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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

LAGOA INTERLAGOS: QUALIDADE AMBIENTAL E ADENSAMENTO URBANO



Maria Ivete Soares de Almeida1
Iara Soares de França2
Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES



Centro de Ciências Humanas - CCH



Palavras Chaves: adensamento urbano, degradação ambiental e planejamento urbano.
Eixo: 3. Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo: 3.4. Aplicações Temáticas em Estudos de Casos
 





Introdução

O presente artigo procura analisar os problemas ambientais no âmbito das cidades, decorrentes do acelerado crescimento e adensamento demográfico, experimentados, sobretudo, a partir do processo moderno de industrialização.
Tais problemas ambientais têm como principais conseqüências: i) o desaparecimento de nascentes que se localizam em sistemas urbanos, a ocupação das áreas de mananciais, colocando em risco o abastecimento de água nas cidades; ii) quando tais áreas configuram espaços turísticos, acarretam efeitos sócio-econômicos negativos para a população e o comércio locais.
O texto está dividido em duas partes: na primeira, procura-se abordar o surgimento e protagonismo da temática ambiental; depois, centra-se a atenção nas questões ambientais derivadas da pressão urbana sob os ecossistemas e suas possíveis conseqüências.

O meio ambiente em cena

O meio ambiente é entendido como o entorno do homem, o palco de suas ações. Para Guerra (2001), o termo refere-se ao meio natural caracterizado pelos diversos elementos físicos e bióticos. Dessa forma o ambiente envolve todos os elementos que o cerca, nele se desenvolve toda vida vegetal e animal, inclusive o homem que com o limiar da industrialização, da urbanização e também da globalização vem intensificando cada vez mais sua ação sobre esse meio.
Segundo Casseti (1991 apud Cunha & Guerra )
 

“ é através da transformação da primeira natureza em segunda natureza que o homem produz os recursos indispensáveis à sua existência ,momento em que se naturaliza incorporando em seu dia a dia os recursos da natureza, ao mesmo tempo em que socializa a natureza”.
 

A transformação da primeira natureza em segunda significa para o referido autor, a modificação das condições originais ou primitivas do ambiente pelo homem. O processo histórico da ocupação desse espaço, bem como suas transformações, em uma determinada época e sociedade, fazem com que esse meio ambiente tenha um caráter dinâmico.
O termo ambiente ganhou maior projeção nos últimos 30 anos, em virtude da crise ecológica planetária a qual passa a humanidade desencandeada sobretudo pela ação antrópica.
A década de 1960 marca a emergência de uma série de movimentos sociais, dentre os quais, o ecológico. A preocupação com o meio ambiente surge também em igual período, como conseqüência do desordenado desenvolvimento industrial, da poluição e do crescimento da sociedade de consumo.

Podemos, conforme Ross (2000), de forma sintética indicar as causas genéricas que levaram a aceleração da degradação ambiental a partir dos anos 60:
• As teorias econômicas dos anos 50 que preconizavam a maximização do benefício monetário, sem a preocupação com a renovação dos recursos.
• O predomínio do interesse privado de curto prazo sobre o interesse público de longo prazo.
• A planificação e a gestão fragmentária e setorial dos recursos naturais sem ter em conta suas interações com todos os níveis: ecológico, social e econômico.
• A não inclusão do homem no ecossistema.
No Brasil é na década de 1970 que emerge o movimento ecológico, momento específico de ditadura militar, com caráter setorial e quase restrito aos meios científicos. É no fim da década de 1970 com a anistia que voltam ao Brasil diversos exilados políticos que vivenciaram os movimentos ambientalistas europeus, e que vão impulsionar o movimento ecológico brasileiro. Nesse período, os ambientalistas eram taxados pelas elites econômicas como românticos e contra a concepção de progresso e desenvolvimento. (Gonçalves,1989)
Os movimentos sociais em torno do ambientalismo nascem nas cidades, mesmo que muitas vezes com preocupações externa a elas, sobretudo nas universidades preocupados com problemas relacionados principalmente com a poluição das águas e do ar.
A percepção dos efeitos globais dos grandes desmatamentos, da queima excessiva de combustíveis fósseis, do crescimento demográfico, do efeito estufa, do buraco na camada de ozônio e outros, começou a motivar a opinião pública e os governos a realizarem conferências, debates, reuniões e outros eventos para tratar da questão ambiental então emergente.
Em 1971 ocorre em Founex o encontro preparatório da Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano que se deu em 1972, sendo considerada o marco inicial dessa discussão (Mazzetto Silva, 1999). Segundo Mazzetto Silva , a Conferência de Estocolmo tinha como principal questão “encontrar meios para conter a poluição nas suas diversas formas” (Ibid, p.02). Pela primeira vez países se reuniam para discutir problemas que afetam o meio ambiente e as suas possíveis soluções.
A mundialização da questão ambiental teve início com a 1ª Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, realizada em Estocolmo, em 1972, movida pela degradação ambiental em todo o mundo (países desenvolvidos e subdesenvolvidos) que se refletia em uma poluição industrial, exploração de recursos naturais, deterioração das condições ambientais. Problemas como efeito estufa e aquecimento global, chuva ácida e aparecimento de buracos na camada de ozônio são efeitos do processo de industrialização e da vida urbano industrial experimentada pela maioria das pessoas. (Guerra & Cunha, 2000)
Ainda em 1972, é publicado o relatório Os Limites do Crescimento, pelo chamado Clube de Roma, onde se apontam os “limites físicos planetários para o prosseguimento da marcha acumulativa da contaminação, da exploração dos recursos e do crescimento demográfico” (Mazzetto Silva, 1999:03)
Em 1992 acontece no Rio de Janeiro/RJ a Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, conhecida com ECO-92, que torna-se um marco na história do movimento ambientalista no Brasil. A partir de então, a temática do meio ambiente e do desenvolvimento entra na agenda ou pelo menos no discurso político, acadêmico e social, reafirmando que a problemática ecológica implica outros valores, de ordem cultural, filosófica e política.
A Agenda 21, é considerado o mais importante documento produzido pela ECO-92. De acordo com Pereira (1999), tal documento, constitui-se, na verdade, um plano de ação contendo princípios e recomendações para alcançar o desenvolvimento sustentável.
É a partir de então, que se verifica uma expansão de organizações da sociedade civil voltadas para a questão ambiental. O meio ambiente é hoje sem dúvida uma das grandes preocupações de pesquisadores, estudiosos, políticos, empresas e de grande parte da sociedade civil.
A pressão urbana sob os ecossistemas
Desde a revolução industrial no século XVIII que as cidades ganharam fundamental importância sobretudo durante o capitalismo industrial, por serem o centro de poder político e econômico. Daí a confirmação e ou a veracidade do fato desse fenômeno (a industrialização) desde os seus primórdios ter surgido e se caracterizado como essencialmente urbano. É no desempenhar das suas várias funções urbanas quer seja políticas administrativas, religiosas, militares, turísticas e históricas que as cidades vêm se modificando, crescendo e se impondo graças a sua superioridade produtiva, diversificação de atividades, fluxos de pessoas, capitais, informações, mercadorias e serviços.
Em relação ao estágio atual do desenvolvimento capitalista, pode-se observar que o crescimento das cidades se deu de maneira acelerada e desordenada e trouxe conseqüências diversas tanto para o próprio ambiente urbano como para os seus moradores; conseqüências essas resultantes da falta de planejamento com a qual cresceram e do acelerado crescimento demográfico verificado nas últimas décadas tanto em países desenvolvidos como em países subdesenvolvidos.
Na maioria das cidades do Brasil o padrão de crescimento não obedeceu quase nenhum planejamento com a pouca interferência do poder público, somando-se a isso a especulação imobiliária. (Silva, 1991)
Essa situação gerou a abertura de loteamentos na periferia das cidades abrigando uma população de baixa renda que já não consegue pagar o aluguel em áreas próximas aos grandes centros urbanos. A abertura de novos bairros se deu sem planejamento, com projetos urbanísticos e técnicas de remoção da vegetação original e movimentação de terra muitas vezes inadequada.
Pode se observar que em conseqüência dessas práticas, o solo tem sido ocupado de diversas formas: áreas de mananciais colocando em risco o abastecimento das cidades, ocupação em áreas de várzeas ocasionando enchentes e inundações além de propiciar a ocorrência de doenças infecto-contagiosas. Já os fundos de vales, córregos e rios das cidades funcionam como verdadeiros escoadouros naturais de dejetos domiciliares e industrias gerando incômodo, mal cheiro e insalubridade. Os fundos de vales funcionam ainda como uma alternativa barata e portanto viável para resolver o problema de circulação e tráfico implicando na criação de novos eixos viários. (Silva, 1991)
As áreas verdes que possuem função climática e ambiental à medida que amenizam a temperatura, reduzindo os impactos do fenômeno “Ilha de Calor” 3 são cada vez mais raras nas cidades. Elas contribuem para a manutenção do ciclo hidrológico; ao retirar carbono e disponibilizar oxigênio contribuem para a melhoria da qualidade do ar. Além disso, podem proporcionar área de lazer melhorando a qualidade de vida da população, tornando as cidades mais bonitas e agradáveis. Há que se ressaltar que o ambiente urbano já não conta mais com muitas áreas verdes que foram gradualmente substituídas por edifícios, lojas e pavimentação asfáltica.
Podemos, conforme Ross (2000), de forma sintética indicar as causas genéricas que levaram a aceleração da degradação ambiental a partir dos anos 60:
• As teorias econômicas dos anos 50 que preconizavam a maximização do benefício monetário, sem a preocupação com a renovação dos recursos.
• O predomínio do interesse privado de curto prazo sobre o interesse público de longo prazo.
• A planificação e a gestão fragmentária e setorial dos recursos naturais sem ter em conta suas interações com todos os níveis: ecológico, social e econômico.
Silva (1991), sugere que os problemas ambientais urbanos derivam, principalmente, de:
• A não inclusão do homem no ecossistema.
• industrialização seguida da urbanização (crescimento populacional e urbano acelerados)
• crescimento populacional acelerado acarretando maior pressão sobre os recursos naturais intensificando a degradação ambiental;. desmatamentos, queimadas, erosão do solo, ocupação desordenada do solo;
• falta de infra-estrutura: saneamento básico, esgoto, moradia, abastecimento de água, limpeza pública e coleta de lixo;
• problema de habitação: centenas de aglomerações habitacionais marginais, favelas abrigam a população de baixa renda;
• intensa poluição decorrente da queima de combustíveis fósseis pela crescente industrialização e pelo uso de veículos motorizados;
• insuficiência de políticas eficazes de controle ambiental.
Cunha & Guerra (1998:424) ressaltam que:


“...as áreas urbanizadas não são apenas receptoras ou vítimas dos azares naturais. Há também que se analisar os impactos do meio ambiente ocasionados pela urbanização, considerando as transformações provocadas nos ecossistemas e geossistemas, diretamente, pela construção de áreas urbanizadas, e indiretamente, pela sua ação de influência e de relações . Pode-se também incluir o lançamento de materiais e os fluxos de energia provindos das atividades de transformações em áreas urbanas, ocasionando possíveis mudanças na intensidade dos fluxos e nos aspectos do cenário do meio ambiente. Enquadra-se na perspectiva que analisa a interação dos componentes do meio ambiente com a sociedade, como unidade integrativa”.


As principais conseqüências registradas decorrentes deste processo são: as grandes conglomerações urbanas, a poluição do ar, o problema do lixo, desmatamentos, ocupação desordenada do solo, queimadas, erosão do solo, a morte de nascentes que se localizavam em sistema urbanos, assoreamentos e diversos tipos de erosão (águas),inversão térmica, ilhas de calor, efeito estufa, chuvas ácidas, buraco na camada de ozônio, lixos. Essas são algumas das séries de desequilíbrios que os sistemas urbanos experimentam atualmente, muitos deles ocorrem em escala local, ou seja, no âmbito da própria cidade, outros em escala regional e global, ou seja, extrapolando os limites das cidades.
O crescimento populacional e a pressão ambiental derivada, fizeram-se sentir e, trouxe à tona a necessidade de um desenvolvimento que não conduza à exaustão dos recursos naturais, nem degrade perigosamente os sistemas de manutenção da vida. (Cunha & Guerra, 2002).
Os problemas ambientais acima citados referem-se principalmente a forma de ocupação das áreas urbanas muitas vezes inadequadas resultando em problemas ambientais de várias proporções. Tais problemas poderiam ser amenizados se houvesse um planejamento que proporcionasse uma ocupação racional do território.

O caso da Lagoa Interlagos em Montes Claros/MG

As cidades podem ser pensadas como um ecossistema, na medida em que ela consome matéria e energia gerando subprodutos- resíduos sólidos (lixo), líquidos (esgotos), gasosos (fumaças e gases) e o mais grave problema; ela não recicla nada. No entanto há a retroalimentação.
Conforme Cunha & Guerra (2002:234), o planejamento urbano deve incluir os seguintes aspectos:


“a proteção das vidas humanas e propriedades; proteção da qualidade e reservas de água; proteção da vida selvagem e dos ecossistemas; cuidado com o acesso às áreas mais frágeis e gerenciamento das áreas de lazer dentro de uma perspectiva de sustentabilidade do sítio a ser preservado”.


A Lagoa Interlagos é semi-artificial, construída no final da década de 1970, a partir do alargamento de parte do leito do córrego Melancias, localiza-se na região do Bairro Esplanada, zona norte de Montes Claros/MG. É considerada um espaço turístico da região do bairro Esplanada, servindo de atrativo comercial onde estão instalados grandes bares e restaurantes, que tem provocado uma dinamização da economia da região norte da cidade.
Este espaço criado para ser área de lazer e de comércio nos faz questionar que efeitos sócio-econômicos poderão estar ocorrendo já que se percebe a degradação da Lagoa, e se esta degradação poderá comprometer a sua perenidade ou mesmo provocar a sua morte? Ao mesmo tempo nesta área percebe-se um custo social e ecológico onde a degradação ocorre envolvendo pessoas e ambientes causando desequilíbrios ecológicos.
Assim cabe indagar como a pressão demográfica a partir da expansão da periferia da cidade de Montes Claros/MG impacta ambientalmente a Lagoa Interlagos. Os loteamentos seguem que planejamento territorial? Como as nascentes são tratadas dentro do planejamento do uso do solo? Que efeitos sócio-econômicos podem derivar desse processo?
Pode-se observar que a poluição das águas da Lagoa é decorrente de depósitos de esgoto doméstico e de efluentes industriais. Como conseqüência, ocorre o assoreamento pela deposição de sedimentos diversos (carreamento de terras, lixo), muitas vezes trazidos pelo escoamento superficial no período das chuvas.
Dessa forma é possível reconhecer que a degradação ambiental tem suas causas e conseqüências sociais, ou seja, o problema não é apenas físico e por definição um problema social.


Referências Bibliográficas

CUNHA, Sandra B. & GUERRA. Avaliação e Perícia Ambiental. 3a ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
___________. Geomorfologia e Meio Ambiente. 3a ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
___________. Geomorfologia: uma atualização de bases e conceitos. 3a ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
GONÇALVES, Carlos Walter P. Os (Des)Caminhos do Meio Ambiente. São Paulo: Contexto, 1989.
MAZZETTO SILVA, Carlos E.. Desenvolvimento e Sustentabilidade Nos Cerrados: o caso do sertão norte-mineiro. In Encontro Nacional da Rede Cerrado, Montes Claros/MG: 1999.
PEREIRA, Anete Marília. Globalização e Meio Ambiente: o caso do Mercosul. Belo Horizonte: IGC/UFMG, 1999 (Dissertação de Mestrado)
PEREIRA JÚNIOR, José de S. Globalização e Meio Ambiente. Texto disponível da internet: Erro! Indicador não definido., em 10/08/1998.
ROSS, Jurandyr L. S. (Org.) Geografia do Brasil. 3a ed. São Paulo: Edusp, 2000.
SILVA, Luis Octávio da. A Organização do Espaço Construído e Qualidade Ambiental. São Paulo, Pólis, 1991.