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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

CARACTERIZAÇÃO GEOMORFOLÓGICA DO CAMPUS DA UFSM, SANTA MARIA-RS.

 

 

 

Juliê Lourenço da Rosa-Universidade Federal de Santa Maria

jucatolica@yahoo.com.br

Maria da Graça Barros Sartori-Universidade Federal de Santa Maria

magracas@base.ufsm.br

Renata Dias Silveira-Universidade Federal de Santa Maria

regeo@hotmail.com

 

 

 

Palavras Chaves: Geomorfologia, campus, compartimentação.
Eixo: 3. Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo: 3.4 Aplicações temáticas em estudos de casos

 

 

 

INTRODUÇÃO

O trabalho desenvolvido tem como objeto de análise o relevo do Campus da UFSM, com o objetivo de definir e diferenciar as classes de declividade, inferindo os processos morfogenéticos atuantes.
De acordo com Vieira (1984, p.53), por sistemas morfogenéticos entenda-se um conjunto de processos que sob determinadas condições climáticas e, de forma sistêmica, produzam modificações no relevo.
Partindo-se dessa concepção, analisa-se topograficamente o Campus da UFSM, buscando o melhor conhecimento de suas características geomorfológicas, pois estas devem embasar as atividades de planejamento que visem um maior e melhor aproveitamento do espaço, já que o mesmo foi e continua sendo modificado, de acordo com as necessidades das várias unidades da Instituição e demais atividade antrópicas.
O Campus Universitário está localizado no município de Santa Maria, no centro do estado do RS, entre as coordenadas UTM de 6710,56Km a 6706,32Km lat. Sul da linha do Equador e 235Km a 239,2Km long. Oeste do fuso 22.
O município de Santa Maria caracteriza-se por um relevo pouco diversificado, típico da transição entre a Depressão Periférica sul-riograndense e o Planalto da Bacia do Paraná. No contato entre essas duas zonas encontra-se o Rebordo do Planalto, profundamente dissecado e constituído por escarpas e morros testemunhos mantidos por camadas de rochas vulcânicas da formação Serra Geral, intercaladas por arenitos intertraps, por arenitos eólicos da formação Botucatu e os fluviais da formação Caturrita.
O Campus da UFSM, entretanto, está inserido na Depressão Periférica, constituída de rochas sedimentares da Bacia do Paraná, situada entre o Escudo e o rebordo do Planalto e caracterizada por áreas de acumulação aluvial da bacia Vacacaí-Jacuí e por topografia colinosa de ondulações suaves, regionalmente chamadas de Coxilhas.

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS

A análise do relevo do Campus da UFSM, visando a definição das classes de declividade e dos processos morfogenéticos atuantes para diagnosticar a realidade, representa a primeira etapa de um trabalho ambiental que possa vir a seguir.
Apesar de sua excepcional posição em área de transição morfológica entre o Planalto da Bacia do Paraná e a Depressão Periférica sul-riograndense, o município de Santa Maria ainda carece de estudos de natureza geomorfológica em escalas grandes, como o que está sendo proposto.
As características do quadro geoecológico do Campus, no que se refere aos diferentes níveis da integração natural, justificam a escolha da área como objeto desse estudo. Salienta-se, porém, o seu pioneirismo no que tange a um estudo específico de geomorfologia para a área em questão, especialmente na forma de esboço geomorfológico na escala 1:7500.
Os elementos do quadro geoecológico do Campus, no que se refere ao relevo, refletem a atuação dos agentes erosivos que, morfogeneticamente, definem as formas de relevo que também se associam à diversidade lito-estrutural. Considerando que as formas de relevo refletem os processos que lhes deram origem, elas devem ser vistas como síntese do ambiente natural em que se enquadram hoje, ou se enquadraram no passado.
Os documentos cartográficos construídos servirão de subsídios às atividades de planejamento da Prefeitura da Cidade Universitária e Pró-Reitoria de Planejamento (PROPLAN), bem como para as obras de infraestrutura, espaços agrícolas, parques, arruamentos, paisagismo e ajardinamento, construção de prédios para diversos fins.
A partir dessa justificativa, foi estabelecido como objetivo geral do trabalho:

Caracterizar o espaço natural do Campus da UFSM, através da carta de declividade, visando um melhor aproveitamento do espaço, com vistas à preservação e sustentabilidade do meio ambiente.
Como objetivos específicos foram definidos:
Diferenciar e analisar cada classe de declividade definida;
Contribuir com subsídios geográficos às atividades de planejamento a serem desenvolvidas no Campus da UFSM.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

As pesquisas geomorfológicas são amplamente aplicáveis para diferentes tipos de atividades humanas, sendo o nível de aprofundamento dos estudos decorrentes da dimensão da área, do objetivo, da atividade a ser implantada e da complexidade geomorfológica da área, objeto da análise.
Em se tratando da discussão sobre geomorfologia e meio ambiente, cabe ainda salientar a importância dos estudos geomorfológicos, em particular no que se refere à compreensão dos processos morfodinâmicos que atuam como desencadeadores dos processos e das formas.
Nesta linha de raciocínio resgata-se Christofoletti (1974, p.1), quando destaca que:

As formas de relevo constituem o objeto da Geomorfologia. Mas se as formas existem, é porque elas foram esculpidas pela ação de determinado processo. Dessa maneira, há um relacionamento muito grande entre as formas e os processos; o estudo de ambos pode ser considerado como objetivo central desse ramo do conhecimento, como os elementos fundamentais do sistema geomorfológico. Entretanto as formas, os processos e as suas relações não compõem um sistema isolado, pois recebem influências e também atuam sobre outros sistemas.


Contou-se ainda com trabalhos em escala regional ou estadual, em que alguns podem ser destacados. Herrmann e Rosa (1990), que analisam o relevo da Região Sul, salientando a grande variedade de aspectos geomorfológicos decorrentes da superposição dos sistemas climáticos; que caracterizam o relevo da Depressão Periférica, como uma área sem grandes variações altimétricas (em torno de 200m) e, cujas encostas caem suavemente em direção aos vales; Müller Filho (1970) que analisa a morfologia e a geomorfologia sul-rio-grandense, sua evolução que origina feições específicas para cada área individualizada, e descreve a atuação dos agentes responsáveis pela modelação do relevo; Vieira (1984) descreve e analisa as condições morfoclimáticas e morfoestruturais do relevo do Rio Grande do Sul, sendo que da interação das duas desenvolve-se a morfogênese, origem das formas que caracterizam o modelado do relevo.
Como bases teóricas para o presente trabalho, além das obras citadas, buscou-se obras mais específicas, como as de Sartori (1979; 2000) que definem e caracterizam os compartimentos geomorfológicos na hinterlândia da área urbana de Santa Maria, e de Pereira et alii (1989) que analisam as unidades de paisagem do município de Santa Maria, individualizando os compartimentos morfológicos e interrelacionando o meio físico com a ação antrópica.
Entre obras de caráter geológico, citam-se os trabalhos de Bortoluzzi (1974), que estuda e mapeia as formações Santa Maria e Rosário da Bacia do Paraná; de Maciel Filho (1977) que estuda as formações sedimentares da carta de Santa Maria, analisando o relevo e a importância do sistema erosivo pluvial acelerado, que leva a formação das voçorocas.


METODOLOGIA

A pesquisa estruturou-se em etapas. Num primeiro momento, realizou-se o levantamento bibliográfico, procurando estabelecer o referencial teórico-metodológico da pesquisa, através de bibliografias específicas sobre a temática em questão.
Definidas as matrizes teóricas, a segunda etapa consistiu na confecção da carta clinográfica ou de declividades.
Como carta-base para elaboração da carta de declividade do Campus, utilizou-se a Carta Topográfica do Campus da UFSM, elaborada pelo Departamento de Engenharia Rural. (Setor de Fotogrametria e Fotointerpretação), do ano de 1983 e escala 1:7500.
Para obter a área do Campus, assim como as áreas das declividades, utilizou-se o software CR. SITER 1.0 e mesa digitalizadora. A última etapa consistiu na análise integrada de todas as informações obtidas nas etapas anteriores.
A elaboração da carta clinográfica é importante para determinar o uso correto do terreno, já que indica a maior e menor inclinação do relevo, buscando, desse modo, um melhor aproveitamento urbano e rural. Como a definição do número de classes de declividade depende, do tipo de relevo, optou-se pela proposta de De Biasi (1970).
Ressalta-se que as medidas foram adotadas para a escala da carta topográfica e clinográfica de 1:7500. Assim, para estabelecer as relações entre as classes de declividade escolhidas e o espaçamento das curvas na carta topográfica utilizou-se a seguinte fórmula.

D= (d/DH). 100,

D= declividade;
d= eqüidistância entre as curvas de nível;
DH= distância horizontal entre as curvas de nível.

Assim, aplicando-se a fórmula foi possível obter as medidas correspondentes às classes de declividade estabelecidas, que possibilitaram a construção do ábaco, que tem importância para a quantificação do espaçamento entre as curvas de nível existentes na área em estudo.

 

Figura 1: Modelo de ábaco usado para construção da Carta Clinográfica.
ORG: ROSA, J. L. & SILVEIRA, R. D.

 

A construção do ábaco (Figura 1) para representação das declividades sobre a carta topográfica, também seguiu a metodologia proposta por De Biasi (1970).
Estabeleceram-se as cores para cada classe de declividade, que proporcionaram a compreensão das declividades da carta, representada desde as menores (cores mais claras) até as maiores (mais escuras), a partir do deslocamento do ábaco entre as curvas de nível. As classes de declividades encontradas na carta foram representadas, conforme as cores apresentadas no Quadro 1.
 

Quadro 1: Intervalos de classes para os percentuais de declividades utilizadas na confecção da Carta Clinográfica para a área em estudo.

CLASSES (%)

CORES CORRESPONDENTES

<2

Verde Claro

2-5

Amarelo Claro

5-10

Laranja

10-20

vermelho

>20

Roxo

ORG: ROSA, J. L. & SILVEIRA, R. D.

 

ANÁLISE DOS RESULTADOS

O Campus da UFSM possui uma área total de 1364 ha e está inserido na Depressão Periférica Sul-rio-grandense, constituída de rochas sedimentares da Bacia do Paraná. Caracteriza-se pela presença de formas de relevo modestas como coxilhas alongadas e tabuleiros de arenito, estes com cotas um pouco mais acentuadas, porém não ultrapassando 150m. Quanto à estrutura geológica o Campus encontra-se em sua maior parte, sobre a formação geológica Santa Maria de idade Triássica, pertencente à era Mesozóica, que compreende as litologias que estão entre a Formação Rosário do Sul (inferior) e Formação Caturrita (superior).
Esta formação caracteriza-se por uma topografia suave de coxilhas baixas, dividindo-se em dois membros com características próprias: Membro Passo das Tropas e Membro Alemoa. Segundo Bortuluzzi (1974, p.22) “é possível reconhecer na área de Santa Maria, duas fácies distintas dentro desta formação: uma inferior, à qual passaremos a denominar fácies Passo das Tropas e outra superior, aqui denominada fácies Alemoa”.
O Membro Passo das Tropas é formado por sedimentos areno-conglomeráticos, associados aos clásticos finos vermelhos, já o Membro Alemoa, constitui-se de sedimentos areníticos-argilosos de cor vermelha. Ambos os membros são suceptíveis a erosão, sendo que a drenagem acaba originando feições erosionais enravinadas, localmente denominadas “sangas”, muito freqüentes nesta formação.
De acordo com a carta de declividade do Campus da UFSM (Figura2) observa-se que 486,61 ha deste, correspondendo a 35,67% da área total, apresenta declividades menores que 2% (cor verde), ou seja, um terreno plano que pode ser o topo de coxilhas ou planícies de inundação de um curso d’água. As áreas no topo podem ser ocupadas para urbanização, já as várzeas são menos propícias, pois constitui a área de inundação do rio, podendo ser ocupadas por cultivos.
 

Figura 2: Carta Clinográfica do Campus da UFSM.
Fonte: Departamento de Engenharia Rural-UFSM
Org: MISSIO, L.R.

 

Nesta área existem duas construções em planícies de inundação, o Centro de Ciências da Saúde e o Colégio Técnico Industrial, portanto locais sujeitos a alagamentos, podendo comprometer desta maneira a infra-estrutura do local.
Com 463,2 ha correspondentes a 33,96% das declividades entre de 2% a 5% (cor amarela), tem-se um terreno de fraca declividade com ondulações suaves, propícias a urbanização, como por exemplo, a Reitoria que está implantada nesta área.
Já as declividades que variam de 5% a 10%(cor laranja) correspondem a 26,66%, abrangendo uma área de 363,7 ha caracterizando a encosta das colinas. Com 43,51 ha que correspondem a 3,2%, tem-se declividades que variam de 10% a 20% (cor vermelha) que, da mesma forma que a área anterior também caracteriza-se como encosta de coxilhas, mas um pouco mais íngremes. Contudo, neste caso, não impede a urbanização, tanto que a maior parte dos prédios está nesta classe de declividade.
Por último aparece, de forma heterogênea, as declividades maiores que 20%(cor roxa) correspondendo a 0,51% da área total, ou seja, 6,98 ha onde podem ocorrer escorregamentos, assim como erosão laminar, tornando estas áreas pouco aptas para a ocupação urbana, como verifica-se na carta de declividades. (Figura2).


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao completar a análise das declividades, referente ao Campus Universitário verifica-se que o mesmo, apesar de apresentar pequena variação altimétrica (75 a 115m) possui classes de declividades diferenciadas, distribuídas de acordo com o relevo colinoso da área, mantido por rochas sedimentares da Formação Santa Maria. A partir deste estudo pode-se estabelecer áreas favoráveis a infra-estruturas urbanas, ou ainda aquelas que podem ser destinas para este fim, porém com algumas restrições.
De acordo com a análise das declividades nota-se que a maior parte das construções estão em áreas com declividades menores que 2%, classes de declividades recomendáveis para ocupação urbana, pois com base na carta clinográfica verifica-se que estas áreas são topos de coxilhas. Exceto dois prédios do Campus, o Colégio Técnico Industrial e o Centro de Ciências da Saúde estão em planície de inundação.
A pesar da maioria dos prédios da UFSM terem sido construídos na década de 1960, os projetos de engenharia realizados foram eficazes no posicionamento adequado das construções no sítio do Campus, pois a topografia colinosa garante extensas áreas propícias à ocupação de natureza urbana.
As futuras construções, algumas já previstas, devem atentar para os resultados desse trabalho, para que sua realização seja a mais adequada possível.

7.BIBLIOGRAFIA

BORTOLUZZI, C.A. Contribuição à geologia da região de Santa Maria. Porto Alegre, 1974.

BIASI, M. A carta clinográfica o método de representação e sua confecção. Revista do Departamento de Geografia da USP. São Paulo: ed. USP. n 6 1992.

CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. 2. ed. São Paulo: Edgard Biücher, 1974.

HERRMANN, M.L de P. ROSA, R. de O. Relevo. In: Geografia do Brasil, Região Sul, v.2, Rio de Janeiro, ed.IBGE,1990.

MACIEL FILHO, Carlos L. Caracterização geotécnica das formações sedimentares de Santa Maria, RS-Dissertação de Mestrado. Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza, Instituto de Geociências, UFRJ. Rio de Janeiro, 1977.

MULLER FILHO, I. L & SARTORI, M. G. B. Elementos para interpretação geomorfológica de cartas topográficas: contribuição à análise ambiental. Santa Maria, ed. UFSM, 1999.

SARTORI, M. G. B. O clima de Santa Maria, RS: do regional ao urbano. Dissertação de Mestrado. Depto de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, São Paulo, 1979.

VIEIRA, E.F. Rio Grande do Sul: geografia física e vegetação. Porto Alegre, ed. Sagra, 1984.