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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

LIXO FLUVIAL NA MARGEM DIREITA DA FOZ DO RIO NEGRO:
UM ESTUDO DE (DES) CASO*

 

 


Estefania Souza Silva

Acadêmica do bacharelado em Geografia da Universidade Federal do Amazonas

e-mail omagua2@bol.com.br

Maria Salomé de Albuquerque Toledano

Professora mestra do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas

 e-mail msalome@ufam.edu.br

José Alberto Lima de Carvalho

Professor Especialista do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas

e-mail@albertocarvalh@ufam.edu.br

 

 

 

Palavras Chaves: Lixo fluvial, Conservação, Rio Negro.
Eixo: 3. Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo: 3.4 Aplicações temáticas em estudos de casos

 



A bibliografia pesquisada permite entender que a problemática ambiental faz parte do processo histórico o qual compreende as instâncias: política, jurídica, ideológica, cultural e econômica da sociedade global. A natureza em sua dinâmica estava sujeita a flutuações apenas climáticas, movimentos de placas, processos de longos ciclos. A ação do homem na natureza provoca mudanças que acompanham o desenvolvimento técnico e científico da sociedade.
O advento da Revolução Industrial modificou a sociedade em todos os aspectos. Karl Marx desenvolveu a teoria do Materialismo Histórico, a ciência percebe que o homem é o elemento transformador do meio, passa-se então a uma valorização do homem. Para os capitalistas a natureza se torna apenas o reservatório de recursos para a produção. Entender o sistema econômico e formas de organização social era o anseio de muitos estudiosos da época.
Quando as contradições da relação homem e natureza se refletem através da poluição das águas, do solo e do ar é que os cientistas e a população em geral começam a revelarem-se preocupados com o destino da humanidade. Na Europa e nos Estados Unidos surgem movimentos em defesa dos ecossistemas, como o ecologismo, o conservacionismo e o ecologismo-social. O homem já não é somente o sujeito dessa relação, mas o que SERRES (1991) denomina de “Reviravolta”; a natureza reage. É o futuro da biosfera que está em perigo.
A problemática ambiental passa a ser discutida após a Revolução Industrial, atingindo seu ápice após a Segunda Guerra Mundial; esse período é denominado de "fase de denúncia". Essa discussão ganhou força posterior ao encontro internacional ocorrido em Estocolmo em 1972. Naquele encontro ficou claro a proporção que o desenvolvimento econômico havia atingido e discutiu-se o que poderia ser feito para minimizar os impactos sobre os ambientes e conservá-los para as gerações futuras.

Após as decisões tomadas em Estocolmo no Simpósio das Nações Unidas sobre Populações, Recursos Naturais e Ambientes (setembro/outubro de 1972), restou aos países que, por motivos diversos não destruíram os seus recursos naturais, trilhar um caminho diferente do seguido pelos países ricos, e para os últimos a alternativa de tentar evitar, a todo custo, o desperdício de "recursos em via de esgotamento relativo". Aos países pobres cabe, neste contexto, a responsabilidade de gerenciar seus recursos naturais e buscar alternativas econômicas que minimizem os impactos sobre o ambiente. Para a Amazônia, o turismo é apontado como uma alternativa de sustentabilidade. Nesse, sentido a poluição pode se tornar um fator de expulsão dos turistas.
LIMA (1991:9) considera "o aumento populacional e a intensidade da industrialização" como fatores principais que regem a origem e produção do lixo. E com relação à identificação do problema na área de pesquisa, esses dois fatores não foram identificados. Três questionamentos foram formulados, a saber: de onde o lixo está vindo? Como está chegando? Quanto de lixo existe no local?
Portanto, o projeto em questão pretende responder a estas três perguntas no decorrer de seu desenvolvimento no período de agosto/2001 a agosto/2002. Desse modo, os objetivos deste trabalho são compreender como ocorre o depósito de resíduos sólidos, o quanto existe e quais são identificados na margem direita da foz do rio Negro, a partir do porto da balsa do Cacau Pirera até a entrada do lago do Janauari. Identificar as possíveis fontes poluidoras. Quantificar e classificar o material coletado.
A metodologia utilizada para o desenvolvimento da pesquisa compreende levantamento bibliográfico sobre a temática. Paralela ao estudo bibliográfico foi realizada uma visita inicial ao local da pesquisa para reconhecimento da área e delimitação das subáreas para a coleta do lixo.
A área total possui 10 quilômetros de extensão. Por se tratar de uma área bastante grande, a coleta do material foi definida por amostragem, trabalhou-se com 10% do total dessa, ou seja, foram seccionadas 5 subáreas iguais de 200m de extensão por 20m de largura, preferencialmente de praia e sempre acompanhando a margem do rio. Todo o lixo existente dentro das subáreas foi coletado. A primeira coleta foi realizada na vazante. A segunda na enchente e pela quantidade de resíduos depositados ser superior a da primeira coleta, foi necessária a redução da amostragem de 10% para 4% e a supressão da 5ª subárea.
Para a classificação dos resíduos adotou-se alguns critérios do Manual de Lixo Municipal do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Est. de S. Paulo S/A - IPT, porém como a classificação implica atingir objetivos específicos ao local, essa classificação seguiu alguns critérios próprios à situação. Para a coleta dos resíduos utilizou-se um barco e uma canoa com motor de popa. O primeiro ficava ancorado a alguns metros da margem, enquanto as equipes eram transportadas pelo segundo até a praia. Após a coleta, os resíduos foram removidos em sacos de fibra para Manaus e organizados na calçada, conforme cada subárea. A classificação deu-se por materiais, pelo produto que embalagem comportava, volume e o fabricante do produto. A quantificação foi realizada por unidades, pois devido à especificidade da pesquisa o projeto não visa saber o peso, mas a distribuição espacial.
Para a identificação das fontes poluidoras, trabalhou-se com duas hipóteses: a primeira seria a população residente em flutuantes, associada aos freqüentadores dos flutuantes e das praias; a segunda fonte seria a cidade de Manaus e as embarcações que circulam pelo rio.
Portanto, para essa identificação, as técnicas utilizadas foram diferenciadas, pois se trata da ação humana direta e outra indireta utilizando-se de um fenômeno físico natural.
Para a fonte população local e visitantes:

 

- Utilizou-se a aplicação de um questionário, com perguntas que variam de tempo de habitação, finalidade do flutuante, destino do lixo produzido, fluxo de visitantes e freqüência;
- Levantamento de toda a população dos flutuantes;
- Observação das subáreas onde a coleta foi realizada, verificação da reincidência de lixo antes da enchente;
- Observação das áreas próximas aos flutuantes e o comportamento dos seus proprietários em relação ao lixo;
- Classificação do lixo por produtos, pois se trata de um método que permite classificar esse quanto a sua origem em: domiciliar, hospitalar, comercial ou industrial.

 

Para a fonte poluidora Manaus ou embarcações:


Essa fase da metodologia foi realizada no período chuvoso, pois as informações obtidas através de entrevistas e aplicação de questionário, atribuem a quantidade de lixo na área em estudo, às embarcações e à liberação de lixo dos igarapés existentes em Manaus que, em época de chuvas torrenciais ou com a própria enchente a qual avança através dos igarapés, traz consigo o lixo existente nos mesmos.
Para negar ou afirmar essas informações, foram observados os materiais saídos dos igarapés em dias de grandes eventos pluviométricos e o comportamento do lixo. Realizou-se ensaio com objetos flutuadores (dez embalagens de refrigerantes de dois litros "PETE"), lançados no rio Negro. As embalagens foram pintadas de branco, para melhor visualização, e fechadas, já que a maioria das que foram encontradas do outro lado se apresentam com as suas devidas tampas. Posteriormente, foram lançadas em um local de maior correnteza, ou seja, no lado onde se localiza a cidade de Manaus. Nesse ensaio foi observada a possibilidade dos objetos da margem esquerda alcançarem a margem direita do rio Negro transportados pelo vento.
Para melhor identificação da área, os pontos de coleta foram localizados em uma carta que compreende a área de estudo. Também foi realizado levantamento da predominância de vento no local de estudo.Os dados foram tomados do arquivo da Base Aérea de Manaus-Aeroporto de Ponta Pelada. Enfim, os dados coletados foram representados através de gráficos, tabelas, fotografias cromáticas, figuras, planilhas e quadros.

1. A Amazônia, espaços, sistemas e ecossistemas

A Amazônia, por apresentar grande porcentagem da sua área natural conservada, oferece a possibilidade da utilização de diversas belezas naturais, como as cachoeiras, os rios, as paisagens de várzea e a terra firme, para o turismo ecológico e de natureza, ou ainda, utilizá-las para outros fins, mas de forma consciente. Nesse sentido, MENDONÇA (1993:66) enfatiza que "O meio ambiente é visto então como um recurso a ser utilizado e como tal deve ser analisado e protegido, de acordo com suas diferentes condições, numa atitude de respeito, conservação e preservação". Para JOHN (2001:29), "a proteção ambiental deixa de ser uma preocupação de ambientalistas e funcionários de órgãos ambientais, para entrar no mundo dos negócios".
OLIVEIRA (2000:22) destaca que "As relações sociais de produção na Amazônia têm sido produzidas e reproduzidas numa espacialidade concretizada e criada para possibilitar a expansão do capitalismo que avança, fragmentando-a e homogeneizando-a, estabelecendo condições de controle para inseri-la na escala global". Essa observação permite entender que o fato da Amazônia apresentar características em sua maioria natural e peculiaridades regionais, não significa que esteja alienada ao processo global, no qual o capitalismo impõe sua lógica através da formação de uma sociedade consumidora de produtos industrializados.
O Paradigma Sistêmico que procura explicar os sistemas, ecossistemas e geossistemas, fundamenta-se no conceito de que um "Sistema é um conjunto de unidades com relações entre si. Essas unidades possuem propriedades comuns. O conjunto encontra-se organizado em virtude das inter-relações entre as unidades, e o seu grau de organização permite que assuma a função de um todo que é maior do que a soma de suas partes. Cada unidade tem seu estado controlado, condicionado ou dependente do estado das outras unidades" (ALMEIDA; TERTULIANO, 1999:115).
PASSET (1994:23) afirma que a economia é um "sistema aberto", portanto seu desenvolvimento depende do meio que ela esgota e degrada “. Nesse sentido, os sistemas têm a sua classificação, sendo considerados abertos, isolados ou fechados. CARVALHO (1999:43) observa que nos sistemas dinâmicos predominam os sistemas não-lineares, esses trocam energia e matéria com seu ambiente, estando os mesmos sujeitos às modificações.
O ciclo da água é entendido como um sistema, cuja definição é o conjunto de unidades com relações entre si. Pode-se analisar o ciclo da água da seguinte forma: para que haja chuva deve haver evaporação e evapotranspiração; as duas dependem de ambientes favoráveis entre estes; uma rede de drenagem, uma floresta, oceanos ou condições climáticas favoráveis. A água apresenta um ciclo e os rios integrados a esse ciclo formam sistemas e subsistemas, significando que se um desses elementos for afetado existe a possibilidade de todo o sistema ficar comprometido. A falta de água não está relacionada à escassez apenas, mas a qualidade da água para consumo. Desse modo, as atividades humanas têm, ao longo da história, contaminado rios e devastado florestas, principalmente aquelas atividades voltadas ao acúmulo do capital.
Contudo, este trabalho não tem a pretensão de criar um novo mito da "natureza intocada" (DIEGUES, 1999). A existência do homem e a reprodução da sociedade devem ser pensadas em todos os aspectos, e uma maneira de demonstrar isso é conservando aquilo que lhe assegure a permanência neste planeta como forma de vida inteligente.
O ambiente conceitualizado por ARAÚJO (1999:195), apresenta três classificações:
 

- meio ambiente natural - construído pela biosfera, ou seja, o solo, a água, o ar atmosférico, a flora e a fauna. É onde se dá a correlação recíproca entre as espécies e as relações destas com o meio físico que ocupam;
- meio ambiente cultural - integrado pelo patrimônio artístico, histórico,
turístico, paisagístico, arqueológico e espeleológico;
- meio ambiente artificial - formado pelo espaço urbano construído, consubstanciado no conjunto de edificações, e pelos equipamentos públicos: ruas, praças, áreas verdes, e todos os demais assentamentos de reflexos urbanísticos.

 

SACHS (1986:10) conceitua o ambiente como o meio natural; as tecno-estruturas criadas pelo homem e o meio social. "O ambiente é, na realidade, uma dimensão do desenvolvimento; deve, pois ser internalizado em todos os níveis de decisão".
Ao analisar o processo histórico que desencadeou a crise ambiental, observa-se que o desenvolvimento econômico, com suas muitas facetas, tem sido o maior responsável, pois um dos princípios sistêmicos é o da "reciclagem permanente", permitindo que não exista "lixo" na natureza porque todo elemento natural é reaproveitado pelo sistema. Todavia, o tempo da natureza não é igual ao tempo do homem, apesar da água ser um solvente eficiente, os objetos construídos por esse, e neste caso específico, os resíduos sólidos têm um tempo de degradação incoerente com o da natureza.
É incontestável a necessidade da evolução humana, mas essa evolução também solicita uma reflexão, ato no sentido de entender o que é básico e o que é desnecessário. Qual o desenvolvimento que queremos? O desenvolvimento da qualidade de vida ou o desenvolvimento da quantidade de fluxo de capitais _ para poucos - e de produtos industrializados?

2. O que é lixo?

"São os restos das atividades humanas, considerados pelos seus geradores como inúteis, indesejáveis ou descartáveis"¹. O conceito exposto generaliza o lixo, mas de uma forma específica, o lixo pode ser entendido como os resíduos das atividades produtivas, de hábitos, práticas, modos, costumes, usos e consumo de produtos industrializados ou naturais pelas sociedades humanas, e “considerado por seus geradores como inúteis, indesejáveis ou descartáveis”.
LIMA (1991:9), explica que o lixo “resulta da atividade diária do homem em sociedade (...) sua origem e formação estão ligadas a inúmeros fatores, tais como: variações sazonais, condições climáticas, hábitos e costumes, variações na economia etc”. Para JOHN (2001:35) "os resíduos são subprodutos gerados pelos processos econômicos, que incluem atividades extrativistas, produção industrial e de serviços, bem como de consumo, até mesmo de preservação ambiental, como a microssílica e a escória de sinterização de resíduos urbanos, ambos com emprego na construção civil".

2.1 Classificação do lixo
 

Domiciliar: Aquele originado na vida diária das residências, constituído por restos de alimentos (cascas de frutas, verduras, sobras, etc.), produtos deteriorados, jornais e revistas, garrafas, embalagens em geral, papel higiênico, fraldas descartáveis e uma grande diversidade de outros itens. Contém, ainda, alguns resíduos que podem ser tóxicos.
Comercial: Aquele originado nos diversos estabelecimentos comerciais e de serviços, tais como supermercados, estabelecimentos bancários, lojas, bares, restaurantes, etc. O lixo destes locais tem grande quantidade de papel, plástico, embalagens diversas e resíduos de asseio dos funcionários, tais como papel-toalha, papel higiênico, etc. (JARDIM, 1995, P. 29).


Outras classificações: hospitalar, industrial ou público.

Há pesquisadores que sugerem debates nas campanhas ambientais, mais voltados para as práticas de consumo da sociedade, embora essas críticas esbarrem em uma situação delicada que é a do acúmulo de capital. As empresas, em sua maioria, têm o interesse em vender, mas poucas se interessam em saber o destino das embalagens de seus produtos.
Na coleta de setembro/outubro 2001, quando na classificação dos resíduos sólidos foi observado, nas embalagens de produtos descartáveis: bebidas alcóolicas, refrigerantes e águas, a falta de compromisso com o ambiente. Nesse sentido, algumas embalagens apresentam orientação com dizeres: "sem retorno, sem depósito". Se for uma orientação ambiental, é pouco provável, pois se compreende como uma desobrigação dessas empresas, querendo retirar de si as responsabilidades e, em contrapartida, lançá-las sobre seus consumidores. Notou-se que os adesivos soltam-se facilmente, dificultando a identificação do fabricante ou responsável.
Uma sugestão deveria vir das normas ISO 14.000, algo que obrigasse essas empresas a utilizarem, em suas embalagens, selo impresso no vasilhame e que se fizesse cumprir a lei ambiental para quem não se responsabilizasse por seus resíduos.
O lixo urbano é um problema muito sério, considerando que pouquíssimas cidades no Brasil conseguiram encontrar uma solução viável. A incineração gera gases, os depósitos ou aterros devem ser construídos em área apropriada. No entanto, por ser o tratamento do lixo oneroso, há pouco interesse em fazer os investimentos necessários.

3. O rio Negro

O rio Negro corre da direção NW/SE e seu curso longitudinal apresenta características marcantes. Seu alto e médio curso estão encaixados no escudo Guiano, enquanto o baixo curso corre na Bacia sedimentar Amazônica. Apresenta sua foz em forma de leque e tem seu nível de água aumentado no curso inferior nas proximidades de Manaus, em conseqüência do fluxo de água vindo dos Andes e que aumentam o nível de água do Solimões. Devido à diferente distribuição de precipitação pluvial na Amazônia, a enchente desse rio varia em seu curso superior, médio e inferior. Além de se diferenciar pela morfologia de seus leitos e por suas características químicas e biológicas. A existência de vegetação e fauna aquática é caracterizada pela natureza química da água e do solo. O rio Negro apresenta pH elevado por falta de cálcio e magnésio. Em decorrência disso, a fitogeografia também se diferenciará dos rios de águas brancas como o Amazonas, Juruá e Madeira.
Apresenta maior velocidade no seu curso superior, ou seja, a lei da física é quem prevalece, à medida que ele perde declividade, perde velocidade. Antes de passar em Manaus ele aumenta a profundidade e depois se aplaina. Sua velocidade média é de apenas 2 k/h. A teoria da transgressão marinha estabeleceu que há 15 mil anos atrás o mar represou os rios da bacia Amazônica, fenômeno parecido às atuais marés do Atlântico que são sentidas até a cidade de Óbidos/Pa.
Qual a relação que existe entre os dados sobre o rio Negro e o lixo? Muito, pois na realização da coleta nos meses de setembro e outubro/2001, não se percebeu depósitos de lixo na linha entre o rio e a praia, ou seja, na margem. Apenas muito lixo distribuído espacialmente nessa.
Em visita ao local da pesquisa em dezembro/2001 e observações em janeiro/2002, período de enchente e chuvas torrenciais, percebeu-se depósitos de lixo novo juntamente com o já existente que ainda flutuava na água, pois o rio faz um trabalho interessante o qual foi observado na coleta de setembro/2001: o movimento da água e sedimentos argilosos e arenosos preenchem os objetos, tornando-os pesados e estando pesados deixam de ser flutuadores e afundam. Posteriormente, o rio faz o trabalho de soterramento, onde o terreno permite.
As observações quanto ao possível represamento do rio Negro pelo rio Solimões em algum momento da enchente ficará para um estudo posterior, pois esse não é objeto deste trabalho. Todavia, ressalta-se que os ventos no local chegam a formar uma camada superficial nas águas do rio. O fenômeno evidenciou-se pelo motivo de em tempo de vazante o rio não apresentar os depósitos de lixos existentes na enchente. Sabe-se que o processo de produção de lixo é contínuo e os ventos também, mas um outro elemento contribui para que estes alcancem a outra margem, como a velocidade do rio, geomorfologia propícia ou proporcionalidade de produção de lixo. A última fica mais intensa na enchente quando o rio avança.

4. Resultados

Os resultados serão apresentados de acordo com a metodologia e demonstrados por subáreas, pois cada área selecionada vai apresentar uma variável.
Na área existem 95 habitantes, dos quais 42 são crianças. Esse número é referente apenas ao trecho que acompanha a margem do rio na área de estudo. Treze flutuantes residenciais estão localizados em um lago com pessoas simples e humildes, algumas resultantes do processo de expulsão dos Educandos. Um flutuante residencial fica em outro lago. Já em torno dos flutuantes residenciais não foi encontrado lixo.
Na aplicação do questionário, uma das informações obtidas é de que existem seis flutuantes que funcionam como ponto comercial, recebendo de 200 a 1000 visitantes por final de semana. Vale ressaltar que os flutuantes comerciais mudam de lugar e apenas os residenciais ficam no lago Bacuri. Segundo os proprietários de flutuantes, são tomados todos os cuidados com o destino do lixo gerado no local; uns dizem que guardam e trazem para Manaus e queimam ou levam para Iranduba. Nos últimos tempos até evitam comprar produtos descartáveis para não serem responsabilizados pelos órgãos de fiscalização. A população denuncia a falta de assistência médica e o descaso do governo. Atribuem o lixo como advindo de Manaus em épocas de temporais e sentem-se prejudicados com o fenômeno.
Outra parcela de pessoas reclama dos banhistas que levam os seus descartáveis e deixam distribuídos pela orla. Também reclamam da prefeitura de Iranduba que não toma nenhuma providência quanto ao lixo gerado na feira próximo ao porto da balsa. Nesse sentido, o jornal Amazonas em Tempo, acompanhado de funcionários do Instituto Ambiental Amigos da Natureza (IAAN), publicou reportagem em 02 de fevereiro de 2002, denunciando a existência de um lixão localizado na Ponta do Brito.
Através da classificação por produtos que a embalagem comportava, o lixo foi caracterizado como lixo domiciliar/comercial, pois mesmo apresentando uma variedade de resíduos, esses podem ser oriundos tanto de bares como de residências, dado a situação em estudo. Ressaltando que houve a ocorrência de lixo hospitalar, mesmo em pequena quantidade.
Na primeira subárea, o total de resíduos encontrados divididos pelo tamanho espacial, resultou em 0,06 objetos por m2. Percebeu-se que os vasilhames de refrigerantes têm presença predominante assim como os combustíveis, mas a quantidade de lixo domiciliar é relevante. Foram classificados como alimentos sólidos, o feijão, o arroz, o frango e outros. O refrigerante é um alimento líquido, mas pela presença expressiva, assim como outros produtos, foram destacados. Os produtos de higiene foram considerados: os cremes de higiene bucal, condicionador, shampoo e cremes diversos. Os produtos classificados como “outros” são produtos variados, os quais estão associados ao uso doméstico.
A primeira e a segunda subárea estão localizadas nas proximidades do igarapé de Educandos. Nessas subáreas a presença de lixo domiciliar foi acentuada. Observou-se que em todas as 05 subáreas selecionadas, a presença de plástico foi superior, dando uma característica própria ao lixo dessa área.
A subárea 2 apresentou um total de 447 objetos, ou seja, 0,11 objetos por m2 . Na terceira subárea obteve-se 539, na quarta 548 objetos. A quarta e a quinta subáreas apresentam afloramentos de arenito, o que dificulta a deposição do lixo e oferece uma beleza cênica ao local.
Alguns barracos de lona exemplificam a realidade da subárea 5. Pessoas trabalhando na pedreira em condições precárias são um testemunho vivo do que ocorre ali a cada período de vazante. É nessa subárea que funciona uma das feiras de Iranduba. Segundo reportagem do Jornal Amazonas em Tempo de 02/02/2002, na estiagem o proprietário aluga o local para os feirantes. Ao começar a enchente, esses se deslocam, deixando o lixo acumulado. Na enchente esse lixo é alcançado pelas águas.
Foi necessário destacar alguns produtos como, por exemplo, a presença do “Tampico”, reflexo das intensas campanhas de consumo. Esse produto se apresenta na quinta área na primeira coleta, enquanto que nas outras quatro subáreas sua presença só se intensifica na segunda fase, pois essas subáreas não têm o mesmo fluxo de pessoas. O lixo coletado nessa área era novo, estava enxuto e bem conservado e alguns, pareciam produzidos no último final de semana anterior à coleta. Quantificou-se na quinta subárea um total de 1.766 objetos, que representam 0,44 objetos por m2.
Na classificação dos resíduos encontrou-se grande dificuldade na identificação dos produtos, marcas e fabricantes, pois os adesivos que trazem essas informações soltam-se com facilidade das embalagens. A quantificação geral dos resíduos resultou em 7.129 objetos. Na primeira coleta foram quantificados 3549 e na segunda 3580. Pela concentração de resíduos apresentados foi necessária a redução das subáreas e a supressão de uma delas.
Conforme observação, pode-se concluir que muito lixo chega até o rio Negro. Um dos elementos que foi identificado é a presença da vegetação Canarana na frente da cidade de Manaus. Essa não é encontrada nas praias arenosas com facilidade, mas em lagos e igarapés, significando assim que o lixo observado na feira da Manaus Moderna deslocou-se de outro lugar, assim como notam-se resíduos antigos e recentes juntamente com essa.
O teste com objetos flutuadores foi realizado no dia 13/06/2002 com ventos calmos, direção Nordeste. Esse indicou que 30% dos objetos lançados no rio com possibilidade de flutuação podem chegar ao outro lado da margem. Para esse estudo foi coletadas informações do aeroporto de Ponta Pelada, pois este se localiza próximo à área de pesquisa. Sua pista foi construída na direção predominante de ventos para facilitar as decolagens dos aviões.
No ano/2000, de 12 predominâncias de ventos, 5 compreendem os quadrantes Leste e Nordeste. No ano 2001 de 12 predominâncias, 7 foram direcionadas à área de estudo.

Conclusão e consideração

Este trabalho procurou seguir os critérios e objetivos propostos inicialmente. Todavia ressalta-se que um estudo dessa natureza não se apresenta com a simplicidade esperada de um principiante nas ciências. A ciência não pode ser pensada de forma estática porque os fenômenos não são; sejam eles naturais ou provocados pelo homem. O que era ontem não é hoje, apenas tentamos registrar os momentos para que não se perca a sua trajetória e que esta fique registrada para os estudos futuros.
As aplicações de questionário socioeconômico demonstraram que 95% da população residente em flutuantes é composta de pessoas humildes que não tem poder aquisitivo para consumir os produtos identificados na área de estudo.
Os flutuantes comerciais recebem um fluxo diário de pessoas advindas de Manaus nos finais de semana. Esse fluxo gira em torno de 200 a 1000 pessoas, o que passa a ser significativo, porém os proprietários informam que não utilizam produtos descartáveis e, quando o fazem, queimam ou levam para Manaus. Essas atividades necessitam de um acompanhamento das autoridades, sociedade, do IPAAM – Instituto de proteção Ambiental do Amazonas e ONG'S. Parece haver uma tendência para o aumento de flutuantes comerciais naquela área. Os proprietários alegam que a cada vazante é realizado mutirão para a limpeza nas praias, mas existe um fluxo considerável de pessoas que freqüentam aquela área, principalmente amantes da pesca esportiva, que também levam seus próprios descartáveis.
Foi observado que essa área é utilizada para acampamentos, esses deixam seus resíduos no local, pois não há uma fiscalização para tal. Por sua complexidade este trabalho necessita de um monitoramento por um prazo mais longo e com recursos financeiros disponíveis para que se atinjam melhores resultados. Sugere-se um estudo da velocidade do rio Negro durante um ano ou mais, para avaliar seu comportamento quanto à sua velocidade e direção dos fluxos de suas águas influenciados pela geomorfologia do canal. Um outro estudo interessante é o de datação de solo e estratificação. Esse estudo possibilitaria avaliar a quanto tempo este fenômeno vem ocorrendo. Seriam selecionadas algumas áreas de deposição e perfuradas para pesquisa.
Em Manaus observou-se que a composição do lixo da área de estudo era a mesma que se encontra na frente de Manaus, conforme reportagem do jornal Amazonas em Tempo 28/03/2002, na qual o diretor da DEMULP – Departamento Municipal de Limpeza Pública, admite a incapacidade desse órgão para retirar todo o lixo produzido e lançado nos igarapés de Manaus. Informa que desde o início de 2002 são retiradas de 70 a 80 toneladas de lixo diariamente dos igarapés. Mesmo admitindo a incapacidade do órgão, acredita que a cada tempestade, as equipes conseguem impedir que os resíduos alcancem o rio, que segundo ele não são produzidos apenas no local. Em outro trecho da reportagem admite a retirada de 300 toneladas de lixo apenas dos estaleiros e fala de poluição na orla do Educandos e São Raimundo.Nesse sentido, sugere-se que a limpeza nos igarapés e nas praias seja realizada em tempo de estiagem ou pode ser feito na medida em que o rio enche, e não quando o rio está cheio.
Os ensaios realizados com objetos flutuadores confirmam a possibilidade de 30% dos mesmos atingirem a margem oposta levados por ventos favoráveis, sendo que a predominância de ventos Leste e Nordeste no local são direcionadas à área de estudo.
A cada enchente materiais novos são levados para a margem oposta. Apenas uma parcela fica soterrada ou espalhada no local durante a estiagem. O restante segue o curso natural do rio. Isso foi evidenciado nas primeiras coletas realizadas nos meses de setembro/outubro-2001, quando foram coletados 3.549 objetos em 20.000m2, enquanto na enchente no mês de janeiro/2002 foram quantificados 3.580 objetos em uma área de 4.000m2, um aumento de 70%.
Após os estudos de ventos, entrevistas com populares e observações em campo, concluiu-se que a principal fonte poluidora é a cidade de Manaus, não desprezando os usuários das praias e flutuantes nem tampouco as embarcações. Para o caso das embarcações, sugere-se um acompanhamento da Capitania dos Portos e da SEDEMA – Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente aos proprietários. Esse último órgão poderia promover reuniões educativas, não apenas orientando quanto à utilização do cesto coletor dentro da embarcação, mas que oriente os proprietários, a cada viagem, avisar aos usuários sobre a disposição de um depósito para lixo, dentro do barco e das implicações ambientais de jogar lixo no rio. Nesse aspecto foi observado que as embarcações muitas vezes coletam os resíduos em sacos, mas posteriormente jogam-nos nos rios.
Por apresentar características de resíduos produzidos em estabelecimentos comerciais e domiciliares, os resíduos foram classificados em domiciliar e comercial, mas ressalta-se a identificação dos objetos de uso hospitalar, assim como uma embalagem de “tonner” para máquina copiadora. O material predominante foi o plástico com 84%. Isso caracteriza esse lixo como leve com possibilidade de flutuação. Quanto à classificação de produtos por embalagem, chegou-se a identificação que os produtos mais utilizados são os refrigerantes, contribuindo com 22,7%.
Finalmente, a situação exige uma ação urgente por parte dos órgãos responsáveis, tanto da Prefeitura de Manaus quanto da Prefeitura de Iranduba, bem como da Capitania dos Portos, que ambas promovam a coleta seletiva eficiente e campanhas educacionais, principalmente a televisiva, já que esta é o veículo de comunicação com maior abrangência social. Através do rádio, para atingir as pessoas que se utilizam embarcações, e campanhas intensas nas escolas que mobilizem a sociedade. Os recursos podem ser oriundos das empresas, aqui identificadas, em forma de um acordo que pode ser realizado através do Ministério Público/Proteção e Defesa do Meio Ambiente e do Cidadão. Salienta-se que após o início desta pesquisa e divulgação por meio da mídia, algumas iniciativas foram tomadas, inclusive, o Governador do Estado do Amazonas pretende investir 60 milhões mais 140 do BID como parte do projeto decemal no qual está inserido o saneamento e recuperação de 30k de igarapés da bacia do Educandos.
 


Bibliografia

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* Projeto de iniciação científica premiado como melhor projeto de 2001/2002 na área das ciências humanas, financiado pela Universidade Federal do Amazonas e CNPq

 

¹ (IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de S. Paulo, 1995:23)