1.  

    Voltar à Página da AGB-Nacional

     

     

     

    X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

     

     

     

     

    CARACTERIZAÇÃO FÍSICO-HÍDRICA E DE SUSCETIBILIDADE A VOÇOROCAMENTO DOS SOLOS DA SUBBACIA DO CÓRREGO QUEIXADA,

    NA ALTA BACIA DO RIO ARAGUAIA-GO
     

     

     


    Gilberto Viana Marinho gilbertovianamarinho@ig.com.br*;

    Selma Simões de Castro.

     

     

     

    Instituto de Estudos Sócio-Ambientais

    Universidade Federal de Goiás – Goiânia-GO

    Projeto financiado pelo CONCITEG-GO e CNPq – PCOOP.

     

     


    Palavras chave: piezometria, erosão, Rio Araguaia
    Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
    Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de casos

     

     

     

     

     


    INTRODUÇÃO


    O presente estudo foi realizado no setor sul da Alta Bacia do Rio Araguaia situado na região sudoeste de Goiás e sudeste do Matogrosso e Nordeste do Mato Grosso do Sul (Figura 01), onde foram identificados aproximadamente 100 focos erosivos
    lineares do tipo voçoroca, os quais foram relacionados ao uso e manejo inadequado, sobretudo por pastagens (50% dos casos), aos Neossolos Quartzarênicos finos aí dominantes, após desmatamento intensivo e indiscriminado do cerrado nativo há mais de 30 anos (Barbalho, 2002) e às chuvas de alta intensidade (Ramos, 2003).
    Estudos temáticos preliminares do meio físico revelaram que a maioria das voçorocas situa-se nas áreas de nascentes, sendo necessário, portanto, o estudo em detalhe de uma bacia representativa. A subbacia do Córrego Queixada, a mais crítica do lado goiano na área (Barbalho, 2002), com 22 incisões erosivas de grande porte, foi selecionada a fim de se avaliar a gênese e dinâmica dos voçorocamentos, levando-se em conta a interferência das ações antrópicas de uso e ocupação da área. Essa árae foi também monitorada, com o objetivo de diagnosticar o comportamento dos fluxos hídricos subterrâneos e suas relações com as chuvas, de modo a identificar o(s) setore(s) de maior risco relacionando-se o uso e a ocupação da área.

    CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DA ÁREA DE ESTUDO

    A Sub-bacia do Córrego Queixada situa-se na porção leste da Alta Bacia do Rio Araguaia, sob clima tropical, com índices pluviométricos médios de 1.500 mm anuais, sendo que meses menos chuvosos vão de maio a setembro, outono-inverno, com precipitação média mensal em torno de 30mm; e os meses mais chuvosos de outubro a abril, primavera e sobretudo, o verão, sendo dezembro e janeiro os que normalmente ultrapassam 300mm chuva mensal.

     

    Figura 02 – Mapa Geológico da Subbacia do Córrego Queixada.

     

    A litologia presente na área compreende 04 unidades geológicas: Formação Botucatu (Jurássico); Formação Serra Geral (Triássico/Cretáceo); Coberturas Detrítico Lateríticas (Tércio-Quaternário) da Bacia sedimentar do Paraná; e Aluviões (Holoceno) (Figura 02).
    A Formação Botucatu é constituída por arenitos de deposição eólica, predominantemente finos, normalmente apresentando boa seleção, com grãos variando de sub-arredondados a arredondados. Raramente se encontra grãos grosseiros dispersos na massa arenítica. As colorações variam de esbranquiçadas, amarelo-avermelhadas, róseo-avermelhadas e até vermelho-carne quando bem silicificados. Compõem espessos estratos de aspecto maciço com estraticações cruzadas de grande a médio porte e estratos plano-paralelos contendo subordinadamente laminações de mesma natureza (Souza Júnior et al., 1983).
    Às Coberturas Detrito-Lateríticas é atribuída origem sedimentar pós-cretácica, com ocorrências conglomeráticas basais, recobertas por camadas ou níveis de arenitos, argilitos e/ou ocorrências lamíticas (Sousa Junior et. al., 1983). Compõem mantos de intemperismo profundos com latossolos vermelhos, dispostos em extensos pediplanos cujas cotas altimétricas giram em torno de 825m.
    A Formação Serra Geral compreende um pacote de derrames vulcânicos basálticos que na região se estende desde a borda norte, em Goiás e Mato Grosso, até o seu extremo-sul, fora do território brasileiro. Apresentam-se normalmente com aspecto maciço, cor cinza-escura, granulação fina a média, ocasionalmente com a presença de amígdalas e muito fraturadas (Lacerda Filho, 2000).

     

    Figura 03 – Mapa de Modelados de Relevo da Subbacia do Córrego Queixada.

     

    Do ponto de vista geomorfológico, a área integra-se à morfoestrutura do Planalto Setentrional em que predominam 03 Modelados (Figura 03): a) Superfícies Pediplanadas formando extensos tabuleiros ou chapadões com abruptas escarpas que circundam as cabeceiras de drenagem da referida bacia, com cotas altimétricas em torno de 775 a 875m; b) as Formas de Dissecação com amplos interflúvios de vertentes suave e moderadamente onduladas convexas, com altitudes em torno de 725 a 775m; e c) as Formas de Acumulação, com vertentes comumente côncavas e moderadamente a fortemente declivosas nas imediações do nível de base local, cujas cotas altimétricas variam de 675 a 725m.

     

    Figura 04 – Mapa Pedológico da Subbacia do Córrego Queixada.

     

    Associados à Formação Botucatu (arenitos essencialmente quartzosos) e às Formas de Dissecação ocorrem o Neossolos Quartzarênicos (Figura 04) anteriormente denominado de Areias Quartzosas. Apresentam seqüência de horizontes A-C, sem contato lítico dentro de 50cm de profundidade, textura arenosa ou arenosa franca nos horizontes até, no mínimo, a profundidade de 150cm a partir da superfície do solo ou até um contato lítico. São essencialmente minerais (quartzosos), apresentando nas frações areia grossa e areia fina 95% ou mais de quartzo, calcedônia e opala e, praticamente, ausência de minerais primários alteráveis (menos resistentes ao intemperismo), não hidromórficos (Embrapa, 1999). Novaes et. al. (1982) já os caracterizavam desse mesmo modo e lebravam que eram muito profundos, pouco desenvolvidos, e excessivamente drenados.
    Associados à Formação Serra Geral, ocorrem os Neossolos Litólicos e os Cambissolos (Figura 04) nas escarpas, logo abaixo, no depósito de talus do sopé do front, ou nas ombreiras rebaixadas dos topos, com morfologia côncava, ocorre o Latossolo Vermelho-Amarelo (Figura 04), cujo material de origem é provavelmente alóctone, oriundo das litologias presentes.
    Os aluviões holocênicos constituem-se por sedimentos inconsolidados, dominantemente arenosos, representados por areias, com níveis de cascalhos, lentes de material silto-argiloso e turfa. Distribuem-se, principalmente, nas planícies de inundação e ao longo das drenagens de maior porte, com feições anastomosadas, verificadas na Bacia Hidrográfica do Rio Araguaia (Lacerda Filho, 2000). Associados a eles, em geral, ocorrem os Neossolos Quartzarênicos Hidromórficos (Figura 04) (Embrapa, 1999), anteriormente denominados de Areias Quartzosas Hidromórficas. Segundo Novaes et. al. (1983) estes solos são hidromórficos minerais, areno-quartzosos, pouco desenvolvidos, imperfeitamente ou mal drenados, que possuem na fração areia, mais de 95% de quartzo, com “o lençol freático próximo à superfície, durante algum período do ano ou presença de hidromorfismo ao longo do perfil, como mosqueados e indícios de gleização" (p.472).
    Foi notada também em campo a ocorrência de Gleissolo associada a esta unidade, próximo aos cursos d'água. Segundo a antiga classificação, são solos hidromórficos gleizados, imperfeitamente a muito mal drenados, pouco profundos a profundos. Ocorrem em pequenas áreas, sujeitas a inundações, muito pouco explorados para finalidades agrícolas (Novaes et. al., 1983). Ora desenvolvem-se sobre depósitos aluviais, ora alúvio-colúviais restritos.

     

    Figura 05 – Mapa de Uso da Terra da Subbacia do Córrego Queixada.

     

    Na sub-bacia do Queixada foram identificadas as seguintes formas de uso da terra: aproximadamente 50% da área é ocupada por vegetação de Savana: Arbórea Aberta, que ocorre na porção norte da sub-bacia e Arbórea Densa, na porção sul. Existem áreas consideráveis de matas ciliares nas porções norte, central e leste da sub-bacia. A oeste há um fragmento de regeneração de cerrado e os outros 50% da área são utilizados para fins agropecuários (Figura 05).
    Em visita a campo foram observadas várias faixas de veredas constituídas por buritizais e várzeas ao longo dos canais de drenagem, recobrindo os depósitos aluvio-coluvionares restritos.

    METODOLOGIA


    A metodologia compreendeu o levantamento dos solos em toposseqüência (Boulet, 1988), instalação de 27 piezômetros no segmento final da toposseqüência (Ver Figura 14 aidante), leitura quinzenal (feita por um operador com auxílio de um aparelho denominado "piu") dos níveis freáticos em cada um, durante os meses de agosto de 2001 a junho de 2003, com base em um plano prévio de locação, segundo critérios empregados por Salomão (1999). Os dados de chuva foram obtidos com pluviômetro e pluviógrafo instalados próximo à área do monitoramento.
    Os dados dos níveis piezométricos e de chuva foram tratados inicialmente em planilha e gráficos Excel® que permitiram a visualização bidimensional dos níveis freáticos e seleção de períodos representativos das estações, seca e chuvosa, bem como a avaliação do comportamento do lençol freático frente aos episódios de chuvas e suas intensidades.
    Posteriormente, com base nos mapas topográficos com eqüidistância de 1 m, lançou-se as profundidades do lençol registradas nos piezômetros, que permitiram elaborar os mapas piezométricos, que representam a disposição geométrica da água subterrânea, através de eqüipotenciais (linhas de mesmo nível ou isopiezas). As superfícies freáticas, indicadas pelos equipotenciais, permitiram a interpretação das direções dos fluxos hídricos freáticos marcados com setas sobre os mapas, dispostas ortogonalmente às linhas equipotenciais, considerando que o movimento da água ocorre do nível de maior potencial hidráulico para o de menor.
    Também foram realizados dois caminhamentos geoelétricos, um na estação seca e outro na chuvosa, no sentido da toposseqüência, utilizando-se equipamento de GPR (Ground Penetrating Radar), que identifica por meio de ondas eletromagnéticas, a profundidade do lençol freático, delimitação do manto de alteração e a disposição das camadas de rocha.
    Os dados obtidos com os procedimentos acima permitiram o cálculo dos gradientes hidráulicos e a representação de seu comportamento, com ênfase nos meses que se destacaram como os de maior risco erosivo, por convergência de linhas de fluxo e eventual exfiltração (Salomão, 1994; Marinho et. al., 2003; Castro et. al.(no prelo)).

    RESULTADOS E DISCUSSÕES

    A área de monitoramento
    A microbacia do Córrego Capivara selecionada para o monitoramento é integrante da bacia do Córrego Queixada, afluente do rio Araguaia e é representativa sobretudo da zona rebaixada abaixo da chapada, pedimentar, levemente convexizada com baixo grau de dissecação, vertentes longas (cerca de 800 m), declives suaves, menores que 15% e sistema pedológico constituído por Neossolos Quartzarênicos dos topos às vertentes médias, sucedidos por Neossolos Quartzarêncos hidromórficos nas vertentes inferiores e Gleissolos Húmicos nas margens fluviais, todos desenvolvidos sobre os arenitos eólicos da Formação Botucatu, Jurocretácica, da Bacia Sedimentar do Paraná (Barbalho, 2002).
    Apresenta extensa área com cerrado na margem esquerda do Córrego Capivara, pastagem com pecuária extensiva dominante, e cultura de soja e milheto, na margem direita, onde se insere a vertente selecionada para o estudo detalhado, onde se realizou o levantamento da toposseqüência a e instalação da área de monitoramento das chuvas e do nível piezométrico,este na baixa encosta (Figura 06).

     

    Figura 06 – Toposseqüência Paraíso, na Microbacia do Córrego Capivara

     

    A Toposseqüência Paraíso (assim denominada por estar na Fazenda homônima) possui 840m de comprimento disposta ao longo de uma vertente plana muito suavemente ondulada nos terços superior e médio, e ondulada ou convexa no terço inferior, onde termina sobre depósito aluvionar. As cotas altimétricas variam de 702 a 772m, representando 70m de desnível do topo ao sopé, o que gera um declive médio de 8,3% ou 5º, sendo que no terço inferior certamente é um pouco maior. Nela ocorrem: o Neossolo Quartzarênico órtico de textura arenosa fina, muito porosa, friável, de coloração acinzentada na superfície e Bruno amarelado, Bruno forte e Vermelho amarelado em profundidade; o Neossolo Quartzarênico Hidromórfico com as cores Bruno amarelada, Bruno forte, Vermelho amarelo e Vermelho, textura arenosa fina, porosidade intergrãos, e manchas de areia lavada e nódulos concrecionários; e o Gleissolo próximo aos fundos de vale, com horizonte cinza bem escuro devido à presença de matéria orgânica, com trechos onde o horizonte A é turfoso, como constatado bem próximo ao córrego, sobre horizonte argiloso, cinza. Neste solo, o meio é saturado tanto em superfície como em subsuperfície, mesmo na estação seca.

     

    Figura 07 – Toposseqüência Paraíso I.
     

    Relação entre a freqüência das chuvas e o comportamento do lençol freático

     

    Durante o período de monitoramento, de agosto de 2001 a junho de 2003, que corresponde a 23 meses, constatou-se que os meses menos chuvosos vão de maio a setembro, com precipitação média em torno de 30mm de chuva mensal; enquanto os meses mais chuvosos ocorrem nos meses de outubro a abril, notadamente no verão, sendo os meses de dezembro e janeiro os que normalmente ultrapassam 300mm chuva, sendo que janeiro de 2003 chegou a acumular 374,8mm de chuva, segundo os dados obtidos com pluviômetro (Figura 08).

     

    Figura 08 – Totais pluviais mensais – Faz. Paraíso (Jul/01 a Jun/03).
     


    Neste período de monitoramento (23meses) ocorreram 253 dias chuvosos, distribuídos sazonalmente (Figura 09), gerando a média de 10,5 dias de chuva por mês.
     

    Figura 09 – Quantidade de dias chuvosos segundo os meses do ano, na Faz. Paraíso.



    Os meses que apresentam mais dias chuvosos são dezembro de 2001 e janeiro de 2003, com 21 e 25 dias chuvosos, respectivamente. Nota-se que há uma intrínseca relação entre o representado na Figura 08, que indica os totais pluviais mensais e a Figura 09, que indica a quantidade de dias chuvosos segundo os meses do ano. Essa sucessão contínua de dias chuvosos é a maior responsável pela recarga do lençol freático, tanto pelo volume de água precipitada quanto pela diminuição das taxas de evapotranspiração. Informações desse tipo também podem ser utilizadas para o planejamento do manejo do solo, que se torna dificultoso nas estações chuvosas.
    Será ilustrada a dinâmica do lençol freático em duas áreas de agricultura e pecurária, que tem seu ápice de potencial hidráulico ao final da estação chuvosa, quando podem gerar os “pipings” relacionados às voçorocas, gerando com isso, outro momento de preocupação com os processos erosivos.

     

    Figura 10 – Perfil Geoelétrico realizado com GPR.


    O monitoramento geofísico com GPR apresenta perfil sub-horizontail convexo do lençol freático em quase toda a vertente, e suavemente plano em uma faixa de 100m na porção montante, ambos em conformidade com o topo rochoso, indicando que o gradiente hidráulico é inicialmente condicionado pela litologia (Figura 10)
    Constataram-se ainda algumas características litoestratigráficas como estratificações cruzadas e uma falha no terço inferior, que possivelmente levou ao encaixamento do atual córrego Capiva neste setor, associando-se a outros elementos de formação do relevo.
    Em relação ao potencial hidráulico, ficou bem evidenciado o alto potencial hidráulico no terço médio inferior da vertente em meados da estação seca (julho) resultante do tempo de recarga do lençol, ao contrário do final da estação chuvosa (abril) quando o nível freático ainda se encontra em baixa (Figura 11). Na baixa encosta a oscilação do lençol freático ocorre de maneira diferenciada, como será visto adiante.


    Com base nos dados obtidos com os medidores de chuva e do lençol freático, constatou-se uma relação direta entre as precipitações e os níveis freáticos sazonais, mais evidentes em alguns momentos da estação chuvosa. A Figura 12 mostra a pluviometria e
    piezometria do período monitorado e apresenta os níveis do lençol freático de apenas dos 14 poços considerados mais representativos a fim demelhorar a visualização. Nesta figura estão indicada as três datas selecionadas em tracejado, com o intuito de ilustrar a estação de chuvas, da seca, e novamente das chuvas, 10/02/2002 e 10/11/2002 e 13/04/03, respectivamente.

     

    Figura 12 – Hidrograma pluviométrico e piezométrico da área de monitoramento Fazenda Paraíso (Agosto/01 a Junho/03).

     

     
    Como mostra ainda a Figura 12, o nível freático pode alcançar a amplitude de até 2,5 m durante o período, com rebaixamento de 1,5 m em apenas 10 dias, o que indica uma drenagem do solo facilitada pela textura arenosa e a porosidade intergrãos. Outro exemplo encontra-se entre os dias 09/09/2001 e 23/09/2001 quando ocorre uma rápida ascensão do lençol freático em até 1,5m no piezômetro 01 (P1), em resposta às primeiras chuvas que acumularam 54,8mm nesse período.
    Os mapas piezométricos (Figura 13) das datas citadas revelam certo distanciamento entre os equipotenciais nos períodos de rebaixamento do lençol freático, ao contrário do período de ascenção do nível freático, quando se aproximam. Na estação chuvosa, com altos potenciais hidráulicos, ocorre a concentração de fluxos próxima à área do P06, numa posição mediana na área monitorada e também no sopé da encosta próximo ao córrego; em 10/02/02 na cabeceira de uma incisão
    erosiva ocorre o direcionamento dos fluxos sub-superficiais concentrados com alta energia de percolação, pois os eqüipotenciais estão próximos, indicando maiores gradientes hidráulicos e gerando pipings, formando alcovas de regressão observados em campo, em voçorocas próximas.

     

    Figura 13 – Mapas piezométricos nas datas 10/02/02, 10/11/02 e 13/04/03.

     

    A Figura 14 mostra os perfis longitudinais (Seção A-A´ da Figura 02) do lençol freático em momentos de baixo e alto potencial hidráulico, e permite visualizar, junto com a Figura 13, as superfícies piezométricas e os gradientes hidráulicos paras as três situações.
    Em 10/02/02 ocorreu alto potencial hidráulico e a superfície piezométrica mostrou-se convexizada entre 0 e 60m do eixo A-A´, divergindo fluxos com alto gradiente hidráulico, da ordem de 0,15m/m, e ao contrário, concavizada entre 60 e 110m do mesmo eixo concentrando fluxos no setor do P06 com 0,075m/m de gradiente hidráulico. Além disso, entre 15 e 50m do referido eixo, ocorreu a aproximação notável do nível freático com a superfície do terreno, incorrendo até exfiltração. Tal comportamento indica que este setor da vertente até o córrego é o de maior risco potencial ao voçorocamento, pois, em caso de
    sulcamento e/ou ravinamento e seu aprofundamento, há possibilidade iminente de interceptação do lençol freático nesse momento podendo promover a seguir, o desenvolvimento acelerado do voçorocamento, sentido remontante, facilitado pelos eixos dos fluxos relatados.
    Em 10/11/02 representou-se o período de estiagem, e de baixo potencial hidráulico, quando a superfície piezométrica revelou-se planar suavemente convexizada, com gradiente hidráulico da ordem de 0,070m/m de 20 a 135m do eixo A-A`, e 0,15m/m de 13 a 20m, ou seja, neste caso, alto gradiente.

     

    Figura 14 – Perfil do lençol freático nos dias 10/02/02, 11/02/02 e 13/04/03.
     

    Em 13/04/03, os fluxos hídricos circulam com potencial hidráulico medianamente alto, de 0,12m/m no trecho 0 a 45m do eixo e 0,07m/m, em jusante, de 45 a 135m do mesmo eixo, entretanto, mais profundos e com convergência de fluxos hídricos em P12 e P13 (Figuras 13 e 14).

    CONCLUSÕES
    Constatou-se que nos períodos chuvosos, o lençol freático responde rapidamente às precipitações pluviais, em razão da boa drenagem dos solos, se desenvolvendo ainda, fluxos sub-superficiais lineares em zonas preferenciais, induzindo rápida circulação hídrica, formando possivelmente os pipings. No Gleissolo foi constatada a concentração de fluxos hídricos sub-superficiais em alguns pontos, notadamente na faixa do P06 ao P12, apresentando ainda alto gradiente hidráulico no mesmo, da ordem de 0,15m/m, neste caso associado à baixa condutividade hidráulica, o que cria um acúmulo de água a montante.
    Os pipings podem contribuir para o rebaixamento rápido do lençol, pelo aumento do gradiente hidráulico e a remoção das partículas, favorecendo a subsidência em superfície que concentra o escoamento superficial e facilita a instalação ou o desenvolvimento das erosões lineares, que tanto pode ser do tipo ravinamento como voçorocamento, dependendo da profundidade do nível freático. Neste caso, esse fenômeno promoveria a evolução remontante dos taludes, inclusive dos ramos laterais dos focos existentes.
    Com base nestas informações foi identificada a área de alto risco à erosão por voçorocamento numa faixa de aproximadamente 60m distante do córrego, o que reforça a necessidade da preservação da vegetação ao longo dos canais de drenagem, lembrando que a legislação (Lei 4.771/65) estabelece uma área de preservação permanente de apenas 30m de faixa marginal ao longo de cursos d´água de largura menor que 10m, o que não se aplicaria neste caso.


    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    BARBALHO. M.G.S. Morfopedologia aplicada ao diagnóstico e controle de processos lineares da Alta Bacia do Rio Araguai (GO/MT). Dissertação de Mestrado. IESA/UFG, Goiânia, 2002.


    BOULET, R. Análise estrutural da cobertura pedológica e a experimentação agronômica. Anais do XXI Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, SBCS. P.431-446. Campinas, 1988.


    CASTRO, S.S. ; BARBALHO, M.G.S; MARINHO, G.V. CAMPOS, A.B; SALOMÃO, F.X.T.; & VECHIATO, A. Condicionantes geológicos, geomorfológicos, pedológicos e de uso e manejo dos solos na circulação hídrica e processos de voçorocamento na alta bacia do rio araguaia (GO/MT). No prelo.


    LACERDA FILHO, J.V. Programa Levantamentos Geológicos Básicos do Brasil. Geologia e Recursos Mineirais do Estado de Goiás e do Distrito Federal. Escala 1:500.000. 2ª edição. Org. LACERDA FILHO, J.V.; REZENDE, A. & SILVA, A. Goiânia: CPRM/METAGO/Unb, 2000.


    MARINHO, G.V.; CASTRO, S.S.; CAMPOS, A.B.; SALOMÃO, F.X.T.; & VECHIATO, A. Estudo piezométrico para diagnóstico de suscetibilidade a voçorocamento na Alta Bacia do Rio Araguaia (GO). IN: XXIX CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIA DO SOLO, 13 A 18 Julho, Ribeirão Preto: Unesp, 2003.

    NOVAES, A.S.S., AMARAL FILHO, Z.P., VIEIRA, P.C. FRAGA, A.G.C. Pedologia. IN: PROJETO RADAMBRASIL, folha SD-22, vol.31 - Goiânia. Rio de Janeiro, 1983.


    RAMOS, D.R.M. Análise da distribuição temporal das precipitações na alta bacia do rio araguaia e suas relações com os processos erosivos lineares. Monografia, IESA-UFG. Goiânia, 2003.


    SALOMÃO, F.X.T. Processos erosivos lineares em Bauru (SP): regionalização cartográfica aplicada ao controle preventivo urbano e rural. São Paulo, 200 p. Tese de Doutoramento FFLCH-USP. Departamento de Geografia, 1994.

    _________________. Controle e prevenção dos processos erosivos. IN: Erosão e conservação dos solos. (Organizadores) GUERRA, A.J.T.; SILVA, A.S. e BOTELHO, R.G.M. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil, 1999.

    SOUSA JÚNIOR, J.J; FREIRE, F.A.; OLIVEIRA, F.C.; SILVA, R.H.; BONOW,C.W & MOREIRA, H.L. Geologia. IN: PROJETO RADAMBRASIL, folha SD-22, vol.31 - Goiânia. Rio de Janeiro, 1983.