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    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

    VARIAÇÃO DA EXTENSÃO DO FLUXO EM CANAIS FLUVIAIS DE PRIMEIRA ORDEM, TRECHO SUPERIOR DO CÓRREGO GUAVIRÁ,

    MARECHAL CÂNDIDO RONDON, PR.




    Carlos Sander sandergeo@yahoo.com ¹;

    Manoel Luiz dos Santos mldsantos@uem.br ²;
    Oscar Vicente Quinonez Fernandez fernandez@unioeste.br ³.




    ¹ Mestre em Geografia
    ² Departamento de Geografia
    Universidade Estadual de Maringá - UEM
    ³ Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste
    Campus de Marechal C. Rondon - Colegiado de Geografia





    Palavras chave: variação da extensão do fluxo; canais de primeira ordem; região oeste do Paraná.
    Eixo: 3 – Aplicação da Geografia Física à pesquisa.
    Sub-eixo: 3.4 – Aplicações temáticas em estudos de caso



     


    INTRODUÇÃO

    A oscilação da extensão da rede de drenagem é fato reconhecido na geomorfologia. Esse fenômeno é muitas vezes vinculado somente a cursos fluviais localizados em regiões áridas e semi-áridas. Em regiões úmidas os canais fluviais de baixas ordens sofrem oscilações na extensão de seus fluxos, que são resultantes de um equilíbrio determinado pela entrada e saída de água e sedimentos no sistema (Faria, 1994).
    Estudos sobre a oscilação extensão de cursos fluviais e de redes de drenagem são designados pela literatura científica como o estudo da variação da densidade de drenagem. Em função de parte dos fluxos identificados percorrerem circuitos fora de calhas fluviais foi adotado para este estudo o termo de extensão de fluxos.
    O caráter dinâmico dos cursos fluviais passou a ser enfatizado a partir dos trabalhos desenvolvidos por Horton (1945), que pesquisou a dinâmica e funcionamento de canais de primeira ordem e definiu os limites dos canais intermitentes e perenes de acordo com a oscilação do lençol freático. A década de 1950 foi marcada por um expressivo avanço de trabalhos tratando os aspectos morfométricos das bacias hidrográficas (Strahler, 1952; 1954; 1957; e 1958; Smith, 1950; e 1958; Miller, 1953; Schumm, 1956). Todavia, foram em meados da década de 1970 que foram desenvolvidos estudos sobre a evolução e a variação da rede de drenagem (Blyth e Rodda, 1973; Day, 1978; Abrahams, 1984; Mongtomery e Dietrich, 1988; e 1989; Gardiner, 1985; entre outros).
    Parte desses trabalhos têm buscado compreender a evolução dos cursos d’água nas regiões de cabeceira de drenagem e na determinação da iniciação dos canais (Abrahams, 1984; Montgomery e Dietrich, 1988; Montgomery e Dietrich, 1989). Outros trabalhos têm enfatizado pesquisas que dão ênfase a oscilação da rede de drenagem, tendo um maior desenvolvimento desses trabalhos após a publicação de Gregory e Walling (1968, apud Faria, 1997). Esses autores verificaram grandes variações na extensão do fluxo, tanto no verão como no inverno. No início da década de 1970, Blyth e Rodda (1973) publicam os resultados do acompanhamento da variação do comprimento de canais na bacia hidrográfica do rio Ray, no Sudeste da Inglaterra, onde constataram variações na densidade de drenagem semana a semana e verificaram alterações para os cursos fluviais de primeira, segunda e terceira ordem, sendo as maiores variações observadas para os canais de primeira ordem. Em outro estudo, também realizado na Inglaterra, Day (1978) observou o comportamento da rede de drenagem durante a ocorrência de chuvas, e notou uma diferente variedade de resposta da rede para um volume similar de chuvas. Posteriormente Gardiner (1985) discute a evolução do estudo da dinâmica da densidade de drenagem e afirma que o progresso do estudo da variação espacial da densidade de drenagem pode ser examinado conforme diferentes escalas de abrangência (local, regional, nacional, e global) e em diferentes dimensões temporais.
    No Brasil, o desenvolvimento de estudos específicos sobre a variação da extensão de fluxo ganhou destaque na década de 1990, através dos trabalhos feitos por Faria (1994, 1996a, 1996b, 1997 e 1998) nos Estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Esse autor tem se dedicado a estudos em canais de primeira e segunda ordem, onde tem retratado a degradação de redes de drenagem em conseqüência de alterações ambientas em pequenas bacias hidrográficas, sendo essas mais suscetíveis à erosão devido ao seu maior gradiente e, por conseqüência, mais sensíveis às alterações ambientais.
    Na região oeste do Paraná, Fernandez et al (1998 e 1999), observaram a migração de nascentes num curso fluvial de primeira ordem durante períodos secos e úmidos e verificando grandes variações na extensão do fluxo.

    OBJETIVO E ÁREA DE ESTUDO

    O objetivo do presente trabalho é documentar e discutir a dinâmica da extensão de fluxo em duas sub-bacias de primeira ordem (córregos Cassel e Iracema) localizadas no trecho superior da bacia do córrego Guavirá, no município de Marechal Cândido Rondon, região oeste do Paraná (Figura 1). O presente trabalho constitui um compendio a dissertação de mestrado apresentado pelo primeiro autor (Sander, 2003) na Universidade Estadual de Maringá, sob a orientação dos outros autores do presente trabalho.
    A sub-bacia do córrego Cassel está localizada na margem esquerda do córrego Guavirá, com uma área de 0,79 km2, drenando áreas essencialmente rurais (Figura 1). No final da década de 1950 e durante a década de 1960, as áreas de mata da sub-bacia foram substituídas (com exceção de alguns pequenos trechos) por áreas de cultivo e, no trecho superior do córrego, por áreas de pastagens. A sub-bacia do córrego Iracema, por sua vez, está localizada na margem direita do córrego Guavirá, sendo ocupada quase em sua totalidade pelo setor urbano de Marechal Cândido Rondon e drena uma área de 0,99 km2 (Figura 1). A sub-bacia passou a ser ocupada a partir da década de 1950 com a expansão da cidade. Ambas sub-bacias, nas áreas de cabeceira, têm sofrido grandes modificações através da drenagem de trechos pantanosos, da retificação e ampliação da capacidade dos canais e da construção de açudes.
     


    Figura 1: Localização do trecho superior do córrego Guavirá, Marechal Cândido Rondon, PR.
     

    A área está inserida no terceiro planalto paranaense, na bacia sedimentar do Paraná. O substrato rochoso é constituído por basaltos da Formação Serra Geral, de idade neojurássica-eocretáceo (Melfi, 1967), que forma camadas entre 30 e 40 m de espessura que se compõem em três partes principais: base, central e topo (Mineropar, 2001). A base constitui a zona vítrea e vesicular, que se altera facilmente. A parte central é a mais espessa e é formada por basalto maciço, porém recortada por numerosas fraturas verticais e horizontais que funcionam como canais alimentadores de aqüíferos subterrâneos. O topo dos derrames geralmente apresenta os chamados “olhos de sapo”. Os solos que compõem as sub-bacias são o Latossolo Vermelho com textura argilosa (Embrapa, 1999), com horizonte A moderado, textura argilosa nas colinas e nas partes elevadas do divisor; e o Nitossolo Vermelho (Embrapa, 1999) que é encontrado ao longo dos vales, com as mesmas características do solo anterior, em terrenos ondulados (Mazuchowski e Derpsch, 1984). A profundidade de degradação do solo para a região é de 0,05 a 0,07 mm/ano (Paraná, 1998). O clima da região, segundo a classificação de Koppen, é do tipo Cfa, subtropical úmido, mesotérmico, com verões quentes, geadas menos freqüentes e concentração de chuvas nos meses de verão (IAPAR, 1994). A média de precipitação é de 1700 mm, sendo o mês de outubro o mês mais chuvoso e julho o mais seco, a temperatura média anual é de 21 ºC (Paraná, 1998).

    METODOLOGIA

    O uso do solo das sub-bacias foram mapeados através da interpretação de fotografias aéreas (Escala 1: 25.000). A rede de canais nas sub-bacias foi levada com a técnica de nivelamento geométrico, utilizando um clinômetro (nível Abney) no mapeamento da declividade do canal nos trechos médio e inferior dos córregos e um nível de luneta para o levantamento das áreas de nascentes. Ambos levantamentos foram baseados em marcos referenciais cotados, instalados em pontos estratégicos das sub-bacias. A expansão e retração da linha de fluxo nas sub-bacias dos córregos Iracema e Cassel foram monitoradas durante um período de 12 meses (julho/2001 a junho/2002). As posições das nascentes fixas e móveis foram demarcadas através da instalação de estacas devidamente rotuladas. O mapeamento da posição das nascentes foi executado periodicamente com o auxílio de um nível de luneta. A vazão das sub-bacias foi medida junto à foz dos córregos, utilizando o método químico, descrito por Hindi et al (1998) e adaptado às condições dos canais por Sander (2003). A pluviosidade para o período de levantamento da posição das nascentes foi obtida de quatro estações pluviométricas (Figura 1). Dados pluviométricos foram utilizados na confecção do balanço hídrico (Thornthwaite e Mather, 1955) para o período de monitoramento das sub-bacias, considerando a Capacidade de Água Disponível (CAD) de 100 mm. As temperaturas médias mensais e anuais foram obtidas junto a Fundação Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR).

    RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Através da elaboração do mapa do uso do solo pode-se observar que as duas sub-bacias são bastante distintas quanto à sua ocupação. A sub-bacia do córrego Cassel (Figura 2A) é, em sua maior parte, ocupada por áreas de cultivo caracterizadas principalmente pelo plantio da soja nos meses de verão e trigo nos meses de inverno, tendo uma pequena parcela ocupada por outras culturas (milho e mandioca). Outro uso de solo observado nesta sub-bacia é o de áreas com matas secundárias, reduzidas a pequenas reservas e, em menor quantia compondo faixas estreitas marginais ao córrego. As áreas próximas à foz do canal e em seu trecho superior (áreas de cabeceira do canal) são ainda compostas por pastagens. A sub-bacia do córrego Iracema (Figura 2B), entretanto, é eminentemente urbana, sendo quase toda a totalidade de sua área ocupada pelo sítio urbano de Marechal Cândido Rondon. Outros usos de solo identificados nesta sub-bacia restringem-se a áreas de pastagens, ocupando setores de fundo de vale e a presença de mata secundária compondo a vegetação ciliar nos trechos médio e inferior do córrego. A porcentagem de área ocupada pelos diferentes usos de solo nas sub-bacias do córrego Cassel e Iracema é apresentada na Tabela 1.



    Figura 2: Usos do solo nas sub-bacias do córrego Cassel (A) e Iracema (B) (Modificado de Sander, 2003).
     

    Sub-bacia

    Área urbana (%)

    Área de cultivo (%)

    Pastagem (%)

    Mata secundária (%)

    Outros (%)

    Córrego Cassel

    -

    92,89

    2,79

    3,68

    0,64

    Córrego Iracema

    96,65

    -

    2,47

    0,88

    -

    Tabela 1 – Área ocupada pelos diferentes usos de solo nas sub-bacias do córrego Cassel e Iracema (Sander, 2003).
     

    A estruturação da rede de canais de drenagem das sub-bacias em suas áreas de nascentes é apresentada na Figura 3. Durante o período de observação (julho de 2001 a junho de 2002), foram determinados os segmentos perenes, intermitentes e efêmeros. Os segmentos intermitentes representam canais ou fluxos alimentados por nascentes fixas e não sofrem alterações em sua extensão. Os segmentos intermitentes são canais ou fluxos que secam durante determinado período do ano e são alimentados por nascentes móveis (acompanhando a oscilação do lençol freático), ao passo que os segmentos efêmeros apresentam fluxo durante ou após a ocorrência de chuvas, sendo alimentados somente pelo escoamento superficial. A extensão total de cada um desses segmentos de canais depende diretamente das condições ambientais da bacia hidrográfica considerada. Dentre os fatores mais importantes na determinação dos tipos de canais, destacam-se o clima (na quantidade de água e sua concentração), a forma da bacia, o substrato rochoso, o uso do solo na bacia (na alteração das taxas de infiltração e de escoamento superficial, na erosão de encostas e no soterramento de áreas de nascentes) e intervenções antrópicas diretas na rede de drenagem (Sander, 2003).



    Figura 3: Configuração da rede de canais nas sub-bacias do córrego Cassel (A) e Iracema (B) (Modificada de Sander, 2003).


    As redes de canais das sub-bacias dos córregos Cassel e Iracema têm sido drasticamente alteradas devido a mudanças no uso do solo e mesmo por intervenções executadas junto à rede de drenagem. Em função disso, os canais perenes, intermitentes e efêmeros tem tomado novas formas em conformidade com o nível de degradação das sub-bacias e das redes de drenagem.
    A extensão total da rede de drenagem e os tipos de canais das sub-bacias dos córregos Cassel e Iracema são apresentados na tabela 2, onde verifica-se que mais de 70 % da rede de drenagem de ambas sub-bacias é constituída por canais perenes. Com extensões bem reduzidas, se comparados aos canais perenes, os canais intermitentes representam o segundo maior tipo de canal (Tabela 2). Em ambas sub-bacias, os canais intermitentes apresentaram suas extensões máximas ao final de janeiro e no mês de maio de 2002, associados à ocorrência de fortes eventos pluviométricos. Em contrapartida, esses canais tiveram suas distâncias reduzidas à medida que adentravam em períodos de estiagem (julho a outubro de 2001 e março a abril de 2002). Assim, a posição das nascentes tem variado ao longo dos trechos intermitentes, de acordo com as oscilações dos níveis pluviométricos. Os trechos de canais efêmeros, por sua vez, representam a menor parcela da rede de drenagem nas duas sub-bacias (Tabela 2). Na sub-bacia do córrego Cassel, que possui forma estreita e alongada, a ocorrência de canais efêmeros estão associadas à configuração de estradas visinais. Porém, na sub-bacia do córrego Iracema, a extensão dos canais efêmeros tem sido afetada diretamente pela urbanização nas áreas de cabeceiras. A instalação de sistemas de esgotos pluviais e o aterramento têm reduzido o comprimento e restringido a localização destes canais às áreas de fundo de vale.
     

    Córregos

    Trecho perene

    (m)

    Trecho intermitente (m)

    Trecho efêmero (m)

    Extensão total da rede de drenagem (m)

    Extensão

    %

    Extensão

    %

    Extensão

    %

    Cassel

    1.700

    72,79

    391

    16,73

    245

    10,50

    2.335

    Iracema

    2.533

    73,41

    760

    22,02

    158

    4,57

    3.450

    Tabela 2 – Extensão total dos tipos de canais das sub-bacias dos córregos Cassel e Iracema (Sander, 2003).
     

    A oscilação da extensão total do fluxo das sub-bacias durante o período de monitoramento é apresentada na Tabela 3. As menores extensões de fluxo nos córregos Cassel e Iracema ocorreram durante o período de julho a outubro de 2001, quando o menor comprimento dos fluxos no córrego Cassel foi de 1700 m (setembro e outubro/2001) e de 2533 m no córrego Iracema (setembro/2001). A extensão máxima nos dois canais, por sua vez, foi em maio de 2002, tendo o córrego Cassel atingido um comprimento total de 2090 m e o córrego Iracema 3293 m. O incremento em relação à extensão mínima dos fluxos no córrego Cassel foi de 390 m e no córrego Iracema foi de 760 m.
     

    Data

    Córrego Cassel

    Córrego Iracema

    Extensão total do fluxo (m)

    Vazão (l/s)

    Extensão total do fluxo (m)

    Vazão (l/s)

    07/julho/2001

    1.704

    7,0

    2.604

    15,95

    07/setembro/2001

    1.700

    3,2

    2.533

    11,65

    22/outubro/2001

    1.700

    7,1

    2.604

    17,8

    30/novembro/2001

    1.735

    12,45

    2.951

    23,60

    13/dezembro/2001

    1.735

    9,55

    2.951

    20,40

    16/janeiro/2002

    1.742

    5,3

    3.003

    18,8

    26/janeiro/2002

    1.743

    -

    3.175

    -

    29/janeiro/2002

    1.746

    4,9

    3.232

    26,9

    27/abril/2002

    1.723

    1,95

    2.878

    18,05

    22/maio/2002

    2.090

    41,2

    3.293

    46,1

    Extensão média (m)

    1.762

     

    2.922

     

    Incremento total (m)

    390

     

    760

     

    Tabela 3 – Variação da extensão total dos fluxos nos córregos Cassel e Iracema (adaptada de Sander, 2003).
     

    As variações da extensão dos fluxos dos córregos Cassel Iracema têm acompanhado a ocorrência de chuvas, determinando períodos de expansão do comprimento do fluxo nos períodos chuvosos e de retração, nos períodos de estiagem. A descarga dos canais também tem apresentado conformidade em relação ao aumento e diminuição da pluviosidade para os mesmos períodos, assim apresentando maiores volumes de vazão para períodos úmidos e de baixa vazão para períodos secos (Tabela 3).
    Durante os períodos de grande umidade, as nascentes migram ao longo da calha fluvial em direção montante acompanhando a elevação do nível do lençol, ativando os trechos de canais intermitentes e as nascentes móveis, dando vazão máxima aos canais. As sub-bacias dos córregos Cassel e Iracema, no mês de maio de 2002 (o mês mais úmido do período de monitoramento), também apresentaram fluxos intermitentes deslocando-se fora de calhas fluviais. Muitos desses corpos d’água há alguns anos fluíam ao longo de calhas fluviais e passaram a ter seus fluxos capturados por canais artificiais, reaparecendo, porém, durante períodos de elevada pluviosidade. Alguns desses fluxos alcançam a rede de drenagem e outros, sem conseguir isto, se infiltram por completo no regolito. Em períodos secos, as nascentes migram ao longo da calha fluvial em direção à jusante, acompanhando o abaixamento do nível do lençol freático, sendo os fluxos dos canais sustentados por nascentes fixas (julho a outubro/2001), quando os canais apresentam as vazões mais baixas.
    A confecção do balanço hídrico mostrou que menores extensões dos fluxos nas sub-bacias dos córregos Cassel e Iracema (julho a outubro/2001) estão associadas a um período de deficiência hídrica e de retirada de água do solo. Durante o mês de maio de 2002, o período mais úmido da série levantada (julho/2001 a junho/2002), foi registrado a maior extensão dos fluxos e o maior excedente hídrico do período (279,5 mm) nas duas sub-bacias. O balanço hídrico também apontou uma forte queda de umidade do solo para o período de fevereiro a abril/2002, sendo registrados as maiores deficiências hídricas (38,7 mm no mês de março), vinculadas às altas temperaturas (e alta insolação) e a baixa pluviosidade (35,1 mm em março) do período. Contudo, a extensão do fluxo nos córregos nesse período foi maior (córrego Cassel: 1.723 m. Córrego Iracema: 2.878 m) do que no período entre julho e outubro de 2001 (córrego Cassel: 1.700 m. Córrego Iracema: 2.573 m), onde os índices pluviométricos e de umidade do solo foram maiores. As maiores extensões para o período de março e abril de 2002 em relação a julho a outubro de 2001 foram sustentadas pelos maiores níveis de água nos reservatórios subterrâneos (re-estabelecidos durante os períodos de excedentes hídricos registrados nos meses de novembro de 2001 e janeiro de 2002). Observações em campo mostram que durante o período março-abril de 2002, as extensões do fluxo nas sub-bacias foram mantidas pela água procedente do substrato rochoso, através de sistemas de fraturas das rochas (diáclases). Apesar da extensão do fluxo ter se mantido em níveis mais elevados do que no período compreendido entre julho e outubro de 2001 (1700 m em setembro e outubro/2001 contra 1723 m em abril/2002), o córrego Cassel apresentou suas menores vazões (1,95 l/s, 24 de abril de 2002).
    O comportamento da vazão dos córregos Cassel e Iracema é, em grande parte, resultante das disparidades morfológicas (topografia, declividade das vertentes, forma da sub-bacia, espessura dos solos, etc.) entre as duas sub-bacias. A sub-bacia do córrego Iracema possui uma forma arredondada (Figura 2.B), onde os cursos d’água estão confinados no setor inferior da sub-bacia. A sub-bacia possuem vertentes longas com aumento da declividade em direção às áreas de fundo de vale e solos bem desenvolvidos, fornecendo uma condição propícia ao armazenamento de água no solo e no substrato rochoso, favorecendo a permanência da água no sistema por um tempo maior e a manutenção do fluxo de base durante períodos secos, refletindo na extensão total dos fluxos. A sub-bacia do córrego Cassel apresenta uma forma alongada (Figura 2.A). Essa sub-bacia apresenta vertentes curtas com declividades maiores em direção às áreas de fundo de vale e solos não muito desenvolvidos. Por conta disso, a armazenagem de água no solo e no substrato rochoso da sub-bacia do córrego é bem inferior a da sub-bacia do córrego Iracema, determinando um tempo de permanência menor d’água no sistema e, em conseqüência disso, uma maior variação da descarga do canal.
    A sub-bacia do córrego Iracema tem sido amplamente afetada pelo processo crescente de urbanização. A impermeabilização da sub-bacia tem chegado a níveis elevados, (57%) determinando um comprometimento do fluxo de água responsável pela alimentação dos reservatórios subterrâneos. Além disso, o aumento da densidade de drenagem nas áreas de nascentes do córrego e a instalação de condutos de esgoto pluvial na área urbanizada determinaram uma maior eficiência no escoamento da água para fora do sistema. Deve-se considerar que fatores externos podem estar colaborando na recarga dos reservatórios subterrâneos, fazendo a manutenção da descarga e das nascentes no córrego Iracema ao longo de períodos secos do ano. Acredita-se que a recarga dos reservatórios subterrâneos seja realizada pelas águas utilizadas e depositadas pela população em fossas negras. Parte desses depósitos utilizam a estrutura de antigos poços utilizados para o abastecimento de água, principalmente ao longo das décadas de 1950–1970. Visto que a maioria das fossas não possui sistema de vedação, a água depositada junto a esses reservatórios infiltra-se para camadas inferiores, recompondo os lençóis de água subterrânea que contribuem com a vazão dos canais.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    A ocupação das sub-bacias dos córregos Cassel e Iracema tem influenciando drasticamente a configuração da rede de drenagem e as condições de fluxos. A alteração do uso do solo das duas sub-bacias tem determinado modificações nos processos de encostas, no aumento do escoamento superficial e erosão das encostas, no entulhamento das áreas de nascentes e diminuição da permeabilidade dos solos. Nos cursos fluviais, a alteração do uso do solo nas sub-bacias determinou o aterramento das nascentes com materiais provenientes das áreas de encostas (que determinou em muitas vezes a diminuição da descarga e da extensão de trechos de canais, além da destruição de diversas nascentes) e a inclusão de novos canais, provenientes dos processos de erosão linear, passando por diferentes estágios desde ravinas até se transformar em voçoroca, quando esta atinge o lençol freático tendo fluxo contínuo, podendo formar trechos de canais intermitentes e perenes. A variação da extensão dos fluxos das duas sub-bacias tem sido afetada também pela intervenção direta à rede de drenagem, onde sua densidade tem sido ampliada através da construção de canais artificiais (drenagem de áreas pantanosas), da retificação de trechos e da ampliação da seção transversal de canais. O aumento da densidade de drenagem nas sub-bacias afetou substancialmente o deslocamento dos fluxos torrenciais e o nível dos reservatórios de águas subterrâneas, que tiveram suas cotas de recargas reduzidas em virtude da perca de permeabilidade. A construção de drenagens, a ampliação e a retificação dos canais tem determinado uma saída rápida da água do sistema facilitando o deslocamento do fluxo para trechos ulteriores do canal.
    O monitoramento da posição das nascentes mostrou interdependência entre a extensão total de fluxos, descarga e a pluviosidade. Neste sentido, a maior extensão nas sub-bacias dos córregos Cassel e Iracema está associada a altas descargas nos canais em períodos de forte umidade, como o registrado no mês de maio de 2002. O inverso acontece durante os períodos secos quando a rede sofre retração, com a migração das nascentes para setores a jusante, acompanhados pelo decréscimo na descarga dos canais. Na sub-bacia do córrego Cassel, os levantamentos mostraram a importância dos reservatórios subterrâneos na manutenção da extensão dos fluxos das redes de drenagem durante períodos de forte deficiência hídrica (março e abril/2002). Mesmo com os mais baixos valores de descarga, a extensão total do fluxo foi maior que em outros períodos de estiagem. Os levantamentos também apontaram a possibilidade da influência de fatores externos na manutenção da descarga e na extensão da rede fluvial durante períodos secos. Isso foi verificado na sub-bacia do córrego Iracema, que teve grande parte de sua área impermeabilizada pela expansão da sede urbana de Marechal Cândido Rondon. A descarga e a extensão total dos fluxos nessa sub-bacia se mantiveram relativamente estáveis entre os meses fevereiro a abril de 2002, durante o período mais seco da série monitorada. A construção de fossas negras ou a transformação de antigos poços de água em fossas tem provavelmente garantido o suprimento de água para os reservatórios de águas subterrâneos e assim, garantindo a manutenção da vazão e da extensão do fluxo no córrego Iracema durante períodos secos.

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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