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    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

    ESTRUTURA DA FLORESTA ATLÂNTICA DE ENCOSTA E ARQUITETURA DE RAÍZES ARBÓREAS: MACIÇO DA TIJUCA - RJ.[1]

    Rodrigo Otávio Neri de Campos Basile (Mestrando – PPGG / IGEO / UFRJ).[2]

    André Batista de Negreiros (Graduação em Geografia / IGEO / UFRJ).[3]

    Felipe Lima Campos Guimarães Miguel (Graduação em Geografia / IGEO / UFRJ).[4]

    Ana Luiza Coelho Netto (Professora-Titular – PPGG / IGEO / UFRJ).[5]

     

    Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

    Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

     

    1 INTRODUÇÃO:

    A remoção da vegetação através geralmente resulta num aumento da freqüência de deslizamentos. É consenso, portanto, de que a vegetação florestal propicia altas taxas de infiltração e favorece o armazenamento das águas pluviais em subsuperfície. Em nível local, porém, a floresta desempenha um papel relevante no que diz respeito à variabilidade espacial do processo de intercepção das chuvas pelas copas arbóreas e serapilheira, promovendo uma redistribuição da precipitação terminal e, portanto, influenciando as entradas diferenciais de água no solo. Neste sentido, a vegetação consiste num dos elementos estabilizadores das encostas, promovido principalmente pelo papel das raízes (PRANDINI, 1976).

    Entretanto, ao passo que as florestas localizadas em regiões de clima temperado apresentam uma característica mais homogênea, aquelas localizadas em regiões tropicais apresentam características bastante heterogêneas no que diz respeito à sua morfologia composição, e estrutura, resultando conseqüentemente, numa diversidade de padrões de enraizamento.

    Estudos anteriores desenvolvidos no GEOHECO Laboratório de Geo-Hidroecologia / UFRJ (COELHO NETTO, 1979 e 1985, Freire Allemão, 1997 [a] e [b]; Freire Allemão et al., 1995 e 1997; Jansen, 1996 e 2001, JANSEN et al., 2000; Nunes et al., 1991 e 1992) destacam a importância da interação relevo-rocha-solo-biota e suas implicações na regulagem da hidrologia de encosta e, por conseguinte, sua relação com o controle dos processos erosivos. Dentre esses autores, uma série de questões foram direcionadas ao entendimento do papel das raízes no controle da hidrologia de subsuperfície, seja através de mapeamentos de raízes (FREIRE ALLEMÃO, 1997 [a] e JANSEN, 2001), estudos de tensiometria, visando avaliar a recarga de água no solo em associação à extração de água pelas raízes (CORRÊA et al., 2002; FREIRE ALLEMÃO, 1997 [b] e SILVEIRA et al., 2001), bem como experimentos de laboratório com o objetivo de entender o processo de percolação da água no solo através da formação de rotas preferencias desempenhadas pelas raízes e dutos (BASILE, 2002; BASILE et al., 2002; JANSEN, 2001 e JANSEN & COELHO NETTO, 1998).

    Verifica-se ainda, a necessidade de um aprofundamento na compreensão da distribuição dos sistemas radiculares in situ, principalmente se for considerado que o conhecimento disponível da morfologia e comportamento espacial das raízes em florestas tropicais de Mata Atlântica ainda é extremamente rudimentar.

    Os estudos conduzidos por FREIRE ALLEMÃO (1997 [a]), mostraram uma predominância de um posicionamento vertical no padrão de enraizamento observado nas porções superior e média de encosta no Maciço da Tijuca, ao passo que JANSEN (2001) verificou a preponderância do padrão horizontal de enraizamento próximo ao topo do solo e vertical em profundidade. Todavia, o primeiro autor conduziu seus estudos em cortes de estrada, o que induziria um crescimento vertical das raízes, considerando a falta de espaço para o espraiamento lateral, enquanto que o segundo realizou seus trabalhos em uma área de baixa declividade próxima ao divisor, com base na abertura de uma trincheira.

    Essa diferença observada indica a necessidade de se ampliar a amostragem das estruturas de enraizamento, considerando-se que ainda não se conhece o seu funcionamento em floresta climácica local, onde as raízes estão na plenitude de suas funções mecânicas e hidrológicas, bem como não foram realizadas pesquisas em encostas retilíneas mais íngremes, onde ocorrem a maior parte dos movimentos de massa, como apontam os estudos conduzidos por COELHO NETTO (1996), indicando que grande parte dos movimentos de massa oriundos das fortes chuvas de 1996 ocorreram em encostas íngremes próximas aos divisores e em degradadas (florestas secundárias inicial e gramíneas) em processo de retração. Tendo em vista que apenas 12% desses deslizamentos ocorreram em florestas mais preservadas (OLIVEIRA et al., 1995), isso leva a crer a importância do sistema radicular no controle de movimentos de massa em encostas íngremes florestadas.

     

    2 OBJETIVO:

    Devido à diversidade de padrões de enraizamento, torna-se necessário conhecer a variabilidade espacial dos sistemas radiculares e suas implicações no controle das propriedades hidrológicas e mecânicas das encostas. Assim sendo, se propõe avaliar as características do estado sucessional da vegetação de floresta preservada e conhecer a arquitetura dos sistemas radiculares em mata atlântica localizada em uma encosta íngreme com cobertura de floresta climácica local e avaliar suas implicações na hidrologia de subsuperfície de maneira a ampliar o conhecimento científico acerca dos processos de percolação e perda por evapotranspiração da água cujas diversas benesses incluem o aumento da estabilidade de encostas.

     

    3 ÁREA DE ESTUDO:

    A Bacia do Rio dos Macacos

    Esta é a maior bacia dentro vertente sul do Maciço da Tijuca / RJ – Figura 1 -, possuindo uma área de 6.8 km2 (688 ha) e constitui-se como um sistema que deságua na lagoa Rodrigo de Freitas e, em períodos de chuvas intensas, os processos erosivos originados nas cabeceiras da bacia e ao longo dela, são responsáveis pelo assoreamento dos drenos, resultando, conseqüentemente, em enchentes que criam inúmeros transtornos em áreas densamente povoadas, além de perdas de vidas humanas.

    A Mata do Pai Ricardo

    A área laboratório desse trabalho localiza-se na mata do Pai Ricardo, inserida na bacia do rio dos Macacos, vertente sul do Maciço da Tijuca – RJ. Constitui-se, possivelmente, como o melhor trecho de floresta de todo o maciço, em função de sua extensão, estágio sucessional e, principalmente, pelo estado de concentração da mesma, possuindo cerca de 200 ha de mata. Trata-se de uma formação primária de Mata Atlântica, toda englobada pela Floresta Ombrófila Densa Submontana, que ocorre na faixa de altitude de até 500 metros, sendo então substituída pela Floresta Ombrófila Densa Montana. O ponto culminante da bacia é o Pico da Carioca, com 784 metros de altitude. Sua drenagem se faz através de numerosos tributários, como o riacho Pai Ricardo, córrego Xaxim, rio do Ouriço, riacho Sete Quedas e riacho Andaime e durante muito tempo, a água do rio dos Macacos abasteceu a cidade.

    Segundo um trabalho pioneiro produzido em 1948 por Occhioni[6], toda a Floresta do Pai Ricardo não sofreu efeito do fogo e tampouco foi utilizada para plantios, sendo encontradas, até hoje, espécies típicas de mata primária.

     

     Figura 1: Mapa de localização

     

    4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS:

    4.1 Caracterização da Estrutura da Vegetação:

    Demarcação da Parcela e Critérios de Inclusão:

    Para fins de comparação com a caracterização dos sistemas radiculares a serem mapeados nas trincheiras, foi realizado um levantamento da estrutura da vegetação em uma encosta retilínea íngreme na área de estudo. Foi escolhida uma encosta íngreme retilínea com declividade em torno dos 35º e então demarcada uma parcela quadrada de 1024 m2 (32 x 32 m), de forma a estar de acordo com a área de amostragem mínima de 1000 m2, ou 0.1 ha padronizada cientificamente.

    Visando facilitar o levantamento de campo, a parcela foi dividida em 4 sub-parcelas de 256 m2 (16 x 16 m) cada, resultando em sub-parcelas A, B, C e D com a referida medida. De forma a agilizar ainda mais o referenciamento espacial dos indivíduos arbóreos na parcela, estas sub-parcelas foram ainda subdivididas em 4, totalizando 16 parcelas menores com medidas de 64 m2 (8 x 8 m) cada, conforme pode ser observado na Figura 2 abaixo. Esta subdivisão permitiu o referenciamento acurado dos valores nas posições dos eixos X e Y, gerando um mapa de distribuição espacial dos indivíduos a ser observado mais adiante na Figura 4.

    Tendo em vista caracterizar o estrato arbóreo, foi adotado como critério de inclusão, os indivíduos com altura mínima de 1.30 m e PAP (Perímetro à Altura do Peito) mínimo de 8 cm, correspondendo a um DAP (Diâmetro à Altura do Peito) mínimo de 2.55 cm. Em inventários fitossociológicos, VUONO (2002) destaca que tais medidas são mundialmente padronizadas e que o patamar mínimo de DAP é o ideal para levantamentos em terrenos de grande declividade ou em áreas perturbadas, permitindo a inclusão de algumas espécies do sub-bosque e de indivíduos jovens dos estratos superiores. Foram analisados os seguintes parâmetros: 1 -Número total de indivíduos; 2 - Altura total de cada indivíduo; 3 - Perímetro à Altura do Peito (PAP) e cálculo posterior do DAP seguindo o padrão de medição a 1.30m do solo; 4 - Localização das árvores no interior da parcela com base em eixos X e Y; 5 - Número de árvores com a presença de plantas epífitas; 6 - Distinção entre árvores vivas e mortas.

     

     

    Figura 2: Esquema de visualização da parcela de estrutura da vegetação em encosta íngreme retilínea inserida na mata do Pai Ricardo – Maciço da Tijuca – RJ.

     

    4.2 - Mapeamento dos Sistemas Radiculares

    Buscando avaliar a distribuição de raízes in situ, o método utilizado consiste na abertura de uma trincheira ou parede de perfil, que consiste em cavar uma trincheira em uma encosta íngreme e retilínea dentro da parcela de estrutura da vegetação e remover uma fina camada da parede do perfil, de modo a expor as raízes, que depois são contadas e registradas.Abriu-se uma trincheira de 1.5 x 1.5 m por 1.5 m de profundidade situada a 35º de declividade próximo ao centro da sub-parcela A-2 (ver Figura 2), de modo a se mapear as raízes expostas nas paredes da trincheira (perfis verticais). Há de se considerar também que não havia nenhuma árvore de grande porte junto às bordas da trincheira.

    Foram analisados os seguintes parâmetros: número de raízes por profundidade (em intervalos de 0-20, 20-40, 40-60, 60-80, 80-100, 100-120, 120-140 cm); diâmetro das raízes (foram incluídas na amostragem as raízes com diâmetro superior a 1 mm); comprimento exposto das raízes e; ângulo de orientação das raízes. Este último parâmetro foi feito de modo grosseiro, sendo dividido em raízes com 0º (horizontais), próximas a 30º (oblíquas-horizontais), próximas a 60º (oblíquas-verticais) e próximas a 90º (verticais).

     

    5 – RESULTADOS PRELIMINARES E DISCUSSÃO:

     5.1 - Dados Obtidos com a Estrutura da Vegetação:

    Para classificar uma floresta climácica, uma série de fatores deve ser considerada. Quando a vegetação se desenvolve em áreas de baixa ou nenhuma declividade, isso resulta numa maior competitividade entre as plantas, principalmente no que diz respeito à absorção de luz. Quando uma determinada espécie necessita mais de luz para se desenvolver, ela vai investir no seu crescimento vertical (aumento da altura), de forma a suprir suas necessidades e, conseqüentemente, para que possa se sustentar vai desenvolver mais o diâmetro do seu tronco, resultando em indivíduos robustos. Tal estratégia faz com que outras árvores que precisam de luz, mas que ficaram sombreadas por estas que se desenvolveram, adotem o mesmo processo, ao passo que aquelas que não têm a mesma necessidade não cresçam tanto. Assim, tem-se uma floresta multi-estratificada e mais competitiva.

    Já em uma floresta de encosta, a distribuição das árvores ao longo da mesma, faz com que a incidência de radiação solar se dê de maneira quase que uniforme, reduzindo a competitividade entre as plantas para absorção de luz. Isso diminui a necessidade de crescimento vertical (o que pode acondicionar o tamanho do diâmetro), ainda mais quando associado ao fato de que sob declividade acentuada, a espessura dos solos tende a ser menor do que nos fundos de vale, fazendo com que as árvores não tenham muito embasamento para desenvolver suas raízes de forma a sustentar um indivíduo de porte muito grande. A floresta é então, menos estratificada.

    Mesmo em regiões de floresta mais preservada (climácica local) a vegetação pode apresentar algumas diferenças dependendo do ambiente em que esteja situada. Um estudo desenvolvido no Maciço da Tijuca RJ faz uma comparação entre as áreas basais (área ocupada pelo somatório dos troncos das árvores em uma determinada unidade de área, expresso em m2/ha) encontradas em diferentes formações do tipo clímax local, apontando que diferenças nesses parâmetros podem ocorrer, sem que isso compromenta o grau de conservação das mesmas.

    A parcela estudada apresentou um total de 345 indivíduos arbóreos com Diâmetro à Altura do Peito (DAP) maior do que 2.55 cm, resultando numa área basal de 36.62 m2/ha e apresentando uma densidade de vegetação relativamente alta, conforme pode ser visualizado na Figura 3.

     

     

    Figura 3: Mapa de distribuição dos indivíduos arbóreos na parcela de estrutura da vegetação. Mata do Pai Ricardo – Maciço da Tijuca – RJ. Indivíduos com DAP maior que 2.55 cm e altura superior a 1.30 m. Representações em escala.

     

    O baixo número de árvores mortas (2 indivíduos, o que eqüivale a 0.57% do total) representa um valor normal para áreas de avançado estágio sucessional, bem como um elevado número de árvores com a presença de plantas epífitas (170 indivíduos de 345, equivalendo a 49% do total), reforça a idéia de floresta desenvolvida (BUDOWSKI, 1985).

    Foi observado também a ocorrência de árvores em todas as classes de diâmetro estabelecidas (Figuras 4 e 6), sendo ainda que 1.45% dos indivíduos possui DAP maior do que 40 cm (das quais 2 possuem DAP superior a 50 cm), com uma média geral para a parcela como um todo de 8.15 cm (desvio padrão de 2.59). Tais valores dificilmente são encontrados em florestas com pouco desenvolvimento.

    A distribuição dos indivíduos com base na altura mostrou uma predominância daqueles com altura entre 2.5 e 5 m (Figuras 5 e 7), sendo que a média geral ficou em 7.51 m (desvio padrão de 1.33). Há de se considerar, no entanto, que dentro desta classe predominante uma grande parte das árvores possui altura próxima a 5 m.

    Não foi observada também uma grande presença de árvores com troncos múltiplos, ou seja, aquelas onde há uma ou mais ramificações do tronco abaixo da altura de 1.30 m (valor estabelecido para altura do peito), cuja presença numerosa indica florestas de pouco avanço sucessional. Do total de indivíduos (345) apenas 19 apresentaram troncos múltiplos (5.5%), o que não é um número elevado, não sendo, portanto, um indicador de degradação.

      

     

    Figuras 4 e 5: Gráfico de distribuição percentual das árvores inseridas na parcela por classes de DAP e altura, respectivamente.

     

     

    Figuras 6 e 7: Gráfico síntese das médias gerais de DAP e altura nas 4 sub-parcelas, respectivamente.

     

    A Figura 8 mais abaixo expressa a relação entre a altura dos indivíduos arbóreos mensurados e o seu DAP e serve para representar a variedade da estrutura da vegetação caracterizada na parcela. Através dela é possível notar que existe uma tendência de correlação entre árvores de menor altura com um menor DAP, sendo que foram observados indivíduos com um diâmetro relativamente pequeno e uma elevada altura (em comparação com árvores de diâmetro semelhante e altura bem menor, isto é, menores que 20 m). Tal concentração ocorre mais especificamente na faixa de diâmetro entre 10 e 30 cm, onde a variação de altura é maior, em contrapartida à faixa de DAP com até 10 cm, cuja altura das árvores se concentra majoritariamente em até 10m.Um outro estudo de estrutura da vegetação já foi feito em uma “janela” de mata climácica na mata do Pai Ricardo (GEOHECO-UFRJ / SMAC-RJ, 2000) e serviu de comparação com os dados ora apresentados. Da mesma forma, JANSEN (2001) também conduziu estudos sobre sistemas radiculares e realizou um levantamento da estrutura da vegetação próximo a um divisor na bacia das Cobras localizada no Maciço da Tijuca – RJ (Tabela 1).

     

    Figura 8: Gráfico de correlação das alturas das árvores da parcela com o seu diâmetro

    (DAP x H). Total de 345 indivíduos.

     

    Tabela 1: Quadro comparativo dos dados obtidos com levantamentos de estrutura da vegetação em 3 estudos no Maciço da Tijuca – RJ.

    Parâmetros Analisados

    Este Estudo

    GEOHECO-UFRJ / SMAC-RJ, 2000

    JANSEN, 2001

    Área laboratório

    Mata doPai Ricardo

    Mata doPai Ricardo

    Bacia das Cobras

    Posição no relevo

    Encosta íngreme

    Fundo de vale

    Divisor

    Indivíduos amostrados

    345

    178

    512

    Área amostrada

    1024 m2

    800 m2

    1024 m2

    Área basal total

    36.62 m2/ha

    97.3 m2/ha

    55.5 m2/ha

    DAP mínimo para inclusão

    2.55 cm

    2.55 cm

    2.55 cm

    Altura mínima para inclusão

    1.30 m

    1.30 m

    1.30 m

    DAP médio

    8.18 cm

    12.8 cm

    7.39 cm

    Altura média

    7.51 m

    9.2 m

    7.07 m

    Maior DAP

    70.6 cm

    165.5 cm

    109.87 cm

    Maior altura

    28 m

    45 m

    26 m

    Árvores mortas

    0.57 %

    1.1 %

    8.2 %

    Troncos múltiplos

    5.5 %

    5 %

    2 %

     

    5.2 - Dados Obtidos com o Mapeamento de Raízes:

    Conforme citado, foi aberta uma trincheira de 1.5 x 1.5 x 1.5m em uma encosta retilínea com declividade de 35º. Foram mapeadas as raízes expostas em apenas 3 perfis verticais (PV-1, PV-2 e PV-3) correspondentes às paredes da mesma, tendo a última parede não sido mapeada ainda por apresentar uma descontinuidade no perfil o que necessita ainda de um ajuste metodológico. Seguindo os parâmetros analisados foram elaborados gráficos de diâmetro e comprimento das raízes (este último não representa um dado muito expressivo no que tange ao comprimento total, por representar apenas comprimento que aflora nas paredes do perfil) e ângulo de orientação destas por perfil e profundidade.

    A Figura 9 abaixo expressa a porcentagem de raízes nas paredes da trincheira. Observa-se que há uma maior concentração de raízes próximo à superfície e tal valor decresce em profundidade. Tal configuração se deve a uma maior concentração de raízes finas próximo cuja função é de absorver nutrientes e água, enquanto em profundidade, encontram-se as raízes mais grossas (em menor número) que dão suporte à planta. 

     

     

    Figura 9: Porcentagem total de raízes por profundidade.

     

     

    Figura 10: Porcentagem total de raízes por perfil vertical (PV) e profundidade.

     

    A Figura 10 acima expressa a porcentagem de raízes por perfil vertical (PV) em cada profundidade e pode se observar que os perfis, analisados individualmente, seguem o mesmo padrão geral de concentração de raízes próximo à superfície e decréscimo em profundidade. Mais abaixo, nas Figuras 11 e 12, pode-se observar o diâmetro e o comprimento médio das raízes em cada perfil e profundidade. Os gráficos apontam para um aumento do diâmetro em profundidade, o que se deve a presença de raízes mais grossas que dão suporte à planta. A exceção se dá na profundidade entre 60 e 80 cm, onde o diâmetro médio é reduzido. Isso possivelmente ocorre pelo fato desta ser a zona de molhamento, onde há uma concentração de água conduzida pela densa malha de raízes localizada acima desta, levando a uma proliferação de raízes finas que absorvem esta umidade concentrada nesta camada, daí uma redução no diâmetro médio. Em relação ao comprimento médio, este não apresenta um padrão definido semelhante ao que ocorre com o diâmetro, devido a que o que sobra das raízes durante o processo de escavação e preparação dos perfis não considerar uma possível mudança em profundidade. No entanto, o que é esperado, é que o comprimento total de raízes seja maior junto ao topo, por ser esta a zona onde se concentra um maior número de raízes.  

     

     

    Figura 11: Diâmetro médio das raízes por perfil vertical (PV) e profundidade.

     

     

    Figura 12: Comprimento médio das raízes por perfil vertical (PV) e profundidade.

     

    A Figura 13 representa um gráfico de distribuição das raízes em profundidade segundo o ângulo de orientação destas. Ocorre uma maior concentração de raízes próximas a 0º (horizontais) e 30º (oblíquas-horizontais), principalmente próximo à superfície. Observa-se também uma grande presença de raízes com ângulo próximo a 60º (oblíquas-verticais) e poucas raízes próximas a 90º (verticais). Possivelmente, as raízes verticais encontram-se logo abaixo do caule da planta e seguem uma trajetória vertical direta (geotropismo ou gravitropismo, STOKES et al., 1996; JOURDAN et al., 2000 e RUBIO et al., 2001). A presença de raízes oblíquas (30º e 60º) pode ser um indicador de que para garantir uma melhor sustentação à planta devido à declividade, as raízes seguem tal trajetória (oblíqua em relação ao datum e próximo ao paralelo em relação à superfície da encosta), bem como tal orientação também permite garantir uma absorção mais eficiente de nutrientes. Outros trabalhos mostram que em áreas mais planas, as raízes tendem a ser
    preponderantemente laterais próximo à superfície do terreno e verticais em profundidade (JANSEN, 2001; SCHALLER et al., 2002; MORONI et al., 2003).

     

    Figura 13: Porcentagem de raízes por profundidade segundo o ângulo de orientação.

     

     

    Figura 14: Gráficos de porcentagem total de raízes segundo o ângulo de orientação.

     

    6 – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

    O levantamento obtido com esse estudo permite concluir que a encosta íngreme onde foi feita a caracterização da estrutura da vegetação encontra-se em avançado estágio sucessional, porém não apresenta as mesmas características da mata climácica encontradas pelo estudo anterior conduzido no local. No entanto, o mesmo estudo atenta para o fato de que uma vegetação climácica pode possuir diferentes características no que diz respeito aos parâmetros analisados. Isso se deve ao fato de que a condição na qual ela está inserida, como a declividade do relevo, condições de umidade, iluminação e profundidade do solo, podem influenciar no seu desenvolvimento.

    A área basal encontrada possui um valor bem mais baixo do que aquele encontrado no estudo anterior para a mesma área, assim como também é menor do que aquela encontrada por JANSEN (2001) em floresta secundária tardia. Ainda que tal parâmetro seja um importante caracterizador de estrutura da vegetação, ele não deve ser visto de forma isolada.

    Os demais parâmetros ecológicos analisados neste trabalho reforçam a idéia de preservação da floresta, conforme pode ser observado pela baixíssima porcentagem de árvores mortas (0.57%), sendo esta mais baixa do que os demais estudos citados. Soma-se a isso o fato de ter sido observado um grande número de árvores com a presença de plantas epífitas, como lianas e cipós (49.27%), o que também pode ser considerado um indicador de preservação (BUDOWSKI, 1985).

    Florestas em equilíbrio apresentam um histograma de freqüência de classes de diâmetro com uma série geométrica decrescente (na forma de um “J” invertido), conforme pode ser observado nos dois estudos citados para a mata do Pai Ricardo, bem como foi visto para a bacia das Cobras (área de floresta secundária tardia).

    Observações na área de estudo levam a crer que a presença de epífitas e liquens é um indicador de preservação da área, tendo em vista que tais espécies são muito sensíveis à poluição e são características de área com grande disponibilidade de umidade.

    A presença de bromélias no caule das árvores não foi observada remetendo à idéia de que ocorre uma grande circulação de ar na parte superior do dossel arbóreo, criando um ambiente desfavorável a sua proliferação. Isso ocorre provavelmente porque há uma ocorrência de rajadas de vento sobre a encosta, conforme pode ser observado pela quantidade significativa de galhos caídos no chão, além da presença de alguns troncos tombados.

    A incidência de vento possivelmente é favorecida devido à presença de uma torre de transmissão de energia nas proximidades. Este tipo de obra, apesar de acarretar num baixo impacto ambiental, necessita de uma área desmatada por completo no entorno, além da abertura de grandes trilhas utilizadas pelas equipes de conservação. Este fato cria um efeito catalisador de rajadas de vento sobre a encosta, levando a queda de galhos e algumas árvores menores ou mortas, o que abre clareiras na cobertura vegetal, propagando-se pela encosta através do efeito de borda.

    Associado a isso, observações preliminares e a comparação entre os dados obtidos com os estudos na mata do Pai Ricardo conduzem à idéia de que nos fundos de vale a vegetação é muito mais exuberante e portentosa do que nas encostas, o que pode resultar na diferença de características conforme a metodologia de levantamento adotada. O grande número de plântulas observado, bem como a baixa ocorrência de espécies herbáceas e formigueiros (cujos encontrados parecem se situar ao longo das trilhas) na encosta analisada contribui para o fato da floresta ser classificada como de boa conservação.

    A caracterização dos sistema radicular da trincheira aberta na área de estudo mostra uma concentração de raízes finas, em especial junto ao topo do solo e abaixo da zona de molhamento (60-80 cm) de forma a aumentar a absorção de água e nutrientes e um ligeiro crescimento do diâmetro quando em maior profundidade, correspondendo às raízes cuja principal função é garantir o suporte mecânico à planta.

    Observou-se ainda uma grande concentração de raízes horizontais especialmente próximo à superfície do terreno e uma pouca presença de raízes verticais. Observou-se uma presença significativa de raízes oblíquas ao datum ver Figura 17 - (30º principalmente; e 60º), provavelmente pelo fato de que tal orientação garante uma melhor sustentabilidade à planta (em associação com as raízes pivotantes que seguem uma trajetória vertical direta geotropismo e/ou gravitropismo), bem como o fato de se encontrarem numa orientação intermediária, isso também facilitar a absorção de nutrientes. Se a perdominância fossem as raízes verticais, a planta se sustentaria mecanicamente, porém teria a sua absorção de nutrientes e água reduzidos, bem como se a predominância fossem as raízes horizontais, o contrário ocorreria.

    Entretanto, a literatura considera que uma raíz pode mudar sua trajetória ao longo de seu crescimento caso encontre uma camada de impedimento (um horizonte de mais difícil penetração, um bloco ou mesmo outra raíz), podendo retomar sua trajetória quando superado o obstáculo. Esta é uma hipótese possível de ocorrer, tendo em vista que as raízes são mapeadas a partir do plano visível na parede da trincheira, o que não permite observar possíveis alterações de rota. Para se ter tal certeza, é necessário aumentar o banco de dados a partir da abertura de novas trincheiras, bem como o mapeamento em planos horizontais, sendo esta a etapa subseqüente deste trabalho.

     

     

    Notas

     

    [1]  - Apoio Financeiro: CNPq, FUJB, FAPERJ, PRONEX e CAPES. Pesquisa desenvolvida no Laboratório de Geo-Hidroecologia (GEOHECO/UFRJ). Endereço: Av. Brigadeiro Trompowski, s/nº, CCMN, Intituto de Geociências – Depto. de Geografia, sala H1-015. Cidade Universitária, Ilha do Fundão – Rio de Janeiro/RJ.

    [6] - OCCHIONI, P. “Contribuição ao Estudo da Família Cannelaceae”, in Archivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1948.

     

     

    7 BIBLIOGRAFIA CITADA:

    BASILE, R. O. N. de C., Mecanismos de Infiltração sob a Influência de Raízes: Estudo Experimental em Laboratório (Monografia de Bacharelado).  Rio de Janeiro: IGEO/UFRJ, 2002.

    BASILE, R. O. N. de C.; JANSEN, R. C. & COELHO NETTO, A. L., “Formação de Rotas Preferenciais de Percolação da Água sob a Influência de Raízes: Experimentos de Laboratório”, in Anais do IV Simpósio Nacional de Geomorfologia (IV Sinageo). São Luís – MA, 2002.

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