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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

ANÁLISE DE FATORES GEOGRÁFICOS QUE INFLUENCIAM A SUSTENTABILIDADE ECOLÓGICA DO PARQUE ESTADUAL DA SERRA DO IBITIPOCA –LIMA DUARTE –MG





Daniel Fontana Baptista da Silva dnfontana@ig.br;
Érica Cristina Nogueira dos Santos;
Mara Lúcia Rodrigues Costa


Curso de Geografia da Universidade Presidente Antônio Carlos - UNIPAC Barbacena - MG




 

Palavras-chave: manejo, preservação, Ibitipoca.
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicações Temáticas em Estudos de Casos
 

 







O Parque Estadual do Ibitipoca é uma área de preservação ambiental aberta à visitação pública, sob a tutela e administração do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais – IEF. Localiza-se aproximadamente a 90 km de Barbacena, tendo como limites os municípios de Lima Duarte, Bias Fortes e Santa Rita do Ibitipoca, e estando inserido na Zona da Mata de Minas Gerais.
A sua paisagem é típica de domínios de rochas quartzíticas, recobertas por campos rupestres. A área do parque é enriquecida por exuberantes mirantes, locais de banho e grutas, que contrastam com seu entorno, que é caracterizado pela presença de um relevo de colinas arredondadas e morros de menores altitudes (Mares de Morros), o que faz do parque uma área de muitos recursos de lazer. Porém sua utilização excessiva tem se refletido num crescente quadro de processo erosivo e movimentação de massa nas proximidades das trilhas que ligam locais de maior freqüência de visitação, além de gerar alterações diretas na diversidade de fauna e flora local (ZAIDAN, 2002).
Por ser uma região com uma grande heterogeneidade ambiental, atrai a presença humana e com isso necessita ser cuidada, pois este é um ambiente extremamente frágil.
O escopo desse trabalho é analisar alguns fatores geográficos como a hidrografia, o clima, a geologia, a geomorfologia e o solo e como esses fatores influenciam na sustentabilidade ecológica do parque, ou seja, como é a relação desses fatores entre si e como o seu conhecimento pode ser uma ferramenta para minimizar os impactos antrópicos no parque, destacando as potencialidades e fragilidades desse ambiente. O presente trabalho foi realizado em três etapas: a)- levantamento das fontes bibliográficas disponíveis em bibliotecas das Universidades Federal de Lavras, Juiz de Fora, Viçosa; b)- visitas de consulta sistemática ao acervo das referências e fontes bibliográficas do Parque Estadual da Serra do Ibitipoca; c)- visitas ao parque, para identificação visual dos problemas ambientais, relacionados a algumas áreas indicadas pelo administradores da Unidade de Conservação. Essas etapas foram feitas no período de 18/05/2003 a 30/07/2003.

O parque foi criado pela Lei Estadual No 6.126 de 4 de julho de 1973, possuindo uma área de 1488 ha. Está situado nas coordenadas geográficas de 21o40’a 21o43’S e 43º52’e 43º54’ W, na parte alta da Serra do Ibitipoca, inserido no Sistema Geológico Mantiqueira, fazendo parte do chamado Grupo Andrelândia (CETEC 1983, apud ZAIDAN, 2002). O clima local segundo RODELA (2000) é tropical de altitude mesotérmico, com inverno frio e seco e chuvas elevadas no verão. A autora leva em consideração a situação da latitude e da altitude (entre 1100 e 1780m) porque no parque, a influência do relevo sobre o clima é muito importante, pois a altitude e a topografia são diferenciadas e as cristas anticlinais de Ibitipoca se sobressaem localmente em relação às áreas vizinhas, originando um clima diferenciado dos arredores. Estas diferenças de relevo influenciam as características climáticas, com acréscimo de umidade e pluviosidade, e decréscimo das temperaturas na área da Serra (RODELA E TARIFA, 2002). A temperatura média nos meses mais frios está entorno de 12o e 15oC, e nos meses mais quentes, entre 18o e 22oC. A precipitação pluviométrica nos meses mais chuvosos, em média, é de 200 a 500 mm ao mês e nos meses mais secos em média é de 20 mm por mês. O total anual chega a aproximadamente a 2200 mm. (RODELA E TARIFA, 2002).
Os domínios litológicos predominantes na Serra do Ibitipoca são quartzitos grossos sacaroidais, ocorrendo também quartzitos finos micáceos, biotita-xistos e lentes decimétricas de muscovitas-xistos (NUMMER, 1991). A área corresponde também ao Distrito Espeleológico da Serra do Ibitipoca, que apresenta uma das maiores grutas em rochas quartzíticas do mundo (mais de 3000 metros de extensão mapeados) sendo que ao todo foram localizadas 30 cavernas dentro dos limites do parque (CORREA NETO, 1997). Grandes quantidades de córregos e riachos nascem na serra, mas apenas dois deles apresentam parte de seus leitos dentro da área do parque, que são os rios do Salto e Vermelho. O rio do Salto percorre todo vale central da serra no sentido S numa distância de aproximadamente 5km, entre as cotas altimétricas de 1.650 e 1.050m. O rio Vermelho percorre o sentido N, numa distância aproximada de 2km dentro da área do parque, entre 1.700 e 1.500 metros de altitude (FEIO, 1990). A rede de drenagem na serra formou-se geralmente por controle estrutural da rocha e relevo, sendo, portanto, controlado principalmente pelas falhas e fraturas de direção NE-SW (CORREA NETO et al., 1993). Os rios e córregos de Ibitipoca apresentam-se com vales muito encaixados, com vertentes rochosas e paredões, leitos rochosos e encachoeirados (RODELA, 1998, 2000).
A variação dos solos do parque ocorre, principalmente, em função da alteração do material de origem, predominando os solos de origem autóctones, ou seja, formados a partir da decomposição das rochas locais, predominado os de natureza quartzítica. MACIEL  ROCHA (2000) definiram cinco unidades mapeadas dentro dos limites do Parque Estadual do Ibitipoca, são elas: Neossolo litólico, Complexo Afloramento de Rocha e Neossolo Litólico que cobrem 75% da área do Parque. Afloramento de rocha, cambissolo substrato xisto, cambissolo substrato quartzito e neossolo quartzênico cobrem o restante da área. Associados à topografia muito acidentada, resultam numa cobertura vegetal diversificada, constituindo assim um complexo vegetacional formado por um mosaico de comunidades de diferentes fisionomias (ZAIDAN, 2000).
No Parque Estadual do Ibitipoca, as florestas revestem aproximadamente 405 ha, ou seja, 27% de sua área total. Deste total a Mata Ombrófila Altimontana (“Mata Grande” como é conhecida localmente) ocupa uma área aproximada 94 ha (FONTES, 1997). A “Mata Grande” desenvolve-se principalmente sob o cambissolo substrato xisto e encontra-se na porção central do parque, revestindo principalmente uma colina litoestrutural dissecada, segundo a classificação geomorfológica de ZAIDAN, 2000. Ela encontra-se bem preservada, sem quase nenhuma interferência antrópica por não apresentar atrativos turísticos marcantes como cachoeiras e grutas. Por isso é uma área de grande interesse científico. A presença característica do horizonte orgânico atesta a inexistência de erosão no local. A Mata Ombrófila Altimontana caracteriza-se por um dossel rico em clareiras e de altura bastante irregular, em torno dos 17 m, sendo seu ambiente muito úmido e sombreado (FONTES, 1997).
Ao contrário do que ocorre com a “Mata Grande”, outras áreas do parque vem sofrendo muito com a pressão da influência degradatória do homem. A trilha alta que leva à Ponte de Pedra é apontada como uma área com grandes riscos de movimento de massa e erosão. Apresentando geologia de gnaisse finamente bandado, mais quartzito grosso e mica-xisto e estando sob uma encosta litoestrutural dissecada sul segundo classificação de proposta por ZAIDAN (2002). O movimento de massa acontece no afloramento de rocha quartzítica chamado Paredão de Santo Antônio, que acompanha a margem leste do leito do Rio do Salto. A Mata Ciliar recobre a margem oeste. O Campo Rupestre compõem a cobertura vegetal da parte superior ao afloramento. O Campo Rupestre apresenta fisionomia de aspecto xeromórfico, pois, está instalado em um solo incipiente, o neossolo litólico. Esta área vem sofrendo impactos consideráveis com a visitação excessiva, como a
Apesar do Parque Estadual do Ibitipoca ser uma área protegida por lei, vem sofrendo um processo de degradação de seu patrimônio natural causado pela atividade turística excessiva. Diversos estudos científicos apontam áreas de risco ambiental para o parque. As duas áreas escolhidas para exemplificar nosso trabalho indicam situações diferenciadas. A “Mata Grande” que permanece praticamente intocada e a Trilha alta para a Ponte de Pedra que sofre com a degradação causada pelo turismo excessivo. Outras áreas, também vêm sofrendo com o risco de movimento de massa devido à alta declividade do terreno e a retirada da cobertura original pelo alargamento e abertura de trilhas não oficiais, como é o caso do caminho que leva ao Pico do Pião, onde se observou erosão acentuada, com a presença de sulcos freqüentes médios a profundos, e o complexo de trilhas que faz a ligação até a Cachoeira dos Macacos, que é um dos locais de fluxo mais intenso de visitantes e já vem se desenvolvendo alguns problemas como os citados. Portanto, essas são as áreas com maior necessidade de proteção, por ainda não se estarem apresentado estado crítico, onde seria necessário grande investimento do homem para recuperá-la. Deve-se tomar medidas para a adequação ao uso sustentável da área do parque. Podemos sugerir que as visitas às áreas com maior impacto ambiental aqui mostrado sejam feitas com guias até que elas se recuperem completamente e que esses guias sejam mais capacitados do que atualmente. Uma medida mais radical seria o fechamento desses locais para visitação pública. Além disso, pode-se ser deslocado o fluxo de turistas das áreas degradadas para outras áreas menos visitadas, como é o caso do circuito das águas, que apesar de ser o de mais fácil acesso é o menos procurado, mas que tem também um enorme potencial turístico. A mais importante das iniciativas para conter o avanço da degradação ambiental ocorrida no Parque Estadual da Serra do Ibitipoca seria a conscientização de moradores e turistas. Os moradores deveriam se conscientizar de que o ecoturismo realizado na área do parque é a principal fonte local de recursos e os turistas de que o meio ambiente é frágil, fazendo com que haja maior envolvimento com práticas racionais de uso da natureza, o que reforça ainda mais a temática sustentabilidade.
 

Referências Bibliográficas
 

BRASIL, Ministério das Minas e Energia, Secretaria Geral. Rio de Janeiro/Vitória. In: projeto RADAMBRASIL, Levantamento de Recursos Naturais, Vol. 32. Brasília, DF, 1983.
CETEC. Diagnóstico Ambiental do Estado de Minas Gerais. Série de Publicações Técnicas. Belo horizonte, 1983.
CORREA NETO, A .V. Cavernas em Quartzito da Serra de Ibitipoca, Sudeste de Minas Gerais. In: Anais do Seminário de Pesquisa do Parque Estadual do Ibitipoca, MG. Juiz de Fora : Núcleo de Pesquisa em Zoneamento Ambiental da UFJF, 1997.
FEIO, R. N. Aspectos ecológicos dos anfíbios registrados no Parque Estadual do Ibitipoca – Minas Gerais. Rio de Janeiro : Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1990. Dissertação de mestrado apresentada à coordenação de pós-graduação em ciências Biológicas (Zoologia) do Museu Nacional da UFRJ.
FONTES, M.A.L., Análise da composição florística das florestas nebulares do parque estadual do Ibitipoca, Minas Gerais. Lavras : UFLA, 1997. Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Florestas da Universidade Federal de Lavras.
GUERRA, A. J.T.  CUNHA, S.B., Geomorfologia – Uma Atualização de Bases e Conceitos. 4 ed. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil, 2001.
GUERRA, ªJ.T.  GUERRA, A . J . Novo Dicionário Geológico-Geomorfológico. 2 ed. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil, 2001.
MACIEL, D. M.G.  ROCHA, Geraldo, C., Distribuição Geográfica dos solos do parque estadual do Ibitipoca – MG. In: Anais do VIII Seminário de iniciação científica. Juiz de Fora : PROPP/UFJF, 2000.
NUMMER, A. R. Análise estrutural e Estratigrafia do Grupo Andrelândia na Região de Santa Rita do Ibitipoca, Lima Duarte, MG. Rio de Janeiro : UFRJ, 1991. Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Geociências, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
RODELA, L.G. Vegetação e Uso do Solo – Parque Estadual do Ibitipoca – MG. (Mapa, escala 1: 25.000. Belo Horizonte : Governo do Estado de Minas Gerais; Secretaria de Meio Ambiente; Instituto Estadual de Florestas, 1998.
RODELA, L.G. Distribuição de Campos Rupestres e Cerrados de Altitude na Serra do Ibitipoca, Sudeste de Minas Gerais. São Paulo : USP, 2000. Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de Geociências da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
RODELA, L. G.  TARIFA, J.R. O clima da Serra do Ibitipoca – Sudeste de Minas Gerais. Revista Espaço e Tempo, n.º 11, GEOUSP : São Paulo, 2002.
ZAIDAN, R.T. Zoneamento de Áreas com necessidade de proteção ambiental no parque estadual do Ibitipoca – MG. Rio de Janeiro : UFRRJ, 2002, Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Florestas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

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