Voltar à Página da AGB-Nacional
 

 

imprimir o artigo

E3-3.4T292

 

X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

CARACTERIZAÇÃO DO RELEVO DOS MUNICÍPIOS DE ABAÍRA E RIO DE CONTAS PARA O CONHECIMENTO DA DIVERSIDADE DE AMBIENTES NATURAIS DA CHAPADA DIAMANTINA – BAHIA




Rita de Cássia Ferreira Hagge rihagge@uefs.br 1
Joselisa Maria Chaves joselisa@uefs.br 2
Washington de Jesus Sant’Anna Franca Rocha wrocha@uefs.br 2
Carlos Cesar Uchoa de Lima uchoa@uefs.br 2



1 - DCHF;
2 - DEXA;
Universidade Estadual de Feira de Santana.



Palavras-chave: Chapada Diamantina, ambientes, compartimentação geomorfológica.
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física a pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos
 





 

INTRODUÇÃO

A Chapada Diamantina é uma região do Estado da Bahia que se destaca por conter um mosaico de ecossistemas, a saber: cerrado, caatinga, floresta montana, campos rupestres e campos gerais. Tais ecossistemas estão integrados em ambientes climáticos e geomorfológicos distintos constituindo uma riqueza de aspectos a serem estudados. Nesta região estão as nascentes de duas grandes bacias hidrográficas do Estado: Paraguaçu e Contas.
Além da existência de uma grande biodiversidade, há na região o cuidado com a preservação ambiental, que se processa por meio de APAs, reservas, parques municipais e do Parque Nacional da Chapada Diamantina, que dão suporte a projetos de pesquisa e ao turismo ecológico sustentável.
Inúmeros estudos têm sido desenvolvidos nessa região, sobretudo em campos temáticos específicos e em escala regional, porém, considerando-se o grande número de municípios que a compõe (58 no total) torna-se importante a implementação de novas pesquisas, principalmente em escala local ou em âmbito municipal, assim como a alimentação dos bancos de dados existentes.
A pesquisa em foco é voltada para o estudo do relevo dos municípios de Abaíra e Rio de Contas, localizados na Microrregião Homogênea da Chapada Diamantina Meridional.
O presente estudo é parte do programa de elaboração de banco de dados do Projeto Chapada Diamantina-Biodiversidade, desenvolvido pelo Laboratório de Geociências-UEFS.
A referida pesquisa tem como objetivo principal a compartimentação do relevo e a caracterização das unidades e sub-unidades geomorfológicas, ambientes que abrigam distintos ecossistemas.

METODOLOGIA

As etapas desenvolvidas na pesquisa foram as seguintes: levantamento e coleta de dados bibliográficos e cartográficos, análise de mapas temáticos: geológicos, geomorfológicos, de vegetação, de solo e de uso do solo, interpretação de cartas topográficas na escala 1:100.000, construção de mapa Hipsométrico, análise visual de imagens de satélite e trabalho de campo com registros fotográficos (figura 1).
Com relação a compartimentação geomorfológica, consultou-se o mapeamento do Radambrasil e da Seplantec, com intuito de identificar as unidades regionais. Embora estes trabalhos estejam apresentados na escala 1:1000.000, foram baseados em imagens de radar 1:250.000 e portanto, representam instrumentos válidos como consulta, a partir do qual são acrescidas as observações mais detalhadas.
A delimitação das unidades espaciais do relevo em domínios, regiões, unidades e modelados, obedece a critérios lógicos. Os tipos de modelados foram separados de acordo com a geometria das formas e sua correlação com a energia do relevo, impressa pela ação da drenagem, e são classificados como modelados de dissecação homogênea, que não obedecem ao controle estrutural e são quantificados pela densidade e aprofundamento da drenagem e, como modelados de dissecação estrutural, quando é definido apenas pelo aprofundamento. Os modelados de aplainamento correspondem a formas aplainadas, elaboradas por processos de pediplanação, estando conservadas ou degradadas por modificações no sistema morfogenético, podendo estar cobertas (inumadas) ou desnudadas (erodidas).

1. CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ÁREA

1.1. LOCALIZAÇÃO

Abaíra e Rio de Contas são municípios vizinhos localizados no setor sul-ocidental da Chapada Diamantina. O município de Abaíra limita-se ao norte com Piatã (serra da Tromba), a oeste com Rio do Pires, a leste com Mucugê (rio de Contas) e ao sul com o município de Rio de Contas (rio da Água Suja). O município de Rio de Contas por sua vez limita-se ao norte com Abaíra, a oeste com Érico Cardoso, a leste com Jussiape, a sudeste com Ituaçu, a sudoeste com Livramento de Brumado e a sul com Dom Basílio (Figura 2).


Figura 1. Fluxograma da Metodologia



Figura 2. Mapa da Localização da Área em estudo no Estado da Bahia

 

1.2. ASPECTOS AMBIENTAIS

A área em estudo foi durante muito tempo explorada pela atividade de mineração, que teve início nos “sertões do rio de Contas”, no século XVII, com a extração do ouro. A vila do Rio de Contas surgiu e cresceu com o crescimento das lavras auríferas no leito do rio Brumado, tendo estacionado com o esgotamento das minas.
A cidade de Rio de Contas com sua arquitetura colonial (século XVIII), com seus jardins e ruas limpas, e seu artesanato, que resgata o período do ouro, constitui um atrativo turístico.
A ocupação humana hoje está condicionada pela estrutura do relevo, restringindo-se a atividade agrícola aos fundos dos vales. Entre as cristas das serras dissecadas pelos rios, cultiva-se arroz e cana irrigada.
Quanto aos aspectos gerais do meio ambiente, a área possui um potencial hídrico elevado, já que os municípios de Abaíra e Rio de Contas estando situados na bacia superior do rio de Contas, apresentam uma drenagem densa, em virtude da permeabilidade e acamamentos das rochas que permitem a infiltração de água nas serras e formação de muitos olhos d’água e nascentes.
O relevo destes municípios possui um aspecto peculiar, em virtude das serras elevadas e dos vales de ordens variadas, desde córregos nascentes a rios maiores, que formam corredeiras e rápidos, afluentes do expressivo rio de Contas.
Em Abaíra, quase no limite com Piatã, encontram-se os cumes mais elevados de Estado: o pico do Barbado com 2033 m e o pico Itubira com 1970 m de altitude. A prática de traking e caminhadas ecológicas a esses picos, ainda incipiente, tem sido realizadas por brasileiros adeptos ao “turismo de natureza” mas, principalmente por estrangeiros. Tal fato é devido à condição dessa área ser pouco conhecida e de acesso difícil, e por isso encontrar-se bastante preservada, com suas serras grandiosas, sua biodiversidade vegetal e animal e seus rios límpidos. Vale ressaltar que os referidos municípios estão incluídos na “Área de Preservação Ambiental de Serra do Barbado”.

2. CLIMA

Estando Abaíra e Rio de Contas situados no bordo sul ocidental da região geomorfológica da Chapada Diamantina (CEPLAB, 1980), dentro do contexto de domínios morfoclimáticos do Brasil (Ab’Saber, 1969, citado em Bigarella, 1994), a área em questão representa uma zona de transição entre o “domínio de depressões interplanálticas tropicas semi-áridas, cobertas de caatinga” e o “domínio de chapadões tropicais interiores com cerrados e florestas galerias” (oeste do rio São Francisco).
Segundo Melfi et al. (1988), citado em Bigarella (1994), a Chapada Diamantina corresponde a um enclave dentro da região tropical semi-árida nordestina, onde predomina o clima tropical sub-quente a sub-úmido com floresta tropical.
Situada dentro de uma grande zona semi-árida (demarcada por uma isoieta de 800 mm), esta região se diferencia pelo aspecto do relevo, considerado “montanhoso”, cujas altitudes elevadas (600 a 2000 m), proporcionam temperaturas mais baixas e altos índices pluviométricos, muitas vezes condicionados por chuvas orográficas.
Na realidade esta região possui um clima mais úmido hoje, mas sofreu a influência de um paleoclima mais seco, a cerca de 18.000 anos atrás (Ab’Saber, 1974) que parece ter resultado na permanência de espécies de caatinga (arbustos com folhas pequenas e cactáceas) espalhados em toda área, em zonas de transição ou em associações vegetais sobre manchas de solos propícios. A ação desse clima condicionou os processos de pediplanação e a formação de superfícies de erosão ou de aplanamentos, sobre rochas de estrutura e litologias distintas.
No bordo sul da Chapada é perceptível a transição do cerrado, em serras e pedimentos úmidos (Abaíra e Rio de Contas) para caatinga em zona de Pediplano Setanejo (Abaíra e Jussiape).
Os municípios em estudo apresentam faixas de tipos climáticos distintos, no sentido de oeste para leste (classificação de Thornthaite, citada em CEI, 1985). Nas áreas de serras mais elevadas, cujas altitudes são superiores a 1600 m o tipo é úmido a sub-úmido (Pluviosidade < 900 mm/ano); nas áreas adjacentes, serras e vales que prolongam-se em direção do rio principal e cujas altitudes vão até cerca de 800 m, o tipo é sub-úmido a seco ( P= 800 a 900 mm/ano); nas zonas de pedimentos e aplanamentos e baixas encostas dos vales afluentes, com altitudes inferiores a 800 m, o tipo é seco a semi-árido ( P= 700 a 800 mm/ano) e finalmente nas mais baixas altitudes ou seja na superfície de aplainamento que acompanha o vale do rio de Contas, na zona limite com Jussiape, o tipo é semi-árido (P <750 mm /ano).
Baseado na classificação de Koppen, (CEI, 1985), os climas da região da bacia superior do rio de Contas são basicamente Aw e BSwh’. O tipo Aw é o clima tropical úmido de savanas, que difere dos demais de classe A por apresentar uma estação seca definida, coincidindo com o inverno; neste clima a temperatura média do mês menos quente se mantém acima dos 18ºC e a precipitação média anual é superior a 750 mm/ano. Já o tipo BSwh’ ou tropical semi-árido apresenta chuvas escassas, inferiores a 750 mm que ocorrem nos meses de verão.

3. ANÁLISE DO RELEVO

3.1.GEOLOGIA REGIONAL

A área em estudo está inserida no domínio geotectônico do Sistema de Dobramentos Espinhaço – Chapada Diamantina Ocidental (Inda e Barbosa, 1978), incluída no “Craton do São Francisco” (Almeida, 1977). Considerando-se que cratons são áreas estabilizadas na crosta terrestre devido a ocorrência de um ou mais eventos tectônicos, os dobramentos referidos referem-se a deformações sofridas pelas rochas vulcano-sedimentares antigas e empilhadas que constituem a sequência do supergrupo Espinhaço.
O embasamento do supergrupo Espinhaço foi originado por processos de deposição de sedimentos, algumas vezes associados a atividades vulcano-sedimentares (lavas vulcânicas e cinzas) ocorridos a cerca de 2500 a 1700 Ma. Por volta de 1700 Ma formou-se a bacia intracratônica ou Bacia do Espinhaço - São Francisco onde foram empilhadas as seqüências, da base para o topo: Grupo Rio dos Remédios, Paraguaçu e Chapada Diamantina.
Após a deposição, esta Bacia foi submetida a tectônica do ciclo Brasiliano, que promoveu a sua inversão, impondo às rochas intensidades variadas de deformação e ao aspecto de sub-horizontalidade das camadas.
O grupo Rio dos Remédios, base da coluna estratigráfica apresenta espessos derrames vulcânicos ácidos e rochas piroclásticas, registradas na área da borda ocidental da Chapada diamantina, recobertos com depósitos sedimentares siliclásticos marinhos e continentais intercalados, correspondentes aos grupos Paraguaçu e Chapada Diamantina (Formação Tombador).
Trabalhos recentes revelam uma unidade basal quartzítica de origem eólica, depositada sobre o embasamento cristalino, superposta por outra, depositada em ambiente marinho raso, e recobertas por tálus. Tal evidência foi identificada na encosta NE da serra do Molhado, próximo a Arapiranga.
Diretamente sobre o grupo Rio dos Remédios, foram registrados conglomerados, constituídos de blocos e seixos arredondados de quartzitos e rochas vulcânicas em sistemas fluviais e de leques aluviais, nas proximidades de Mato grosso, de Catolés de Cima e no flanco SW da serra de Rio de Contas (Fazenda Brumadinho).
Sobre os conglomerados ocorre espessa camada de arenitos líticos, apresentando estratificações cruzadas, cuja deposição está associada a ambiente marinho raso (Villas Boas et. Al.,1992). Ao norte da cidade de Rio de Contas (ponte do Coronel), foi verificado estratificações cruzadas de grande porte.
Quanto às coberturas tércio-quaternárias detríticas e depósitos de tálus, estas estão dispostas de forma irregular sobre litologias da região, como exemplo no sinclinório de Rio de Contas. As coberturas constituídas de areia de granulação média a fina, silte e argila (sobre as quais estão os campos gerais), apresentam cores que variam de tons castanhos escuro a esbranquiçados (areias quartzosas). Os depósitos de tálus podem ser observados na encosta da serra do Malhado, voltada para Arapiranga, e na serra do Barbado, voltados para serra da Tromba.
Na áreas do Pediplano Sertanejo, ou seja ao longo do rio de Contas próximo a Abaíra e Jussiape, as rochas são pré-Cambrianas, granitóides, leucocráticas e mesocráticas, que deram origem a solos moderadamente profundos.

3.2. GEOMORFOLOGIA REGIONAL

Considerando-se os mapeamentos geomorfológicos do Estado da Bahia e baseando-se em Brasil, 1981, a área em estudo apresenta a seguinte compartimentação do relevo, inserida em unidades distintas (quadro 1).
O Domínio de planaltos em estruturas dobradas consiste de maciços, cujos topos estão acima de 800 m e são remanescentes de estruturas dobradas e falhadas, configurando anticlinais e sinclinais invertidas e superfícies de aplainamento, esculpidas em rochas metassedimentares, estando dissecados pelos rios de Contas e Paraguaçu. As regiões destacam as peculiaridades referentes a litologia, a tectônica e a morfologia, que as individualizam.
A unidade de Serras da Borda Ocidental engloba relevos elevados que estendem-se de NNO a SSE da região, cujas serras encontram-se em posição altimétrica quase sempre acima de 1000 m e freqüentemente com cotas elevadas, superiores a 1400m. Destacam-se os picos mais elevados do estado, como o pico do Barbado, o pico Itubira e o pico das Almas.É uma área pouco ocupada, destacando-se as cidades de Piatã e Rio de Contas


Quadro 1- Unidades espaciais regionais do relevo

COMPARTIMENTO

UNIDADE

REGIÃO

DOMÍNIO

I - Serras com cristas e picos

Altitudes: 1400 a 2000 m

Serras da Borda Ocidental

Chapada Diamantina

Planaltos em Estruturas Dobradas

II - Planos de Erosão Inumados (modelados de aplainamento)

Altitudes: 1400 m

Serras da Borda Ocidental

Chapada Diamantina

Planaltos em Estruturas Dobradas

III - Pediplano Oriental de Abaíra (modelados de dissecação)

Altitudes: 800 a 1000 m

Pediplano Sertanejo

Depressão Sertaneja

Depresões Interplanálticas

IV - Pediplano do rio de Contas

(modelados de aplainamento)

Altitude: < 800  a 440 m

Pediplano Sertanejo

Depressão Sertaneja

Depresões Interplanálticas

 

 

A morfologia foi desenvolvida principalmente sobre os metarenitos, metassiltitos, metargilitos, quartzitos e lentes de conglomerado do grupo Chapada diamantina configurando as elevações residuais correspondentes aos flancos de dobras antigas que encontram-se hoje “desmanteladas”. Trata-se de um relevo estrutural, submetido durante longo tempo (geológico) à dissecação diferencial, condicionada pelos fatores tectônicos e litológicos que resultou em interflúvios com topos aguçados e encostas íngremes, e morros e serras com vertentes irregulares ou apresentando vertentes convexo-côncavas contendo afloramentos rochosos e blocos caídos.
As formas remanescentes das antigas estruturas dobradas configuram, nos locais de camadas de rocha muito inclinadas as cristas assimétricas (hogbacks). A oeste da cidade de Piatã, tais estruturas encontram-se mais conservadas, correspondendo às bordas da sinclinal suspensa (Serra do Atalho e serra da Tromba). A parte escarpada deste relevo geralmente é constituída por uma cornija rochosa na parte superior, seguida de um tálus detrítico que se emenda a rampas, pedimentos ou glacis ao sopé, na parte externa do sinclinal.
A rede de drenagem destas serras ocidentais dirige-se para o rio de Contas, que possui suas nascentes no extremo sul da sinclinal de Piatã, constituídas por rios de pequeno porte, com regime intermitente.

O domínio das depressões interplanálticas apresenta modelado de dissecação homogênea nos patamares das bacias dos rios de Contas e Paraguaçu. A dissecação pela drenagem é de baixa energia (desnível médio de 40 a 70m), condicionada às altitudes e declividades menos elevadas. Destarte, as encostas possuem inclinações da ordem de 20 a 30º.

A região de Depresão Sertaneja é constituída de modelados de aplainamentos caracterizados por possuir baixa energia de dissecação linear e sujeitas a ablação superficial. Estão mais preservados da erosão os modelados que possuem uma cobertura de materiais detríticos e pedogeneizados, isto é, os “inumados”, situados sobre “planos ou encostas longas” e pouco inclinadas (pedimentos).
Os aplainamentos desnudados foram submetidos à ablação e consequentemente à eliminação de prováveis recobrimentos, que serviram de obstáculo a alteração das rochas e formação de solo.
Os relevos residuais que resistiram no tempo, correspondem a modelados de dissecação média e grande, apresentando grandes desníveis (113 a 238 m) e com declividades superiores a 30º, que proporcionam escorregamentos e ravinamentos.
O Pediplano Sertanejo ou Cristalino inclui os terrenos cristalinos que circundam o maciço antigo da Chapada Diamantina, e que foram esculpidos em longos e poligênicos processos de pediplanação. São áreas de relevo plano com altitude média de 500 m retocados por drenagem incipiente, onde despontam elevações residuais isoladas ou agrupadas, maciços e serras. Aos solos rasos associa-se a vegetação de caatinga.
A unidade de Pediplano Sertanejo prolonga-se do bordo da Chapada Diamantina, estendendo-se na zona de clima semi-árido, e na área de estudo é notável o contato com a serra do Rio de Contas. A cidade de Livramento de Brumado (ao sul da área de estudo) encontra-se nesta unidade.

4. COMPARTIMENTAÇÃO GEOMORFOLÓGICA

I – Serras com Cristas e Picos
Este compartimento corresponde ao setor noroeste e sudeste da área em estudo, principalmente no município de Abaíra, abrangendo as maiores elevações onde destacam-se o pico do Barbado, com 2033 m de altitude, o pico Itubira, com 1970 m, o pico das Almas, com 1836 m e o morro do Barro Vermelho com 1771 m (estes dois últimos em Rio de Contas).
A Serra do Rio de Contas, embora não esteja completamente dentro da área, possui suas encostas orientais voltadas para o município de Rio de Contas (a partir das cotas de 1200 m), servindo de limite com outros municípios.
Este compartimento caracteriza-se pelas cristas alinhadas de modo contínuo e falhamentos identificados através de profundos entalhes retilinizados e das escarpas que se elevam paralelamente a estes vales, adaptados a estrutura da rocha. Os rios apresentam “cotovelos” e padrões de drenagem ortogonais, como no caso do rio da Água Suja.
Os rios afluentes do rio de Contas drenam o planalto e contribuem na dissecação do modelados, em diferentes graus (alto e médio), quando descem de escarpas ou patamares, em desníveis altimétricos (1200 a 2000 m ).
Na Serra do Barbado, localizada próximo a Catolés de Cima, o relevo apresenta-se com camadas sub-horizontalizadas, constituídas de quartzitos da Formação Tombador, nas partes mais elevadas.
Os processos morfogênicos da dinâmica atual são identificados através das marcas de movimentos de massa, sobretudo em terrassetes (terrenos erodidos pelo pisoteamento do gado em encostas inclinadas), e de sulcos e ravinas aprofundados escoamento superficial difuso e concentrado elementar. O escoamento concentrado em zonas de cabeceiras forma alvéolos ou vales suspensos.
Os interflúvios constituem geralmente planos estruturais desnudados com pouco ou nenhum material de cobertura (manto de alteração, colúvio), estando estes ambientes abrigando os campos rupestres.

II – Planos de Erosão Inumados
Este setor corresponde a face oeste da área, no município de Rio de Contas.
Trata-se de trechos aplainados e desnudados, verificados ao norte da cidade de Rio de Contas, e no sinclinal de Piatã e no topo da serra do Rio de Contas (fora da área de estudo), que são considerados pediplanos elaborados em fases sucessivas de retomada de erosão (oscilações climáticas) e parcialmente inumados, estando cobertos por cobertura detrítica e ou couraças ferruginosa, indicando remanejamentos sucessivos de sedimentos. Estas feições planas em altitudes elevadas, são conhecidas como “Geraizinhos”. Mais ao sul do setor, a drenagem do rio Brumado modifica o modelado de inumado para desnudado, onde o relevo é mais descarnado.

III – Pediplano Oriental de Abaíra (modelados de dissecação)
Compreende o setor entre os pedimentos e as serras mais elevadas, que foi delimitado pelas cotas de 800 a 1000m, englobando a serra do Teixeira, os bordos das serras do Santana, do Pastinho, da Estiva, as encostas inferiores das serras da Tromba e do Atalho, e mais ao sul, as serras Furnas, serra do Caldeirão e serra Branca, como também o bordo oriental da serra do Rio de Contas.
O escavamento da drenagem, nas vertentes destas serras, configurou modelados de dissecação, considerados como de grande ordem devido à densidade e aprofundamento da drenagem, cujos desníveis dos vales estão em torno de 150 a 244 m (Brasil,1981).

IV – Pediplano do Rio de Contas (modelados de aplanamento)
Este compartimento está delimitado a partir da cota de 800 m até o rio de Contas, que drena todo o setor leste dos municípios de Abaíra e Rio de Contas, correndo no sentido norte-sul e servindo de limite com os municípios de Mecugê, Jussiape e Ibicoara.
O relevo dispõe-se em pedimentos ou rampas, que se estendem da base das serras em direção às calhas dos riachos e rios, correspondendo aos interflúvios dos cursos médios dos riachos Lameirão, Água branca, São José, riacho da Calça e riacho do Brejo, rio da Água Suja e rio Furnas.
Na parte mais ao sul da área, a sub-bacia do rio Furnas, que drena as localidades de Arapiranga e Marculino Moura, apresenta-se em forma de alvéolo largo, essa conformação também ocorre no rio Brumado, nas adjacências da área em estudo.
O quadro 2 apresenta a síntese do meio físico ou ambiental, que caracteriza os compartimentos do relevo da área em estudo.


Quadro 2. Caracterização dos Compartimentos do Relevo.

 

COMPARTIMENTOS

 

 

GEOLOGIA

 

 

SOLO

 

VEGETAÇÃO

 

UNIDADE GEOMORFOLÓGICA

 

 

 

I - SERRAS COM CRISTAS E PICOS

 

 

 

Rochas do Supergrupo Espinhaço: Formações Seabra, Tombador e Rio dos Remédios

Litólicos distróficos (neossolos) e Podzólicos vermelho-amarelo eutrófico

Campos rupestres ou refúgio ecológico montano; cerado arbóreo-aberto e ecótone cerrado/estepes, na baixa encosta das serras

 

 

 

Serras Ocidentais da Chapada Diamantina

II - PLANOS DE EROSÃO INUMADOS

(Campos gerais)

Rochas do supergrupo Espinhaço

Litólicos distróficos (neossolos)

Campos – vegetação de arbustos e herbáceas

 

 

Idem

 

 

III - PEDIPLANO ORIENTAL DE ABAÍRA

Rochas do Embasamento Cristalino Pré-Cambriano granitóides

Podzólicos vermelho-amarelo distrófico e latossolo vermelho-amarelo distrófico

Estepes arbórea aberta densa com palmeiras (caatinga) e setores com agro-pecuária

 

 

 

 

Pediplano Sertanejo

 

 

IV – PEDIPLANO DO RIO DE CONTAS

Complexo Caraíba-Paramirim

Latossolos veremelho-escuro e Podzólicos vermelho-amarelo.

Ecótono estepes/floresta estacional, estepes arbórea aberta sem palmeiras e agropecuária

 

 

Pediplano Sertanejo

 

5. CONSTATAÇÕES FINAIS

O clima tropical com duas estações definidas, predominante na região, condicionou o desenvolvimento do cerrado, vegetação que apresenta características diferentes da caatinga, folhas maiores, árvores lenhosas e de copas volumosas, em resposta a umidade, mas que também, possui folhas cerosas e deciduidade, para resistir a estação seca. A diferenciação de subtipos climáticos dentro do clima tropical, atuando sobre litologias e morfoestruturas distintas condicionou sistemas de erosão diferentes que resultaram em solos diferentes e conseqüentemente distintas formações vegetais.
Os diferentes compartimentos do relevo identificados na área em estudo configuram diferentes ambientes: as serras que expõem afloramentos de rocha, as baixas vertentes das serras e vales, com solos mais ou menos espessos, os setores de pediplano com solos rasos, e os setores planos e elevados.
Nas serras configuradas na unidade I, a umidade (pluviosidade, neblina) atuando sobre os afloramentos de rocha, promove a formação de solos incipientes (neossolos) que favorecem a instalação de vegetação herbácea, cactáceas, bromélias, musgos e hepáticas, compondo os campos rupestres. Nas trilhas para os picos Itubira e Barbado, que corta setores de matas e campos rupestres, cristas e estreitos vales, a biodiversidade é grande, merecendo destaque espécies vegetais como murici, pau-de-tucano, canela de ema, crista de galo, as orquídeas e as espécies de sempre-vivas.
Nas vertentes das serras, onde acumulam-se colúvios, os solos mais desenvolvidos, permitiram o estabelecimento de vegetação de cerrado, como visto nas imediações da cidade de Rio de Contas, onde destaca-se os pequizeiros.
Nos patamares ou superfícies planas das serras, comentados na unidade II, predomina a vegetação de campos gerais, com espécies de porte arbustivo, onde destacam-se as flores.
Nos compartimentos III e IV, de pedimentos, predomina a transição da vegetação de caatinga para o cerrado, onde destaca-se a baraúna e os ouricurizeiros. No trecho de Abaíra a Jussiape, é perceptível a predominância da vegetação de caatinga, aparecendo também manchas de campo sujo.
A partir das observações e interrelações efetuadas na pesquisa chegou-se a conclusão de que o estudo deve ser aprofundado no sentido de identificar sub-unidades ainda menores na área, como também, deve ser elaborado um mapa geomorfológico que contemple a morfodinâmica e portanto, que permita uma análise integrada mais precisa dos elementos do sistema natural ou do meio físico da área em questão.
As interpretações dos mapas topográficos, aliadas ao trabalho de campo e às análises visuais das imagens de satélite, tornaram possível a síntese dos conhecimentos básicos da geografia física dessa área, contribuindo dessa forma para a ampliação dos conhecimentos sobre o meio ambiente da Chapada Diamantina.


6. BIBLIOGRAFIA

AB’SABER, A.N. O Domínio morfoclimático semi-árido das caatingas brasileiras. Geomorfologia: São Paulo, n. 43, 1974.

BIGARELLA, J.J. et alli. Estrutura e origem das paisagens tropicais e subtropicais. Florianópolis: Editora UFSC, 1994.

BRASIL. Ministério das Minas e Energia. Projeto Radambrasil. Folha SD. 24. Salvador: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso potencial da Terra. Rio de Janeiro, 1981. 624p. (Levantamento de Recursos Naturais, 24).

CENTRO DE PLANEJAMENTO E ESTUDOS (BAHIA). Mapa Geomorfológico do Estado da Bahia. Salvador, 1980.

CENTRO DE ESTATÍSTICA E INFORMAÇÕES (Bahia). Zoneamento de potencialidade do uso das terras. Bacia superior do rio de Contas- Bahia. Salvador, 1985.

CENTRO DE PLANEJAMENTO E ESTUDOS (Bahia). A compatibilização dos usos do solo e a qualidade ambiental na região central da Bahia. Salvador, 1981.

VILAS BOAS, G.S. et al. Modelo de sedimentação dos grupos Rio dos Remédios e Paraguaçu na borda ocidental da Chapada Diamantina, Bahia, Brasil. – XXXVII Cong. Brás. Geol. Bol. Res. Exp. – Vol.2. Sessões Temáticas. São Paulo. 1992.