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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


POTENCIAL PARA O TURISMO ECOLÓGICO DAS TRILHAS RIO GRANDE E CAMORIM - PARQUE ESTADUAL DA PEDRA BRANCA (PEPB-RJ).




Vivian Castilho da Costa
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia - PPGG
Grupo de Estudos Ambientais da Zona Oeste (GEOESTE)
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Email: viviancosta@bol.com.br
Nadja Maria Castilho da Costa
Profª. Adjunta do Deptº. de Geografia - Grupo de Estudos Ambientais (GEA)
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
Email: nadjagea@bol.com.br
Flávia Alves de Oliveira
Bolsista de Iniciação Científica - Fundação CCMN
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Paloma Sol Herz Cunha
Bolsista de Iniciação Científica - CNPq
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Wilde Itaborahy Ferreira
Bolsista de Iniciação Científica - CNPq
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Olívia Maria de Oliveira Carvalho
Bolsista de Iniciação Científica - UERJ/Pibic
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
Jorge Victorino Pires Jr.
Estudante de Geografia - IGEO/GEG
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ






Palavras-chave: turismo ecológico, geoprocessamento, banco de dados geo-ambiental
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos








INTRODUÇÃO

No Brasil a Mata Atlântica preservada da região sudeste do país, é famosa por seu potencial ecoturístico. Mas, em todo país e particularmente no município do Rio de Janeiro, o ecoturismo é praticado, muitas vezes, de forma desordenada e caótica, sem planejamento e controle dos impactos. Algumas atividades ecoturísticas podem produzir impactos negativos, dependendo da forma como são conduzidas, e até mesmo são influenciadas por problemas locais: como a falta de segurança pública e a falta de manutenção logística e de infraestrutura dos Parques e Reservas estaduais e municipais. O grande dilema das Unidades de Conservação, principalmente aquelas localizadas em áreas urbanas densamente ocupadas, é a preservação da integridade ecológica, concomitantemente ao uso do potencial de seus recursos, principalmente em trilhas ecológicas.
A implementação do turismo sustentável, particularmente do turismo ecológico ou ecoturismo, deve estar em sintonia com a capacidade de suporte dos recursos naturais e infraestrutura física existente, sendo legitimada pela ampla participação das comunidades locais, principalmente as próximas de Unidades de Conservação. Essas populações devem ser contempladas com atividades de interpretação e educação ambiental, para servir de suporte ao conhecimento e difusão da importância de se conservar a flora e a fauna.
Na cidade do Rio de janeiro, a população tem utilizado, cada vez mais, as áreas preservadas para o lazer, o turismo ecológico e a prática de esportes de aventura, e é no centro geográfico do município que se encontra uma das áreas de maior potencial: o Maciço da Pedra Branca, possuidor da maior floresta urbana do mundo e de uma significativa área de Mata Atlântica a ser protegida pelo Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB).
O estabelecimento de atividades recreativas e de turismo em unidades de conservação dos grandes centros urbanos ainda não se desenvolveu através de um planejamento mais detalhado que leve em conta as características geo-ambientais de suas áreas de maior potencial. E é com a proposta de colaborar com a criação de um modelo sustentável para a exploração deste potencial, que está sendo desenvolvido o presente projeto. Os estudos sobre o PEPB são uma continuidade das pesquisas que vêm sendo desenvolvidas em toda Zona Oeste do município do Rio de Janeiro, e se concentram mais especificamente na vertente leste do PEPB (Costa et al, 2000 e 2001).
Foram selecionadas as trilhas mais favoráveis à realização de atividades "autointerpretativas" e que apresentam alto potencial para atividades de educação ambiental e ecoturismo. Tal escolha foi previamente definida, a partir do conhecimento geográfico detalhado da área do Parque, destacados por Santos (1999) e Costa (2002).

ÁREA DE ESTUDO: CARACTERÍSTICAS GERAIS

Compreende a vertente leste do PEPB, voltada para os bairros de Jacarepaguá, Taquara, Vargem Grande e Vargem Pequena, em encostas de forte gradiente e de floresta pluvial com níveis diferenciados de evolução da vegetação.
Considerou-se como trilhas piloto, duas dentre as sete consideradas como de altíssimo potencial: Trilha do Rio Grande e Trilha do Camorim. A trilha do Rio Grande se inicia na sede do Parque (Estrada do Pau da Fome), próxima ao bairro da Taquara, entre as coordenadas UTM 660000-665000 e 7460000-7465000. Já a trilha do Camorim tem seu início próximo à subsede do Parque (Estrada do Camorim), entre os bairros de Jacarepaguá e Barra da Tijuca, nas coordenadas UTM 660000-665000 e 7455000-7460000 (figura 1).
 

Figura 1 - Localização da Área de Estudo

Fonte: Ortofotos (IPP, 1999). Realizado por Costa, V. C. da & Ferreira, W. I. (2003),
GEOESTE, UFRJ.

METODOLOGIA

O trabalho visa elaborar um Banco de Dados Geográfico (BDG) em Sistema de Informação Geográfica (SIG), aplicando técnicas de GPS para a pontuação de trilhas ecoturísticas do PEPB. As informações contidas no BDG serão disponibilizadas mediante o software ArcView GIS. Além da construção do BDG, serão feitos cruzamentos de informações coletadas em campo, para a realização de cartogramas digitais temáticos. Com o resultado da análise geoambiental, será definido um programa geral de uso público, dentro dos princípios de Interpretação para Uso Recreativo e da Educação Ambiental Informal e do Ecoturismo nas trilhas.
A metodologia que está sendo usada para a realização do Banco de Dados Digital (BDD), está calcada na aplicação de ferramentas de geoprocessamento e de SIGs. Ele é composto por um banco cartográfico (convencional) e um banco das informações geo-ambientais coletadas em campo, a fim de gerar cartogramas digitais temáticos (banco de dados georreferenciado) em alta resolução, compatíveis com a escala de semi-detalhe (1:10.000). Tais dados serão cruzados no software ArcView GIS, o que permitirá a definição das zonas de potencialidades ecoturísticas e das características geoambientais de cada trilha analisada.
Os parâmetros geográficos selecionados foram: (a) Uso e Ocupação do Solo Atual (com destaque para a mata, o aspecto mais significativo para se estudar uma trilha ecológica); (b) Gradiente das encostas (parâmetro que permitirá definir o grau de dificuldade de acesso e/ou trânsito de visitantes, o perfil do público alvo para cada trilha, e também das atividades ecoturísticas a serem potencializadas, como o trekking, a caminhada ou o ciclismo de montanha, entre outras); (c) Proximidade de atrativos turísticos (mirantes, pontos cotados, paradas, pontos turísticos, clubes, fazendas, além das trilhas, caminhos, estradas e vias de acesso principais ao PEPB, entre outros); (d) Proximidade de cursos d´água (represas, cachoeiras, quedas d´água, entre outros, que conduzam à realização de atividades de lazer e esportes, respeitando os limites de conservação e preservação ambiental); (e) Susceptibilidade à processos erosivos (deslizamentos, desmoronamentos, quedas de blocos, etc., utilizando os mapas de risco geológico-geomorfológico e de cicatrizes de erosão - 1996 - Costa, 2002); (f) Tipos e características diferenciadas de solos; e (g) Potencial e risco de desmatamentos, incêndios e urbanização identificados por Costa (Op. Cit.).
Foram utilizadas as bases cartográficas do IPP (Instituto Pereira Passos), onde selecionou-se as principais feições a serem consideradas: trilhas principais, acessos (rodovias e estradas), curvas de nível, hidrografia e corpos d´água.
Como etapa posterior, será realizada a aplicação de questionários direcionados aos visitantes e à fiscalização do PEPB, com relação à percepção ambiental da visitação e dos problemas e impactos encontrados nas trilhas. As informações a serem obtidas estarão relacionadas à análise da freqüência dos visitantes, número de componentes dos grupos, local de origem, faixa etária e a opinião/identidade que eles possuem com o Parque. Essas informações irão complementar o banco de dados acerca do número de visitantes, seus horários, dias da semana, meses (estações do ano), entre outras. O esclarecimento das preferências de visitação do parque, ajudarão na condução das atividades ecoturísticas, assim como no cálculo da capacidade de suporte das trilhas.
O inventário de campo sobre as condições das trilhas e os questionários direcionados aos visitantes, subsidiarão a metodologia de cálculo da capacidade de carga das trilhas. Tal cálculo é usualmente feito por engenheiros florestais ou biólogos, que utilizam basicamente uma metodologia proposta por Cifuentes (1992), entre outros autores. Apesar de prático, esse método não apresenta uma visão integrada dos condicionantes físico-ambientais. Por isso a determinação da capacidade de carga do PEPB será feita com a adaptação da metodologia proposta, às particularidades de cada trilha, considerando não só a capacidade de carga física (CCF); a capacidade de carga real (CCR) e a capacidade de carga efetiva (CCE), mas também outros métodos serão avaliados, tais como: o LAC - Limite Aceitável de Carga (Stankey et. al., 1985) e o MIV ou VIM - Monitoria de Impacto de Visitação que, segundo alguns pesquisadores (Andrade & Rocha, 1990; Faria et al., 1997 e Takahashi, 2001), são mais voltados à realidade das unidades de conservação brasileiras.

RESULTADOS INICIAIS

Os resultados obtidos com os trabalhos de campo nas trilhas selecionadas, culminaram com o início da criação do banco de dados geográfico, que se apoiará na base cartográfica realizada por ferramentas de geoprocessamento.
As informações coletadas estão sendo arquivadas em relatórios, onde constam algumas indicações dos processos erosivos, falta de infra-estrutura, precariedade das instalações, medidas preventivas e soluções sobre os problemas de planejamento e manejo das principais trilhas existentes para o desenvolvimento do ecoturismo e da educação e interpretação ambiental no Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB).
Até o presente trabalho, foram realizados inventários e iniciados os seus respectivos relatórios de duas das sete trilhas de altíssimo potencial para o ecoturismo: Rio Grande e Camorim, como será descrito a seguir.

Trilha do Rio Grande (antiga Trilha das Bromélias)
A trilha do Rio Grande tem acesso a partir da sede do PEPB, na Estrada do Pau da Fome. Na data de realização do primeiro trabalho de campo (26/10/2002) a trilha ainda possuía o nome antigo, trilha das Bromélias, recentemente (05/06/2003) renomeada e remodelada, por conta da revitalização das instalações da sede, que agora conta com um bromeliário, um museu biológico e geológico (foto 1), um pequeno anfiteatro ao ar livre (foto 2) e instalações da administração. Tais reformas fizeram parte de parceria firmada entre a Fundação Instituto Estadual de Florestas (IEF/RJ), a World Wide Foundation (WWF-Brasil) e a Fundação Roberto Marinho (Organizações Globo), por conta da gestão de recursos financeiros provenientes da medida compensatória para a instalação de uma termoelétrica no Estado do Rio de Janeiro.

Foto 1 - Entrada para deficientes físicos do museu biológico e geológico (voltado à educação ambiental) do Parque Estadual da Pedra Branca, localizado na sede administrativa (Pau da Fome).


Foto 2 - Construção em madeira (mesmo material dos equipamentos que compõem as dependências da administração da sede e da trilha do Rio Grande: pontes, mesas, bancos, entre outros) do anfiteatro ao ar livre.

A trilha possui forma circular, como uma "ferradura", ou seja, seu ponto de entrada (início) é diferente do de saída (chegada ou final), porém não há grande distância entre as duas, pois ambas dão a volta nas construções da administração da sede do Parque. O tempo estimado para caminhada é de cerca de 30 minutos (total do percurso). O grau de dificuldade da trilha é nulo, possuindo subidas e decidas leves (sem muita inclinação no eixo da trilha), destinada a qualquer faixa etária.
Sua largura varia de 1 a 5 m, necessitando de reflorestamentos em alguns pontos mais abertos e com alargamento abrupto. Em certos trechos, inclusive interceptando-a, há calhas e canos (foto 3) que levam a água canalizada ao aqueduto histórico, para mais adiante ser captada pelos tanques de tratamento da CEDAE (Compania Estadual de Distribuição de Água e Esgoto).
 

Foto 3 - Calha que leva água das nascentes dos principais afluentes do rio Grande (presentes na trilha de mesmo nome) para o aqueduto histórico do século XVIII. A água é represada e tratada pela CEDAE para ser distribuída às comunidades do bairro da Taquara (próximo ao PEPB).

A trilha foi projetada inicialmente com marcos distribuídos em toda sua extensão, assinalando alguns atrativos ecoturísticos. Porém, tais marcos eram feitos de bambu, um material altamente perecível. Alguns deles apresentavam bromélias enxertadas em sua parte superior, passando uma visão errônea aos visitantes (foto 4).
 

Foto 4 - Marco antigo feito de bambu, inclinado. Observa-se bromélia enxertada na extremidade. Este material, altamente perecível, foi substituído por placa interpretativa.

Esses marcos, não recebiam nenhum tipo de manutenção. A situação em que se encontravam era de extremo abandono, sendo que alguns não eram encontrados na trilha, conforme indicava o folheto explicativo (até então era considerada uma trilha autoguiada e interpretativa), que foi publicado na ocasião de sua inauguração. Alguns marcos, pela má conservação e material impróprio, ainda foram implantados em terreno altamente erosivo. Foram encontrados outros marcos que não estavam muito visíveis, cobertos pela vegetação, e caídos ou jogados na mata.
A própria trilha, em certos trechos, se encontrava com a vegetação rasteira (estrato herbáceo) em franco desenvolvimento dificultando a locomoção dos visitantes. A ausência de placas de advertência para proibição do uso da água e a sinalização para perigos de possíveis acidentes, ainda é uma constante ao longo de todo o percurso da trilha. Também não havia sinalização sobre árvores frutíferas e para espécies endêmicas da vegetação ou da micro fauna devido a ausência de placas interpretativas para as mesmas.
Foi possível observar, a partir das características naturais, que esta trilha possui potencial para educação ambiental voltada para um público infantil, pela rapidez e facilidade do percurso. Porém, a falta de manutenção restringia esse potencial, e diminuia a atração turística. Todos os problemas apresentados são de fácil solução através da implantação de uma infraestrutura adequada e voltada para a interpretação ambiental.
Por isso, alguns dos problemas apontados anteriormente, foram solucionados a partir da revitalização da sede. A trilha das Bromélias ganhou novo nome, passando a se chamar trilha do Rio Grande (foto 5).
 

Foto 5 - Placa de sinalização do início da trilha do Rio Grande, com mapa ilustrativo do traçado da mesma, além de mostrar a localização das dependências administrativas da sede do PEPB.

Uma posterior reavaliação do local (em trabalho de campo realizado no dia 30 de junho de 2003), permitiu detectar pontos positivos e negativos de sua recuperação.
O ponto negativo, ainda visíveis na trilha, mesmo após a sua revitalização, refere-se a alguns trechos que apresentam vulnerabilidade a processos erosivos. Deve haver algum alerta (placa indicativa) aos visitantes para evitar possíveis acidentes.
Como pontos positivos, destacam-se: a manutenção de seu traçado e a modificação do seu equipamento de sinalização e atrativos. Agora constam placas informativas durante todo o seu percurso, dividindo-se em placas de: localização, sinalização, interpretação da natureza (foto 6) e informações gerais. Além da sinalização adequada ao ambiente e sem comprometer a paisagem natural, foram realizadas obras de infra-estrutura, tais como: pontes de madeira, paradas com locais de descanço e apreciação da natureza (bancos de madeira) e manutenção de sítios históricos, a exemplo das estruturas do aqueduto histórico.
 

Foto 6 - Placa interpretativa mostrando a importância da mata ciliar e sua preservação. Ao fundo nota-se vegetação típica de Mata Atlântica.

Trilha do Camorim
A Trilha do Camorim é a que apresenta maior potencial, de toda a vertente leste/sul do maciço da Pedra Branca, para o desenvolvimento de atividades voltadas para o ecoturismo, recebendo o maior número de visitantes do PEPB. É a preferida, devido ao grande apelo visual de seu maior atrativo: o açude do Camorim, situado no final da trilha (foto 7). O acesso inicial se dá a partir da sub-sede do PEPB (localizada no bairro de Jacarepaguá, próximo à Av. das Américas, na Estrada do Camorim).

Foto 7 - Açúde do Camorim, com água represada que abastece as comunidades próximas ao PEPB localizadas no Camorim (bairro de Vagem Grande). Observa-se, nas encostas, a mata secundária em estágio avançado de regeneração, de grande beleza cênica.

O tempo estimado para a realização do trajeto é de 1 hora e 20 minutos, de ida e cerca de 1 hora, de volta. Sua forma é linear, ou seja, os caminhantes se cruzam em ambas as direções. Seu grau de dificuldade é regular, apresentando trechos fortemente inclinados. Sua graduação é moderada, e seu nível técnico apresenta obstáculos naturais no caminho.
Possui 3 (três) principais atrativos ecoturísticos: o conjunto arquitetônico do início do século XX da captação de água da CEDAE, a cachoeira Véu da Noiva (foto 8) e o açude do Camorim, este último, representando seu principal atrativo. A cachoeira Véu da Noiva, que possui acesso a partir de uma curta variante de ligação com a trilha principal, representa uma beleza cênica pelas suas quedas de água.
 

Foto 8 - Cachoeira Véu da Noiva, queda d´água que faz parte do conjunto hídrico represado pela CEDAE e que abastece algumas localidades próximas ao PEPB (baixada de Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro). A foto da direita mostra pessoas tomando banho em cascata mais a montante do represamento, não respeitando a proibição imposta aos banhistas pelos guardas florestais do Parque.

Ela possui, no seu início, um mirante com vista panorâmica de parte da baixada de Jacarepaguá e da floresta do Camorim. No entanto, apresenta problemas, como capim e plantação de bananas que dificultam uma melhor visualização. Uma das soluções poderia ser a construção de um píer ou plataforma de madeira para a observação cênico-panorâmica da paisagem natural (baixada de Jacarepaguá).
Certos trechos da trilha são bastante íngremes (com desbarrancamento nas bordas, ravinamentos e acesso estreito). Além disso, o excesso de visitação no local acaba por provocar maiores danos à mesma, como aumento dos processos erosivos.
Se não for feito um controle efetivo e uma manutenção de seu percurso, tais problemas poderão se agravar. Foi constatada a ocorrência de erosão laminar acentuada, principalmente em locais mais desprotegidos de vegetação (em alguns trechos há a presença vegetação queimada, por antigos focos de incêndio causados pela queda de balões). Em alguns trechos ocorre erosão em estágio acelerado, o que vem comprometendo a largura das trilhas, podendo provocar acidentes aos visitantes, necessitando de intervenção imediata. Encontramos a presença de bananeiras em locais mais elevados e mais íngremes das encostas, o que vem contribuindo para a aceleração dos processos erosivos.
Portanto, próxima a área do mirante, para evitar o aumento da erosão, seria apropriado o reflorestamento das encostas, assim como as margens da trilha.
Ao longo de toda sua extensão, os obstáculos naturais (árvores tombadas) representam uma constante, como conseqüência da estação chuvosa (foto 9). No verão, os temporais e ventos fortes ocasionam a queda de árvores, de portes variados. Esses obstáculos atravessam a trilha impedindo o acesso livre e exigindo contornos, às vezes forçando desvios que causam mais erosão à trilha.
 

Foto 9 - Trilha do Camorim, com muitos obstáculos naturais, principalmente queda de árvores e erosão acentuada que prejudicam a passagem dos visitantes.

Em muitos trechos há presença de matacões e blocos, alguns pichados. O vandalismo é uma constante em trechos pouco fiscalizados e monitorados pela administração do PEPB. A trilha necessita de uma limpeza e monitoramento urgente, que venha a retirar os obstáculos naturais que atrapalharam a caminhada, e limpar as pichações e prováveis focos de lixo jogado na mata.
Há também, a presença de uma ruína, provavelmente histórica (casa colonial) que poderia sofrer uma datação e preservação como patrimônio histórico da cidade e do PEPB, servindo de referência e atrativo histórico-cultural da trilha.
Em vários pontos encontramos bifurcações de variantes que dificultam a localização, do acesso principal ao açude, por parte dos visitantes, necessitando de sinalização e fechamento. Os atalhos, muitas vezes são apenas para cortar caminho na própria trilha principal, aumentando o perigo de erosão (fechamento com indicação para recuperação). Há outras bifurcações para outras trilhas conhecidas pelos moradores da região, como a de acesso a trilha do Sacarrão (que se inicia na localidade de Vargem Grande), porém sem placas de orientação para os visitantes que não a conhece (foto 10).
 

Foto 10 - Variante da Trilha do Camorim que liga à Trilha do Sacarrão, muito utilizada por visitantes, sem o controle dos guardas florestais (fiscalização do Parque).
 

Finalmente, a trilha culmina há cerca de 440 m de altitude com o represamento artificial feito pela CEDAE - o açude do Camorim. Porém, principalmente durante o período de verão, ocorre a presença de banhistas (foto 11). Este local não possui placas alertando para a proibição de banhos, pois o açude foi represado para servir de abastecimento para o bairro de Jacarepaguá, além de ser considerada Floresta Protetora da União e ser área tombada como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. A fiscalização, em número reduzido para toda a área, procura coibir a entrada de banhistas que chegam, tanto pela trilha do Camorim, como pelas trilhas vicinais (Caminho da Travessia Sacarrão-Camorim e Estrada do Sacarrão - Vargem Grande; e Estrada Antônio Barbosa, Circuito da Fazenda Alegria - Vargem Pequena). Porém, é um trabalho hercúlio diante da falta de outros pontos de fiscalização e de outras sub-sedes que poderiam ser criadas no Parque.
 

Foto 11 - Presença de banhistas (canto esquerdo da foto) no açude do Camorim, prática constante na época do verão. Falta sinalização para educar os visitantes sobre a proibição de banhos e para a importância da limpeza e segurança sanitária da represa.
 

Analisando as características dessa trilha, chegamos a conclusões parecidas às da trilha do Rio Grande: ela possui um grande potencial ecoturístico, porém, devido a sua atual situação de falta de manutenção e sinalização, ofusca outros atrativos ecoturísticos. Processos erosivos constantes criam uma condição de falta de segurança para os seus visitantes, associados à alta frequência de visitação, podendo ampliar os impactos negativos ao meio ambiente. A fiscalização insuficiente acaba permitindo a entrada fortuita e proibida dos banhistas, prejudicando o sistema de abastecimento de água.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nos fatos apresentados, enfatiza-se que as trilhas do Rio Grande e do Camorim, necessitam de um planejamento e implementação de infraestrutura adequados aos seus reais potenciais, além de uma manutenção constante e também periódica, ajustada às atividades ecoturísticas de cada setor de seu percurso.
Como foi possível notar com este trabalho é imprescindível a continuidade do plano de desenvolvimento e de manejo das trilhas do Rio Grande e Camorim. Devem ser realizadas intervenções planejadas a fim de evitar o possível impacto da visitação, paralelamente à proteção do próprio visitante.
Os mapeamentos realizados através do geoprocessamento, se mostraram, portanto, de extrema importância para o desenvolvimento do Banco de Dados Geo-Ambiental (BDGA) sobre as trilhas do PEPB, na medida que as informações nele armazenadas poderão ser atualizadas rapidamente e disponibilizadas, tanto para a administração da área protegida, como também para o visitante em geral, num trabalho efetivamente eficaz de implementação das atividades ecoturísticas e de proteção dos recursos da segunda mais importante unidade de conservação da cidade do Rio de Janeiro.

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Agradecimentos:
Ao CNPq pela Bolsa de Doutorado de Vivian Castilho da Costa.

Apoio financeiro:
WWF-Brasil (Bolsa de Estudos do Programa Natureza e Sociedade - NATSOC).

WWF-Brasil (Bolsa de Estudos do Programa Natureza e Sociedade - NATSOC).