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X SIMPÓSIO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA

 

 

 

 

ASPECTOS FISIOGRÁFICOS DO SEMI-ÁRIDO BAIANO: EXEMPLO DO DISTRITO DE JAGUARA, FEIRA DE SANTANA
 

 

 


Marilda Santos-Pinto 1;

Jane Claúdia Teixeira França 2;

 Angela Cardoso Souza 2;

Maria José Marinho Rego 3.
 

 


1. Departamento de Ciências Exatas

UEFS - Campus Universitário Feira de Santana - BA
2. Programa de iniciação científica PROBIC-UEFS, Licenciatura em Geografia – UEFS

3. Departamento de Geoquímica, Instituto de Geociências – UFBA



 


Palavras-chave: Feira de Santana, meio físico, semi-árido
Eixo 3: Aplicação da Geografia Física à Pesquisa
Sub-eixo 3.4: Aplicações temáticas em estudos de caso






INTRODUÇÃO

 
A caracterização do meio físico de uma região é uma ferramenta importante para a gestão, de modo sustentável, de seus recursos naturais respeitando as fragilidade de cada ambiente e as necessidades de seus habitantes. Baseado neste princípio, o clima, a hidrografia, a vegetação, a fauna, o relevo e os solos do distrito de Jaguara, situado na parte noroeste do município de Feira de Santana, a porta de entrada do semi-árido baiano, serão estudados.
Com uma área aproximada de 344 Km2, o distrito de Jaguara limita-se à norte com os municípios de Tanquinho e Candeal, à oeste e sudoeste com o município de Anguera, à leste com o distrito de Maria Quitéria e ao sul com o distrito de Governador João Durval Carneiro. O acesso, a partir de Feira de Santana, é feito pela BR-116 sul em direção à estrada do Feijão, BA-052. Depois de se trafegar 12,7 km por esta última, dobra-se à direita numa estrada de terra que vai cortar todo o distrito longitudinalmente (fig.1). A sede, Jaguara, encontra-se a 11 quilômetros, às margens do Rio Jacuípe. Outros povoados importantes são Barra, Sete Portas, Lagoa d’água e Rio do Peixe, ao norte, e Morrinhos ao sul. O distrito é banhado pêlos rios perenes Jacuípe e do Peixe e vários tributários intermitentes que, devido a irregularidade do regime de chuvas, passam a maior parte do tempo secos.
 


METODOLOGIA


As bases cartográficas utilizadas para o desenvolvimento desta pesquisa foram o Mapa de Feira de Santana e seus Distritos (IBGE 2000), as cartas topográficas de Santo Estevão (Folha SD-24-V-BIII) e Serrinha (Folha SC-24-Y-D-VI), escala 1: 100 000 (SUDENE, 1977), e fotografias aéreas na escala 1:60 000. Para o estudo do clima, foram utilizados dados da estação meteorológica de Jaguara (1964-1983). Um questionário, aplicado junto a 20 famílias em fazendas, povoados e em Jaguara, forneceu informações sobre a fauna e flora (Souza & França, 2002) que acrescidos àqueles visualizados e aos fornecidos pelo herbáreo da Universidade Estadual de Feira Santana (UEFS), permitiram caracterizar a vegetação da área. A identificação dos tipos de solos foi baseada na descrição física de perfis pedológicos em barrancos de estrada e trincheiras além de tradagens com profundidade de até 150 cm. A descrição das classes de solos identificadas no distrito foi realizada seguindo critérios estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Ciência do Solo contidos em Lemos & Santos (1996). A distinção das diversas classes de solos foi baseada em Oliveira et al (1992) e EMBRAPA (1999).
 

Figura 1 – Mapa de localização e acesso ao distrito de Jaguara no município de Feira de Santana, BA.


Embora o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos esteja estruturado até o 4º nível categórico, devido a ausência de dados físico-químicos referentes aos perfis pedológicos estudados, as classes foram designadas no 1º e 2º nível e, quando possível, no 4ºtambém.


CLIMA


De acordo com os dados meteorológicos da estação de Jaguara (latitude 12º 07’, longitude 39º 07’, altitude 190m) para o período 1964-1983 (SEI, 1999), apresentados no quadro 1, o clima do distrito é tipo Dd A' a' (semi-árido) na classificação de Thornthwaite & Matter. O período mais chuvoso ocorre nos meses de janeiro à março com precipitação entre 84,9 e 95,6 mm. A precipitação média anual foi de 822,8 mm, tendo os meses de agosto, setembro e outubro seus menores índices (38,7 à 47,0 mm). Essa distribuição gera deficiência hídrica em todos os meses do ano. A temperatura média anual foi de 24,7°C, com máxima de 26,5°C e mínima de 22,0°C.


BACIA HIDROGRÁFICA


O distrito de Jaguara está inserido na bacia do Rio Paraguaçu. Na área de estudo, o principal rio perene é o Jacuípe que corta todo o distrito. Ao norte, destaca-se ainda o Rio do Peixe.
 

Quadro 1 - Balanço hídrico mensal e anual. Município: Feira de Santana. Estação Jaguara.
Período: 1964 - 1983.
Altitude: 190 m. Latitude: 12º 07'. Longitude: 39º 07'. CAC: 50mm


T-Temperatura, EP-Evapotranspiração, P-Precipitação, ARM-Armazenamento,

ER-Evapotraspiração Real, EXC- Excedente, Índ. Arid- Índice de Aridez,

Ind. Umid – Ind. Índice de Umidade, Ind. Hid- Índice Hídrico.
Tipol. Climática: Koppen - Am; Thornthwaite e Mather - Dd A' a' (semi-árido)



Os outros rios existentes são de caráter intermitente. Eles apresentam-se com canais bastante retilíneos, com direção preferencial NW-SE, fazendo com que a rede de drenagem adquira um padrão retangular que é mais expressivo ao norte de Jaguara. O leito ora se apresenta rochoso, principalmente na entrada de Jaguara, ou, então, inconsolidado com a formação de bancos ou barras de sedimento, lugar onde a população faz a retirada de areia para uso na construção civil (Silva et al., 1999; Barbosa, 2000). O controle geológico estrutural é expressivo o que lhes permite de serem classificados como rios subsequentes.



GEOMORFOLOGIA


Os compartimentos regionais do relevo representados no distrito são o das Depressões Periféricas e Interplanálticas e o dos Planaltos Pré-litorâneos (CEPLAB, 1980). Localmente, considerando o Rio Jacuípe, na altura da cidade de Jaguara, como limite, duas zonas podem ser consideradas: norte e sul. Ao norte, o relevo apresenta-se suave ondulado, com cotas entre 160 e 200m, a forte ondulado pela presença de morros testemunhos agrupados (Serra Olhos d´água, Serra da Queimadinha e Serra da Passagem) com cotas que variam de 436 a 544m e que se alinham na direção NW/SE, de forma paralela as drenagens, evidenciando um forte controle geológico. Ao sul, o relevo é suavemente ondulado com cotas médias de 160 metros. No limite sudeste, pela presença do início da Serra de São José, o relevo passa a ser ondulado com cotas de 240 a 369m.


FLORA E FAUNA


O inventário da flora no distrito de Jaguara realizado através de entrevistas e visualização, juntamente com dados do herbário da Universidade Estadual de Feira de Santana, conforme as classificações do RADAMBRASIL (1981), indicam que as espécies vegetais encontradas são compatíveis com os domínios de Floresta Estacional Decidual e Estepe (caatinga) (Souza & França, 2002). Os representantes do primeiro domínio são: amargoso (Aspidosperma aff), aroeira (Astronium urunduva), angico (Piptadenia), calumbi (Mimosa Hostillis), barriguda (Cavanillisia sp), umburana-de-cambão (Busera leplophleos), caatinga-de-porco (Caesalpinia pyramidalis), incó (Capparis yco), pau-roxo (Peltogyne sp), tingui (Picramnia sp), barauna (Shinopsis brasiliensis), pau-d’arco (Tabebuia chrystriche), cajazeira (Spondias lutea), itapicurú (Goniorrha chis marginata), quixabeira (Bromélia sartoum). Como representante da vegetação do tipo Estepe as espécies encontradas são: gravatá (Honhen-bergia aff. Catingae), licorizeiro (Syagrus coronata), mandacaru (Cereus jamacaru), palmatória-de-espinho (Opuntia palmadora), umbuzeiro (Spondias tuberosa), calumbi (Mimosa Hostillis), mulungu (Erythrina velutina), pau-ferro (caesalpina ferrea), velame (Croton campestris), quixabeira (bromélia sartoum), carrancudo (Poecilanthe ulei), cansanção (Cnidoscolus urens) e jurema (Mimosa melacocentra).
Os animais mencionados pelos moradores foram: gavião, garça, rolinha, urubu, marreca, canário, periquito, papagaio, jacú, pássaro-preto, bem-te-vi, sofrer, cardeal, quero-quero, pomba, coleiro, coelho, preá, raposa, tatú, cachorro-do-mato, mocó, sussuarana (citada pela população, mas nunca vista pessoalmente), veado, sariguê, rato, gambá, camaleão, calango, teiú e as cobras jibóia, cascavél, papa-pinto, cainana, jaracuçú, cobra verde e coral.
A ação antrópica, através de queimadas, desmatamentos e destoca da vegetação rasteira para a formação de pastagens para a criação de gado e o preparo do solo para a agricultura de subsistência, é responsável pela destruição da vegetação primária e, em conseqüência, a diminuição da ocorrência de diversos animais que têm seus habitats destruídos a exemplo do veado, tatu e cachorro do mato.


SOLOS


No Mapa Exploratório de Solos do Projeto Radambrasil (1981), Folha SD-24 Salvador, escala 1: 1 000 000, na região do Distrito do Jaguara estão representadas as seguintes classes de solos:
• Planossolo Solódico eutrófico Ta A moderado, textura arenosa e média no horizonte A e média e argilosa no horizonte B + Bruno não cálcico: A moderado textura média/argilosa, relevo plano e suave ondulado (Pse7)
• Solos litólicos eutróficos – A fraco e moderado, textura arenosa e média, relevo forte ondulado e montanhoso + afloramentos de rochas (Re6)
No Mapa Pedogeoquímico do Estado da Bahia (1986), de mesma escala, o distrito está inserido nos seguintes domínios:
1- Domínio sem evolução pedogeoquímica característica: afloramentos rochosos e litossolos distróficos ou eutróficos com grau de alteração nulo ou incipiente
2- Domínio pedo-geoquímico: III (V>70%), com presença de caolinita-esmectita (Ilita/vermiculita). As classes de solo citadas como pertencentes a este domínio e que são concordantes com o mapeamento do Projeto Radambrasil e observações de campo são: cambissolo eutrófico, solonetz solodizado, planossolo solódico eutrófico, vertissolo, bruno não cálcico.
Rego (1998, 1999) agrupou os solos da região de Feira de Santana conforme a sua ocorrência sobre os tabuleiros ou embasamento cristalino. Para as áreas do embasamento foram citados os bruno não cálcicos, cambissolos eutróficos, litólicos e litossolos.
O mapeamento preliminar dos solos do distrito de Jaguara na escala 1: 50 000 (Santos Pinto, 2002), indicou a presença dos seguintes tipos de solo:

PLANOSSOLO HÁPLICO arênico - ocorrendo na porção noroeste do distrito de Jaguara, associa-se ao relevo plano a suave ondulado. São solos pouco profundos a profundos, de cores escuras (bruno oliváceo escuro, bruno escuro, bruno acinzentado muito escuro), imperfeitamente drenados e com sequência de horizontes A-Bt-C. Apresenta um horizonte A moderado, de textura arenosa e média que contrasta abruptamente com um horizonte Bt muito adensado, de textura argilosa e muito argilosa, estrutura moderada ou forte em blocos angulares ocorrendo, também, prismática e colunar. O caráter vértico pode estar associado. O teor salino, constatado em campo pôr pontos esbranquiçados e gosto salgado, evidencia que localmente eles podem ser considerados solódicos. Embora as cores escuras sejam indicadoras de boa fertilidade, o horizonte B endurecido e a concentração elevada de sais localmente, restringem parcialmente, ou totalmente, o seu uso na agricultura.

LUVISSOLO HIPOCRÔMICO Órtico - solos que variam de pouco profundos a profundos (70 a 148 cm) que ocorrem nos relevos suaves ondulados e ondulados sempre nas partes mais abaciadas. São solos argilosos, com gradiente textural, estrutura em blocos angulares e cores escuras que variam do bruno acinzentado podendo chegar até o preto. Eles ocorrem em associação com os cambissolos e neossolos.

CAMBISSOLO HAPLICO - associados ao relevo suave ondulado, são solos rasos, com profundidade em torno de 40cm, bem drenados, com cores variando de bruno amarelado escuro a bruno acinzentado muito escuro. A seqüência de horizontes é A-Bi-C ou A-Bi-C-R. O horizonte A moderado apresenta textura argilosa, média e siltosa. O horizonte Bi possui textura argila a média e estrutura forte pequena/média em blocos angulares. Os perfis argilosos, ocasionalmente, apresentam caráter vértico. Naqueles de textura média, o perfil pode tender a um neossolo com o desaparecimento de Bi. A baixa profundidade do perfil é um fator limitante para a produção agrícola.
NEOSSOLOS LITÓLICOS - classe de solo de maior representatividade no distrito, são rasos (< 50 cm de profundidade) e estão geralmente associados às partes altas dos relevos suave ondulado a ondulado. Na parte sudeste da área estudada, encontra-se diretamente ligado ao relevo ondulado e forte ondulado. A seqüência de horizontes é: A-C, A-C-R e A-R. O horizonte A é moderado, apresenta espessura média de 20cm e cores escuras (bruno escuro, bruno amarelado escuro, bruno acinzentado escuro). A freqüente associação com afloramentos de rocha, aliada a pouca profundidade, dificulta o preparo do solo restringindo o seu agrícola.


CONCLUSÕES


Apesar do distrito de Jaguara estar inserido na zona do semi-árido baiano, a presença de dois rios perenes é responsável pela manutenção da atividade agropecuária desenvolvida na região. As características climáticas, geomorfológicas e pedológicas restringem a agricultura a de subsistência. A ação antrópica vem modificando o meio natural a exemplo da vegetação primária, que é destruída através do desmatamento e pelas queimadas para dar lugar à agricultura e pecuária, e de várias espécies de animais e vegetais que desapareceram sem terem sido registradas ou catalogadas.


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