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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA


 

 

DOENÇAS SAZONAIS NA CIDADE DE BELÉM:

UMA INTRODUÇÃO À CLIMATOLOGIA MÉDICA

 

 


Andréa Santos Coelho junqueiraandrea@hotmail.com.br¹

Graduanda em Geografia

Msc. Ana Mª Medeiros Furtado amedfurt@ufpa.gov.br¹

orientadora
Cláudia Ribeiro da Silva Claudiaribeiro5@bol.com.br; claudi3@zipmail.com.br²
 

 

 


¹Universidade Federal do Pará – Profª Adjunta de Geografia
²Prefeitura Municipal de Belém/ SEMAD – Geógrafa

 




Palavras-chave: Climatologia Médica, Meteorologia Médica e doenças sazonais.
3 - Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
3.4 - Aplicação temática em estudos de casos

 

 

 

 

 

 

 

1- INTRODUÇÃO

 

A relação entre os estudos climáticos e as patologias gerais é bastante antiga. Segundo Annes-Dias (1946) ao se reportar à bibliografia médica do passado, exemplifica como os elementos do clima: a pressão barométrica, nebulosidade, umidade, radiação e pluviosidade, tinham a ver com o surgimento de doenças. Incluía a influência das estações do ano, ao falar de patologias estacionais ou sazonais, ressaltando que, estas se conceituam como aquelas doenças, cujas freqüências se elevam numa determinada estação do ano, entre as quais se destacam as doenças alérgicas. Mais remotamente, Hipócrates, o Pai da Medicina, afirmava que “todas as doenças nascem em todas as estações, mas algumas, em certas estações nascem e se exacerbam de preferência”.
A Climatologia em seu vasto escopo tem assim um importante papel para com as atividades humanas, não só no âmbito agrícola e social mas também no aspecto médico, considerando que o clima constitui um dos elementos básicos do meio ambiente humano.
Segundo Lacaz (1967), os estudos de Climatologia Médica se confundem com os de Meteorologia Médica, e com a própria Geografia Médica, na qual se inserem e pelas implicações intrínsecas que as mesmas possuem. Enquanto a Meteorologia estuda as condições do tempo, a Climatologia inclui a distribuição das observações meteorológicas nas diversas regiões do globo. Por seu caráter antropocêntrico e de maior aplicabilidade a serviço do homem não se pode omitir as relações entre a fisiologia humana e os elementos climáticos. Aí se inclui, segundo Sorre apud Philiphoneau (1966), o domínio da ecologia humana e da climatologia médica, as quais devem interessar geógrafos, climatólogos, biólogos e médicos. E segundo Philiphoneau (1966), as investigações climatológicas não só se revestem de caráter preventivo (poluição no meio urbano) como curativo (climaterapia), bem como o estudo da adaptabilidade climática, onde o homem tem condições de amenizar localmente as interferências climáticas.
No ambiente tropical, ou mais especificamente equatorial, na Amazônia o tema ora enfocado merece atenção especial, e no caso presente se inclui a sazonalidade.
Segundo Lacaz (1967), de todos os fatores climáticos, o que mais tem influência sobre a vida animal ou vegetal, é o calor. Considerando que os elementos climáticos citados são da maior importância no desenvolvimento de vetores, bem como no ciclo evolutivo de microorganismos nos climas quentes e úmidos, e com densa vegetação, onde se associam doenças, em tais tipos de ambientes e proliferam assim o endemismo de muitas patologias regionais.
Por outro lado não se pode omitir as condições de habitação, as carências nutricionais, o pauperismo e outros fatores de ordem cultural que acentuam a grande incidência de doenças ocorrentes nas zonas tropicais.


2- CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA


Localizada a 1˚30’ de latitude Sul, no braço sul da foz do rio Amazonas, Belém situa-se em plena área tropical-equatorial. Enquadrando o clima desta metrópole da Amazônia, no contexto regional, a cidade possui um dos subtipos climáticos equatorial (Af) com características de superumidade, temperaturas elevadas (média de 27˚C), excessiva pluviosidade e pequena amplitude térmica, as quais facilitam a proliferação de doenças viróticas, dermatológicas, cardiovasculares, etc. É óbvio que embora a ocorrência de doenças infecciosas parasitárias, de fácil transmissibilidade, que afetam a área urbana de Belém são muito comuns, há também doenças decorrentes da falta de saneamento (doenças preveníveis), onde o surgimento de doenças sazonais são menos freqüentes e comuns em ambas estações.
Segundo o IBGE, a pluviosidade em Belém é distribuída diferencialmente durante o ano, o que concorre para que se estabeleça na região duas fases climáticas distintas: os períodos erroneamente chamados de inverno (Dezembro-Maio) e de verão (Junho-Novembro). Neste último incidem chuvas menos abundantes, maior insolação, menor nebulosidade, maior evaporação, menor umidade, menor ventilação , sem caracterizar entretanto, nenhum período seco e sim duas estações: a mais chuvosa e a menos chuvosa. Por outro lado Belém já possui, em decorrência de sua verticalização, ilhas de calor (Nascimento), que vem acentuando em muito sua inversão térmica, aliado ao desconforto térmico que tem aumentado em virtude dos desmatamentos nas áreas de expansão e invasões urbanas e o Projeto de Macrodrenagem com a retificação das bacias urbanas.
A baixa topografia que comporta setores abaixo de 5m (áreas alagáveis), de 5 a 10m e 15 a 20m, concorre ainda mais para a temperatura elevada, embora atenuada pela precipitação e pela relativa proximidade do oceano a 120m.


3- MÉTODOS E TÉCNICAS


A bibliografia geral e específica consultada sobre o quadro epidemológico de Belém, inseriu as doenças mais comuns na área urbana, tanto no quadro das transmissíveis ou preveníveis.
Foram feitas pesquisas no Hospital Universitário Betina Ferro de Souza e na Farmácia Universitária, ambos localizados no Campus da UFPA. Procurou-se detectar que tipos de remédios são mais vendidos nas duas épocas sazonais para assim caracterizar que doenças surgem com mais freqüência em ambas fases (chuvosa e menos chuvosa), e que classe social é atendida.
A leitura dos jornais O Liberal e Diário do Pará foi da maior importância pelas informações prestadas sobre o tema.
A pesquisa também logrou a detecção do consumo de antigripais, descongestionantes, vitamina C, anti-inflamatórios e xaropes na época chuvosa, enquanto na menos chuvosa foram freqüentes os analgésicos, anti-alérgicos, antibióticos, medicamentos dermatológicos, colírios e vitamina E.
Também foi constatado o consumo de medicamentos de manipulação, para os mesmos fins, considerando a clientela usuária que vem adotando essa alternativa.


4- RESULTADOS


De acordo com as pesquisas realizadas foi detectado que as doenças sazonais variam nas duas estações e na transição das mesmas. Destacou-se a conjuntivite na fase estacional entre os períodos climáticos. Na época de maior pluviosidade avultam as doenças respiratórias que são viróticas e de fácil propagação, o mesmo sucedendo com os raros casos de meningite, e durante a fase menos chuvosa, predominam as moléstias do trato gastro-intestinal.
Diante dos resultados apresentados, detectou-se a nítida relação entre as doenças e as épocas sazonais, dado a variabilidade dos elementos climáticos: chuvas, temperatura, umidade, pressão e ventos.
Há nos postos de saúde um aumento de atendimentos que variam com o tipo de doença, bem como infere-se que as maiores alterações ocorrem na transição de uma estação para outra, e que as crianças e adultos da terceira idade são os mais acometidos desses males.
É importante que se possa dar continuidade ao trabalho, considerando que este foi uma amostra do que realmente ocorre em Belém, no sentido de prevenção e para divulgar a necessidade de estudo nessa linha, reunindo os meteorologistas da UFPA, climatologistas da EMBRAPA, geógrafos e médicos, para dar maior vazão a este assunto.


5- BIBLIOGRAFIA


ANNES-DIAS. Climatologia médica- lições de clínica médica. Nova Série. Rio de Janeiro – Guanabara:1946.


LACAZ, Carlos da S.- Meteorologia médica in Introdução à geografia médica. São Paulo:1967.


PHILIPHONEAU, Michel. Aplicações da geografia física in Geografia e Ação (trad.):1966.


NASCIMENTO, Cicerino C. do – Clima e morfologia urbana em Belém. UFPA, NUMA. Belém: 1995.


O LIBERAL. Chuvas trazem as doenças de inverno. Belém: 12.02.2001.