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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

Análise Física Aplicada a Geografia: Desenvolvimento metodológico sobre pesquisa geomorfológica da Bacia do Rio Mucuri - Mg / Ba

 

 

Caio Mário FERRAZ

Jeanne Domingues SANTOS

Patrícia Mara Lage SIMÕES

Rafael Rangel GIOVANINI

Graduandos em Geografia - Instituto de Geociências/UFMG

 

 

Allao SAADI

Prof. Departamento de Geografia - Instituto de Geociências/UFMG

 

 

 

Palavras-Chaves: Ambiental: Geomorfologia, Mucuri; Bacia Hidrográfica

 

 

Eixo Temático: 3 - Aplicação da Geografia à Pesquisa

Sub-eixo: 3.4 – Aplicações Temáticas em Estudos de Caso

 

 

1.Introdução

 

Com o objetivo de elaborar uma análise geomorfológica regional da bacia do Mucuri, localizada no NE de Minas Gerais e sul da Bahia, desenvolveu-se uma metodologia que possibilitou reunir os subsídios necessários para compreender os fatores inerentes à geomorfologia da área de estudo, desde a sua descrição até a elaboração de hipóteses para gênese e evolução das formas de relevo da bacia.

As atividades foram realizadas por  alunos de Geografia da UFMG, durante o curso Geomorfologia Climática e Estrutural II, ministrada pelo professor
Dr. Allaoua Saadi, Professor Titular do Departamento de Geografia desta instituição.

A necessidade de produzir uma metodologia diferenciada justifica-se na inexistência de bibliografia geomorfológica específica à bacia. As fontes de pesquisa disponíveis resumiam-se a apenas três obras, sendo que nelas a região em questão era citada como exemplo, por se tratarem de textos relacionados a uma escala de trabalho maior do que a bacia do Mucuri. A geologia e o clima regionais restringiam-se a mapas e seus textos explicativos, não havendo referência bibliográfica e cartográfica específica à bacia. As restrições financeiras e o curto prazo de tempo destinado à realização deste trabalho, assim como a carência bibliográfica supramencionada, foram responsáveis pelo desenvolvimento da metodologia alternativa adotada pelo professor da disciplina e reestruturada pelos alunos, a fim de possibilitar a realização da análise geomorfológica da região estudada.

 

 

2.Metodologia

 

O cronograma utilizado dividia-se, basicamente, em dois pré-relatórios precedentes ao trabalho de campo. O objetivo era reunir o maior número de elementos que auxiliassem a apreensão e compreensão de dados a serem aferidos in lócus. A última etapa consistia-se na elaboração do documento final, composto por textos explicativos e cartogramas específicos, documento no qual toda a análise seria avaliada.

A prática iniciou-se com a elaboração de uma Compartimentação Morfológica do relevo da bacia, tendo como basea observação e análise das cartas topográficas em escala 1:250. 000, disponíveis sobre a área. Definiu-se, a priori, uma faixa de 30 centímetros dos mapas a ser estudada, tendo-se como referência um ponto intermediário entre o curso do rio Mucuri e o trajeto do trabalho de campo, uma vez que seria este o alcance visual possível durante as incursões à região. Em função da presença de inúmeros afluentes do rio Mucuri, incluindo sua nascente, além da presença de formas de relevo que guardam uma certa identidade com outras áreas estudadas ao longo do restante da região, algumas áreas externas à delimitação inicial foram incluídas na área de estudo. A análise e interpretação das cartas topográficas enfocou a observação das formas de relevo e sua densidade.

Em função da dificuldade de observação dos elementos nas cartas, procedeu-se, inicialmente, à análise da drenagem da região, objetivando a determinação dos principais padrões de drenagem, das anomalias e dos divisores das sub-bacias, seguida da ordenação dos cursos d`água segundo o método definido por Strahler. Para cumprir essas tarefas, foi construído um mapa-rascunho, no qual todos os elementos acima descritos foram extraídos das cartas e interpretados segundo as metodologias citadas. Para tal tarefa utilizou-se folha vegetal, para transcrever os elementos necessários. Em seguida, as conclusões foram transferidas para um cartograma definitivo, em formato A3, a ser anexado ao relatório final.

Para a definição dos compartimentos de relevo foram utilizadas algumas outras técnicas. Elaborou-se um mapa-rascunho, também se utilizando papel vegetal, no qual foram traçadas as curvas de nível relativas aos topos e aquelas necessárias a uma melhor visualização das formas de relevo que mais se destacaram na área, bem como a densidade e distribuição destas formas ao longo da bacia, seguindo-se à determinação do predomínio de formas alongadas ou arredondadas. Como critério auxiliar foram observadas as altitudes médias de porções da área estudada. A partir dessa primeira observação, foi elaborado um mapa preliminar que, ao ser confrontado com o cartograma hidrográfico, possibilitou a averiguação da possível coerência entre os limites estabelecidos e esses elementos da paisagem.

Uma vez obtendo conhecimentos sobre os padrões de drenagem e configurações do relevo, definiram-se os cortes ideais para se traçarem perfis topográficos representativos das áreas nas quais foram elaboradas as compartimentações. O perfil principal contemplou toda a extensão do traçado provável a ser percorrido ao longo do trabalho de campo. Como complemento, foram gerados perfis suplementares de áreas específicas, onde foram definidas unidades não contempladas pelo perfil anterior. Foram privilegiadas as áreas de contato entre diferentes compartimentos e unidades de relevo.

Cumpridas essas etapas, foram realizados ajustes à delimitação elaborada, até que se chegasse a versão final, em escala 1:250. 000. Por motivo de praticidade, esse mapa foi reduzido até que pudesse ser enquadrado em uma folha de tamanho A3 (anexada ao relatório final), resultando em uma escala próxima de 1:150. 000.

Para que pudessem ser elaboradas hipóteses acerca das variações nas formas de relevo encontradas, novos elementos de análise tiveram de ser adicionados. O primeiro deles foi o substrato geológico, que foi incorporado aos perfis citados acima, que de perfis topográficos passaram a perfis geológicos. Concluídos os trabalhos de elaboração do perfil rascunho, procedeu-se à sua conversão a um formato digital, em gráficos vetoriais. O primeiro passo para essa conversão foi a digitalização, dentro de parâmetros técnicos que fossem adequados ao software[1] a ser utilizado posteriormente. Feito isso, procedeu-se à vetorização das imagens dos perfis, através de ferramentas de desenho à mão livre, no Corel Draw, ou de vetorização semi-automática, no MicroStation Descartes. O uso desse último possibilitou uma economia de tempo significativa, nessa fase do trabalho.

Concluída a vetorização, passou-se à fase de acabamento. (Nessa fase, é recomendável a utilização do Corel Draw[2], que permitirá a escolha de cores e texturas perfeitamente adequadas às convenções utilizadas em mapas geológicos.) O formato e escala de impressão ficaram a cargo dos alunos, na medida em que gráficos vetoriais permitem qualquer tipo de redução ou ampliação. A ausência de limitações técnicas nesse sentido, entretanto, não eliminaram a necessidade de julgamento por parte dos alunos, que devem optar pela escala mais adequada aos objetivos do seu trabalho. No caso do trabalho empreendido, optou-se pelo formato A1, em detrimento do A3, sugerido pelo professor, em função da escala vertical do perfil original (1:20.000). Quando reduzido, esse documento apresentou níveis de distorção muito elevados, que inviabilizariam, por exemplo, a impressão correta dos símbolos relativos as rochas sedimentares, intrusões e embasamento cristalino. Entretanto, todos os cartogramas anexados ao relatório final foram plotados na referida folha A1, objetivando uma visualização facilitada das variáveis estudadas.

Por fim, os compartimentos de relevo foram delimitados sobre o perfil, fazendo com que ele chegasse a sua forma definitiva (Perfis geomorfológicos da bacia do Rio Mucuri, a serem anexados ao trabalho final).  

A delimitação de eventuais superfícies de aplainamento, uma das mais importantes contribuições da análise produzida, se deu com auxílio dos perfis digitalizados. Para isso, foi utilizado o recurso das linhas-guia, contido no “software” Corel Draw. A partir dos perfis digitalizados, foram colocadas linhas-guia sobre as altitudes máximas dos interflúvios e mínimas dos vales, facilitando a determinação das superfícies.

A realização do Trabalho de Campo, de importância fundamental, deu-se em três dias. Sob orientação do professor, observou-se e analisou-se, prioritariamente, a morfologia regional como um todo, atentando-se às suas variabilidades e distinção das formas das vertentes, dos interflúvios e dos vales dos rios. O comportamento e a dinâmica fluvial mereceu destaque em campo. Afloramentos de diferentes tipos de rochas, o desenvolvimento de sua alteração e a sua relevância no desenvolvimento do relevo foram sempre alvos de observações, deduções e explicações em campo.

Elementos de relevância fundamental para uma análise que versa sobre a evolução do relevo em escala regional foram exaustivamente analisados, objetivando uma compreensão, em escala temporal que abrangiu todo o Cenozóico, dos principais eventos climáticos e tectônicos diretamente responsáveis pela gênese e evolução do relevo e da hidrografia da bacia do Mucuri. 

Os dados advindos do campo serviram como balizadores das tarefas desenvolvidas, dando subsídios à compartimentação elaborada, permitindo a argumentação acerca da influencia da geologia sobre o relevo local e, principalmente, sendo a fonte mais segura de informações utilizadas na caracterização dos compartimentos de relevo e superfícies de aplainamento propostas. As fotos coletadas são especialmente úteis nesse sentido.

A ordenação das técnicas apresentada acima está intimamente relacionada ao método utilizado, em concordância com o cronograma proposto. Partia-se sempre de uma hipótese, proposta pela observação dos mapas e da análise dos dados coletados em campo, e a partir delas se organizavam as atividades, no sentido se fornecerem subsídios para a sua confirmação ou afastamento. A bibliografia era consultada, na maior parte das vezes, com o intuito de se obter informações complementares às contidas no mapa, avaliando-se, com isso, alguma hipótese definida a priori, e retrabalhada a partir dos dados primários, inclusive os advindos do trabalho de campo. A utilização de modelos explicativos mais gerais, tais como os de pediplanação ou o modelo dos etchplanos, foi feita com cautela e resguardo. Deu-se somente após as interpretações dos dados primários, em verificação de uma possível identidade entre o que foi observado e um modelo geral.

 

 

Conclusão

 

Os resultados alcançados relacionam-se estritamente com a metodologia utilizada, uma vez que praticamente supriu as carências bibliográficas e cartográficas, podendo ser realizada em curto espaço de tempo e empregando baixos investimentos, excetuando-se o trabalho de campo, custeado pelo Departamento de Geografia da UFMG.

As principais contribuições da pesquisa envolvem uma bibliografia geomorfológica específica da região. Traz em seu bojo uma descrição cautelosa do relevo da bacia e busca esclarecer a gênese e evolução das suas formas a partir do comportamento e dinâmica da dissecação fluvial sobre a superfície de aplainamento pré-existente, inferida através do estudo dos níveis altimétricos e escalonamentos dos interflúvios da bacia.  A cartografia e a textualização produzida, bem como a revisão da restrita bibliografia existente sobre a região, pode contribuir para futuros trabalhos de graduação produzidos por alunos de Geografia. No entanto, entende-se que a metodologia utilizada pode ser empregada para a realização de inúmeras pesquisas, servindo de suporte prático para graduandos e professores interessados em produzir análises em Geografia Física, demandando poucos recursos financeiros e bibliografia específica, especialmente no que tange a aplicação de softwares em trabalhos de geografia física. .

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Para a questão da definição do recorte espacial dos estudos ambientais não há uma resposta ideal ou definitiva. Há várias maneiras possíveis de compartimentar o espaço em unidades coerentes. Essas possibilidades devem-se não apenas à categoria global adotada como prioritária (funcionamento, morfologia, gênese, etc.), mas também ao tema a ser considerado com maior relevância (economia, sociedade, hidrografia, cultura, cobertura vegetal, etc.) na área de estudos.

 

 

AGRADECIMENTOS

 

À Divisão de Controle e Proteção de Mananciais da COPASA-MG por permitir o acesso e os estudos de campo na APE-Cercadinho.

 

 

NOTAS

 

[1] Caso se opte pelo uso do software Corel Draw, uma resolução de 300 dpi em um arquivo JPG é suficiente. Para o uso do Microstation Descartes, a resolução de 300 dpi deve ser mantida, mas o formato do arquivo deve ser TIF, preferencialmente.

[2] Caso a vetorização tenha sido feita no Microstation Descartes, deve-se exportar o arquivo resultante em formato DWG, que pode ser importado, sem nenhum tipo de deformação, para o Corel Draw.

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

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