão indicando a presença de água.Além disso aparece com certa freqüência nas bordas dos campos grandes palmeiras como inajá, miriti,bacaba e tucumã.

    A grande indagação é: em que consiste a formação dos campos dos perdidos?Trazemos para reflexão dois paradigmas que explicam a dinâmica da paisagem e do ecossistema Amzônico,o primeiro parte dos pricípios climatológicos e o segundo dos princípios geológicos.

    Nas épocas glaciais quando  E é mínimo a  evaporação é menor nos oceanos (já mais frios) e as latitudes tropicais tornam-se semi-áridas. A redução da radiação solar durante as épocas glaciais, eo conseqüente abaixamento da temperatura oceânica ( acompanhado do deslocamento para o norte do anticiclone atlântico sul) , reduziu a evaporação  no cinturão dos ventos alísios.Esse fato restringiu a precipitação sobre o Brasil,conduzindo a mudanças sistemáticas nos padrões de vegetação. As áreas anteriormente cobertas por florestas,passaram  a  vegetação aberta,expondo o solo a ação direta das chuvas. Embora a  precipitação tivesse diminuído, o escoamento superficial tornou-se mais efetivo, provocando intensa erosão do solo.

    Durante os episódios de semi-aridez, as florestas ficaram  restritas aos refúgios onde as condições ambientais permitiram sua sobrevivência. Nas fases úmidas, o intemperismo  químico tornou-se generalizado e a floresta atingiu sua máxima expansão. O manto de intemperismo formado sob condições climáticas úmidas é grandemente removido pela erosão mecânica das fases semi-úmidas.A descrição dos sistemas morfogenéticos não é possível sem levar em conta as relíquias das formas quaternárias pretéritas. (RADAM)

    Na região de Itaituba as rochas aflorantes fazem parte da bacia paleozóica do  Amazonas que em profundidade está representada pela formação Itaituba,Monte Alegre, Curuá, Maecurú, Trombetas e o embasamento cristalino,segundo informações do geólogo Josafá Ribeiro de Oliveira da CPRM-Pa, e ainda com base na perfuração de um poço profundo para a COSANPA(companhia de saneamento e abastecimento do Pará)  perfurado pela CONTEL-HIDROENGE empresa de Araraquara-Sp, mostrou que  esse embasamento está a uma profundidade de 348m.Essa formação em profundidade foi diagnosticada pelo poço da CAIMA  a 30km de Itaituba perfurado pela CPRM-Am.Contudo não atingiu o embasamento a 278m, sendo que com a profundidade de 230m atingiu-se a formação Maecurú/Trombetas.

    Com base nessas explicações o geólogo consultado levanta a hipótese de que os campos perdidos sejam o afloramento da formação Trombetas que é formada por quatro membros: Manacapuru, Pitinga, Nhamundá e Autás – Mirim, ou da formação Monte Alegre.

    Sabemos que os projetos de turismo ao serem implantados em uma determinada localidade promovem grandes mudanças no que se refere a sua organização, pois as atividades reprodutivas, até então existentes, são em grande parte substituídas, em virtude da idéia implícita de desenvolvimento que estes projetos carregam.

    Neste momento a pergunta fundamental é: que significância terá o campo dos perdidos no gênero de vida dos moradores de São luiz do Tapajós com a implantação deste projeto?

    Acreditamos ser necessário um planejamento que tenha em vista os períodos de baixa e alta temporada turística, pois se a população passar a ter no turismo seu principal referencial de reprodução, poderá repetir as experiências existentes no nordeste paraense,por exemplo, onde os impactos sócio-ambientais foram as maiores heranças.

  2. r exemplo, onde os impactos sócio-ambientais foram as maiores heranças.