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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA



MORFOLOGIA DO RELEVO E OCORRÊNCIAS EROSIVAS LINEARES NA ALTA BACIA DO RIO ARAGUAIA, GO/MT



BARBALHO, M.G.S. mbarbalho@cultura.com.br;
CASTRO, S. S. de Selma.castro@uol.com.br;
CAMPOS,A.
MEDEIROS, C. M .de B.




Instituto de Estudos Sócio-Ambientais/ UFG.
Projeto Financiado pelo CNPq/ CONCITEG
 




Palavras-chave: formas de relevo; erosão linear.
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 4: Aplicações Temáticas em Estudos de Casos
 




 

INTRODUÇÃO

A Alta Bacia do Rio Araguaia nos últimos 30 anos desenvolveu processos erosivos lineares, sobretudo de voçorocamento, após o intensivo e indiscriminado desmatamento do cerrado e sua substituição por culturas anuais (soja, milho, algodão dentre outras), além de pastagens, incentivadas por programas governamentais que estimularam a apropriação rápida das terras, oferecendo subsídios para a produção e implantação de infra-estrutura, sobretudo viária, para o escoamento da produção.

ASPECTOS GERAIS


A área de estudo localiza-se no setor sul da alta bacia do rio Araguaia entre as coordenadas geográficas 17º30’00” e 18º00’ 00”S e 53º00’00” a 53º30’00”W, abrangendo parte dos Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com uma área de aproximadamente 1.500km², (Figura 1)
Segundo a classificação climática proposta por Köeppen, o clima dominante na área é representativo da região dos cerrados, onde se insere a área de pesquisa, é do tipo o tropical quente sub-úmido (Aw). Caracteriza-se por duas estações bem definidas, uma seca que corresponde ao período outono-inverno, e a outra úmida de verão, com chuvas que costumam ser muito fortes e de curta duração não sendo raro precipitações acima de 50mm/hora, sobretudo no mês de fevereiro (Ramos, 2003). A temperatura média é de 23ºC variando menos de 5ºC entre os meses mais frios e mais quentes.


(Clique na figura para ampliá-la)


 

No inverno são comuns as frentes frias polares que ocasionam as friagens na região (Dias, 1996).
O Cerrado original na área apresentava fisionomias que englobavam formações florestais, savânicas e campestres. O termo savana é freqüentemente utilizado nos estudos de fitogeografia e botânica. Rizzini (1964) in Magnano (1983), afirma que a fisionomia do cerrado é de uma savana lenhosa africana, com pequenas árvores tortuosas, espaçadas, sobre denso revestimento de gramíneas e subarbustos.
O substrato geológico predominante na Alta Bacia é constituído por unidades Jurássicas pertencentes à Formação Botucatu da Bacia Sedimentar do Paraná, representada na área por arenitos róseos avermelhados, finos a muito finos, bimodais, bem selecionados, eólicos, com estratificações cruzadas de pequeno a grande porte, comumente silicificados, originando solos arenosos (Souza Júnior et al,1983).Nos níveis mais elevados ocorrem ainda rochas básicas da Formação Serra Geral e sedimentos terço-quaternários e nos principais fundos de vale ocorrem sedimentos quaternários holocênicos.
A geomorfologia é caracterizada basicamente pela unidade denominada de Planalto Setentrional da Bacia do Paraná, que compreende dois grandes compartimentos topográficos distintos. Um mais elevado, alcançando altimetrias que variam de 650 a 1000 metros, denominado de Chapada (Serra de Caiapó principalmente) e outro rebaixado, abrangendo cotas de 350 a 650 metros (Mamede et al,1983) constituindo um grande pedimento com interflúvios amplos e pouco dissecados de baixos declives (Barbalho, 2002).
As principais classes de solos reconhecidas na área são Latossolos Vermelho-Escuros, Latossolos Vermelho-Amarelos, dominantes no nível mais elevado, os Neossolos (Litólicos, Cambissolos), dominantes nas áreas escarpadas e os Neossolos Quartzarênicos não hidromórficos e hidromórficos, bem como os Gleissolos dominantes na zona rebaixada e associados aos arenitos da Formação Botucatu (Novaes et al, 1983; Oliveira, 1999; Barbalho, 2002).
O uso do solo ao final da década de 1960 apresentava predomínio de quase 70% de fitofisionomias do Cerrado e 30% de atividades agropecuárias que foi invertida ao final dos anos de 1990. Naquela década cerca de 12 focos erosivos ocorriam, eram de porte pequeno a médio e estavam localizados sobretudo nas cabeceiras dos tributários do rio Araguaia, na zona submetida às atividades agropecuárias. Nesta última década esse número subiu para quase uma centena de focos, estando a maioria ainda nas cabeceiras, freqüentemente desmatadas, sendo a maioria de médio a grande porte.

METODOLOGIA


Foram realizadas as seguintes etapas e respectivos procedimentos:
1o - Interpretação de fotografias áreas na escala 1/60. 000 (USAF, 1966), que seguiram a proposta de Soares & Fiori (1976) e Oliveira (1995), (cor, textura, tamanho e formas dos objetos), com o objetivo de identificar e mapear as principais feições do relevo que se relacionam com os processos erosivos, em especial as escarpas, formas e rupturas de declive de vertentes. A legenda foi também inspirada naquela de Queiroz Neto e Journaux (1978).
2o – Digitalização do esboço morfológico utilizando o programa SPRING/INPE.
3o - Elaboração do Mapa de Ocorrências Erosivas - Foi realizado inicialmente o registro da Imagem LANDSAT – 7 ETM+, do mês de agosto de 1999, bandas 543/RGB, que seguiu a seqüência das seguintes funções no SPRING 3.4 - INPE: leitura de imagem, registro, utilizando a mesa digitalizadora e o processamento de imagem. Posteriormente, a interpretação da referida imagem (na tela do computador) na escala 1/60.000, para identificação e quantificação das feições erosivas. Não foi possível distinguir os tipos de ocorrências erosivas (ravinas ou voçorocas), mas procurou-se reproduzir, com a maior precisão possível, a sua disposição e forma externa. Para solucionar este problema o mapa foi objeto de validação (reambulação) em campo, realizado em julho de 2001.
4a – Cruzamento do esboço morfológico com o Mapa de Ocorrências Erosivas Lineares e o estabelecimento dos principais indicadores relacionados às formas e tipos de vertentes relacionados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO


No esboço morfológico (Figura 2) elaborado verifica-se que as rupturas de declive côncavas ocorrem predominantemente no limite inferior das vertentes, junto às planícies aluviais, com altitude entre 675 a 725m e declives dominantes entre 6–12%. Tais formas associam-se com o substrato arenítico da Formação Botucatu e os Neossolos Quartzarênicos sucedidos peloss Neossolos Quartzarênicos hidromórficos e estes por Gleissolos.
Nessa figura percebe-se ainda que a maioria das erosões na área, especialmente as de maior porte, situam-se nessas posições, uma vez que são formas concentradoras dos fluxos superficiais e subsuperficiais. As rupturas côncavas ocorrem também nas áreas de nascentes, em cotas de 775 a 825m, apresentando um maior declive, em torno de 12 – 20%, conformando embaciados onde, quando desmatados, se concentram focos erosivos em prolongamentos das nascentes, largamente a situação dominante das erosões da área, embora não sejam as de maior porte.
As rupturas convexas situam-se principalmente nos interflúvios em cotas mais altas, entre 725–775m, com baixos declives, entre 3-6%, marcando as rupturas de topo para as vertentes, onde dominam os Neossolos Quartzarênicos.
As escarpas marcam o limite entre a superfície de cimeira tabular, representada pela Serra do Caiapó e as formas de dissecação situadas em cotas mais baixas. Apresentam declives entre 12-20% e >20%. Ocorre nessa área o contato da Formação Botucatu com as Coberturas Detrítico-Lateríticas e, pontualmente, com a Formação Serra Geral. Nessas posições não há evidências de voçorocas, dominado os movimentos de massa e ravinas.


(Clique na figura para ampliá-la)


 

No mapa de ocorrências erosivas (Figura 3) foram pontuados 91 focos erosivos visíveis na escala adotada (quadro 1) e pode-se observar que a maioria está conectada aos canais de drenagem, sobretudo de 1a e 2a ordens e mais restritamente aos de 3a e 4a ordem.
 

CANAIS DE DRENAGEM

FOCOS

EROSIVOS

(%)

1a Ordem

34

37,36

2a Ordem

39

42,86

3a Ordem

9

9,89

4a Ordem

4

4,40

Não Conectadas

5

5,49

Total

91

100,00

Quadro 1 – Canais de drenagem e focos erosivos

O esboço morfológico também permite constatar a presença de amplos interflúvios na zona rebaixada, com baixa densidade de drenagem, conformando colinas amplas, exceto próximo às escarpas, onde conformam colinas médias e pequenas e onde a densidade de drenagem é maior. Percebe-se ainda a ocorrência de formas tabulares residuais já rebaixadas no setor centro leste da área mapeada.
A drenagem obedece a padrões dendríticos com baixa densidade, exceto próximo às escarpas onde esta é alta. Constata-se a direção dominante NE-SW com um certo paralelismo na direção ortogonal a esta revelando controle litoestrutural ligado
 

(Clique na figura para ampliá-la)

 

 a fraturas e falhamentos concordantes com a direção dos lineamentos regionais que apresenta relação também com as direções das erosões em prolongamento das cabeceiras dos canais como havia já observado (Martins, 2000).
Comparando-se a morfologia do lado goiano com o lado mato-grossense, percebe-se que os interflúvios mais amplos e suavemente convexizados, encontram-se a W e NW, do lado mato-grossense, onde o número de focos erosivos é maior e freqüentemente longitudinais aos canais dos tributários do Rio Araguaia, e onde também é menor o número de rupturas côncavas, embora os maiores estejam conectados diretamente ao referido rio. Ao contrário, do lado goiano o número de focos é maior, mas dominam os de porte médio e pequeno, onde há estreita relação com as rupturas côncavas (embaciados) nos topos e terços superiores dos interflúvios, que embora extensos, são de área inferior àquela do lado mato-grossense.
Tais diferenças erosivas poderiam ser explicadas também pelo índice de desmatamento, que é maior nesse Estado, certamente estimulado pela presença de amplos interflúvios favoráveis à prática agrícola intensiva, enquanto no lado goiano predominam interflúvios ligeiramente menores,com declividades ligeiramente maiores, com pastagem e grandes áreas cobertas ainda com cerrado, menos favoráveis a essas práticas.
As incisões erosivas conectadas a canais de drenagem e as atividades antrópicas como o desmatamento, a construção de estradas, de cercas, as valas de divisa e o manejo inadequado do solo são algumas das práticas que sabidamente ocasionam oscilações hidrodinâmicas no interior das bacias hidrográficas, propiciando a incisão de sulcos e ravinas e, conseqüentemente, o avanço remontante dessas incisões, contribuindo para a instalação e desenvolvimento das voçorocas (Oliveira, 1999).

CONCLUSÕES


Os resultados revelaram a grande correlação entre as ocorrências erosivas lineares e as feições morfológicas na escala de análise considerada (1:60.000), especialmente com as zonas mais sensíveis ao desenvolvimento das erosões situadas no limite inferior das vertentes próximo às rupturas côncavas que delimitam o inicio das planícies aluviais e junto às cabeceiras de drenagem, em suas áreas de contribuição, configuradas como embaciados concavizados nos topos e terços superiores das vertentes, corroborando observações contidas na literatura especializada.

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