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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

IDENTIFICAÇÃO DE ÁREAS PROPÍCIAS AO REFLORESTAMENTO E/OU FLORESTAMENTO NA MICROBACIA DO RIO DO PEIXE/MG





BALTHAZAR, Martinelli da Rocha1 (martiufjf@bol.com.br)
SANTIAGO, Bárbara da Silva1 (babamail@uol.com.br)
REZENDE, Raquel Fernandes1 (quelgeorezende@bol.com.br)
CARMO, Flávio Áglio do1 (flaviogeografia@yahoo.com.br)
FERREIRA, Cássia de Castro Martins(or)2 (caeu@fwg.com.br)




1 Graduandos em Geografia da Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF
2 Prof. Dra. do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF
Universidade Federal de Juiz de Fora/ICHL/Depto de Geociências





Palavras- chave: florestamento/reflorestamento, microbacia hidrográfica
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicações Temáticas em Estudos de casos





 


1. Justificativa/Caracterização do problema


No período colonial, quando a Capitania das Minas Gerais vivia o esplendor do ciclo do ouro e das pedras preciosas, a região leste e oeste do Vale do Rio Paraibuna era denominado “das matas”, pois era considerada uma área proibida ao desbravamento e povoamento. Por não terem encontrado ouro, nem pedras preciosas na região, esta só passou a interessar à população quando as minas gerais já se encontravam em decadência. Quase três séculos mais tarde, a exuberante mata começa a dar lugar à lavoura do café.
A partir daí, toda a região, vem sendo submetida a maus usos e manejos na área rural e na urbana, principalmente no que tange à preservação de matas em locais de maior declividade, nas nascentes e regiões ribeirinhas; a retirada destas matas freqüentemente são acompanhados de uma significativa redução da capacidade produtiva dos ambientes, devido à uma diminuição significativa da água disponível para as famílias residentes e para a irrigação da própria lavoura, o mau uso do solo agregado a um contínuo processo de desmatamento freqüentemente proporciona um rápido assoreamento de grande parte dos leitos fluviais, colocando em risco a malha hidrográfica.

Toda esta situação tende a resultar em uma baixa produtividade nas propriedades rurais, gerando gradativo empobrecimento do homem do campo, que pode culminar com o abandono das atividades rurais e a busca de melhores condições de vida nas áreas urbanas.
A vegetação marginal aos corpos de água tem recebido, nos últimos anos, atenção especial de diversos pesquisadores devido à importância que apresentam especialmente para os corpos de água. A denominação dessa vegetação apresenta-se bastante rica, em função mais provavelmente, da ampla distribuição e dos diferentes ambientes em que ocorre em todo território nacional. Dentre as denominações mais freqüentes para as formações arbóreas, estão, mata ciliar, floresta de galeria, mata aluvial ou mata ripária. Deve-se lembrar, entretanto, que essa vegetação não está representada apenas pela formação florestal, mas, também, dentre outras, pelas formações abertas que compõem as várzeas, sendo que as denominações que envolvem mata ou floresta fazem referência apenas à formações florestais que acompanham o leito dos cursos de água (DAVIDE et al. (1993); CARVALHO (1982) e OLIVEIRA FILHO et al. (1995).
Dentre as inúmeras citações relacionadas à importância das matas ciliares estão:
- manutenção do equilíbrio do ecossistema aquático,
- diversidade florística,
- estrutura genética de suas populações,
Além de enfatizarmos que a vegetação natural desempenha papel fundamental para o equilíbrio dos ecossistemas, uma vez que abastecem os lençóis freáticos, contribuem para a minimização dos efeitos erosivos sobre o solo, refugiam animais silvestres, além de serem importantes fontes de energia para a população. Logo, a sua retirada deve ter critérios e ser bem controlada nos mais variados ambientes (GUTBERLET, 1996).
Dentre outras importâncias que as matas ciliares apresentam pode-se citar a histórica, que desempenham para a fauna de mamíferos das áreas de vegetação aberta do Brasil, tendo servido como refúgios mésicos e corredores para o intercâmbio genético entre populações, pelo menos desde o Quaternário. Como geralmente constituíram-se nos últimos redutos de florestas a serem destruídos nas propriedades rurais, representam excelentes fontes de estudos do potencial alimentício, farmacológico e artesanal de suas espécies, podendo esses fatores constituírem-se em vias de desenvolvimento social de comunidades urbanas e rurais, através da domesticação e cultivo dessas espécies (Ab’ SABER, 2003).
Demonstra-se, desta forma, a necessidade de investir na preservação do meio ambiente e na tentativa de recuperação e manutenção dos recursos naturais. O diagnóstico, o prognóstico e o planejamento das atividades dentro de uma propriedade rural e em áreas urbanas deveriam ser bem dimensionados e esclarecidos a fim de oportunizar a execução de ações que visem a melhoria das condições ambientais de seu meio, transformando-o em um recurso que pode ser utilizado, mas que também deve ser conservado.
Esta proposta de pesquisa buscou o desenvolvimento de uma metodologia baseada na utilização das técnicas de geoprocessamento visando identificar as áreas que deveriam conter matas ou vegetação adequada, em função da declividade do terreno e da sua rede hidrográfica. Demonstrando que o espaço agrícola ou mesmo urbano pode ser manejado e ocupado obedecendo padrões de planejamento, que levam a uma melhoria nas condições do meio e conseqüentemente, uma melhoria na qualidade de vida de cada cidadão.
Tendo-se em vista a importância que as áreas ripárias representam sob diversos aspectos, como os acima discutidos e o elevado grau de perturbação, que chega à destruição total da área natural, principalmente para instalação de pastagens, expansão de áreas urbanas e construção de usinas hidrelétricas, muita atenção deve-se ser dada hoje à sua preservação, pois os desafios desse novo milênio nos remetem principalmente a questões relacionadas à água e à biodiversidade.


2. Objetivo


O objetivo principal do presente trabalho foi aplicar as técnicas de geoprocessamento para o mapeamento de áreas propícias a florestamento e/ou reflorestamento na Microbacia do Córrego do Pião que é afluente do Rio do Peixe – MG, propiciando uma caracterização fisionômica da vegetação ribeirinha preservada.
Delimitar uma metodologia utilizando as técnicas de geoprocessamento para o mapeamento de áreas propícias a florestamento e/ou reflorestamento em uma Bacia Hidrográfica.

3. Metodologias e estratégias de Ação
Características Gerais da Área de Trabalho:


Foi estabelecido como área de estudo uma microbacia, pois esta, constitui a manifestação bem definida de um sistema natural aberto e pode ser vista como a unidade ecossistêmica da paisagem, em termos de integração dos ciclos naturais de energia, de nutrientes e, principalmente, de água. Apresentando uma condição singular e conveniente de definição espacial do ecossistema, dentro do qual é possível o estudo detalhado das interações entre o uso da terra e a quantidade e qualidade da água produzida pela microbacia. O monitoramento ambiental em microbacias, por intermédio da medição criteriosa de indicadores hidrológicos pertinentes, constituem em uma ferramenta importante para sinalizar as mudanças desejáveis ou indesejáveis que estejam ocorrendo no ecossistema, como conseqüência das práticas de manejo.
A metodologia proposta foi aplicada em uma área piloto, que corresponde a área da Microbacia do Córrego do Pião, afluente do Rio do Peixe que tem de cerca de 400 Km2 de área, próximo à cidade de Juiz de Fora, no Estado de Minas Gerais.
Este rio possui suas nascentes principais nos Municípios de Bom Jardim de Minas e Santa Rita do Jacutinga há aproximadamente 1300 m. de altitude. Sendo afluente do Rio Paraibuna, ambos pertencentes à Bacia do Rio Paraíba do Sul.
Devido à sua potencialidade hídrica, seu estágio de preservação, e uma expectativa de análise e estudos mais criteriosos sobre o diagnóstico desta microbacia, ela foi estabelecida como área de estudo.

Metodologia:

O presente trabalho objetivou estabelecer as áreas propícias à reflorestamento ou florestamento na Microbacia do Córrego do Pião. Para que pudéssemos alcançar este objetivo principal, trabalhamos com as geotecnologias, como o sensoriamento remoto e os sistemas de informações geográficas.
Como não temos disponível para a área da Bacia um banco de dados e informações já no formato digital, foi necessário primeiramente à digitalização georreferenciada dos dados e informações utilizadas para atingirmos aos objetivos propostos.
A partir das informações obtidas nas cartas topográficas do IBGE, na escala de 1:50.000 e no levantamento de fotografias aéreas na escala de 1:15.000. Foram retiradas basicamente três informações: rede de drenagem, declividade e cobertura vegetal.
Pretendeu-se constituir os seguintes Planos de Informações, que serviram para o cruzamento e análise dos dados obtidos:
- rede de drenagem;
- limites da Microbacia hidrográfica;
- determinação do tipo de cobertura vegetal.

1- Rede de Drenagem: o mapa da rede de drenagem da microbacia. Distinguindo a hierarquia entre os diferentes fluxos de água.
2- Limites da Microbacia: o mapa dos limites da Microbacia do Córrego do Pião-MG.
3- Determinação do Tipo de Cobertura Vegetal: o mapa de cobertura vegetal resultou de fotos aéreas em escala 1:15.000 em que foram extraídos via os Sistemas de Informações Geográficas, para gerando um mapa de classificação digital da cobertura florestal. Permitindo, desta forma, que tivéssemos informações mais atualizadas quanto à cobertura vegetal, do que as informações que poderíamos obter das cartas topográficas do IBGE, datadas de 1976;
4- Fotografia aérea;
5- Trabalho de campo.
Assim sendo, estes componentes, trabalhados como conjuntos ou camadas de informações disponibilizariam uma análise bastante detalhada neste espaço específico proporcionando, em decorrência, um ajuste desta metodologia para a sua utilização em futuros trabalhos relacionados.
Em um primeiro momento, deverá ser realizado o cruzamento dos planos de informações vinculados aos aspectos físicos anteriormente mencionados. O resultado desta combinação inicial deverá apontar as áreas no interior da microbacia, que já tinham a cobertura vegetal florestal e as que deveriam possuir.
As áreas que deveriam conter uma cobertura florestal, seriam aquelas que poderíamos denominá-las como áreas propícias a reflorestamento ou florestamento, e que já se enquadram no Código Florestal, na Lei no 4771 (1965), artigo 2o, no qual considera área de preservação permanente as florestas e demais formas de vegetação natural situadas ao longo dos rios ou de qualquer curso d’água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima seja: 30 m para os cursos d’água de menos de 10 metros de largura; de 50 metros para os cursos d’água que tenham de 10 a 50 metros de largura; nas nascentes, ainda que intermitentes, num raio mínimo de 50 metros de largura; nas encostas ou partes destas com declividade superior a 45o, equivalente a 100% na linha de maior declive.
A partir da confecção de um mapa que discrimina as áreas com ou sem a existência de matas, nos locais acima selecionados, o qual sobreposto aos resultados obtidos nas fases anteriores possibilitará a extração de conflitos.
Este primeiro diagnóstico da área possibilitou uma melhor visualização dos diferentes estágios fisionômicos de degradação e existência ou não das matas ribeirinhas no local em estudo.

4. Resultados e Análises:


A partir desta pesquisa representamos espacialmente as matas ribeirinhas da microbacia do Córrego do Pião – MG, que estão ou não presentes. A partir desta primeira delimitação, evidenciamos no cartograma as áreas que deveriam estar ocupadas por mata ribeirinha, em função da legislação e de maiores possibilidades de preservação e da própria qualidade da água. Averiguando qual o estágio de conservação das matas ribeirinhas na área em estudo.
Ressaltando após estas observações quais os maiores prejuízos e danos à população ribeirinha e da região, e quais políticas para sanar este problema poderiam ser sugeridas.
Assim, as áreas a florestar e/ou reflorestar são significativas na microbacia do Rio do Peixe, uma vez que apresenta um percentual de cobertura florestal próximo ao mínimo estabelecido, sendo este de 25% em Microbacias. Conclui-se, portanto, que a Microbacia em estudo está precisando de uma maior incidência de matas se consideradas as variáveis (declividade e cobertura vegetal). Ressaltando também locais com problemas de desflorestamentos, especialmente ao longo da drenagem, onde há inexistência de matas ribeirinhas. Este fato é acentuado quando está conjugado com declividades maiores, não favoráveis a atividades agrícolas.
No trecho percorrido foi encontrado áreas com matas ribeirinhas parcialmente preservadas. Ao longo do trecho foi observado a presença de animais e seus dejetos em toda seu trajeto (ver figuras 01), não sendo observado nas residências visitadas nenhuma preocupação com o tratamento da água (nos sendo oferecido sempre água da torneira, dita como de mina).

 


Figura 01 - Ribeirão do Pião - Animais

 

Alguns metros abaixo da área de deságüe do Ribeirão do Pião foi encontrado dragas de extração de areia (ver figura 02).

 


Figura 02 - Ribeirão do Pião - Balsa

 

O Ribeirão do Pião apresenta também áreas bem encachoeiradas (ver figura 03) terminando em grande área alagadiça (brejo). A vegetação em seu entorno é constituída de áreas reflorestadas (eucalipto) consorciada com mata nativa (ver figura 03). Em grande parte de seu trajeto encontra-se matas ribeirinhas, mas muito esparsas , com raras vezes respeitando a legislação ambiental vigente.

 


Figura 03 - Ribeirão do Pião - Cachoeira

 

Quanto à utilização das técnicas de sensoriamento remoto e sistemas de informações geográficas essas se mostraram de extrema utilidade na produção de mapas de oportunidades, do qual pode-se apontar áreas propícias a florestamentos e/ ou reflorestamentos contribuindo assim para um melhor planejamento em bacias hidrográficas.

5. Referências Bibliográfica:


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DAVIDE, A.C. et al. Comportamento de espécies florestais de mata ciliar em área de depleção do reservatório da usina hidrelétrica de Camargos – Itutinga, MG. In: CONGRESSO FLORESTAL PANAMERICANO, E CONGRESSO FLORESTAL BRASILEIRO, 7 Curitiba, 19 a 24 de setembro de 1993. Anais... São Paulo: SBS/SBEF, 1993. p. 412-418.
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