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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


MAPEAMENTO DO USO/COBERTURA DO SOLO E CICATRIZES EROSIVAS NAS BACIAS HIDROGRÁFICAS DAS VERTENTES NORTE E SUL DO MACIÇO DA TIJUCA, RIO DE JANEIRO, RJ.




Bárbara Balzana Mendes Pires;
Luis Otávio de Carvalho Simões lotricolor@ig.com.br;
Humberto Marotta Ribeiro;
Cristiane Gomes Carneiro
&
Alexander Josef Sá Tobias da Costa ajstcosta@terra.com.br.


 
Universidade do Estado do Rio de Janeiro -UERJ
Instituto de Geociências -IGEO
Departamento de Geografia






P
alavras-chave: Cicatriz Erosiva, Dinâmica Urbana, Geoprocessamento,
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicaçőes temáticas em estudos de casos

 

 




INTRODUÇÃO
Os condicionantes físicos locais podem ser modificados expressivamente pelos organismos vivos (JONES et al., 1997). O agente antrópico, especificamente, possui meios de promover transformações físicas em escala global. As intervenções antropogênicas podem representar em relação ao meio ambiente um caráter de degradação ou de mera modificação bem como, segundo Christofoletti (1980), de destruição ou de controle.
O nível de desenvolvimento de um país depende que seu crescimento econômico seja acompanhado pela expansão espacial ordenada. A premissa do ordenamento espacial é o aumento demográfico associado à proporcional constituição de infra-estrutura adequada, consequência do bom planejamento do uso do solo.
Nesse contexto, as ações antrópicas podem, segundo Christofoletti (1980), constituir-se o fator responsável por mudanças na distribuição de matéria e energia dentro dos sistemas geomorfológicos, de forma a modificar o seu equilíbrio. O crescimento desordenado das favelas é um exemplo no qual a intervenção humana pode ultrapassar o limite crítico do equilíbrio, gerando a degradação que causa prejuízos ecológicos, econômicos e sociais.
Na cidade do Rio de Janeiro, o processo de favelização nas encostas de morros da zona central esteve relacionado, já no final do século XIX, à carência de habitações para as classes menos favorecidas (VIAL, 2001). Esse processo intensificou-se, de tal forma que no final do século XX, entre 1991 e 1996, enquanto a população residente total da cidade do Rio de Janeiro apresentou um acréscimo de apenas 0,25 %, o aumento demográfico das favelas foi aproximadamente seis vezes maior, alcançando 7,93 % (IPLAN-RIO, 2000).
O incremento acelerado no número de ocupações subnormais típicas de favela, que são caracterizadas pela carência de infra-estrutura e pela eventual localização em áreas de risco, pode intensificar catástrofes naturais que prejudicam o próprio agente antrópico.
Nessas circunstâncias, catástrofes como deslizamentos e enxurradas em encostas, bem como assoreamentos e enchentes em áreas de baixada, demandam ser consideradas pelo planejamento urbano. Os estudos sobre a interação entre os condicionantes físicos e a expansão da malha urbana torna-se, como conseqüência, de suma importância à gestão do espaço, isto porque, segundo Castells (1996):

“O planejamento urbano pode ser definido como o conjunto de planos, programas e declarações políticas que têm como objeto servir de guia à ação política e privada ou, finalmente, como a aplicação da previsão em ordem à realização de certos objetivos pré-estabelecidos relativos ao crescimento e ao desenvolvimento de zonas urbanas” (Castells, 1996, p. 210-211)

A ação de processos erosivos pode promover a formação de cicatrizes erosivas, entendidas no presente estudo como feições geomorfológicas resultantes de marcas visíveis no terreno.
A densidade de cobertura vegetal é um importante fator na remoção de sedimentos, no escoamento superficial e na perda de solo (GUERRA, 1995), constituindo-se também em um obstáculo que minimiza o impacto das gotas de chuva, de forma reduzir a erosão (MORGAN, 1984 apud GUERRA, 1995) e, como consequência, a própria ocorrência de cicatrizes erosivas.
A presença de um tipo de vegetação rasteira de pequeno porte, denominada macega, pode ser conseqüência de dinâmica tanto natural como antropogênica de desmatamento. Em geral, nas zonas urbanas a macega indica um estágio inicial de sucessão ecológica devido a anterior retirada da mata, o que pode, segundo Guerra (1995), acelerar os efeitos de fatores erosivos naturais.
A declividade, desde que não muito acentuada, também pode intensificar os processos erosivos, consequência da maior velocidade do escoamento superficial incidente sobre o material disponível (GUERRA, 1995), de forma a possibilitar um aumento na ocorrência de cicatrizes erosivas. No entanto, segundo Coelho Netto (1992), a menor declividade média de encostas pode facilitar o processo de ocupação, modificando a cobertura vegetal e, como consequência, favorecer a ocorrência de processo erosivos.
Sendo assim, valorizam-se estudos que relacionem as transformações no uso/cobertura do solo e o mapeamento de cicatrizes erosivas, pois fornecem subsídios necessários à elaboração de políticas públicas coerentes, que visem minimizar impactos causados pela própria ação humana na paisagem.
 

OBJETIVO
O presente estudo teve por objetivo mapear as cicatrizes erosivas, associando-as às classes de uso/cobertura do solo em bacias hidrográficas densamente povoadas. Após relacionar a localização das cicatrizes erosivas com o uso/cobertura do solo, pretendeu-se inferir se dinâmicas antropogênicas, representadas principalmente pela expansão urbana, podem contribuir para a ocorrência dessas feições geomorfológicas.
Por fim, visou-se gerar propostas de manejo para processos freqüentes em grandes cidades, as quais apresentem ocupação desordenada em morros.
 

ÁREA DE ESTUDO
As nascentes das bacias de drenagem estudadas localizam-se no maciço da Tijuca, um dos três maciços litorâneos da cidade do Rio de Janeiro (figura 01), considerada uma das maiores metrópoles do Brasil. Nesse maciço, situa-se o Parque Nacional da Tijuca, instituído em 1961, que abrange uma das maiores florestas em perímetro urbano do planeta. Segundo Coelho Netto (1992), esse ecossistema sofre constante pressão da área urbana circundante.
Mesmo não englobando mata primária, o Parque Nacional da Tijuca é uma importante unidade de conservação da Mata Atlântica, que necessita de eficiente manejo. Esse ecossistema é bastante devastado, pois segundo Fonseca (1985), restam apenas 5 % de cobertura original da Floresta Atlântica.
O recorte espacial situa-se entre as coordenadas geográficas 430 08’ 45’’ W / 430 07’ 30’’ W e 230 00’ 00’’ S / 220 52’ 30’’ S, o que abrange todas as bacias de drenagem da vertente Sul do maciço da Tijuca, além da bacia do rio Maracanã na vertente Norte (figura 01).

 

A bacia hidrográfica do rio Maracanã é contribuinte ao canal artificial do Mangue, que deságua na Baía de Guanabara. A vertente Sul do maciço da Tijuca, por sua vez, abrange as bacias dos rios Cabeça, Macaco, Rainha, Canoas e Vidigal, cujos canais principais desembocam no Oceano Atlântico.
As bacias hidrográficas analisadas foram escolhidas porque são densamente povoadas, o que propicia uma dinâmica de expansão urbana evidenciada pela presença e constante evolução das favelas. A escolha de uma só bacia hidrográfica na vertente Norte justifica-se por esta concentrar todos os processos urbanos estudados, os quais se encontram mais dispersos espacialmente na vertente Sul.
 

METODOLOGIA
O mapeamento mais recente de uso/cobertura do solo da área de estudo havia sido produzido pelo IPLAN-RIO (Empresa Municipal de Informática) e datava de 1976. Ao se compor uma base mais atualizada de uso e cobertura do solo, visou-se analisar as modificações ocorridas em vinte anos.
As classes de uso e cobertura do solo utilizadas no estudo foram as mesmas definidas na carta topográfica de 1976 produzida pelo IPLAN-RIO. As classes favela e malha urbana foram analisadas quanto à expansão horizontal, não sendo considerados os eventuais processos de verticalização e de adensamento populacional por domicílio.
Para a elaboração de uma base mais atualizada, de forma a também evidenciar as cicatrizes erosivas existentes, interpretou-se as fotografias aéreas obtidas junto ao IPLAN-RIO em escala 1:2000, relativas a março e a abril de 1996, segundo metodologia proposta por Marchetti et al. (1977).
Justifica-se a escolha dessas fotografias áreas devido às chuvas de maior intensidade que ocorreram em fevereiro 1996 (VILELA, 1999). Esse evento pluviométrico de grande magnitude evidenciou os locais onde havia mais susceptibilidade local para a formação de cicatrizes erosivas nas encostas.
O Sistema Geográfico de Informação (SIG) utilizado para digitalizar, editar e georreferenciar os overlays elaborados foi o SAGA/UFRJ (Sistema de Análise Geo-Ambiental) cedido pelo LAGEOP/UFRJ. Por meio desse SIG, mensurou-se a área das categorias mapeadas, o que permitiu, posteriormente, comparar os resultados obtidos entre 1996 e 1976, interpretando eventuais modificações.
Uma variação substancial da área de determinada classe pode, eventualmente, não representar expressiva modificação na percentagem de uso/cobertura do solo das bacias estudadas. Sendo assim, tornou-se necessário analisar os dados considerando: (a) variação de cada classe ao longo do periodo em relação a sua própria área inicial (Variação Relativa) e (b) variação de cada classe quanto à área de vertente analisada (Variação Total).
Com o intuito de inferir possíveis dinâmicas antropogênicas favoráveis aos processos formadores de cicatrizes erosivas, relacionou-se a localização espacial dessas feições em encosta com as classes de uso/cobertura do solo.
Para evidenciar a influência de determinada classe de uso/cobertura do solo na localização das cicatrizes erosivas, também foi contabilizado o número dessas feições situadas no raio de no máximo 175 metros a partir da classe adjacente, Esta mensuração foi realizada a partir das fotografias aéreas de 1996.
Por fim, após analisar os resultados, tornou-se possível compor propostas de manejo, tendo como ênfase um planejamento espacial que minimize a degradação da paisagem.
 

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Chuvas de maior magnitude e menor frequência são condicionantes que podem desencadear a formação de cicatrizes erosivas, uma vez que, segundo Guerra (1995), nessas circunstâncias o solo não consegue mais armazenar água, cujo excessivo fluxo passa a se mover em superfície ou subsuperfície, o que pode intensificar a erosão por meio do escoamento hídrico. Na paisagem, a morfologia ou mesmo a existência das cicatrizes erosivas podem ou não se apresentar estáveis ao longo do período de tempo histórico.
Na área de estudo, foi registrado um evento extremo de precipitação em fevereiro de 1996, que alcançou 400 mm em menos de 24 horas (VILELA, 1999). Eventos pluviométricos de alta intensidade evidenciam a maior ou menor susceptibilidade local à formação de cicatrizes erosivas, principalmente quando sucedem meses anteriores com precipitação média alta. Esta condição crítica de umidade antecedente foi, segundo Coelho Netto et al. (1999) apud Vilela (1999), detectada no Maciço da Tijuca.
A partir dos mapeamentos bem como das tabelas e gráficos resultantes, pôde-se diagnosticar a dinâmica de uso/cobertura do solo ocorrida em vinte anos, bem como relacionar as classes de uso/cobertura do solo conforme a ocorrência de cicatrizes erosivas.
A ocorrência de cicatrizes erosivas entre vertentes foi diferenciada. Enquanto a vertente Sul, cuja área é 43,12 km2, apresentou 30 cicatrizes erosivas, a bacia do rio Maracanã, abrangendo apenas 18,28 km2, foi caracterizada pela ocorrência de 40 dessas feições.
A vertente Sul, tanto em 1976 quanto em 1996, apresentou uma área de Mata duas vezes superior a da bacia do rio Maracanã na vertente Norte (tabelas 1 e 2). Esse resultado corrobora com a hipótese de que a presença de mata minimiza os processos formadores das cicatrizes erosivas.
Em ambas as vertentes, houve uma semelhante redução percentual da superfície recoberta por mata no período analisado, um decréscimo em torno de 10 % (tabelas 01 e 02), sendo a maior modificação absoluta de área por classe no presente estudo. Na vertente Norte, pode-se relacionar este resultado ao avanço das favelas e das porções de macega (figura 02 e 03). Na vertente Sul, a redução da área de mata é consequência principalmente da expansão das favelas e da própria zona urbana (figura 02 e 03).
Em todo o recorte espacial, não foram detectadas cicatrizes erosivas nas porções de mata situadas no Parque Nacional da Tijuca. As áreas de mata, além de concentrar uma menor ocorrência de cicatrizes erosivas (gráfico 01), somente apresentaram essas feições em distância de no máximo 175 metros, o que é considerado no presente estudo como entorno de favelas ou macegas.
Essa proximidade das cicatrizes erosivas localizadas em matas com áreas de macegas e favelas, onde a intervenção humana é mais incisiva, evidencia que o uso/cobertura do solo pode modificar os condicionantes físicos, favorecendo a ocorrência de cicatrizes erosivas in situ ou mesmo nas circunvizinhanças. Deste modo, um processo erosivo também pode ser desencadeado por transformações antropogênicas ocorridas em áreas adjacentes.
Já as áreas de macega apresentaram a maior quantidade de cicatrizes erosivas em ambas as vertentes estudadas (gráfico 01). Pode-se inferir com esse resultado que a carência de cobertura vegetal é condicionante de intensificação dos processos formadores de cicatrizes erosivas. A dinâmica urbana também evidencia tal processo, pois houve aumento das áreas de macega na vertente Norte, em contraste à redução detectada na vertente Sul (tabela 01 e 02), exatamente onde foram detectadas menos cicatrizes erosivas.
O característico menor porte, típico dessa classe, facilita a expansão ilegal das favelas, cujo crescimento rumo à mata somente ocorre após a ocupação das adjacências já desmatadas, compondo uma dinâmica que indiretamente favorece o estabelecimento de cicatrizes erosivas. Um exemplo dessa dinâmica ocorreu nas favelas do Borel e da Casa Branca, que cresceram, em grande parte, sobre áreas de macega e em cujas adjacências foram evidenciadas várias cicatrizes erosivas (figura 03).
No presente estudo, verificou-se que macegas e favelas intensificaram a ocorrência de processos erosivos. Já a área urbana não apresentou cicatrizes erosivas, uma vez que ocupa basicamente zonas de baixada (figura 03). Na porção urbana do recorte espacial, o crescimento desordenado causa outras problemáticas como enxurradas e segundo a Agenda Social/IBASE (1999):

“Enchentes que são fenômenos decorrentes da interação entre a natureza e sociedade que ao modificar o espaço natural, altera a circulação hídrica, diminuindo a capacidade de absorção de água devido à superfície impermeabilizada”. (Agenda Social/IBASE, 1999, p.30)

Quanto à dinâmica urbana, embora na bacia de drenagem da vertente Norte tenha sido detectada uma pequena expansão relativa da malha urbana, cerca de 2,2 % em vinte anos (tabela 01), as bacias da vertente Sul do maciço da Tijuca apresentaram um expressivo acréscimo em torno de 11% (tabela 02). Esse resultado reflete o fato de que apenas na vertente Sul o urbano pôde expandir-se, principalmente pelas encostas e seguindo as margens dos cursos fluviais (figura 02 e 03). A área urbana na bacia do rio Maracanã já em 1976 encontrava-se, em grande parte, reprimida pela efetiva falta de espaço disponível.
Nas bacias de ambas as vertentes, todas as favelas apresentaram expansão horizontal e, consequentemente, aumento de complexidade. Embora a variação relativa das favelas entre vertentes tenha sido semelhante, cerca de 34 %, a variação em relação à área total foi mais pronunciada na bacia da vertente Norte, 2,3 %, quando comparada aos 0,5 % das bacias da vertente Sul. Na medida em que mais da metade das cicatrizes erosivas detectadas localizam-se no entorno de favelas (figura 03), pode-se relacionar o crescimento de favelas à intensificação de processos erosivos em encosta.
Em vinte anos, as favelas cresceram principalmente ao avançar sobre zonas de macega e de mata (figura 02 e 03), o que contrastou à expansão comparativamente menor da área urbana, levando em consideração a variação relativa na classe (tabelas 01 e 02). Além disso, construções subnormais, típicas de favela, burlam a jurisdição vigente e expandem-se sobre áreas onde o urbano é mais eficazmente reprimido.
Localizadas muitas vezes acima da cota 100 metros, onde não é permitido construir e existe a proximidade com o Parque Nacional da Tijuca, algumas porções de encosta recobertas por mata já apresentam ocupação parcial por favela. Essas construções ilegais tendem a avançar sobre a vegetação secundária, estágio sucessional adiantado, de modo que as favelas mais representativas do estudo, Turano, Salgueiro, Formiga e Borel (vertente Norte) e Dona Marta, Rocinha e Vidigal (vertente Sul), possuem parte de sua área acima da cota permitida. Dentre as favelas citadas, a comunidade Dona Marta foi a única que não apresentou cicatrizes erosivas em seu entorno, isto porque foi a de menor crescimento de todo o estudo. Essa dinâmica foi conseqüência de, já em 1976, não haver espaço físico disponível para uma expansão horizontal mais proeminente, principalmente a montante, onde a ocupação quase alcançou o divisor da bacia de drenagem. Já lateralmente, a expansão desta favela foi limitada por muros em ambos os lados.
Por outro lado, a maior variação relativa de área no estudo, quase 72 %, ocorreu na favela da Formiga, principalmente devido ao avanço sobre porções de mata (figura 02 e 03). Essa incisiva dinâmica de crescimento intensificou os processos erosivos de encosta, de maneira que a favela da Formiga apresentou em seu entorno a maior concentração de cicatrizes erosivas do recorte espacial (figura 03) .
Outra dinâmica acelerada de crescimento ocorreu nas favelas do Borel, do Complexo do Andaraí, da Casa Branca e do Morro do Bananal, que não eram contínuos em 1976 (figura 02). Já em 1996, tornou-se possível comprovar uma evidente tendência de junção espacial dessas comunidades. A expansão urbana desordenada constitui um condicionante que intensificou os processos erosivos locais, pois verificou-se uma diferenciada concentração de cicatrizes erosivas no entorno das favelas acima citadas (figura 03).
Mesmo com o pronunciado crescimento da favela do Salgueiro, as suas adjacências apresentaram a substituição de algumas zonas de macega por pequenas áreas de mata, um resultado peculiar em todo o estudo (figura 02 e 03). Essa dinâmica foi consequência das ações de reflorestamento da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que visam, segundo a Agenda Social/IBASE (1999) uma integração social por meio da utilização da mão-de-obra local. Na medida que não foram detectadas cicatrizes erosivas no entorno do Salgueiro (figura 03), é possível que, nesse resultado, atue alguma influência da cobertura vegetal estabelecida após as políticas de reflorestamento.
Na vertente Sul, a Rocinha, maior favela da América Latina (ONU, 1998), apresentou a variação absoluta de área mais pronunciada de todo o estudo, basicamente rumo à mata, fato que muito contribuiu para a expansão da classe favela na vertente Sul. Já em 1976, essa favela encontrava-se restrita em ambos os lados pela malha urbana da Gávea e de São Conrado, bem como ao sul, por um grande afloramento localizado no morro Dois Irmãos, maciço da Tijuca (figura 02). A presença dessa favela próxima a um afloramento rochoso, onde a declividade é mais acentuada, favoreceu a ocorrência de cicatrizes erosivas nessa parte do entorno da Rocinha (figura 03).
Embora mais evidenciada no entorno da favela do Vidigal, a maioria das favelas apresentou aumento das áreas de macegas nas adjacências. A dinâmica de ocupação da comunidade do Vidigal, assim como na Rocinha, ocorreu próxima a afloramentos rochosos onde a declividade é mais acentuada. Dessa forma, a declividade aliada a composição de macegas são condicionantes que explicam a alta concentração de cicatrizes erosivas no entorno do Vidigal (figura 03).
Enquanto no período entre 1976 e 1996 surgiram novas favelas na vertente Sul, na vertente Norte não houve aparecimento de novas comunidades (figura 02 e 03), conseqüência da menor área de mata e macega, classes de uso/cobertura do solo onde há maior possibilidade de constituir-se uma favela. Parte das novas favelas detectadas pelo presente estudo apresentaram cicatrizes erosivas no seu entorno, contrastando à inexistência dessas feições erosivas em outras porções relativamente próximas (figura 03). Este resultado foi evidenciado nas favelas Novo Palmares e Chácara do Céu, constituindo, como conseqüência, um forte indício que corrobora à hipótese na qual o crescimento desordenado pode desencadear a formação de cicatrizes erosivas.
A partir dos resultados obtidos, nos quais a vertente Norte apresentou mais cicatrizes erosivas do que a vertente Sul, pode-se inferir que a ocupação mais efetiva da vertente Norte favoreceu a intensificação dos processos formadores dessas feições erosivas.
Segundo Coelho Netto (1992) quando comparada à porção sul do Maciço da Tijuca, a vertente Norte apresenta declividade menos acentuada e maior insolação incidente no terreno. Essas características, em principio, tornariam a vertente Sul mais susceptível à ocorrência de cicatrizes erosivas, mas este estudo comprovou ser a ocupação o condicionante mais importante nessas encostas. Afinal, uma ocupação desordenada pode influenciar, direta ou indiretamente, outros condicionantes formadores dessas cicatrizes.

Gráfico 01: Ocorrência de cicatrizes erosivas por classe de uso/cobertura do solo.
 

 

Tabela 01: Variação do uso e cobertura do solo entre 1976 e 1996 na bacia hidrográfica do rio Maracanã, vertente Norte do Maciço da Tijuca.

Classes de Uso do Solo

1976

1996

Variação Relativa em cada classe (%)

Área (Km²)

Área (%)

Área (Km²)

Área (%)

Mata

7,32

39,9

6,51

35,5

- 11,08

Urbano

7,49

40,8

7,66

41,7

+ 02,22

Favela

1,24

6,9

1,66

9,2

+ 34,33

Macega

2,10

11,6

2,32

12,8

+ 10,48

Praia

-

-

-

-

-

Afloramento

0,13

0,8

0,13

0,8

0,00

Área Total (Km²)

18,28


 

Tabela 02: Variação do uso e cobertura do solo entre 1976 e 1996 nas bacias hidrográficas da vertente Sul do Maciço da Tijuca.

Classes de Uso do Solo

1976

1996

Variação Relativa em cada classe (%)

Área (Km²)

Área (%)

Área (Km²)

Área (%)

Mata

19,91

46,17

17,96

41,65

-9,79

Urbano

15,40

35,71

17,15

39,77

+11,36

Favela

1,19

2,76

1,60

3,69

+ 34,45

Macega

3,37

7,82

3,16

7,33

-6,23

Praia

0,98

2,27

0,98

2,27

0,00

Afloramento

2,28

5,29

2,28

5,29

0,00

Área Total (Km²)

43,12



Figua 02 : Mapa de Uso e cobertura do Solo em 1976.


 

Figura 03 : Mapa de Cicatrizes Erosivas e Uso/Cobertura do solo em 1996.


 


 

PROPOSTAS DE MANEJO QUE VISAM CONTRIBUIR AO PLANEJAMENTO URBANO
Muitos dos problemas de grandes cidades são devido à falta de um planejamento urbano que considere o ecológico, o econômico e o social como esferas interdependentes e indissociáveis. Nesse contexto, o presente estudo reúne propostas de manejo para dinâmicas antropogênicas em encosta :
 Coibir incisamente os desmatamentos. O presente estudo comprovou ser a macega a classe de uso/cobertura do solo onde havia maior ocorrência de cicatrizes erosivas, constituindo um indício de que a carência de cobertura arbórea está relacionada com a intensificação de processos erosivos.
 Investir em ações de reflorestamento que utilizem a própria mão-de-obra local de forma remunerada, tal como a política municipal implementada na comunidade do Salgueiro. Essa política, além de promover a recuperação de áreas degradadas, promovem a integração social, estimulando a capacitação educacional e profissional dos moradores.
 Proibir construções, sejam residenciais ou comerciais, em áreas de risco ou de proteção ambiental, além de efetivamente punir os infratores de maneira exemplar. Afinal, a expansão desordenada muito contribui para intensificar os processos que promovem a formação de cicatrizes erosivas.
 Dotar as habitações subnormais, atualmente existentes nas favelas, de infraestrutura básica (redes de água e esgoto, luz elétrica e coleta regular de lixo), bem como suprir o acesso a saúde e educação. Nesse sentido, torna-se essencial executar políticas que visem integrar as comunidades carentes à malha urbana, reforçando assim a presença do Estado nessas localidades.
 Oferecer alternativas viáveis de moradia popular, cujos projetos privilegiem a acessibilidade tanto física, compondo-se eficiente rede de transportes, quanto de custos para moradia, promovendo-se coerentes planos de crédito habitacional. Afinal, políticas habitacionais impostas no passado foram apenas um paliativo, não resolvendo a histórica carência de moradia das grandes cidades brasileiras.
 Implementar programas de educação ambiental que objetivem conscientizar a população sobre sua importante função social, estimulando o exercício da cidadania no sentido de buscar a melhoria de sua realidade. A composição de uma identidade do morador em relação ao ecossistema adjacente deve ser ressaltada antes de qualquer ação de preservação.
 Estimular a integração entre a população, o poder público e a academia, uma vez que a dinâmica de expansão das favelas carece atualmente de investimentos públicos e de um eficiente manejo, que considere a sua complexidade, o verdadeiro jogo de interesses de Castells (1996).

CONCLUSÃO
A maior ocorrência de cicatrizes erosivas foi detectada no entorno de favelas e em áreas de macega, um indício de que este tipo de uso/cobertura do solo pode favorecer processos erosivos de encostas. Já nas porções de mata do Parque Nacional da Tijuca, nenhuma cicatriz erosiva foi localizada. Este resultado reforça a hipótese de que a cobertura vegetall constitui-se um condicionante responsável por minimizar os efeitos erosivos das chuvas de maior intensidade.
Sendo assim, as cicatrizes erosivas, ocorrendo em áreas de mata, podem ser consideradas como eventos naturais, frequentemente intensificadas pela ação humana no espaço geográfico.
Quanto á expansão urbana, duas nítidas dinâmicas foram caracterizadas: (a) margens dos cursos d’água são, ainda no século XX, um sítio preferencial à ocupação humana e (b) vegetação de macega, em geral estabelecida por condições antropogênicas, constitui-se a primeira etapa ao avanço de construções ilegais.
A questão do crescimento desordenado é tão complexa que não perpassa somente pela necessária participação popular, mas diz respeito também à implementação de políticas de caráter técnico, que minimizem possíveis catástrofes ambientais ao próprio agente antrópico.
Deste modo, há necessidade de se incorporar as comunidades de favela definitivamente ao espaço urbano por meio de investimentos e de eficiente manejo. Afinal, torna-se cada vez mais essencial uma gestão integrada, que priorize o combate à segregação sócio espacial, de forma a gerar melhorias qualitativas para os atores sociais urbanos.

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IPLAN-RIO.ANUÁRIO ESTATÍSTICA DO MUNICIPIO DO RIO DE JANEIRO. Rio de Janeiro: IPLAN-RIO. 2000. 864 p.

CASTELLS, M. Problemas de investigação em sociologia urbana. Lisboa: Editorial Presença. 3ª ed. 1984. 300 p.

CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. 2.ed. São Paulo: Editora Edgard Blucher. 1980. 188 p.

COELHO NETTO, A. L. O Geoecossistema da Floresta da Tijuca. IN: ABREU, M. de A. Natureza e Sociedade no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: [s. n.], 1992. 36 p. p. 104 – 142.

FONSECA, G. A. B. The Vanishing Brazilian Atlantic Forest. Biology Conservation. n. 34, p.17-34. 1985.

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JONES, C. G., LAWTON, J. H., SHACHAK, M. Positive and Negative effects organisms as physical ecosystem engineers. Ecology. n. 78, p.1946-1957. 1997.

MARCHETTI, D.A.B., GARCIA, G.J. Princípios de fotogrametria e fotointerpretação. São Paulo: Nobel. 1977. 257 p.

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VIAL, A. M. P. Evolução da Ocupação das Favelas na Cidade do Rio De Janeiro. Diretoria de Informação Geográfica/Instituto Pereira Passos/Prefeitura do Rio de Janeiro (DIG/IPP/PCRJ), Rio de Janeiro, p.17. 2001.

VILELA, C. L. Caracterização morfológica das cicatrizes de movimento de massa de fevereiro de 1996 : Maciço da Tijuca, RJ. 38 f. Dissertação (Bacharelado em Geografia) – Instituto de Geociências, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1999.

Cidade do Rio de Janeiro. 1976

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