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    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

     

    EVOLUÇÃO DA COBERTURA PEDOLÓGICA EM ÁREAS DE SOLOS DESENVOLVIDOS A PARTIR DO ARENITO CAIUÁ: REGIÃO NOROESTE DO ESTADO DO PARANÁ

     

     


     
    VANDA MOREIRA MARTINS mmartins@unioeste.br ou vmartins@certto.com.br

    Colegiado do Curso de Geografia - UNIOESTE.

     


    Palavras-chave: sistema pedológico, transformações laterais e verticais, circulação hídrica

    Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa

    Sub-eixo 3.4: Aplicações Temáticas em Estudos de Casos


     

    INTRODUÇÃO

     

    Os conhecimentos reunidos por meio da análise integrada da paisagem têm contribuído, significativamente, para a compreensão dos processos de formação e evolução dos solos e das formas do relevo, subsidiando a ação planejada sobre o espaço.

    No Brasil os estudos sobre a dinâmica e evolução da cobertura pedológica têm contribuído para a prevenção e contenção dos fenômenos erosivos, especialmente em coberturas com textura média a arenosa. Grande parte dos estudos aborda a dinâmica dos constituintes do solo, nos diferentes níveis, avaliando o comportamento desses materiais no período histórico do uso e manejo dos solos, já que, além da dinâmica natural condicionada pelos agentes atmosféricos, também se têm, a constante distribuição e redistribuição de matéria, facilitada pela ação antrópica (Campy & Macaire,1989).

                Nos últimos 50 anos, a região Noroeste do estado do Paraná vem sofrendo, progressivamente, com os problemas relacionados aos processos erosivos, em especial os linerares (sulcos, ravinas e voçorocas). Segundo Maack (1968), Nóbrega et al. (1992) e Cunha (2002), a origem e evolução desses processos estão associadas tanto a fragilidade natural dos solos oriundos do Arenito Caiuá como ao desmatamento generalizado, normalmente acompanhado de uso e manejo inadequados. Nessa região, a erosão vem gerando grandes prejuízos para a sociedade, através da perda tanto de solos agricultáveis, quanto de investimentos públicos em obras de infra-estrutura e de degradação de áreas urbanas ou em urbanização (Bigarella & Mazuchowski, 1985; Nóbrega et al., 1992).

                Com a finalidade de levantar e reunir subsídios para analisar, compreender e identificar as principais causas e efeitos da dinâmica da cobertura pedológica e dos processos erosivos na região, várias pesquisas de mestrado e doutorado foram desenvolvidas com o apoio do projeto “Mapeamento Geotécnico e Estudos dos Fenômenos Erosivos na Região Noroeste do Paraná” em convênio com a UEM[1] e com a SUDERHSA[2] (Gasparetto, 1999, Martins, 2000; Nakashima, 2000, Cunha 1996 e 2002, etc). Essas pesquisas abordaram, em escala detalhada, a organização e distribuição espacial da cobertura pedológica na vertente e na paisagem, estudando as características morfológicas (estrutura, cor, textura porosidade...) de cada tipo de solo, na tentativa de melhor compreender os processos de transformação lateral e vertical da cobertura pedológica, bem como identificar os principais fatores ligados ao desencadeamento dos fenômenos erosivos.

                O enfoque principal da discussão, neste trabalho, foi dado ao estudo das transformações laterais e verticais dos solos com base no estudo realizado em uma unidade de paisagem (vertente direita da bacia de drenagem do córrego Bom Jesus), localizada no município de Cidade Gaúcha, região Noroeste do Paraná (Figura-1). O objetivo foi identificar e caracterizar as classes de solos que compõem o sistema pedológico nesta unidade de paisagem, verificando suas relações com a topografia atual e com a circulação hídrica, e ainda, possibilitando uma melhor compreensão da dinâmica e evolução dos solos na paisagem e sua susceptibilidade à erosão.

    Este estudo foi desenvolvido a partir da metodologia da Análise Estrutural da Cobertura Pedológica, que reúne um conjunto de procedimentos que busca o conhecimento da organização espacial da cobertura pedológica na paisagem (Boulet, 1988). Isto porque o estudo sobre a origem e evolução dos processos erosivos exige o entendimento dos diferentes níveis de organização das estruturas dos solos. Isto significa conhecer as estruturas e as organizações elementares da cobertura pedológica, da escala micrométrica (constituintes) à escala macrométrica (dos horizontes, dos perfis e da paisagem), onde a paisagem é o nível mais alto de organização, englobando todos os outros (Chauvel, 1979).

     

    Figura 1 - Localização geográfica da área de estudo

     

    1- MATERIAIS E MÉTODOS

     

    Para a identificação do sistema pedológico na vertente direita da bacia do córrego Bom Jesus (Figura-1), foram empregados vários procedimentos de campo e laboratório. No trabalho realizado em campo, a metodologia adotada foi a da Análise Estrutural da Cobertura Pedológica proposta por Boulet (1988).

    Na etapa de campo foram realizados os levantamentos topográficos e morfopedológicos de cinco toposseqüências, considerando os critérios de declividade, forma da vertente, posição topográfica na bacia, etc. O levantamento morfopedológico de cada toposseqüência de solo iniciou-se no topo, prosseguindo até o sopé da vertente, por meio de perfurações (sondagens) verticais na cobertura pedológica, realizadas com o trado manual. As sondagens foram realizadas para se obter previamente informações sobre o tipo e as características da cobertura pedológica, reconstituindo lateral e verticalmente a distribuição dos solos na vertente direita da bacia hidrográfica estudada. Assim foram caracterizadas e investigadas, com maior detalhe, duas toposseqüências representativas dos dois tipos de cobertura pedológica identificadas: no setor de montante  da bacia (cabeceira de drenagem) a cobertura pedológica seria composta por Latossolo Vermelho (LV) e Neossolo Quartzarênico (AR), enquanto no setor médio-baixo da bacia a cobertura seria composta por Latossolo Vermelho (LV), Argissolo Vermelho (PV) e Neossolo Quartzarênico (AR), conforme sistema brasileiro de classificação de solos (EMBRAPA,1999). Ao longo dessas duas toposseqüências foram abertas trincheiras, expondo os perfis de solos de maneira a permitir a observação e descrição das características macromorfológicas dos horizontes dos solos (espessura, limites, transições, cor, textura, estrutura, atividade biológica, macroporosidade, etc.). Ainda nesta fase foram realizados, in situ, os ensaios de condutividade hidráulica insaturada utilizando-se o infiltrômetro multi-disco, conforme White & Sully (1987) e Mathieu & Pieltain (1998), bem como a coleta de amostras para análises laboratoriais de densidade do solo, densidade de partículas, porosidade total (calculada), granulometria e argila dispersa em água. Também foram coletadas amostras de solos indeformadas para confecção de lâminas delgadas de solos, as quais foram descritas para identificação das características micromorfológicas, em especial àquelas relacionadas à organização dos constituintes dos solos (porosidade, plasma e esqueleto).

    Após levantamento de campo e análises de laboratório foram identificadas as principais frentes de transformação da cobertura pedológica na vertente direita da bacia, a qual foi representada por meio de um esboço pedológico, com a distribuição das principais classes de solos (Figura-2).

      

    Figura 2 - Distribuição das classes de solos da Bacia do Córrego Bom Jesus

      

    2- SISTEMA PEDOLÓGICO E SUCEPTIBILIDADE EROSIVA

     

                   A investigação de campo, realizada por meio do estudo em toposseqüências ¾ e que inclui as descrições morfológicas dos horizontes dos solos, as sondagens realizadas no sentido longitudinal do córrego e as análises físico-hídricas ¾ subsidiou a identificação da distribuição espacial das principais classes de solos que compõem a cobertura pedológica da vertente direita da bacia do córrego Bom Jesus (Figura-2). Como comumente ocorre na região, o estudo mostra que, de montante para a jusante da bacia e do topo para a base da vertente, a cobertura pedológica é formada por seqüências de diferentes tipos de solos. Verificou-se, então, que o sistema pedológico da bacia apresenta diferentes estágios de evolução, a saber:

    a) Setor de montante da Bacia: à montante da bacia hidrográfica a seqüência lateral da cobertura pedológica é composta por duas classes de solos: Latossolo Vermelho nos segmentos de alta e média vertente e o Neossolo Quartzarênico no segmento inferior (base) das vertentes (Figura-2). Neste setor da bacia as vertentes apresentam forma convexa-retilínea-côncava e comprimento superior a 600m e declividades suaves (<10%).

    Do segmento de topo até o segmento de média-baixa vertente a cobertura latossólica apresenta-se homogênea, com seqüência de horizontes A, (arenoso) BA (franco-arenoso) e B latossólico (franco-arenoso) dispostos de forma concordante na vertente, pouco diferenciados, vertical e lateralmente, em relação às suas características morfológicas, de cor, textura e estrutura. A organização e distribuição dos constituintes, a boa porosidade dos horizontes (constituída por poros tubulares e interagregados) e a fraca declividade (<9%) nesses segmentos da vertente, favorecem a circulação hídrica vertical. Os fluxos hídricos superficiais laterais são favorecidos pelo adensamento incipiente verificado no horizonte A, associado à ausência de vegetação natural e ao uso e manejo do solo que contribuem para a concentração e desenvolvimento desses fluxos, durante o período de intensas chuvas.

    No segmento inferior da vertente a transição lateral da cobertura latossólica para a do Neossolo Quartzarênico é caracterizada pela diminuição da argila e modificações graduais de cor nos horizontes superficiais A e BA, pelo aumento relativo da fração areia e o conseqüente espessamento do horizonte A. A concentração e circulação (vertical e lateral) dos fluxos superficiais e subsuperficiais no segmento inferior da vertente são os principais responsáveis pelas significativas modificações morfológicas dos horizontes e seus constituintes e, conseqüentemente, pela passagem lateral da cobertura latossólica para a do Neossolo Quartzarênico, na qual o horizonte arenoso e espesso está sobreposto diretamente sobre a rocha alterada.

    A baixa declividade, a proximidade da rocha alterada e a forma côncava da vertente favorecem a concentração de água nesse setor da bacia (cabeceira de drenagem), transformando-o em um ambiente saturado e favorável a ferruginização, com forte hidromorfia, o que sugere a presença oscilante do lençol d'água próximo à superfície. Assim, uma vez em desequilíbrio, a cobertura pedológica nesse setor da bacia é submetida a um conjunto de processos remontantes (transferências e remobilizações laterais e verticais dos materiais finos dos solos), cada vez mais acelerados, em que as características morfológicas dos horizontes tornam-se muito contrastadas na vertente.

    b) Setor médio-baixo da bacia: a partir do setor médio da bacia hidrográfica até a foz do rio, a cobertura pedológica está representada por Latossolo Vermelho, Argissolo Vermelho e Neossolo Quartzarênico, do topo para a base da vertente, respectivamente (Figura-2).

    Considerando a distribuição das classes de solos ao longo da vertente, no segmento de topo, sob cobertura latossólica, identificou-se a seqüência vertical dos horizontes A (areia/areia-franca), BA (franco-arenoso) e B latossólico (franco-arenoso). Lateralmente esses horizontes estão dispostos de maneira concordante com a vertente até o segmento médio, retilíneo, onde o horizonte Bt surge gradualmente, em forma de cunha, inserido no Bl, caracterizando a presença da cobertura argissólica neste segmento da vertente, com seqüência vertical de horizontes A, BA, Bt e Bl. No segmento de baixa vertente, com ruptura de declive convexa, o horizonte BA passa lateralmente para o horizonte E, e o solo apresenta os horizontes A, E, Bt e Bl, com forte gradiente textural, evidenciando a cobertura argissólica característica. Na base da vertente surge a cobertura com Neossolo Quartzarênico, com seqüência de horizontes A e C.

    Observou-se, portanto, que neste setor da bacia, a cobertura pedológica (LV-PV-AR) apresenta variações morfológicas laterais mais acentuadas e mais significativas nos horizontes de solos, quando comparado com o setor a montante da bacia, cuja cobertura lateral e vertical (LV-AR) apresenta-se mais homogênea ao longo da vertente. As transformações pedológicas observadas no setor médio-baixo da bacia direcionaram, então, os interesses deste estudo para a cobertura pedológica representada pelas classes de solos LV-PV-AR, as quais caracterizam o setor médio-baixo da bacia como a parte mais complexa do sistema pedológico.

                   Tal complexidade, marcada pelas modificações morfológicas laterais e verticais dos horizontes dos solos (textura, estrutura, porosidade, densidade...), têm relação direta com o comportamento hídrico superficial e subsuperficial. E, de acordo com os dados de infiltração realizados em campo, neste tipo de cobertura pedológica (LV-PV-AR), a circulação hídrica é preferencialmente vertical no topo, passando a lateral a partir da média-baixa vertente até o sopé. 

    No caso desta cobertura (LV-PV-AR), em que os horizontes apresentam características morfológicas bastante contrastadas e mais complexas à jusante, tais modificações são bem marcadas por duas importantes frentes de transformação, as quais foram identificadas por meio de análises macro e micromorfológicas, conforme a seqüência abaixo:

    a) Transição Bl/Bt - no segmento médio-alto da vertente, de montante para a jusante, ocorre a passagem lateral da cobertura latossólica para a argissólica, com o aparecimento do horizonte Bt. Essa passagem é marcada pelo acúmulo lateral e vertical da fração argila; pela passagem da estrutura enáulica[3] da cobertura latossólica, para a porfírica[4] na cobertura argissólica e, ainda, por mudanças de macro-estrutura, verificadas em campo, e pela instalação de um fluxo hídrico lateral mais intenso neste segmento da vertente;

                   b) Transição BA/E e E/Bt - no segmento inferior da vertente, ocorre uma série de modificações na estrutura dos horizontes e conseqüentemente no tipo de solos. A passagem lateral do horizonte BA para o E é marcada pela perda de argila, mudança de cor, textura, estrutura do solo e pela mudança da estrutura plásmica quito[5]-gefúrica[6]/enáulica (BA) para mônica[7] (E) a jusante.

    Outra transformação importante ocorre na passagem vertical E/Bt, em que há um espessamento do horizonte E em função da destruição do topo Bt. Esta destruição é denunciada pelas modificações da estrutura porfírica, presença de fragmentos de cutãs e pelo aparecimento das “bandas plano-paralelas” na base do E. Nesse setor da bacia, destaca-se também a transição da cobertura argissólica para a de Neossolo Quartzarênico, marcada pelo espessamento do horizonte A e o aparecimento da rocha alterada subjacente. Os trabalhos de Cunha (1996 e 2002), Gasparetto (1999) e Zago (2002), realizados em outras bacias hidrográficas da região Noroeste do Paraná, identificaram os mesmos tipos de sistemas de transformações verticais e laterais nas coberturas pedológicas estudadas.

    A primeira frente de transformação constitui-se em importante base de sustentação do processo de argiluviação como responsável pela transição lateral Bl-Bt, identificada como um sistema de transformação eluvial-iluvial (Boulet et al. 1984). Já a segunda frente (segmento de baixa-vertente), evidencia um processo de destruição remontante das feições morfológicas dos horizontes, em especial do Bt e BA que resultam em espessamento do A e formação do horizonte E. Nesse segmento, as transições podem ser identificadas como um sistema de transformação iluvial-eluvial, ou seja, um sistema que recebe materiais finos dos segmentos de montante e que, em contrapartida, perde esses materiais numa proporção maior que recebe, dando origem a cobertura do Neossolo Quartzarênico.

    Considerando o conjunto de modificações laterais e verticais, do topo para a base da vertente, o setor médio-baixo da bacia, é caracterizado por um sistema de transformação eluvial-iluvial em desequilíbrio, cuja adição lateral de matéria fina é "interrompida" no segmento inferior da vertente por processos remontantes de retirada de material fino da cobertura pedológica, decorrentes da forte circulação hídrica lateral.

    Diante do exposto é possível dizer que a cobertura pedológica de ambos os setores da bacia constitui-se em um único sistema pedológico em desequilíbrio, representado por suas respectivas frentes de transformação. Tal desequilíbrio, já mencionado por Boulet (1984); Queiroz Neto et al. (1981), Castro 1989, Gasparetto (1999), etc. estaria relacionado à dinâmica da paisagem em escala regional, cujas causas foram atribuídas às variações regionais do nível de base.

    Assim, as modificações das características físicas nas coberturas pedológicas estudadas, principalmente quanto ao aparecimento do horizonte Bt na bacia, estão relacionadas com a forma convexa da vertente no segmento inferior, com o aprofundamento do nível de base da drenagem e com as condições de circulação interna da água na vertente e na bacia. Por conseguinte essas modificações demonstram o estado de desequilíbrio natural do sistema pedológico na bacia, em que os processos morfogenéticos são "acelerados" pela ação antrópica.

    Essas interpretações corroboram as de Moniz & Buol (1982) e Moniz et al. (1982), quando justificaram que a relação Latossolo-Argissolo é controlada por mudanças relacionadas à morfologia do relevo da área, ou seja, à medida que a vertente se forma, devido ao aprofundamento do nível de base, o processo de fluxo lateral de água começa a funcionar e, por conseqüência, os solos podem sofrer mudanças nas suas características físicas, evoluindo para outros tipos de solos.

    Os trabalhos de Cunha (1996 e 2002), Gasparetto (1999), Calegari (2000), Martins (2000), Nakashima (2000) e Zago (2000), realizados na região Noroeste do Paraná, envolvendo a análise estrutural da cobertura pedológica, também demonstraram essa estreita relação entre o sistema pedológico e a forma da vertente. De acordo com esses autores, as vertentes de forma predominantemente convexa, apresentam, especialmente nos segmentos inferiores, solos com maiores modificações laterais e verticais. Para Cunha (1996 e 2002) a dinâmica da água no solo é o elemento determinante dessas transformações morfológicas.

    Este trabalho demonstrou que a cobertura pedológica ¾ dos dois setores analisados na bacia do córrego Bom Jesus ¾ apresenta classes de solos diferentes quando a relacionamos com a sua situação topográfica na bacia e com a forma da vertente. O setor de montante da bacia em que a vertente possui forma convexa-retilínea-côncava ou convexo-côncava, normalmente apresenta, de montante para a jusante, cobertura pedológica com seqüência de Latossolo Vermelho e Neossolo Quartzarênico; enquanto que o setor médio-baixo da bacia, em que a vertente possui forma convexa-retilínea-convexa ou simplesmente convexa e que termina em vale mais encaixado, apresenta cobertura pedológica com seqüência de Latossolo Vermelho, Argissolo Vermelho e Neossolo Quartzarênico.

    Portanto, os horizontes identificados na cobertura LV-PV-AR apresentam transformações morfológicas laterais e verticais que resultam de processos remontantes, evidenciados pela adição lateral de argila e o aparecimento do horizonte Bt na vertente e na bacia; pela destruição dos horizontes BA, Bt e pelo espessamento e avanço do pacote arenoso do segmento inferior da vertente para o interflúvio. A intensa circulação hídrica lateral favorece a evolução mais rápida dessas transformações na vertente, principalmente nos setores onde o vale está mais encaixado. Algumas dessas transformações podem ser exemplificadas pelo acentuado contraste textural, estrutural e da morfologia da porosidade entre os horizontes E-Bt e A-C. Estas constatações também foram descritas por Gasparetto (1999) como variações laterais resultantes do recuo das cabeceiras de drenagem sobre os interflúvios e do aprofundamento dos vales. Para esse autor os mecanismos que controlam tanto o recuo como o aprofundamento dos vales, podem ser de origem climática e tectônica.

    Portanto, a aceleração nas transformações morfológicas dos horizontes, em ambos os setores da bacia, favorecem a instalação de processos erosivos lineares, especialmente quando suas áreas não são ocupadas adequadamente, seja pelo uso rural ou urbano.

     Assim, as áreas identificadas como de maior risco à erosão são aquelas próximas ao curso d'água, na transição da cobertura argissólica para os Neossolos Quartzarênicos. Essa condição pode ser justificada pela friabilidade do material; pela circulação hídrica, intensa e complexa; pelos contrastes texturais e estruturais dos horizontes; pela morfologia dos poros e ainda pela forma convexa e pela declividade da vertente, que favorecem o aumento dos fluxos hídricos laterais superficiais e suspensos, bem como a instalação dos processos erosivos remontantes. Além disso, a prática da pecuária (muito comum na região) nesse tipo de solo (AR), além de não propiciar o desenvolvimento da vegetação ciliar, contribui para a instalação e agravamento dos processos erosivos lineares (sulcos, ravinas e voçorocas) que, freqüentemente se iniciam pelo escoamento superficial concentrado no caminho (trilha) do gado. Os movimentos de massa do solo, como abatimentos e rastejo são muito freqüentes nessas áreas.

    Nas áreas sob cobertura argissólica, esses processos também são muito comuns. Estão freqüentemente associados ao escoamento superficial e a intensa circulação lateral que se instala sobre o horizonte Bt.

    As áreas de topo, sob cobertura latossólica, são as que apresentam os menores riscos a erosão sendo, portanto, consideradas estáveis. Entretanto, essas áreas não estão imunes a instalação desses processos que, por evolução remontante de ravinas e voçorocas, podem atingir os topos, como ocorre na área periurbana do município de Cidade Gaúcha entre outros municípios da região onde a concentração da água pluvial é o principal agente desencadeador desse tipo de erosão.

    Assim, em ambos os setores analisados, sobretudo naquele representado pela cobertura LV-PV-AR (setor médio-baixo da bacia), verificou-se que a circulação hídrica é a grande responsável pela evolução remontante do sistema pedológico em desequilíbrio. E, uma vez instaladas as modificações morfopedológicas no segmento inferior da vertente, a dinâmica hídrica torna-se cada vez mais intensa e complexa, acentuando essas transformações à montante, já que as alterações na circulação da água no solo são proporcionais às modificações morfológicas da cobertura. O entalhamento do vale, a convexidade das vertentes, o aumento da declividade, a ausência de vegetação densa, a intensa utilização agropecuária também contribuem para o desequilíbrio da dinâmica hídrica em ambos os setores do sistema pedológico identificado na bacia, estando mais acelerado no setor cuja cobertura pedológica é formada por LV-PV-AR.

     

    3- CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

    O sistema pedológico da bacia estudada apresenta cobertura pedológica em diferentes estágios de evolução. A dinâmica e a distribuição das classes de solos no sistema pedológico, de jusante para a montante da bacia, foram atribuídas ao ajuste da pedogênese à morfogênese em decorrência do aprofundamento progressivo do nível de base da drenagem. Estes, por sua vez, estão ligados aos ciclos tropicais mais úmidos do período Quaternário (Holoceno), e à subsequente convexização dos segmentos inferiores das vertentes, que evolui  para o setor de montante da bacia.

    A jusante da bacia ¾ onde o aprofundamento do canal fluvial é máximo ¾ as vertentes apresentam os estágios mais evoluídos do sistema pedológico. Estes estágios são caracterizados pelo aparecimento do Argissolo no segmento médio das vertentes (convexas), ao contrário do setor médio (intermediário) da bacia, em que este tipo de solo está restrito ao segmento inferior das vertentes. No setor médio da bacia as vertentes normalmente apresentam forma convexa-retilínea-convexa, com rupturas convexas mais acentuadas no segmento inferior, em que os argissolos apresentam gradiente textural elevado. No setor de montante da bacia, cujas vertentes apresentam formas convexa-retilínea-côncava o Argissolo não foi encontrado, e a cobertura pedológica é formada por LV e pelo AR, do topo à base da vertente, respectivamente.

    Portanto, de montante para jusante na bacia, a distribuição espacial das classes de solos reflete as modificações laterais e verticais dos horizontes dos solos na vertente e, conseqüentemente, a evolução do sistema pedológico na bacia. E, considerando as transformações laterais e verticais dos solos na bacia, a cobertura LV-PV-AR foi considerada como a mais complexa e evoluída do sistema pedológico, progredindo à montante da bacia e na direção dos interflúvios das vertentes direita e esquerda do curso d’água. Essa progressão ocorre concomitante ao aprofundamento do canal e a convexação das formas das vertentes na bacia, num processo remontante.

    A distribuição das classes de solos identificada no sistema pedológico da bacia estudada é muito comum nos sistemas pedológicos das bacias hidrográficas que representam a morfologia da região Noroeste do estado do Paraná. Isso explica o interesse dos estudos voltados ao conhecimento detalhado das características, dinâmica e evolução desse sistema pedológico, em especial daqueles setores que apresentam a classe dos Argissolos. Estudando a cobertura pedológica (LV-PV-AR), as pesquisas realizadas na região verificaram que as transformações laterais e verticais dos horizontes, bastante acentuadas, interferem na dinâmica hídrica da vertente, favorecendo a instalação e evolução de fenômenos erosivos.

                   De modo geral, os estudos identificaram a cobertura LV-PV-AR como um sistema de transformação eluvial-iluvial na transição lateral entre os horizontes Bl-Bt e nas transições verticais BA-Bt e E-Bt; e iluvial-eluvial na transição lateral B-E. Essa interpretação se fundamenta na gênese e evolução das macro e microestruturas presentes, corroboradas com a morfologia dos poros e suas conexões e com os demais resultados analíticos e de infiltrometria, os quais revelaram mecanismos de perdas, transferências e adições de matéria, sobretudo das frações mais finas (argila e silte), ao longo da vertente.

                   A maior susceptibilidade aos processos erosivos, neste sistema de transformação, foi associada à dinâmica hídrica ¾ evidenciada pelas taxas de infiltração, dentre outros fatores ¾ instalada de forma diferenciada nos horizontes pedológicos, particularmente nas passagens muito contrastantes entre os horizontes E e Bt. Acima do horizonte Bt, no segmento de baixa vertente, se desenvolve um lençol suspenso que destrói esse horizonte através de um processo remontante, aumentando a espessura do horizonte E, de textura arenosa (+ 90%), no segmento inferior da vertente a partir do setor médio-baixo da bacia.

                   Este estudo contribuiu para uma melhor compreensão da origem e evolução das “transformações” laterais e verticais dos horizontes dos solos, bem como dos processos erosivos decorrentes do escoamento superficial e subsuperficial das águas pluviais. Além disso, trouxe importantes resultados sobre a dinâmica hídrica nos solos, verificando que esta, entre outros fatores, representa um importante papel na distribuição e redistribuição lateral e vertical dos constituintes dos solos e conseqüentemente, nas rápidas modificações (verticais e laterais) das características morfológicas dos horizontes e tipos de solos na vertente e na bacia. Contribuiu também com informações sobre a estrutura, dinâmica e evolução das classes de solos (LV, PV e AR) que compõem grande parte dos sistemas pedológicos da região Noroeste do estado do Paraná, subsidiando melhores condições de uso, manejo e conservação dos solos, em detrimento da ação dos fenômenos erosivos.

    Outra verificação importante está relacionada às intensas modificações morfológicas laterais e verticais dos horizontes das coberturas estudadas, mas que no sistema LV-AR foram observadas somente no segmento inferior da vertente e em um estágio de evolução menos avançado que no sistema LV-PV-AR, contudo em desequilíbrio, conforme observações morfológicas de campo e laboratório. A distribuição, a dinâmica e as frentes de transformação lateral e vertical da cobertura pedológica na bacia permitiram interpretar, portanto, que o sistema pedológico evolui por meio de processos remontantes. Assim, a cobertura argissólica e de Neossolos Quartzarênicos avançam de jusante para montante na bacia, ocupando os segmentos baixo e médio das vertentes, em detrimento da cobertura latossólica, que freqüentemente ocupa os segmentos de alta-vertente (topos suaves ondulados).

     

     

    Notas


    [1] UEM- Universidade Estadual de Maringá - Maringá-PR.

    [2] SUDERHSA: Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental.

    [3] Enáulica: estrutura de base do plasma em que o esqueleto e agregados de material apresentam-se dissociados nos poros intersticiais, sem preenchê-los totalmente (Stoops & Jongerius, 1975).

    [4] Porfírica: estrutura de base do plasma em que as partículas maiores apresentam-se “mergulhadas”ou cimentadas em uma matriz de partículas muito finas (plasma).

    [5] Quitônica: Estrutura de base do plasma, em que o esqueleto ou os agregados apresentam-se recobertos por uma fina película de material fino (argila).

    [6] Gefúrica: estrutura de base do plasma em que conjuntos de partículas (grosseiras e finas) aparecem ligados por material mais fino, formando pontes ou braços.

    [7] Mônica: estrutura de base do plasma composta de partículas de apenas um grupo de tamanho ou ainda de material amorfo.

     

    BIBLIOGRAFIA

     

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