1.  

    Voltar à Página da AGB-Nacional

     

     

     

    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

    Resultantes biogeográficas e da História Ambiental na sucessão ecológica em um trecho de Mata Atlântica no Maciço da Pedra Branca, RJ

     

     

    Alexandro Solórzano (Estudante de Geografia da PUC-RJ)

    Rogério Ribeiro de Oliveira (Prof. do Departamento de Geografia da PUC-RJ)

     

     

    Palavras Chave: História Ambiental, Mata Atlântica, Fitossociologia.

     

    Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

    Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

     

     

    I- Introdução

                Um dos atributos mais conhecidos da Mata Atlântica é o fato deste bioma ser um dos mais ameaçados do mundo. Sua devastação, tem como principal ponto de partida a chegada do colonizador ao continente, embora o seu processo de transformação antrópica tenha se iniciado muito antes (Denevan, 1992). Sem dúvida alguma este fato veio a adicionar um componente de velocidade até então inexistente nas populações indígenas que habitavam a Mata Atlântica. Cada um dos períodos sócio-econômicos da história moderna (como por exemplo, o cultivo da cana-de-açúcar no período colonial ou do café no início da República) trouxe como características um grande avanço da transformação da Mata Atlântica em áreas alteradas no que se refere à sua estrutura, composição e funcionalidade. A grande totalidade da paisagem atual do território nacional é o retrato de distintas práticas predatórias incapazes de apontar caminhos convergentes entre desenvolvimento econômico e Mata Atlântica. Embora no pensamento político-histórico freqüentemente se tenham ouvido vozes contra a destruição, a ocupação do território foi sempre feita com “o machado em uma mão e o tição na outra” (Pádua, 2002).

              A História Ambiental encontra seu principal tema de estudo na esfera “não-humana” da transformação da paisagem e constitui uma disciplina interessada em tratar do papel e do lugar da natureza na vida humana, ou seja, uma tentativa de colocar a natureza na História, em uma visão arraigadamente interdisciplinar. Em uma perspectiva histórica, é evidente que o legado ambiental que nos chegou até hoje é produto das relações de populações passadas com o meio. Assim, em termos de paisagem, o que temos hoje por "natural" pode se tratar na verdade de um sistema manejado durante séculos. Este processo de transformação, contínuo e progressivo, constitui uma mudança qualitativa fundamental nos dias atuais.

    No centro desta discussão, a questão das florestas secundárias surge como o mais claro produto das alterações das florestas pelas populações humanas, seja em tempo passado ou presente. A destruição das formações primárias tem criado uma paisagem característica, na qual as matas mais bem preservadas se apresentam como verdadeiras  “ilhas” em um “mar” de vegetação secundária, em diferentes estágios sucessionais (Uhl, 1987). Os 600 milhões de hectares atuais de florestas secundárias existentes nos trópicos favorecem a idéia de que estamos vivendo em plena "era da vegetação secundária" (Gómez-Pompa & Vásquez-Yanes, 1974). Estas são definidas como florestas que se regeneraram após a abertura completa (Corlett, 1994). Tem-se atribuído a sua origem como resultante do abandono de terras agrícolas, ainda que existam vários outros elementos indutores de descaracterização estrutural de formações florestais conservadas, como, por exemplo, a deposição de poluentes, retirada de madeira, etc. O enfoque da transformação estrutural por que passam as florestas secundárias foi utilizado em Oliveira (2002), na Ilha Grande, a partir da implantação de roças caiçaras.

    Por outro lado, a partir das intervenções antrópicas ocorridas em distintas épocas, o desenvolvimento dos sistemas florestais está intimamente ligado a características e possibilidades disponibilizadas pelo meio abiótico. Neste aspecto, características pedológicas e geomorfológicas desempenham papel fundamental na chamada “cicatrização” do tecido florestal após distúrbio.

    Situada dentro da segunda metrópole do país, com uma população de 6 milhões de habitantes, o Maciço da Pedra Branca se encontra dentro de uma realidade ambiental bem diversificada. Segundo Oliveira (2003), numerosas fácies fitofisionômicas, constituídas pela conjunção dos elementos presentes, contribuem para uma constituição estrutural complexa, em que elementos naturais e antrópicos intervêm em graus diversos. Dentre os primeiros destaca-se a existência de gradiente altitudinais (de 0 até mais de 1000 m) e a orientação de encostas. Por outro lado, a evolução de uma metrópole nos entornos destes maciços litorâneos impôs severas alterações, verificadas desde o nível geomorfológico (usos irregulares do solo) ao geoquímico (emanações de poluentes que acabam por contaminar os ecossistemas naturais). Neste sentido, a manifestação florística do Maciço da Pedra Branca é a expressão desta complexidade.

     

    O presente trabalho tem por objetivo examinar uma área submetida a um mesmo histórico de uso, em duas distintas posições geomorfológicas. Pretende testar a hipótese de que fatores abióticos (notadamente de caráter geomorfológico) possam ter papel diferenciador nas manifestações florísticas e estruturais no direcionamento da sucessão ecológica.

     

    II - Materiais e Métodos

     

    Área de Estudos- O estudo foi realizado em um trecho de Mata Atlântica, denominado Floresta do Camorim, localizado no Maciço da Pedra, localizado na zona oeste do município do Rio de Janeiro, RJ. Atualmente este Maciço compreende o Parque Estadual da Pedra Branca, criado em 1974, que tem a extensão de 12.500 ha. Trata-se de um maciço costeiro, com relevo bastante acidentado, apresentando diversos afloramentos rochosos, sendo o Pico da Pedra Branca, com 1024 m de altitude, o ponto culminante do Parque e também do município. O estudo foi efetuado em dois trechos de floresta atlântica secundária localizados na mesma encosta da bacia do rio Caçambe, em duas posições geomorfológica: no fundo de vale e no divisor de drenagem (ver mapa figura 1).

    As rochas desta formação pertencem ao Pré-Cambriano e a litologia é composta por rochas na maior parte metamórficas do tipo biotita-gnaisse, e algumas rochas magmáticas do tipo graníticas leucocráticas. Tais rochas deram origem a solos residuais jovens e coluviais.

    O clima da região, segundo a divisão de Koeppen, é do tipo Af, ou seja, clima tropical úmido sem uma estação seca, megatérmico, com 60 mm de precipitação no mês mais seco, que é agosto. A altura pluviométrica media da região é de 1.187 mm, ocorrendo deficiência hídrica episódica nos meses de julho a outubro. A temperatura média anual se encontra em torno de 260C, com o calor distribuído uniformemente por todo ano (Oliveira et al., 1980).

    Geomorfologicamente, o trecho de floresta de fundo de vale estudada se localiza dentro de um vale suspenso, a mais de 200 m de altitude, do Rio Caçambe, que se encontra incluso dentro do grande anfiteatro montanhoso do Camorim. O área do divisor de drenagem se encontra a uma altitude aproximada de 300 m.

                A vegetação que recobre o Maciço da Pedra Branca, nos dois trechos estudados, é segundo Veloso (1991) do tipo Floresta Ombrófila Densa Submontana. As duas áreas estudadas apresentam características de floresta secundária, com aproximadamente 50 anos, devido ao uso pretérito de extração de madeira para a fabricação de carvão vegetal. Nas duas áreas estudas são encontrados vestígios como ferramentas e utensílios utilizados pelos carvoeiros, além de cavas de balões de carvão dentro das áreas amostrais. Esta floresta apresenta um componente arbóreo bem desenvolvido, com um dossel descontínuo, com mais ou menos 20 m de altura. Estas informações foram obtidas com moradores antigos da região, que foram consultados com vistas à obtenção de informações acerca da História Ambiental do local de estudos.

    Procedimentos metodológicos: Para a realização do inventário florestal foi utilizado um total 40 parcelas contíguas, com 10 x 10 m, totalizando uma área de 4000 m2, sendo divididas entre fundo de vale e divisor de drenagem, cada uma com 20 parcelas. O critério de inclusão para os indivíduos amostrados foi de PAP (perímetro à altura do peito) igual ou superior a 15 cm. Todos os indivíduos amostrados foram etiquetados com plaquetas de alumínio, visando sua utilização posterior por outras equipes.

    Foi feita a coleta do material botânico de cada indivíduo amostrado, em períodos irregulares entre setembro de 2001 e junho de 2003. Após a coleta, o material foi prensado e posteriormente colocado em estufa para a secagem. A identificação do material botânico foi feita por meio de consultas bibliográficas, comparação com exsicatas depositadas em herbários institucionais e com o auxílio de especialistas. O material coletado encontra-se depositado Herbário Friburgense (FCAB), da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

                A análise fitossociológica foi feita empregando-se as fórmulas apresentadas por Mueller-Dombois & Ellenberg (1974) para densidade (DR), freqüência (FR) e dominância (DoRs) e valor de importância (VI). A dominância foi considerada como a área basal ou área da seção do tronco a 1,3m do solo. Para a análise de similaridade entre os trechos de floresta estudados e outros da mata atlântica da região Sudeste, obtidos em levantamentos florísticos e fitossociológicos, utilizou-se o índice de Sorensen (Mueller-Dombois & Ellenberg, 1974).

     

    III - RESULTDOS E DISCUSSÃO

     

    Ao longo do século passado, as necessidades energéticas da cidade do Rio de Janeiro eram parcialmente atendidas pela produção de carvão vegetal oriunda principalmente do Maciço da Pedra Branca, que na época era uma porção da cidade com características rurais. Com isto, uma boa parte da floresta da encosta em estudo foi desmatada e consequentemente queimada para a produção de carvão vegetal, no próprio local de desmatamento. Portanto há nítidos vestígios de cavas de balões de carvão dentro da floresta estudada. A figura 2 é uma ilustração de um balão de carvão feito a bico de Pena por Magalhães Corrêa, que no início do século passado (entre a década de 20  e 30) esteve no Maciço da Pedra Branca fazendo um levantamento preliminar de Etnografia e Geografia.

     

    Figura 2. Aspecto de um balão de carvão  (Corrêa, 1930)

     

     

    Foi encontrado na área de fundo de vale um total de 39 espécies distribuídas em 35 gêneros e 22 famílias, representando uma diversidade média de 1,95 espécies/100 m2 (tabela 1) Na área do divisor de drenagem foram encontradas 84 espécies pertencendo a 59 gêneros e 33 famílias, atingindo uma diversidade média de 4,2 espécies/100 m2.  Em relação às espécies de ocorrência exclusiva, o maior percentual ocorreu no divisor de drenagem (77%) sendo que mais da metade das espécies do fundo de vale ocorrem apenas em sua área (51%).

     

    Tabela 1: Espécies ocorrentes no fundo de vale e divisor de drenagem na bacia hidrográfica do rio Caçambe, Maciço da Pedra Branca.

     

    Família

    Espécie

    fundo de vale

    divisor drenag.

     

     

    Anacardiaceae

    Astronium fraxinifolium Schott ex Spreng.

    *

    *

     

     

     

    Spondias venulosa Mart.

     

    *

     

     

    Annonaceae

    Annona cacans Warm. 

     

    *

     

     

     

    Annonaceae sp.

     

    *

     

     

     

    Rollinia laurifoilia Schltdl.

     

    *

     

     

    Apocynaceae

    Apocynaceae sp.

     

    *

     

     

     

    Aspidosperma ramiflorum  Mull. Arg.

    *

     

     

     

     

    Tabernemontana laeta

     

    *

     

     

    Arecaceae

    Astrocaryum aculeatissimum (Schott) Burret

     

    *

     

     

     

    Attalea dubia (Mart.) Burret

     

    *

     

     

    Bignoniaceae

    Sparosttosperma leucantum (Vell.) Schum.

     

    *

     

     

     

    Tabebuia sp.

    *

     

     

     

    Bombacaceae

    Chorisia crispiflora Kunth

    *

    *

     

     

     

    Eriotheca pentaphylla (Vell.) A. Robyns

     

    *

     

     

     

    Quararibea turbinata (Sw.) Poir.

    *

    *

     

     

    Boraginaceae

    Cordia trichoclada DC.

     

    *

     

     

     

    Cordia trichotoma (Vell.) Arrab. ex Steud.

    *

    *

     

     

    Chrysobalanaceae

    Licania kunthiana Hook. F.

     

    *

     

     

    Clusiaceae

    Tovomita leocantha (Schltdl.) Planch. & Triana

     

    *

     

     

    Combretaceae

    Terminalia januariensis DC.

     

    *

     

     

    Dichapetalaceae

    Stephanopodium sp.

     

    *

     

     

    Erythroxilaceae

    Erythroxilaceae sp.

     

    *

     

     

    Euphorbiaceae

    Actinostemon verticillatus (Klotzsch) Baill.

    *

     

     

     

     

    Alchornea iricurana Casar.

    *

    *

     

     

     

    Euphorbiaceae sp.

     

    *

     

     

     

    Joanesia princeps Vell.

     

    *

     

     

     

    Sapium glandulatum (Vell.) Pax

    *

     

     

     

     

    Sebastiania sp.

    *

     

     

     

     

    Senefeldera multiflora Müll. Arg.

     

    *

     

     

    Flacourtiaceae

    Casearia decandra Joeq.

     

    *

     

     

     

    Casearia gossypiosperma Briq.

    *

     

     

     

     

    Casearia sylvestris Sw.

     

    *

     

     

    Lauraceae

    Cryptocarya moschata Nees & C. Mart.

     

    *

     

     

     

    Nectandra membranacea (Sw.) Griseb.

    *

    *

     

     

     

    Nectandra reticulata (Ruiz & Pav.) Mez

    *

     

     

     

     

    Ocotea teleiandra (Meisn.) Mez

     

    *

     

     

     

    Persea gratissima Gaertn.

    *

     

     

     

    Leguminosae

    Anadenathera colubrina (Vell.) Brenan

    *

    *

     

     

     

    Apuleia leiocarpa (Vogel) J.F. Macbr.

    *

    *

     

     

     

    Caesalpinia pluviosa DC.

     

    *

     

     

     

    Inga lenticellata Benth.

     

    *

     

     

     

    Inga marginata Willd.

     

    *

     

     

     

    Inga sp 2

     

    *

     

     

     

    Inga sp1

     

    *

     

     

     

    Inga tenuis (Vell.) Mart.

     

    *

     

     

     

    Jacaranda aff. Macrantha Gram.

     

    *

     

     

     

    Machaerium stipitatum (DC.) Vogel

     

    *

     

     

     

    Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F. Macbr.

    *

    *

     

     

     

    Piptadenia paniculata Benth.

    *

    *

     

     

     

    Pterocarpus rohri Vahl

     

    *

     

     

     

    Swartzia simplex (Sw.) Spreng.

     

    *

     

     

    Lythraceae

    Lafoensia glyptocarpa Koehne

     

    *

     

     

    Melastomataceae

    Miconia cinnamomifolia (DC.) Naudin

     

    *

     

     

     

    Miconia macrophylla Cogn.

     

    *

     

     

     

    Miconia tristis Spring.

     

    *

     

     

     

    Tibouchina granulosa (Desr.) Cogn.

     

    *

     

     

    Meliaceae

    Guarea guidonia (L.) Sleumer

    *

    *

     

     

     

    Guarea macrophylla Vahl

    *

    *

     

     

     

    Trichilia elegans A. Juss.

    *

    *

     

     

     

    Trichilia shumanniana Harms.

     

    *

     

     

    Moraceae

    Artocarpus heterophyllus Lam.

    *

     

     

     

     

    Cecropia hololeuca Miq.

    *

     

     

     

     

    Ficus insipida Willd.

    *

     

     

     

     

    Ficus sp.

    *

     

     

     

     

    Naucleopsis oblongifolia (Kuhlman) Carauta

     

    *

     

     

    Myrtaceae

    Eugenia sp.

     

    *

     

     

     

    Myrceugenia myrcioides (Camb.) Legr. & Kaus.

     

    *

     

     

     

    Myrcia pubipetala Miq.

     

    *

     

     

     

    Myrcia rostrata DC.

     

    *

     

     

     

    Myrtaceae sp 2

     

    *

     

     

     

    Myrtaceae sp3

     

    *

     

     

     

    Campomanesia guaviroba (DC.) Kiersk

     

    *

     

     

     

    Myrtaceae sp 1

     

    *

     

     

    Nyctaginaceae

    Guapira opposita  (Vell.) Reitz

    *

    *

     

     

    Olacaceae

    Heisteria sp 1

     

    *

     

     

     

    Heisteria sp 2

    *

     

     

     

     

    Tertastylidium sp.

    *

     

     

     

    Phytolaccaceae

    Galesia integrifolia (Spreng.) Harms

    *

     

     

     

    Piperaceae

    Piper arboreum Ambl.

    *

    *

     

     

    Rhamnaceae

    Rhamnidium elaeocarpum Reiss.

    *

    *

     

     

    Rubiaceae

    Bathysa gymnocarpa Schum.

     

    *

     

     

     

    Posoqueria cf. latifolia (Rudge) Roem. & Schult.

    *

     

     

     

     

    Psychotria alba Ruiz & Pav.

    *

     

     

     

     

    Rubiaceae sp

     

    *

     

     

     

    Rudgea longsdorfii

     

    *

     

     

     

    Rudgea macrophylla Benth.

     

    *

     

     

     

    Simira viridiflora (Alemão & Saldanha) Steyerm.

    *

     

     

     

    Sapindaceae

    Allophylus sericeus Radlk.

    *

    *

     

     

    Sapotaceae

    Chrysophyllum flexuosum Mart.

    *

    *

     

     

     

    Eclinusa ramiflora Mart.

     

    *

     

     

     

    Pouteria sp.

     

    *

     

     

    Solanaceae

    Acnistus arborescens (L.) Schltdl.

    *

     

     

     

     

    Metternichia princeps Mik.

     

    *

     

     

     

    Solanaceae sp 1

     

    *

     

     

    Sterculiaceae

    Colubrina glandulosa Perkins

     

    *

     

     

     

    Guazuma cf. ulmifolia Lam.

     

    *

     

     

     

    Guazuma crinita Mart.

    *

    *

     

     

    Tiliaceae

    Luehea sp.

    *

     

     

     

    Ulmaceae

    Celtis sp.

     

    *

     

     

    Urticaceae

    Urera baccifera (L.) Gaudich ex Wedd.

     

    *

     

     

    Violaceae

    Amphirrox violacea

     

    *

     

     

    -------------------

    Indet. 1

     

    *

     

     

     

    Indet. 2

     

    *

     

     

     

    Indet. 3

     

    *

     

     

     

     

     

     

     

    Em termos comparativos, o divisor de drenagem apresentou mais do dobro de espécies (84 espécies) do que no fundo de vale (39 espécies), apesar das duas áreas terem provavelmente a mesma idade (+ 50 anos) e o mesmo histórico de devastação. A quantidade de espécies está compatível com a encontrada em outras formações secundárias, apesar de diferenças metodológicas (ver tabela 3). Em termos de similaridade florística entre a área de fundo de vale e divisor de drenagem, o indicie de Sorensen apresentou um valor de 30,9 % de similaridade entre as duas áreas, apresentando apenas 19 espécies em comum. Segundo Mueller-Dombois & Ellemberg (1974) duas comunidades podem ser consideradas florísticamente similares quando o índice de Sorensen for superior a 50%. O valor encontrado, portanto, indica uma baixa semelhança florística entre as duas áreas.

    Nas 20 parcelas da área de divisor de drenagem foram amostrados 369 indivíduos (sendo 33 deles mortos), apresentando uma Densidade Absoluta de 1.845 ind/ha e uma área basal total de 27,2 m2/ha. Na área de fundo de vale foram amostrados 223 indivíduos (sendo 24 deles mortos), com uma Densidade Absoluta de 1.115 ind/ha e uma área basal total de 27,4 m2/ha. A tabela 2 apresenta as características gerais da vegetação nos dois ambientes geomorfológicos estudados.

     

    Tabela 2 - Principais características vegetacionais de dois ambientes geomorfológicos distintos no Maciço da Pedra Branca, Rio de Janeiro, RJ.

     

    Característica

    fundo de vale

    divisor de drenagem

    Número de espécies

    39

    84

    Espécies rara[1]

    24 (61,5%)

    33 (39,3%)

    Densidade  (ind./ha)

    1.115

    1.845

    n. de indivíduos/espécie

    5,7

    4,4

    área basal (m2/ha)

    27,5

    27,2

    Indivíduos amostrados

    223

    369

    área amostrada (m2)

    2.000

    2.000

    Diâmetro máximo

    45 cm

    43 cm

    Diâmetro médio

    14 cm

    11 cm

    Altura máxima

    25 m

    30 m

    Altura média

    9,4 m

    9,2 m

    Troncos múltiplos

    7,5%

    11,1%

    Indivíduos mortos em pé

    10,7%

    8,9%

     

    As duas áreas estudadas apresentam uma área basal praticamente igual - 27,5 m2/ha no fundo de vale e 27,2 m2/ha no divisor de drenagem. Apesar das duas áreas apresentarem similaridade em Dominância por Área, as suas Densidades Absolutas são significativamente diferentes (1.115 ind./ha e 1.845 ind./ha, respectivamente). Estes dados mostram que a área do fundo de vale apresenta uma área basal praticamente igual ao divisor de drenagem, mas os seus indivíduos estão apresentando um valor individual de área basal significativamente maior do que os indivíduos do divisor de drenagem. Em outras palavras, os indivíduos do fundo de vale têm um porte maior em termos de diâmetro do que os do divisor de drenagem. Este fato pode indicar que, apesar das duas áreas terem uma mesma idade e uso passado, a regeneração destas duas áreas se deu de forma diferenciada. Enquanto no fundo de vale houve um investimento da comunidade florestal no desenvolvimento rápido dos indivíduos (concentrado em poucas espécies), na área de divisor de drenagem houve uma competição maior entre as mesmas, resultando em um recrutamento de espécies novas, apresentando indivíduos com diâmetros baixos, elevando, desta forma, o número de espécies.

    A porcentagem média de indivíduos ramificados (com ramificações com DAP> 5 cm), confirma o histórico de perturbação da floresta, que passou por um processo de corte raso dos indivíduos para a produção de carvão vegetal. Desta forma, parte dos indivíduos rebrotaram de forma ramificada. No fundo de vale, 7,5% dos indivíduos apresentaram no mínimo uma ramificação, se aproximando do valor encontrado por Oliveira (2002), que encontrou num trecho de floresta de 50 anos um valor de 7,6% de indivíduos ramificados. Este autor justifica este valor por se tratar de uma antiga área de roça de subsistência onde, devido ao sistema de cultivo, as árvores são cortadas, porém permanecendo o toco, desta forma permitindo a rebrota de forma ramificada dos indivíduos. Este autor ainda constatou que o número de indivíduos ramificados diminui com a idade da floresta, atingindo menos de 2% em uma floresta climáxica. Isto se deve à substituição dos indivíduos de estágios sucessionais mais iniciais por indivíduos mais avançados sucessionalmente. O valor encontrado no divisor de drenagem (11,1%) foi um pouco mais alto do que o do fundo de vale indicando, provavelmente, um reflexo do número mais elevado de espécies. Este valor pode ser considerado como muito elevado em função do critério de inclusão adotado (DAP > 5,0 cm).

    O contingente de indivíduos mortos em pé encontrados em ambas as áreas foi relativamente alto, alcançando 10,7% do total no fundo de vale e 8,9% do total no divisor de drenagem. Silva e Nascimento (2001), encontraram um valor intermediário entre as duas áreas (9,8%). Oliveira (2002) encontrou na floresta de 50 anos na Ilha Grande 6,3% de indivíduos mortos. Em contraste a estes valores, Kurtz e Araújo (2000) na Estação Ecológica do Paraíso, Cachoeiras de Macacu encontraram em um trecho de floresta climáxica 3% de indivíduos mortos em pé. Estes valores indicam que as duas floresta aqui estudadas encontram-se numa fase sucessional caracterizada por espécies de crescimento rápido e de menor longevidade. O diâmetro médio dos indivíduos mortos para a área de fundo de vale  e divisor de drenagem é de 10,5 cm e 12,1 cm respectivamente. Os indivíduos que estão morrendo provavelmente pertencem ao grupo das espécies pioneiras e secundárias iniciais, que apresentam baixa longevidade. Ao mesmo tempo, pode se destacar que o critério de inclusão adotado pode estar excluindo o contingente de indivíduos mortos com DAP < 5 cm.

    A tabela 3 faz uma comparação entre outras florestas secundárias de Mata Atlântica em termos de número de espécies, densidade e área basal. Se comparados com outros trabalhos, o valor de área basal de 27,5 m2/ha para o fundo de vale e 27,2 m2/ha no divisor de drenagem, está abaixo dos valores encontrados por Oliveira et al. (2001) em floresta secundária em Peruíbe, por Oliveira (2002) na floresta de 50 anos na Ilha Grande por Kurtz e Araújo (2000) na Estação Ecológica Estadual do Paraíso. Cabe destacar que apesar de Oliveira et al. (2001) terem encontrado uma área basal maior, a densidade absoluta é inferior do que o divisor de drenagem (1420 ind/ha e 1.845 ind/ha respectivamente), indicando que os indivíduos amostrados em Peruíbe apresentam diâmetros mais elevados. Ao mesmo tempo, a área basal encontrada nas duas áreas está muito próxima ao valor encontrado por Pessoa et al. (1997) na floresta secundária de Macaé de Cima e da floresta de 25 anos estudada por Oliveira (2002) na Ilha Grande (26,3 m2/ha).

    Isto indica que a floresta em estudo ainda está em um estágio sucessional  menos desenvolvido, caracterizado por muitos indivíduos apresentando diâmetro mais reduzido. O valor médio de área basal encontrado no trecho de floresta estudado é reflexo do grau de perturbação que a floresta sofreu.

     

    Tabela 3- Parâmetros estruturais e de diversidade encontradas em florestas atlânticas secundárias no sudeste do Brasil. (dap = diâmetro a 1,3m do solo (critério de inclusão); n.d. = não disponível).

     

    Local

    Método

    área amostral (m2)

    DAP

    (cm)

    área basal

    (m2/ha)

    densidade

    (ind/ha)

    n. espécies

    Autor

    Rio de Janeiro, RJ (Serra de Inhoaíba )

    Parcelas

    1000

    5,0

    11,8

    460

    20

    Santana (2002)

    Rio de Janeiro, RJ (Serra do Mendanha )

    Parcelas

    1000

    5,0

    18,5

    1090

    35

    Santana (2002)

    São Francisco de Itabapoana, RJ

    Parcelas

    10000

    10,0

    15

    564

    83

    Silva e Nascimento (2001)

    Peruíbe, SP

    Parcelas

    2000

    5,0

    40,3

    1420

    63

    Oliveira et al (2001)

    Silva Jardim, RJ

    Parcelas

    3600

    1,0

    n.d.

    1608

    129

    Borém e Oliveira-Filho (2002)

    Macaé de Cima, RJ

    Parcelas

    10000

    5,0

    27,9

    2217

    157

    Pessoa et al., (1997)

    Angra dos Reis, RJ

    Parcelas

    2600

    2,5

    32,4

    2273

    63

    Oliveira (2002)

    Fundo de vale

    Parcelas

    2000

    5,0

    27,5

    1115

    39

    Este estudo

    Divisor de drenagem

    Parcelas

    2000

    5,0

    27,2

    1845

    84

    Este estudo

     

     

    Portanto, a partir desta tabela comparativa temos uma idéia de que não há uma estrutura e composição “típica” para as florestas secundárias apresentadas, diferindo as mesmas entre si no que se refere à estrutura.

    A figura 3 mostra a distribuição diamétrica de todos os indivíduos amostrados no fundo de vale e no divisor de drenagem. Este gráfico mostra uma nítida tendência de diminuição de número de indivíduos à medida que o diâmetro aumenta. Ambas as áreas apresentam uma distribuição espacial de seus indivíduos em um “J” invertido, indicando, desta forma, uma comunidade que esta se regenerando, com uma entrada muito grande de indivíduos jovens e o equilíbrio de alguns indivíduos com diâmetros elevados. Segundo Lopes et al. (2002), este padrão de distribuição diamétrica é comum para florestas secundárias destacando que esta curva típica demonstra que a fisionomia florestal encontra-se em pleno desenvolvimento em direção a estádios mais avançados, uma vez que existe um contingente de indivíduos jovens que irão suceder àqueles que já se encontram senis ou em decrepitude.

    Existe, no entanto, uma clara distinção entre a distribuição diamétrica das duas áreas, o divisor de drenagem apresentando uma forte concentração de indivíduo na primeira classe (5 a 10 cm), superando o número de indivíduos para esta mesma classe no fundo de vale. Este padrão se repete para a segunda classe de diâmetros. Porém, a partir da terceira classe (15 a 20 cm), o fundo de vale ultrapassa o divisor de drenagem em termos absolutos de número de indivíduos, repetindo-se este padrão até a última classe (> 40 cm), com exceção da sexta classe (30 a 35 cm). Este padrão, portanto, comprova o que foi apresentado acima em relação ao fundo de vale.

     

    Figura 3- Distribuição dos indivíduos por classe de diâmetro, correspondente às duas áreas estudadas no Maciço da Pedra Branca, RJ.

     

     

    A Tabela 5 apresenta as 10 espécies com maior VI e seus respectivos parâmetros fitossociológicos para a área de fundo de vale. Estas dez espécies com maior VI (Guarea guidonia, Piptadenia gonoacantha, Nectandra membranacea, Allophylus sericeus, Anadenathera colubrina, Persea gratissima, Chorisia crispiflora, Ficus insipida, Guarea macrophylla e Ficus sp.) atingiram o valor de importância de 241,21 perfazendo pouco mais de 80 % do total. Este fato mostra um claro domínio de poucas espécies (nos três parâmetros considerados) na área estudada, o que é claramente uma característica de florestas secundárias, segundo Oliveira (2002). Estas mesmas dez espécies perfazem 93% do total de DoR, 81% da DR e 66% da FR, indicando que as mesmas apresentam indivíduos com diâmetros elevados, sendo a freqüência nas parcelas intermediária para alta. Em termos comparativos, na floresta de 50 anos estudado por Oliveira (2002), as dez espécies de maior VI perfizeram 69,3% do total, sendo que em uma área de 5 anos as dez espécies de maior VI perfizeram 80,3% do total, se aproximando do valor encontrado no fundo de vale. Este fato indica que esta porcentagem em relação ao valor máximo do VI varia em função do número total de espécies e que entre a área de Ilha Grande e a do Maciço da Pedra Branca existe particularidades na ocupação do espaço por estas dez espécies de maior destaque.

    Cabe destacar que apenas as duas espécies com maior VI no fundo de vale (G. guidonia e P. gonoacantha) perfazem mais da metade (53,4%) do total de VI. Isto mostra que estas duas espécies têm uma forte participação na comunidade, sendo que G. guidonia totaliza 109 indivíduos, tendo uma espacialização maior que P. gonoacantha, que apresenta uma participação maior no VI através da Dominância Relativa (19,1%) indicando que seus indivíduos apresentam um porte maior. Esta espécie é bastante comum em formações pioneiras e secundárias iniciais. Portanto, o porte elevado destes indivíduos indica que esta população já é antiga na comunidade e que, portanto, está fora do seu tipo de ambiente ideal local, característico de florestas de estágios sucessionais menos avançadas.

    Este padrão se repete para Nectandra membranacea, terceira colocada na ordenação pelo VI que, apesar de apresentar alguns indivíduos com diâmetro pequeno, metade de seus indivíduos apresentam caule acima de 25 cm de diâmetro. Outras espécies como Allophylus sericeus e Anadenathera colubrina ocupam a quarta e quinta posição respectivamente, devido aos seus valores de Densidade Relativa e Freqüência Relativa. A presença de Persea gratissima (o abacateiro) e da jaqueira (Artocarpus heterophyllus) evidencia o histórico de ocupação da área. Não foram encontrados nas imediações destes abacateiros, vestígios de ocupação humana que o caracterizasse como pertencentes a um pomar.

     

    Tabela 5. Parâmetros fitossociológicos das 10 espécies com maior VI na área de fundo de vale no Maciço da Pedra Branca, Rio de Janeiro (RJ), ordenadas pelo Valor de Importância. N= número de indivíduos amostrados; DRs= Densidade Relativa por espécie (%); ABs= área basal da espécie (m2); DoRs= Dominância Relativa por espécie (%); FR= Freqüência Relativa (%); VI= Valor de Importância; VC= Valor de Cobertura.

     

    Família

    Espécie

    N

    DRs

    ABs

    DoRs

    FR

    VI

    VC

    Meliaceae

    Guarea guidonia (L.) Sleumer

    109

    54,77

    2,494

    47,78

    21,05

    123,60

    102,55

    Leguminosae

    Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F. Macbr.

    14

    7,04

    0,997

    19,10

    10,53

    36,66

    26,13

    Lauraceae

    Nectandra membranacea (Sw.) Griseb.

    10

    5,03

    0,461

    8,83

    6,32

    20,17

    13,86

    Sapindaceae

    Allophylus sericeus Radlk.

    7

    3,52

    0,181

    3,47

    6,32

    13,30

    6,99

    Leg. Mimo.

    Anadenathera colubrina (Vell.) Brenan

    5

    2,51

    0,161

    3,08

    5,26

    10,86

    5,60

    Lauraceae

    Persea gratissima Gaertn.

    4

    2,01

    0,201

    3,85

    4,21

    10,07

    5,86

    Bombacaceae

    Chorisia crispiflora Kunth

    4

    2,01

    0,074

    1,42

    4,21

    7,64

    3,43

    Moraceae

    Ficus insipida Willd.

    4

    2,01

    0,127

    2,43

    3,16

    7,60

    4,44

    Meliaceae

    Guarea macrophylla Vahl

    4

    2,01

    0,026

    0,50

    4,21

    6,72

    2,51

    Moraceae

    Ficus sp.

    1

    0,50

    0,158

    3,03

    1,05

    4,58

    3,53

     

    Como visto, Guarea guidonia atingiu mais de um terço do Valor de Importância (123,6). Esta espécie apresenta um número muito elevado de indivíduos, perfazendo mais da metade de todos os indivíduos amostrados nesta área, apresentando uma Densidade Relativa extremamente alta (54,77%), ou seja, de todos os indivíduos amostrados, 54,77% deles são de G. guidonia. Simultaneamente está fortemente representada em todas as parcelas, obtendo desta forma uma Freqüência Relativa elevada (21,05%). Em termos de área basal, esta espécie quase que atinge a metade da área basal encontrada para esta área, alcançando assim uma Dominância Relativa de 47,78%. Portanto, G. guidonia apresenta valores altos nos três parâmetros fitossociológicos, indicando desta forma o domínio desta espécie no espaço florestado da área de fundo de vale.

    Cabe no momento perguntar: por que a população desta espécie cresceu e se expandiu tanto, levando a este domínio dentro da comunidade? Segundo Lorenzi (1992), esta espécie é considerada uma espécie de mata de galeria, ou seja, pode estar associada a fundo de vales, onde os rios se encaixam. Também é constatada como uma espécie de estágios secundários de sucessão, o que é pertinente para a área de fundo de vale. Segundo Weaver (2003), esta espécie se encontra em encostas úmidas, planícies bem irrigadas e em margens de rios a altitude de 180 a 300 m da América Central. Este mesmo autor mostra que, a partir de outros estudos realizados, a Guarea guidonia tem um crescimento em média de 0,5 m/ano. Ao mesmo tempo, foi constatado que a mesma apresenta a possibilidade de rebrotamento ao ser cortado, até uma idade mais avançada.

    A tabela 6 apresenta as 10 espécies com maior VI e seus respectivos parâmetros fitossociológicos para a área de divisor de drenagem. Estas dez espécies juntas somaram 44,2% do total do Valor de Importância. Apesar do domínio exercido por estas espécies na área, o seu grau de atuação na comunidade é significativamente menor do que o mesmo papel exercido pelas dez espécies mais importantes no fundo de vale, que foi de 80% do seu VI. Cabe destacar que os resultados obtidos por Oliveira (2002) em uma floresta de 50 anos na Ilha Grande mostram que os dez indivíduos de maior VI somam 69,3% do total, e que, ao mesmo tempo, em uma floresta climáxica, os dez indivíduos mais importante somam 36,3% do total de VI. A porcentagem encontrada para o divisor de drenagem (44,2%) está mais próximo do valor obtido por Oliveira (2002) para uma floresta clímax de que a floresta secundária de 50 anos analisada por aquele autor. Ao mesmo tempo, as dez espécies com VI mais alto no divisor de drenagem perfazem 47% do total de DoRs,  45% do total  de DR e 35% do total de FR. Estes valores percentuais se encontram também próximos aos valores encontrados por Oliveira (2002) na floresta climáxica da Ilha Grande (RJ). Isto pode indicar que a floresta do divisor de drenagem está se encaminhando para um estágio sucessional mais avançado, havendo um recrutamento mais efetivo de espécies clímax. Este fato se confirma na presença de um alto número de espécies raras (vide tabela 2), na quantidade de indivíduos concentrados nas classes diamétricas de 5-10 cm e 10-15 cm (indivíduos jovens, em entrada no sistema) e da presença de espécies como Rhamnidium elaeocarpum , Eriotheca pentaphylla, Quararibea turbinata, Senefeldera multiflora, Ocotea teleiandra, Inga tenuis, Lafoensia glyptocarpa e Myrceugenia myrcioides. Segundo Lopes et al. (2002) e Oliveira (2002), são espécie reconhecidamente de ambiente climáxico, embora alguns deles, como S. multiflora ocorre em ambientes intermediários de sucessão.

     

    Tabela 6. Parâmetros fitossociológicos das 10 espécies com maior VI na área de divisor de drenagem no Maciço da Pedra Branca, Rio de Janeiro (RJ), ordenadas pelo Valor de Importância. N= número de indivíduos amostrados; DRs= Densidade Relativa por espécie (%); ABs= área basal da espécie (m2); DoRs= Dominância Relativa por espécie (%); FR= Freqüência Relativa (%); VI= Valor de Importância; VC= Valor de Cobertura.

     

    Familia

    Espécie

    N

    DRs

    ABs

    DoRs

    FR

    VI

    VC

    Leguminosae

    Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F. Macbr.

    23

    6,8

    1,011

    20,90

    6,01

    33,75

    27,74

    Boraginaceae

    Cordia trichotoma (Vell.) Arrab. ex Steud.

    24

    7,1

    0,146

    3,02

    4,29

    14,45

    10,16

    Solanaceae

    Metternichia princeps Mik.

    19

    5,7

    0,218

    4,51

    3,00

    13,17

    10,16

    Euphorbiaceae

    Alchornea iricurana Casar.

    11

    3,3

    0,239

    4,94

    3,86

    12,08

    8,21

    Euphorbiaceae

    Senefeldera multiflora Müll. Arg.

    18

    5,4

    0,145

    3,00

    2,58

    10,93

    8,35

    Sapotaceae

    Chrysophyllum flexuosum Mart.

    13

    3,9

    0,058

    1,20

    4,29

    9,36

    5,07

    Nyctaginaceae

    Guapira opposita  (Vell.) Reitz

    10

    3,0

    0,146

    3,02

    3,00

    9,00

    5,99

    Flacourtiaceae

    Casearia sylvestris Sw.

    14

    4,2

    0,067

    1,38

    3,43

    8,99

    5,55

    Sterculiaceae

    Colubrina glandulosa Perkins

    10

    3,0

    0,182

    3,76

    2,15

    8,88

    6,74

    Sterculiaceae

    Guazuma cf. ulmifolia Lam.

    10

    3,0

    0,064

    1,32

    3,00

    7,30

    4,30

     

    Para alcançar cerca de 50% do Valor de Importância foram necessários os 13 primeiros indivíduos, o que representa um forte contraste com a área do fundo de vale, onde apenas os primeiros dois indivíduos, ultrapassaram o valor de 50% do total de VI. Isto indica claramente uma maior distribuição de Densidade, Freqüência e Dominância entre as espécies do divisor de drenagem, e que há um equilíbrio entre estas espécies da comunidade, de forma diferente do que ocorre na floresta do fundo de vale, onde apenas duas espécies exercem um domínio forte dentro da comunidade, exercendo a sua própria sinergia dentro da comunidade.

    Piptadenia gonoacantha (o pau-jacaré) apresentou o maior VI na área de divisor de drenagem. A sua participação na comunidade se dá através dos três parâmetros, sendo a segunda maior população e portanto apresentando uma DR de 6,8%, estando presente em 14 das 20 parcelas (70%) e por isso apresentando uma Freqüência Relativa de 5,96% e apresentando indivíduos de porte elevado tendo, desta forma, uma Dominância Relativa de 20,9%. Como esta espécie é classificada como pioneira (Oliveira, 2002), ela portanto não se enquadra como população típica deste estágio sucessional, e tende a assemelhar com uma secundária tardia, a partir dos dados de número de espécies, área basal, densidade absoluta, sem contar com a própria idade da floresta de mais ou menos 50 anos. Muito possivelmente esta população se encontra em declínio na área do divisor de drenagem, não apresentando recrutamento de indivíduos jovens.

    Chrysophyllum flexuosum se destaca por apresentar uma Densidade Relativa entre as mais altas (4,29%), e principalmente por ter uma ampla distribuição nas parcelas, estando presente em metade das parcelas. Segundo Kurtz e Araújo (2002), Chrysophyllum flexuosum situa-se entre as espécies mais importantes em trechos de Mata Atlântica. Portanto é possível que alguns indivíduos jovens tenham sido excluídos da amostragem, por não estarem dentro do critério de inclusão.

    Portanto, vemos a partir desta análise que as condições locais de cada área e a forma de sucessão natural se diferenciaram, a ponto de formar florestas estruturalmente semelhantes, porém com composição florísticas distintas.

     

    V- CONCLUSÕES

     

    As maiores evidências obtidas pelo levantamento fitossociológico dos dois locais de estudos indicam que:

    a)      ambas as áreas têm o mesmo histórico de perturbação (produção de carvão vegetal), evidenciado pela presença dos balões de carvão nas duas áreas e vestígios de carvão no solo, além de utensílios enterrados no solo da floresta. Ambas têm aproximadamente o mesmo tempo de regeneração (entre 50 e 60 anos).

    b)      ao longo deste tempo sucessional não há indícios de novos distúrbios. Ou seja, não há indícios posteriores de corte raso, ou de perturbações causados pelo fogo ou desmatamento em geral. Portanto a sucessão ecológica que se sucedeu ocorreu de forma contínua desde o interrompimento de produção de carvão nesta região há mais de 50 anos.

    Com relação aos aspectos físico-estruturais, as principais conclusões são:

    a)      Em termos estruturais, os valores de área basal foram muito próximos. A densidade foi maior no divisor. Isto indica que as duas área tiveram estratégias de ocupação distintas, em que houve um investimento maior no porte de poucas espécies no fundo de vale. No divisor de drenagem houve um aporte maior de espécies se distribuindo mais equanimente  no sistema.

    b)       No fundo de vale podemos destacar a ocorrência predominante de uma espécie (Guarea guidonia), que obteve altos valores de Densidade, Dominância e Freqüência Relativas. Podemos concluir que talvez esta espécie tenha alguma associação antrópica, ou que simplesmente que a fauna associada para a dispersão desta espécie atuou de forma mais intensa no fundo de vale. Sem contar com o fato de que esta espécie ocupa preferencialmente locais com bastante umidade, como os fundos de vale.

    c)      Com relação à composição e aos parâmetros fitossociológicos temos que o número de espécies foi 84 no divisor de drenagem e 39 no fundo de vale . O número de espécies em comum foi de 19, indicando uma baixa similaridade florística.

    d)      Apesar de apresentarem o mesmo uso anterior e a mesma idade, os posicionamentos geomorfológicos (fundo de vale e divisor de drenagem) parecem exercer um papel determinante nas respectivas manifestações florísticas e estruturais que se desenvolveram ao longo da sucessão ecológica.

     

    A composição da paisagem aqui estudada é bem mais complexa do que um mero levantamento da floresta pode fornecer. Essa mesma paisagem é, na verdade, uma superposição de paisagens antigas que tiveram outros usos, como a agricultura de subsistência e até a produção de carvão vegetal. Portanto, a área estudada é resultante de uma História Ambiental bastante ampla e diversificada, em que se podem observar seus resultados nos dias de hoje.

     

    Nota

    [1] Considera-se como rara a espécie que foi amostrada com um único indivíduo.

     

    VI - Referências bibliográficas:

    BORÉM, R.A.T. e OLIVEIRA-FILHO, A.T. de. (2002). Fitossociologia do estrato arbóreo em uma toposseqüência alterada de Mata Atlântica, no Município de Silva Jardim-RJ, Brasil. R. Árvore. 26(6): 727-742.

     

    Corlett, R.T. (1994). What is a secondary forest? Journal of Tropical Ecoloy 10:445-447.

     

     Corrêa, A.M. (1933). O Sertão Carioca. Rio de Janeiro, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 167: 312 p. (Reimpressão Depto. Imprensa Oficial. Secret. Mun. Adm., 1936).

     

    Denevan, W.M. 1992. The pristine myth: the landscape of the Americas in 1492. Annals of the Association of American Geographers 82: (3): 369-385.

     

    GÓMEZ-POMPA, A. & VÁSQUEZ-YANES, C. (1974). Studies on secondary sucession of tropicall low-lands: the life cycle of secondary species. In: Proceedings of First International Congress of Ecology. The Hague. p. 336-342.

     

    Kurtz, B.C. e Araújo, D.S.D. de (2000). Composição florística e estrutura do componente arbóreo de um trecho de Mata Atlântica na Estação Ecológica Estadual do Paraíso, Cachoeiras de Macacu, Rio de Janeiro, Brasil. Rodriguésia 51: 69-112.

     

    LOPES, W. de P., SILVA, A.F. de, Souza, A.L. de e MEIRA-NETO, J.A.A. (2002). Estrutura fitossociológica de um trecho de vegetação arbórea no Parque Estadual do Rio Doce – Minas Gerais, Brasil. Acta bot. Bras. 16(4): 443-456.

     

    LORENZI, H. (1992). Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. Nova Odessa: Plantarum. 368 p.

     

    Moreno, M.R., Nascimento, M.T. e Kurtz, B.C. (1998). Estrutura e composição florística do estrato arbóreo em duas zonas altitudinais diferentes em Mata Atlântica de encosta na região do Imbé – RJ Primeira aproximação. Anais do IV Simpósio de Ecossistemas brasileiros.

     

     Mueller-Dombois, D. e Ellenberg, H. (1974). Aims and methods of vegetation ecology. New York: Ed. John Willey & Sons. 574 p.

     

    Oliveira, R. de J., Mantovani, W. e Melo, M.M. (2001). Estrutura do componente arbustivo-arbóreo da Floresta Atlântica de Encosta, Peruíbe, SP. Acta bot. Bras. 15: 391-412.

     

    OLIVEIRA, R.F., MAIA, A.A., PENNA, T.M.P.A. e CUNHA, Z.M.S. (1980). Estudo sobre a flora e fauna da Represa do Camorim e áreas circunvizinhas. Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente/DIPEC. Relatório mimeografado. 43 p.

     

    Oliveira, R.R. de (2002). Ação antrópica e resultantes sobre a estrutura e composição da Mata Atlântica na Ilha Grande, RJ. Rodriguésia. 53(82): 33-58.

    Oliveira, R. R. de (2003). Maciço da Pedra Branca. No prelo.

     

    Pádua, J.A. Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2002. 318 p.

     

    Pessoa, S.V.A., Guedes-Bruni, R.R. e Kurtz, B.C. (1997). Composição florística e estrutura do componente arbustivo-arbóreo de um trecho secundário de floresta montana na Reserva Ecológica de Macaé de Cima. In: Lima, H.C. e Guedes-Bruni, R.R. (eds.) Serra de Macaé de Cima: diversidade florística e conservação em Mata Atlântica. Rio de Janeiro, Instituto Jardim Botânico do Rio de Janeiro, p. 148-167.

     

    SANTANA, C.A. de A. (2002). Estrutura e Florística de Fragmentos de Florestas Secundárias de Encosta no Município Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado em Ciências Ambientais. Instituto de Floresta da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. 147 p.

     

    Silva, G.C. da e Nascimento, M.T. (2001). Fitossociologia de um remanescente de mata sobre tabuleiros no norte do estado do Rio de Janeiro (Mata do Carvão). Ver. Bras. Bot. 24(1):1-16.

     

    Uhl, C. 1987. Factors controlling sucession after slash and burn agriculture in Amazonia. Journal of Ecology 75: 377-407.

     

    VELOSO, H.P. (1991). Classificação da vegetação Brasileira Adaptada a um Sistema Universal. Rio de Janeiro: IBGE. 124 p.

     

    WEAVER, P.L. (2003). Guarea guidonia (L.) Sleumer. Disponível na Internet. http://www.fs.fed.us/global/iitf/Guareaguidonia.pdf. Consultado em 20/06/2003.

  2.  

    Pessoa, S.V.A., Guedes-Bruni, R.R. e Kurtz, B.C. (1997). Composição florística e estrutura do componente arbustivo-arbóreo de um trecho secundário de floresta montana na Reserva Ecológica de Macaé de Cima. In: Lima, H.C. e Guedes-Bruni, R.R. (eds.) Serra de Macaé de Cima: diversidade florística e conservação em Mata Atlântica. Rio de Janeiro, Instituto Jardim Botânico do Rio de Janeiro, p. 148-167.

     

    SANTANA, C.A. de A. (2002). Estrutura e Florística de Fragmentos de Florestas Secundárias de Encosta no Município Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado em Ciências Ambientais. Instituto de Floresta da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. 147 p.

     

    Silva, G.C. da e Nascimento, M.T. (2001). Fitossociologia de um remanescente de mata sobre tabuleiros no norte do estado do Rio de Janeiro (Mata do Carvão). Ver. Bras. Bot. 24(1):1-16.

     

    Uhl, C. 1987. Factors controlling sucession after slash and burn agriculture in Amazonia. Journal of Ecology 75: 377-407.

     

    VELOSO, H.P. (1991). Classificação da vegetação Brasileira Adaptada a um Sistema Universal. Rio de Janeiro: IBGE. 124 p.

     

    WEAVER, P.L. (2003). Guarea guidonia (L.) Sleumer. Disponível na Internet. http://www.fs.fed.us/global/iitf/Guareaguidonia.pdf. Consultado em 20/06/2003.