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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


 

 

MAPEAMENTO GEOMORFOLÓGICO DO MUNICÍPIO DE VIAMÃO\RS

 

 

 

 

 

André Luiz Proença asid@ig.com.br [1]

Nina Simone Vilaverde Moura Fujimoto nina.fujimoto@ufrgs.br[2]

 

 

 

 

Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

 

 

Palavras-chave: mapeamento geomorfológico, relevo, município de Viamão

3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
3.4 - Aplicação temática em estudos de casos

 

 

 

 

 

1. Introdução

Este trabalho consiste em um mapeamento geomorfológico do município de Viamão, localizado na região metropolitana de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul. Para a realização deste mapeamento faz-se necessário a identificação das formas de relevo e a análise dos processos morfogenéticos que operam na sua formação. Esses processos referem-se à ação marinha, fluvial, continental, eólica, lagunar e a ação humana. Com isso, trata-se de um estudo de compartimentação geomorfológica centrado na dinamicidade da natureza, tornando possível evidenciar as potencialidades e as fragilidades do meio físico e, neste sentido, fornecer elementos para um adequada ordenação do territorial.

Os diagnósticos ambientais procuram conhecer os mecanismos de funcionamento das diversas unidades de paisagem diante das alterações humanas. Desde modo, é possível identificar quais vão ser as modificações desencadeadas por uma intervenção nas unidades de paisagem identificadas e quais suas respostas em decorrências destas intervenções. Para tanto é preciso estudar cada um dos componentes destas paisagens e nisso inclui-se também o entendimento do relevo quanto à sua forma, dinâmica e gênese.

A área de estudo abrange todo o território político-administrativo do município de Viamão na escala de 1:50.000 e tem o intuito de dar continuidade as pesquisas realizadas anteriormente no município por FUJIMOTO (2001).

 

2. Objetivos da Pesquisa

O objetivo principal do trabalho refere-se a elaboração de um mapa geomorfológico que represente as diferentes formas de relevo e os processos relacionados a sua formação e dinâmica atual. Para atingir este objetivo principal é necessário alcançar alguns objetivos mais específicos, quais sejam: caracterizar o quadro geológico e geomorfológico regional para contextualizar a área nos grandes compartimentos do relevo; caracterizar e mapear as diferentes feições de relevo; interpretar os processos de formação das unidades de paisagens a fim de compreender a sua gênese e dinâmica atual; avaliar as intervenções humanas, a partir da análise do uso da terra e analisar as potencialidades e fragilidades das diversas formas de relevo identificas, frente as várias modalidades de intervenção humana.

 

3. Proposta Metodológica

A análise realizada segue a proposta de ordenamento dos estudos geomorfológicos proposto por AB´SABER (1969), procurando caracterizar e descrever as formas de relevo de acordo com os diferentes níveis de escala relacionados aos processos que operam na sua formação. Em seguida, procura articular geologia/geomorfologia de forma a sistematizar as informações sobre a cronogeomorfologia. Por fim, pretende compreender a dinâmica dos processo morfoclimáticos, pedogenéticos e sua utilização pela sociedade.

Em nível conceitual, esse método encara a necessidade de um conceito abrangente das formas de relevo, considerando-as como decorrentes de processos endógenos e exógenos. A ação predominante das forças endógenas forma os elementos morfotecturais e/ou morfoestruturais que, para serem interpretados, devem ser analisados a partir dos condicionantes tectônicos. As morfoesculturas correspondem ao modelado de formas geradas sobre diferentes estruturas e sob a ação dos fatores exógenos. Neste sentido, a proposição de ROSS (1992) estabelece uma ordem taxonômica para o relevo terrestre, calcado nessas considerações de natureza conceitual, ressaltando que o estrutural e o escultural estão presentes em qualquer tamanho de forma, embora suas categorias de tamanho, idades, gêneses e formas, são possíveis de serem identificadas e cartografadas separadamente e, portanto, em categorias distintas. A proposta de classificação passa pela concepção de se expressar cartograficamente o relevo baseada na conceituação de morfoestrutura, para as unidades maiores, e de morfoescultura para as formas e tipos de relevo contidos em cada morfoestrutura existente. A análise do quadro geomorfológico da área de estudo, bem como sua gênese e dinâmica morfogenética com base na compartimentação e na estruturação da paisagem local (Ab'Saber,1969), utiliza-se da proposta taxonômica de Ross (1992).

Por fim, pretende-se discutir a questão antrópica no ordenamento da paisagem local, vista como elemento integrante e articulador das transformações ocorridas no quadro natural. A isso, corresponde uma análise do modo como a sociedade se originou e como se articulou para produzir trabalho, mediante as determinações da sociedade e das imposições do quadro natural. Neste sentido, a variável principal a ser examinada é o uso da terra, pois é onde melhor se reflete a relação do homem com a natureza, sobretudo com as características do relevo. O uso da terra é uma expressão das relações sócio-econômicas do território, na medida em que revela a apropriação da natureza pela sociedade e suas alterações, podendo indicar um retrato das fragilidades do ambiente.

 

4. Procedimentos Operacionais

As atividades de pesquisa desenvolvem-se em várias etapas na perspectiva de explicitação dos objetivos deste estudo. Inicia-se pelo levantamento de dados que compreende o levantamento bibliográfico sobre estudos realizados na área de estudo, como pesquisas geológicas, geomorfológicas, de micro-bacias, usos da terra, entre outros, bem como a documentação cartográfica referente ao município de Viamão. Inclui-se, neste etapa, a aquisição de fotografias aéreas de todo o município e a digitalização da base cartográfica, em escala 1:50.000, a partir das cartas topográficas do Serviço Geográfico do Exército.

O passo seguinte refere-se a elaboração dos mapas morfométricos (clinográfico e hipsométrico) em meio digital e, a fotointerpretação das fotografias aéreas na escala de 1:40.000, resultando na criação do mapa de elementos do relevo. Esse representa os aspectos morfológicos da área interpretada e, juntamente com a base cartográfica, o ponto de partida para a construção do mapa geomorfológico.

A interpretação de todo o material adquirido e elaborado servirá para o planejamento dos trabalhos de campo, a fim de checar a fotointerpretação. O trabalho de campo é bastante importante, uma vez que permite a observação e análise das diferentes feições do relevo e sua relação com o uso do solo. Sendo possível, ainda, fazer registro fotográfico das feições características.

A elaboração da carta final será resultado da síntese das interpretações a partir das etapas anteriores. O mapa geomorfológico representa, desta forma, as diferentes unidades de relevo contendo informações sobre a morfologia, morfometria, litologia, ocupação territorial, morfogênese, morfocronologia, entre outras. De maneira que tais informações possibilitem inferir questões de potencialidades e fragilidades ao uso antrópico.

 

5. Resultados Preliminares e Discussão

Os resultados preliminares referem-se a uma caracterização do quadro geológico e geomorfológico regional baseado fundamentalmente no levantamento bibliográfico e cartográfico, nos mapas morfométricos (hipsométrico e clinográfico) e, na fotointerpretação preliminar elaborados até o momento.

O município de Viamão situa-se principalmente entre duas unidades geomorfológicas do Estado do Rio Grande do Sul e sua paisagem configura-se a partir do contato entre elas. Trata-se do Planalto Uruguaio Sul-Rio-Grandense e da Planície e Terras Baixas Costeiras.

O Planalto Uruguaio Sul-Rio-Grandense constitui-se, basicamente, de rochas cristalinas de idade pré-Cambriana geradas durante estágios de evolução de um cinturão orogênico, conhecido como Cinturão Dom Feliciano (PHILIP, 1998), que reflete a atividade do Ciclo Brasiliano no sul do Brasil. Esse cinturão foi originado pela colisão entre dois antigos continentes, um sul-americano e outro africano.

Em termos regionais, o Planalto Uruguaio Sul-Rio-Grandense está representada por morros e colinas situados à oeste do município de Viamão, formando uma faixa alongada de direção N-S predominantemente. As altitudes dos morros estão entre 140-180m em média até o ponto máximo cotado em 263m no Morro da Grota, caracterizando-se com uma declividade média relativamente elevada, em torno da classe de 20-30%. As colinas possuem altitude média entre 60-100m e declividade média predominantemente nas classes de 10-20% e 5-10%. As colinas também estão presentes na Planície Costeira.

A Planície Costeira do Rio Grande do Sul, que estende-se sobre sedimentos Cenozóicos, constitui-se na Bacia Sedimentar de Pelotas de acordo com villwock (1984). Essa bacia sedimentar teve sua origem condicionada pelos movimentos tectônicos que conduziram a abertura do Atlântico Sul, a partir do Cretáceo. A porção superior desta seqüência sedimentar está exposta na Planície Costeira do Rio Grande do Sul, compreendendo um grande sistema costeiro.

A Planície Costeira corresponde as áreas de sedimentação recente e sob a forma de terras baixas. A Planície Costeira, de acordo com os registros fossíferos estudados por CLOSS (1970), apud JOST (1970) é datada do Mioceno. Após o Mioceno marinho, sucedeu-se uma seqüência relativamente espessa de depósitos até o Holoceno. Tais depósitos fazem parte dos grandes eventos que formaram toda a Planície Costeira do Rio Grande do Sul. Trata-se genericamente de material arenoso, depositado durante os pretéritos eventos transgressivos e regressivos marinhos retrabalhados em ambiente costeiro e que caracterizam a formação de toda planície costeira gaúcha.

Na área de estudo a Planície Costeira caracteriza-se por formas de relevo mais baixas, com ondulações colinosas e áreas extremamente planas. Associados as planícies desenvolvem-se grandes banhados, em fase de colmatação, que avançam até os limites dos cordões arenosos lagunares e fluviais. A altitude média das áreas colinosas encontra-se na classe de 60-100m com declividade predominante nas classes de 2-5% e 5-10% podendo apresentar declividades mais elevadas, na classe de 20-30%, quando ocorre uma ruptura topográfica entre as colinas e as áreas extremamente planas com banhados, cuja as altitudes são inferiores a 20m.

Para finalizar é importante ressaltar que as etapas já realizadas permitiram contextualizar a área de estudo no quadro geológico e geomorfológico regional, bem como proporcionaram a obtenção de características morfológicas, morfométricos, litológicas e cronológicas fundamentais para a construção do mapa geomorfológico propriamente dito.

 

6. Referências Bibliográficas

AB´SABER, A. N. (1983) Um conceito de Geomorfologia a Serviço das Pesquisas sobre o Quaternário. Geomorfologia, 18, IGEO-USP, São Paulo.

 

FUJIMOTO, N.S.V.M. (2001) Análise Ambiental Urbana na Área Metropolitana de Porto Alegre – RS: Sub-Bacia Hidrográfica do Arroio Dilúvio. Tese de Doutorado apresentada a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 236p..

 

JOST, H. (1971) O Quaternário da Planície Costeira do Rio Grande do Sul I - Região Norte. São Paulo: Anais do XXV Congresso Brasileiro de Geologia (vol.1), 53-62p.

 

PHILIP, R. P. (1998) A Evolução Geológica e Tectônica do Batólito de Pelotas, RS. Tese de Doutorado. Instituto de Geociências, Universidade de São Paulo, 371p.

 

ROSS, J.L.S. (1992) o Registro Cartográfico dos Fatos Geomorfológicos e a Questão da Taxonomia do Relevo. Revista do Departamento de Geografia, 6, FFLCH/USP, São Paulo, 17-29p.

 

Villwock, J. A . (1984) Geology of the Coastal Province of Rio Grande do Sul, Southern Brasil Synthesis. Pesquisa, 6, Instituto de Geociências da UFRGS, Porto Alegre, 1-54p.


 


[1] Graduando do Curso de Geografia da UFRGS e bolsista da PROPESQ/UFRGS.

[2] Professora do Departamento de Geografia da UFRGS.